Série Alouette
por Nimori
tradução: Rebecca Mae
betagem da tradução: Ivich Sartre
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Nota do Traducious: Alouette é uma série composta de três one-shots chamadas "Je Te Plumerais", "A Exaltação da Cotovia" e "O Olhar do Pássaro" (ou, no idioma original, "Je Te Plumerais", "The Exaltation of the Lark" e "Birdseye". Esta tradução, bem como todas as outras que o grupo apresenta, foram realizadas com consentimento de suas respectivas autoras.
Nomes de personagens seguem o idioma original de Harry Potter, enquanto lugares, objetos e animais seguem a tradução oficial dos livros.
O Olhar do Pássaro
"Precisa de ajuda com isso?".
Ele olha para o nó gordiano¹ que sua gravata se tornou. "Não".
Severus fica silencioso por um momento, então, "Vamos nos atrasar".
"E eu me importo?", ele rosna, puxando o nó com a esperança de começar um novo. "É só o ensaio. E por que infernos estou usando essa porra?". Atira a inofensiva amostra de tecido ao fogo e cinqüenta galeões de seda italiana encolhem-se e se transformam em cinzas.
Sob o olhar atento e imóvel de Severus, desabotoa as duas primeiras casas de sua camisa, então uma terceira pela malevolência. Ele calça seus sapatos – também italianos – e se curva para dar o laço nos cadarços, virando-se automaticamente para conceder a Severus a melhor visão. É um hábito; nem sequer está verdadeiramente interessado em seu traseiro no momento.
Severus suspira, desata o nó de sua própria gravata, mas a pendura organizadamente no espaldar de uma cadeira. É preta, é claro, e vale catorze sicles e seis nuques e ninguém se importa onde foi feita.
A demonstração de solidariedade o amacia, bálsamo para seu temperamento, mesmo que os botões de Severus permaneçam firmemente em suas casas – suspeitaria de polissuco se Severus aparecesse algum dia em público com um botão, um zíper ou uma fivela abertos. Severus não pergunta se está pronto ou alguma outra nulidade, e apenas olha para ele com aqueles olhos escuros, rasos até que sinta sua própria criancice retorcendo sua carne como um feitiço bobo. Ele ajusta suas vestes, verifica seu cabelo puxado para trás com gel, e segura a porta aberta para Severus, com gritos – para um Malfoy – de desculpas mudas.
"Aparatar ou tomar um táxi?", pergunta e se amaldiçoa por calcular os juros de seu erro.
"Um táxi, eu acho", Severus diz, seu sorriso zombeteiro uma lembrança do vasto golfo de tempo entre eles. Severus acha que ele está de mau-humor. Severus achava que era um temper tantrum.
Severus geralmente está certo.
Ele resmunga e apunhala estranhamente o botão para chamar a caixa claustrofóbica que os levará até o térreo. A corrida até a catedral lhe dará tempo para acalmar seu temperamento o suficiente para atravessar a cerimônia ridícula.
"Meu cabelo está bom?".
"Sim, sim, mil vezes, sim! Se me perguntar isso de novo, vou atirar essa flor de lapela na sua boca".
Ela respira fundo, conta até três, e se pergunta se concordar em se casar nessa família foi uma idéia esperta. Percy nunca fala com ela assim, mas tem que divagar pela genética, uma vez que a boca de todo outro Weasley parece conectada diretamente ao cérebro sem um filtro. "Seu nariz está sujo", diz, em vez de falar o que pensa, e Ron se infla para ela no espelho.
"Por que você tinha que se trocar, afinal?".
"Não posso usar a mesma roupa no ensaio e no jantar".
"Por que não?".
Ela desamassa rugas imaginárias do vestido vermelho – usou um amarelo profundo para o ensaio, ambos os vestidos escolhidos em protesto ao banimento de cores relacionadas a Casas no casamento de verdade. "Porque o primeiro é em uma catedral e o segundo, num barzinho".
"Você acha que vão ter aquelas lingüicinhas na recepção?".
"Duvido. Acho mais provável canapés. Caviar, talvez. Estou pronta para ir".
"Sempre quis provar caviar".
Decide não contar a ele do que caviar é feito, mesmo que a vingança pelo comentário sobre a flor de lapela seja tentadora. "Se faz você se sentir melhor, vou arranjar lingüiças para o meu casamento".
Ela se arrepende de lembrá-lo de seu compromisso quando Ron franze o nariz e percebe que ele não limpou toda a sujeira.
"Harry e Malfoy ficando foi ruim o bastante. Não posso acreditar que você concordou em se casar com aquele imbecil".
"Comporte-se. Ele é seu irmão".
"Exatamente. Estou em posição de conhecê-lo".
Ela morde o lábio para reprimir a resposta maldosa. Sabe que Harry colocou Ron em uma situação difícil, fazendo par com ela, uma vez que as únicas alternativas eram Severus e Draco. A tensão entre eles passa despercebida entre conflitos maiores, mas se arrasta até ela, pressiona-a e a distrai, e ela deve fazer mais uma tentativa em resolução. "Ron, você sabe que não teria funcionado, somos muito diferentes...".
"Pára. Só pára". Seu rosto fica completamente vermelho, maduro com o temperamento Weasley. A marca de sujeira continua. "Vamos passar por esse jantar para que o nosso amigo idiota possa se casar com o maldito Lucius Malfoy amanhã".
"Tudo bem", ela sussurra e lambe o polegar, esfregando-o na sujeira.
Ele está no inferno.
A música pulsa no ritmo de uma enxaqueca, pelejando com a luz para mais um pouco de estímulo irritante. Se estivesse trabalhando numa poção com tanta fumaça, teria tomado precauções, mas os tolos ao redor dele respiravam em sua mistura escolhida e a compartilhavam com os observadores, querendo eles ou não. Ele murmura outro feitiço purificante, mas ainda não é forte o bastante e logo a nuvem de toxina retorna a seu peito.
Nicotina não é o único veneno no aposento. Draco já brigou com Potter, insultou cada Weasley exceto Molly – quem sequer Draco ousa enfrentar -, lutou com Finnigan no banheiro masculino e deu um par de orelhas de burro a Longbottom, que estava muito bêbado para retirá-las e mais ainda para se importar. Granger está sentada ente dois Weasley e não fala; Ron e Percy trocam olhares por cima dela. O ar se torna rançoso cada vez que Lucius e Arthur se cruzam. Lupin expulsou Fudge antes que os aperitivos chegassem e Pansy Parkinson foi embora às lágrimas meia hora depois do ensaio. Ele gostaria de fazer o mesmo. Menos a parte do choro.
Faltando quinze para uma, uma explosão abala a parte de trás do restaurante, interrompendo toda conversa e transformando a música em um som espalhafatoso e solitário. Então uma risada guinchada e muito familiar soa e a conversa retorna. Apenas os gêmeos Weasley. Sem perigo. Obliviar os trouxas pasmos. El epode vê que Lucius está irritado. Também vê Lucius lancer um olhar a Potter – são seus amigos, afinal – e vê Potter ensaiar um sorriso e se virar para Lupin. Lucius franze o cenho, bebe de seu copo, e continua sua própria conversa com Llewellyn Sinclair, a quem Lucius corteja em busca de um empréstimo em seus novíssimos esforços de reconstruir sua fortuna.
Vê Draco apontar um dedo para Ron Weasley em meio a alguma tirada indistinta e crítica sobre o regulamento das luvas de quadribol e como ruivos eram uns metidos a bestas, sua mira e olhar desfocado errando o alvo por cerca de vinte centímetros, o uísque envolvido por dedos descuidados, fadado a cair. Vê Draco começar a balançar para os lados em seu assento, preparando-se para escorregar para sob a mesa, e desliza um braço ao redor dos ombros estreitos.
"Estamos indo", ele diz para ninguém em especial e o olhar de Lucius se levanta até eles brevemente, sua boca esculpida em granito, olhos famintos e ciumentos.
Então Lucius atira um braço em torno de Potter, sussurra algo em seu ouvido, o que faz o pirralho rir.
Os dois saem e Draco aferra-se a ele, enquanto tropeçam de volta ao hotel, reclamações inquietas na subida, esfregando os olhos como uma criança. Metade de uma dose de aspirina para cada um como preventivo de uma ressaca assim que chegam ao quarto e passam o resto da noite fazendo amor em mei à semi-escuridão.
Ambos os noivos estavam de branco. Os empregados estavam de preto. Ele não está certo de quanto disto era sua escolha e quanto era a recusa de Severus de usar qualquer outra cor – só que não haviam dito nada a ele sobre regras de vestuário. Harry parece divertido em suas vestes laranjas e púrpuras; Lucius parece resignado.
Abre o livro, embora não precise dele, e finge ler em voz alta para a congregação, bem como todos fingem ouvi-lo. Somente Harry e Lucius se importam com o que ele diz. Ron e Hermione mantêm-se rigidamente afastados, Draco e Severus mantêm-se rigidamente juntos. Ninguém quer estar lá.
Ele inventa a cerimônia conforme se desenrola, mas ela não o distrai de seus arrependimentos como ele esperara. Se tivesse observado Harry bem de perto... Mas Voldemort está morto agora, então ele supõe que não importe de verdade. Talvez devesse ter interferido antes. Talvez Harry sirva para controlar Lucius. Talvez Lucius procure transformar Harry em um novo Lorde das Trevas.
Ele não sabe e, pela primeira vez na vida, não quer saber.
Está cansado. Tão cansado mesmo daquilo tudo. Quer voltar ao seu castelo, passar mais alguns anos dando forma ao futuro do mundo mágico – apenas o bastante para assegurar que o veneno foi, de fato, embora -, então voltar para aquela ilha ao sul do Pacífico, para as areias tão finas que são como andar sobre poeira élfica trazida pelo vento, para as árvores magras que parecem dançar em meio ao vento morno, para as pessoas gentis de olhos escuros dali, as mulheres exibindo sorrisos marcados em sua pele bronzeada como o sol queimava o céu.
Por enquanto, suas vestes pinicam, seus ossos estão cansados, seu coração cético para com esta ocasião jubilosa que de alguma forma se tornou.
Ele não sabe o que Harry e Lucius estão pensando.
Ele não quer saber.
Ela não está descontente por perder a cerimônia, o dever da escolta preferível a testemunhar a culminância de escolhas enfermas. Ela divaga onde errou com o rapaz e sua pele pinica de irritação; ela amacia selvagemente sua pelagem com a língua, orelhas girando como radares trouxas de sons indicadores de aproximação de humanos ou animais.
Dumbledore falou sobre aposentadoria recentemente e ela se entretém pensando nas mudanças que gostaria de implementar, sente as primeiras ardências da pressa de comandar o espetáculo sozinha, embora não estivesse infeliz com sua posição.
A luz do sol está morna aos degraus da catedral e ela assiste os trouxas alvoroçados com seus próprios negócios depois de um gramado e por tas de uma cerca de ferro, até que um passo pesado capte seus ouvidos. Ela recua para a escuridão, transforma-se, e retorna para encontrá-lo.
"Sr. Black. Não acredito que o Sr. Potter e o sr. Malfoy tenham lhe convidado para este acontecimento".
"Por favor", ele diz. Está pálido, muito magro novamente, mas sua vestimenta é bonita, embora não seja formal o suficiente, e seu cabelo está amarrado com gosto. "Eu só quero vê-lo".
Ele está muito atrasado, mesmo que ela se sentisse inclinada a deixá-lo passar, uma vez que as portas estão se abrindo e as pessoas estão jorrando para fora e Harry está lá e Sirius sorri seu sorriso mais inofensivo e dá um passo atrás.
Harry suspira e segue, abraça-o, ganindo quando seu padrinho o aperta forte.
Ela ouve seu pedido de desculpa sussurrado, de novo e de novo.
"Desculpe. Desculpe por não estar lá. Sinto muito".
E ela vê o olhar de Lucius se iluminando sobre eles de novo, embora ele permaneça onde está, conversando com Albus.
E se pergunta o que realmente aconteceu na casa de Você-Sabe-Quem para plantar aquele olhar de fome em seus olhos.
Está bastante deslocado, tanto por sua ausência na cerimônia, quanto por suas vestes informais. Ele reconhece como outro sinal da mudança crescente de Harry, pensando no garoto que ele sabia que jamais concordaria com uma recepção tão luxuosa.
Ele se culpa e se recusa a beber para não perder o controle. Culpa Voldemort e tenta bastante falar com Remus, bem como Remus tenta polidamente pedir licença. Culpa Malfoy e come caviar antes de perceber do que se trata.
Sente muito por ter deixado as coisas se tornarem tão ruins, mas não tem muita certeza de onde havia errado. Harry nunca esperou que ele recebesse bem as notícias e o perdoou por suas semanas iniciais de choque, perdoou-o por suas suspeitas de magia das trevas e chantagem. Não tem certeza de quando a paciência de Harry se esgotou, ou por que havia se recusado a ceder, dando a impressão, ao menos, de aceitar.
Ele assiste Harry dançar com Malfoy e Snape com o filho de Malfoy. Ron e Hermione dançam rijos, e se separam assim que a educação permite, Hermione se unindo a Percy e Ron fazendo uma parada no bar. Então todos se direcionam à pista e ele vê Ginny e Colin, Remus e Minerva, Seamus com uma das irmãs Parvati... Até Neville tem um par e engasga com o canapé quando percebe que é Charlie Weasley.
Todos dançam e ele sabe muito bem que desaprovam tanto quanto ele, e como podiam ficar ali sem fazer nada? Como ele podia?
Alguém bate em seu ombro e ele se vira para afugentá-lo com um rosnado, apenas para encontrar o único a quem não intimida.
"Black". Snape está estendendo uma mão e leva um momento para que ele perceba que é um convite para dançar.
Ele quase recusa, mas reflete que Snape provavelmente está esperando uma negação, então, sorrindo desdenhosamente, aceita sua mão.
É fria, pegajosa, e Snape insiste em liderar. Nenhum dos dois fala, até que a música acaba, e Snape se inclina, dizendo três palavras.
Pára.
Com isso.
Snape deixa-o na pista de dança e volta para seu canto, assiste Harry rir e falar e lançar olhares para Malfoy que Harry parece pensar que só eles dois percebem. Ele se pergunta o que fez de errado, e divaga sobre o que aconteceu na casa de Você-Sabe-Quem para dar a Harry tamanho ar de auto-confiança, e se pergunta por que não pôde ser quem daria isso ao rapaz.
Estão deitados na areia, alguns metros de distância da varanda da entrada da casa, de frente para o mar, observando as estrelas e escutando as ondas suicidarem-se contra a praia. Uma brisa leve esfria sua pele nua e os delicia o fato de saberem que não terão de se vestir por semanas; a ilha é deles.
Lucius sussurra coisas abusivas para Harry em francês, as quais Harry não entende, mas responde em ofidioglossia. E eles se tocam de um jeito lento e sem pressa, confortáveis com a inexistência do tempo, a luz das estrelas, a nudez limpa, a solidão.
Lucius aponta para a Cassiopeia³ e Harry corre suas mãos pelo cabelo longo e loiro de seu amante. Estão felizes na ausência que os envolve, a absoluta carência que lembra que só precisam um do outro.
Harry olha para o céu então, sorri, e diz, "Alouette, gentile alouette".
E Lucius se vira e o beija. "Harry, je t'aime, mas se você não calar a boca, vou pedir o divórcio".
¹Gordiano: intrincado, complicado.
²Temper Tantrum: forma imatura de expressar raiva.
³Cassiopeia: constelação do hemisfério norte
N/T: Em alguns casamentos mais tradicionais, é comum fazer um ensaio da cerimônia com convidados próximos antes de sua realização oficial.
O título original desta fanfiction é "Birdseye" e eu o traduzi como "O Olhar do Pássaro". Acho que denota a distância dos diferentes narradores dessa one-shot e foi como consegui adequar melhor a expressão ao português.
Sobre os pontos de vista desta história e a profusão de "eles", "ela", "ele": é para ser assim, confuso. A autora, em momento algum, evidencia claramente quem é quem - é preciso que o leitor perceba e desvende sozinho. Quem não captar de quem são os pensamentos de cada parte pode me enviar um email ou uma review que eu explico.
Quero também pedir mil desculpas aos leitores de Alouette por tanta demora. Uma falha terrível minha, admito. Espero que gostem da tradução.
Obrigada pelos reviews, pelo "hitting" e por todos os comentários gentis que fomos capazes de ver fora desta página. Um agradecimento especial à minha beta, Ivich Sartre.
Rebecca.
