Capítulo 1
Como você pode ter desejado uma coisa com todo o seu coração, vivendo infinitos minutos, horas, dias e semanas antecipando o momento de que aquilo acontecesse, e ficar apavorada agora que acontecera?
Isabella fechou os olhos com força, contorcendo o rosto enquanto dizia a si mesma para se controlar. Podia fazer isso. Tinha de fazer, na verdade. Não havia escolha. Até esta noite, sua cama de hospital poderia ser ocupada por outra pessoa, e dormir dois na mesma cama era estritamente contra as regras.
O breve momento de humor negro ajudou a restaurar seu equilíbrio. Ela lentamente abriu as mãos, que estavam fechadas em punhos em suas laterais, então abriu os olhos. O pequeno quarto... um dos quatro separados da ala principal... tinha sido seu lar por três meses desde o acidente. Mais cedo, uma das enfermeiras lhe contara que somente os pacientes que ficavam internados por muito tempo eram colocados em suítes particulares. Ela suspeitava que Ângela, a enfermeira em questão, estivera tentando avisá-la para não esperar milagres. O dano que Isabella causara em sua coluna e pernas, quando entrara na frente de um caminhão, numa manhã, não seria desfeito rapidamente. Ela soubera que havia mudado sua vida para sempre quando olhara para o rosto contorcido de Edward ao voltar da anestesia, depois da cirurgia de emergência inicial.
Basta. Não pense nele. Você precisa ser forte hoje.
Obedecendo à voz interior, Isabella vestiu seu casaco grosso e quente. Apesar do aquecimento central do hospital, ela sabia que estava congelante do lado de fora. Os especialistas vinham prevendo um Natal com neve há dias, e a previsão parecia estar se confirmando. Já nevara esta manhã, e o céu estava baixo sobre os telhados além das redondezas do hospital.
Isabella andou em direção à janela e olhou para a vista que veria pela última vez. O estacionamento estava movimentado, e, fora dos terrenos murados, as ruas de Londres se estendiam, repletas de casas, escritórios e pessoas. Pessoas normais. Ela mordeu o lábio. Garotas que não precisariam pensar duas vezes sobre usar uma saia curta no verão ou um biquíni. Isabella tinha sido assim um dia. Agora, toda propaganda que via na TV e toda revista que lia pareciam cheias de mulheres perfeitas, garotas com pernas longas e peles impecáveis.
Basta. Ela se virou da janela, detestando a auto piedade que sempre parecia atingi-la quando ela menos esperava. Tinha sorte de estar viva, e estava grata por isso. Os danos em sua coluna e pernas, sem mencionar a enorme quantidade de sangue que ela perdera no acidente, significavam que ela escapara por pouco, embora não soubesse muito sobre o que acontecera. Tinha vagas memórias de Edward sentado ao lado de sua cama, segurando sua mão na Unidade de Terapia Intensiva, mas levara uma semana inteira antes que ela acordasse uma manhã e descobrisse seu cérebro funcionando normalmente de novo.
Agora tudo parecia ter acontecido muito tempo atrás. Assim que ela pudera ser movida do hospital, em Reading, fora transferida para este, que era especializado em danos na coluna. Não soubera que Edward havia sido instrumental em realizar isso. Também não soubera que, com seu tipo de ferimento, tratamento especializado era essencial, até recentemente, quando seu médico mencionara o fato. Não que isso teria feito alguma diferença em sua decisão de terminar seu casamento.
Isabella mancou para a cama estreita, olhando para a mala que arrumara mais cedo naquela manhã. Possuía toda a documentação relevante e já se despedira dos enfermeiros. Só lhe restava deixar o lugar que se tornara confortável em sua segurança durante as últimas semanas e meses, mesmo quando ela ansiava por estar no controle de sua vida novamente. Mas ali não importava se andasse de modo deselegante. O pessoal da enfermagem estava tão orgulhoso que ela lutara para conseguir andar. Eles não se encolhiam diante da visão de suas cicatrizes, mas elogiavam-na pelo jeito que suportara a fisioterapia dolorosa dia após dia.
Do lado de fora das paredes do hospital estava o mundo real. O mundo de Edward. Ela engoliu em seco. Um reino onde os ricos e lindos tinham o poder, e nada menos do que perfeição serviria. Isabella habitara aquele mundo uma vez... brevemente.
Ela endireitou os ombros, dizendo a si mesma que tais pensamentos apenas a enfraqueceriam quando precisava ser forte, porém, de alguma forma, descobriu que não conseguia controlar sua mente como vinha fazendo desde que dissera a Edward que o casamento deles estava acabado e que não queria que ele a visitasse novamente.
Edward Cullen... empresário extraordinário, rei do mundo do show business que ele governava de forma implacavelmente imparcial. Ela ouvira falar dele muito antes de conhecê-lo, enquanto fazia um teste de audição como dançarina para um novo show. Todos no mundo do show business tinham ouvido falar de Edward. Ele era a personificação de um homem com o toque de Midas.
Ela chegara atrasada para a audição... uma falha imperdoável para quem queria o trabalho. Para cada dançarina selecionada, mais de cem eram desapontadas... a competição era acirrada, e os trabalhos eram escassos. Mas a sra. Clearwater, a viúva idosa que ocupara o apartamento do térreo da casa onde ela estivera morando, achara o gato amado morto na estrada, naquela manhã, e ficara tão arrasada que Isabella não tivera coragem de deixá-la sozinha até que a filha chegasse. Consequentemente, tinha corrido para o teatro e chegado lá ofegante e vermelha. Recebera uma bronca do diretor de dança, sem ter permissão de explicar por que estava atrasada. No momento que subira no palco para dançar, não tinha mais esperança de ganhar um lugar no musical, muito menos o papel da dançarina principal, para o qual se candidatara.
Talvez, por isso, a performance que ela praticara toda noite tivesse saído tão perfeita... Isabella não tinha nada a perder. Sentira como se seu corpo fosse um instrumento musical, afinado e tocado como um violino, e respondera ao som do piano, totalmente calma enquanto fluía no ritmo da música.
A boca de Isabella tremeu por um segundo. Ela nunca mais se sentiria assim. Uma perda momentânea de concentração, e a carreira pela qual lutara tanto fora perdida para sempre. Todo o treinamento desde criança, os sacrifícios, o tempo passado levando seu corpo ao limite a fim de alcançar forma física e agilidades maiores do que aquelas necessárias pela maioria dos atletas haviam sido para nada. Os anos dançando em boates e cabaré, enquanto aperfeiçoava sua arte, o trabalho como garçonete para pagar o aluguel, a falta de oportunidade de sacrificar quaisquer raízes, uma vez que a maioria das companhias de dança fazia tours pelo país e no exterior, o salário baixo e a disciplina constante... tudo inútil, agora.
Mas nada disso importa tanto quanto perder Edward.
Isabella continuou olhando para o quarto compacto, mas estava a quilômetros de distância, perdida em memórias.
A primeira vez que ela vira Edward tinha sido quando acabara o teste de audição, e alguém do pequeno grupo sentado no auditório levantara e começara a aplaudir. Ela endireitara o corpo e seu olhar focara num homem alto de ombros largos, com cabelos bronzes e feições fortes.
– Excelente, senhorita... – ele consultou as anotações na mão. – Srta. Swan. Antes tarde do que nunca. Ou nós temos uma prima-dona aqui, que espera que sejamos gratos por ela ter se incomodado em aparecer?
Isabella soube instintivamente que ele era Edward Cullen; todos nos bastidores haviam comentado o fato de que o grande homem estava presente. Ela também desgostou dele de imediato. Detestava sarcasmo, e a voz profunda e rouca estava repleta de sarcasmo. Erguendo-se em toda a sua altura de 1,55m.… algo que estragara suas chances de se tornar uma bailarina de sucesso, mas que não interferira com sua carreira como dançarina contemporânea... ela tentou manter a voz neutra ao responder:
– Desculpe-me pelo atraso, mas foi inevitável.
– Verdade? – Murmurou ele. – Eu gostaria de saber o que vem antes de um lugar na minha produção, srta. Swan? Presumo que foi um caso de vida ou morte?
– Morte, na verdade.
Ela pôde ver que o pegara de surpresa. Ele pareceu perdido por um momento, mas, então, recuperou-se quase imediatamente.
– Sinto muito. – Os olhos escuros se estreitaram, enquanto ele a fitava mais intensamente, antes de voltar a se sentar.
Uma vez nos bastidores, duas das outras dançarinas que ela conhecia abordaram-na, e Isabella lhes contou o que tinha acontecido, enquanto elas esperavam para descobrir seu destino.
– Um gato? – Lauren, uma loira alta que era a pessoa mais ambiciosa que Isabella já conhecera, olhou-a com incredulidade. – Quando ouvimos você falar em morte, achamos que somente uma pessoa muito próxima a impediria de tentar conseguir o papel de Sasha, mas era um gato?
– Talvez seja só um gato para você, mas era o companheiro e melhor amigo da sra. Clearwater, e ela estava devastada esta manhã – respondeu Isabella, mesmo sabendo que Lauren nunca entenderia. Dançar era um trabalho muito competitivo, e apenas uma em dez dançarinas registradas em Equity conseguia algum trabalho. As perspectivas eram sempre pobres. Todos os professores de dança que Isabella tivera haviam enfatizado que somente as dançarinas mais dedicadas e talentosas alcançavam o sucesso, e você teria de ter a pele grossa e ser implacável.
Lauren, que também estava tentando o papel da dançarina principal, confirmou seus pensamentos ao dizer:
– Querida, você é uma gracinha, mas eu não teria feito Edward Cullen esperar nem se minha mãe tivesse morrido na minha frente esta manhã. Você precisa pensar primeiro em si mesma porque ninguém mais pensará, acredite.
A outra dançarina se intrometeu:
– E todos aqui sabem que você pisaria em cada uma de nós, Lauren, se isso lhe desse a chance de conseguir o que queria, imagine uma senhora idosa e seu gato.
– Verdade. – Lauren sorriu, totalmente descarada. – E a única diferença entre nós é que eu admito isso. Você faz o mesmo. Qualquer uma de nós faria o mesmo, exceto talvez Isabella, nosso anjinho da misericórdia.
Foi somente então que elas perceberam que Edward Cullen, o diretor de dança e o produtor, estavam parados a alguma distância, tomando café. O fato de que os três homens deviam ter ouvido a conversa ficou evidente quando Edward aproximou-se, momentos depois, e falou baixinho, de modo que ninguém mais pudesse ouvir:
– Esta é a primeira vez que faço um papel secundário para um gato, srta. Swan. Uma experiência nova.
Ele saiu andando antes que ela pudesse responder, e, quando Isabella olhou para Lauren, alguma coisa na expressão da outra garota a fez suspeitar que soubera que Edward Cullen estava por perto e ouvindo.
Dez minutos depois, todas tinham sido chamadas de volta ao palco. Isabella ganhara o papel principal, e Lauren, um papel inferior. E quando ela saíra do teatro mais tarde naquele dia, o Volvo prata de Edward estivera esperando por ela...
Basta. Isabella balançou a cabeça, forçando-se a voltar ao presente. Livrando os cabelos castanhos da gola do casaco, ela pegou sua mala. Suas mãos estavam tremendo. Respirando fundo diversas vezes, ela se recompôs, e quando as estudou novamente, elas estavam firmes. Uma pequena vitória, mas encorajadora.
Ela iria ficar bem. Seus planos haviam sido cuidadosamente traçados. Tudo que precisava fazer era viver um dia de cada vez. O hospital pensava que ela ia se hospedar com amigos, mas, uma vez que Isabella soubera que poderia partir um dia antes da véspera do Natal, ligara para diversos hotéis em Londres até que achara um quarto, reservando-o por uma semana inteira. Devido a uma confusão com a papelada, sua partida tinha sido atrasada um dia, mas o hotel guardara seu quarto quando ela os avisara que agora chegaria na véspera do Natal. O quarto era caro, todavia, considerando o período do feriado, ela tivera sorte de encontrar um. O lugar lhe daria o espaço necessário para respirar, e isso era tudo que importava.
Uma vez na ala principal, Isabella ficou tocada por como a equipe de enfermagem a rodeou, apesar de ela ter se despedido mais cedo naquela manhã, mas finalmente ela estava livre para partir, e andou em direção aos elevadores. Não esperara se sentir trêmula, e, enquanto o elevador descia para o saguão do hospital, era como se ela estivesse se aventurando num território estranho e hostil. No momento que as portas se abriram, Isabella teve de forçar-se a se mover.
Um homem robusto esbarrou nela ao entrar no elevador, e, embora a ação fosse leve, foi suficiente para tirar seu equilíbrio, devido aos seus ferimentos. Isabella tropeçou, o peso de sua mala dificultou para que ela recobrasse o controle, e, para seu horror, ela soube que ia cair. Resistira a todas as sugestões de uma bengala ou muletas, mas andar dentro do quarto era muito diferente de lidar com um foyer lotado de um hospital.
Então, subitamente, um par de braços fortes a estava segurando, e, no momento seguinte, a mala foi tirada de sua mão.
– Olá, Isabella. – A voz de Edward era inexpressiva, os olhos cor de esmeraldas estavam inescrutáveis enquanto encaravam seus olhos castanhos assustados.
– O que...? – Ela estava tão surpresa que não conseguiu terminar a pergunta. – Como...?
– Perguntas mais tarde. – Ele a estava conduzindo em direção às enormes portas automáticas, com uma mão firme no seu cotovelo, e Isabella não teve escolha senão acompanhá-lo. – Por enquanto, vamos sair daqui.
