Capítulo 3
Isabella não tinha visto uma fotografia do hotel. Uma vez que a maioria dos hotéis estivera cheio para o Natal, ela não pudera escolher muito. Agora, quando Edward parou na frente de um prédio meio decadente, situado numa ruazinha de Bayswater Road, Isabella respirou fundo.
– Sinto muito – disse ela. – Mas, um dia, você verá que foi melhor assim. Obrigada por ter me encontrado hoje, mas de agora em diante, prefiro que nos comuniquemos apenas por intermédio de nossos advogados.
Edward não disse nada, saindo do carro e rodeando o capô para ajudá-la a descer.
Devido aos danos em suas pernas, ela desceu na calçada sem muita elegância. Sabendo que Edward apreciava graça e estilo, Isabella encolheu-se por dentro, antes de dizer a si mesma que era melhor assim. Se ele sentisse repulsa por sua falta de jeito, isso apenas reforçaria o que ela vinha dizendo: que eles não tinham futuro juntos.
Quando ele pegou sua mala, Isabella estendeu a mão para a mesma, mas ele ignorou a ação, pegando-lhe o braço e conduzindo-a em direção às portas de vidro do hotel.
Uma vez dentro do saguão... que não era tão ruim quanto ela esperara, pelo exterior do prédio... Isabella estendeu a mão para a mala novamente.
– Obrigada. Eu posso me virar daqui.
– Sente-se. – Ele depositou-a num dos sofás do saguão. – Eu vou pedir para que levem sua mala para seu quarto. Depois nós vamos almoçar. Precisa de alguma coisa da mala antes que eu a despache?
Isabella meneou a cabeça. Seus remédios estavam em sua bolsa.
– Mas não acho...
– Ótimo. Não pense – murmurou ele com sarcasmo. – Por uma vez na vida, apenas ouça.
Ela observou Edward andando para a recepção, enquanto sua cabeça girava, suas pernas e suas costas doíam. Quando estivera no hospital, seus planos para este dia importante... sua reentrada no grande mundo ruim... pareciam tão simples. Os médicos tinham-na avisado que seria cansativo, após as semanas passadas na cama ou na cadeira, e ela imaginara pegar um táxi para lá, então descansar pela maior parte do dia, usando serviço de quarto se quisesse comer. Mas não esperara se sentir tão fraca, e, talvez, isso se devesse mais à presença inesperada de Edward do que a sua condição física.
Ele voltou em poucos minutos.
– Tudo resolvido. Eles servirão almoço no restaurante em uma hora, então eu pedi que o porteiro estacionasse o carro. Eles têm algumas vagas reservadas para o staff, mas foram muito prestativos.
Ela não duvidava disso. Dinheiro sempre resolvia tais problemas, e Edward era muito generoso.
– Pensei que você iria preferir comer aqui em vez de em qualquer outro lugar. – Ele sentou-se ao seu lado. – Você parece cansada. E eu pedi café enquanto esperamos.
Isabella irritou-se. Como ele ousava assumir o controle de tudo? E ao comentar que ela parecia cansada, queria dizer que sua aparência não estava boa? Bem, Edward não precisava lhe dizer isso. Seu espelho fazia um ótimo trabalho todas as manhãs. Ela não dormia bem desde o acidente e tinha muitos pesadelos.
Isabella olhou pela janela ao lado do sofá. Estava nevando, e telhados já estavam cobertos com o manto branco. O Natal seria branco, com certeza. No último ano, eles haviam passado o feriado esquiando na Suíça, voltando para o alojamento maravilhoso no fim da tarde e passando as noites abraçados em frente à lareira, tomando chocolate quente. Ela estivera prestes a ser envolvida numa grande produção no West End, no Ano Novo, e a vida estava doce. Eles tinham conversado sobre ter uma família um dia, é claro, mas não por anos. A maioria das dançarinas precisava acabar suas carreiras entre seus 30, 35 anos, e Edward sentira-se contente em esperar até que ela estivesse pronta.
Como se pudesse ler sua mente, ele murmurou:
– Parece que nós não precisaremos seguir a neve este ano. Ela veio até nós.
– Exceto que não é possível esquiar em Bayswater Road – replicou ela, mesmo sabendo que seus dias para tais esportes tinham acabado. – A menos que você queira ser levado embora por homens em jalecos brancos.
Edward riu, então ficou sério e inclinou-se para a frente.
– Fale comigo, Bella – pediu ele, chamando-a pelo apelido que criara para ela. – Conte-me como você se sente. Eu preciso saber. Essa desculpa sobre não se sentir a mesma não combina com você.
Aquela era a verdade, e não era. E, no fundo, ela soubera que teria de se explicar completamente, para que Edward aceitasse que o casamento acabara. Ao mesmo tempo, sabia como ele se sentia sobre doença. Nos anos com a mãe dele, antes que ela partisse, Edward fora criado nos lugares mais sórdidos, convivendo com traficantes de drogas, viciados e alcoólatras. O que o deixara com uma resolução quase patológica de cuidar do próprio corpo. Ele não conseguia entender pessoas que descuidavam da própria saúde. O corpo de dançarina e a saúde física de Isabella haviam formado grande parte da atração que ele sentira por ela. Isabella sabia disso, embora ele nunca tivesse falado em tantas palavras. E agora...
Escolhendo as palavras cuidadosamente, ela o encarou.
– Edward, você vai me ouvir? Realmente ouvir, e não me interromper até eu terminar? Ele assentiu.
– Se você me falar a verdade.
– Você me perguntou mais cedo se eu ainda o amo, e a resposta para isso é: claro que sim. – Com o movimento dele, ela levantou a mão. – Você prometeu.
Ele recostou-se, os olhos cor de esmeraldas intensos nos seus.
– Continue.
– Mas agora, depois do acidente, o fato de eu amá-lo, ou de você me amar, não basta. Desde garotinha, tudo que eu sempre quis fazer foi dançar. Isso era minha vida. Eu era totalmente dedicada, e disciplinada pelas demandas do balé, até que fiquei muito alta, mas contanto que pudesse continuar dançando, eu não me importei muito. Você sabe como a competição é acirrada nos negócios de entretenimento, mas isso nunca me causou um momento de dúvida, porque eu tinha de dançar. Era simples assim. E agora acabou.
O garçom chegando com café interrompeu Isabella, e ela esperou até que ele saísse, antes de continuar:
– Eu sei que poderia ter morrido naquele dia, e agradeço por estar viva, mas as coisas nunca mais serão como antes. Se eu não quiser me afogar num mar de auto piedade, tenho de construir uma vida nova, longe do mundo que abracei pela última década. E Edward... você é a personificação daquele mundo. Um mundo que você adora, que é sua vida inteira.
Mais uma vez, ele ameaçou falar, e Isabella deteve-o com uma mão erguida.
– Mas isso é apenas parte do motivo pelo qual eu preciso partir. Você está cercado por mulheres que o veem como um meio para entrar no mundo do entretenimento. Mulheres lindas, talentosas, jovens e ambiciosas. Sei quão longe algumas delas podem chegar para conseguir chamar sua atenção. Eu não gostei disso na época, e gosto ainda menos agora.
Ela estava tremendo e deu um gole do seu café, precisando da cafeína. A próxima parte era mais difícil de dizer.
– Na época, eu poderia ser tudo o que você precisa. Agora, não posso. Temos de ser honestos aqui, encarar os fatos. Você tem uma esposa mutilada. Você... o rei dos negócios de entretenimento. Quando nós fossemos a eventos e jantares, e andássemos pelo tapete vermelho, eu estaria mancando do seu lado. Talvez, até houvesse um dia quando você precisasse me empurrar numa cadeira de rodas. Ou eu ficaria em casa, assistindo de longe, me tornando alguém que não quero ser, e, por sua vez, você mudaria. Eu não quero que acabemos assim. É muito melhor terminarmos agora, enquanto ainda nos gostamos e temos boas memórias para cultivar.
Ele a estava olhando como se ela estivesse louca, e agora, nada poderia ter detido as próximas palavras de Edward.
– Isso é bobagem... pura bobagem – declarou ele com fúria controlada. – Você não está falando sobre nós dois. O que temos é mais forte e melhor do que as pessoas que você pintou. E as mulheres supostamente lindas que citou... O que você é, senão linda? Por dentro e por fora?
– Eu não sou linda, Edward, não mais. Tenho cicatrizes... feias e vermelhas na pele que você costumava dizer que era sedosa e da cor de porcelana... e elas sempre estarão aqui. Oh, elas podem se suavizar com o tempo, mas não vão desaparecer.
– Eu não me importo com suas cicatrizes.
– Você não as viu. – Isabella o olhou morrendo por dentro.
– E de quem é a culpa disso? Quando pedi para vê-las, você ficou histérica, fui expulso do quarto e avisado para não as mencionar novamente. Você me mostraria quando estivesse pronta, eles disseram. Mas logo em seguida, fui avisado que visitá-la estava lhe causando mais danos do que benefícios, e que se me importasse com você, deveria lhe dar espaço para respirar. Bem, se "espaço para respirar" resultou nessas suas ideias tolas, eu deveria ter continuado visitando. Eu a amo, Bella... cada parte sua, com cicatrizes e tudo... e não gosto de ser rotulado como um homem patético que vai dormir com qualquer mulher em oferta. Este não é quem eu sou, e você sabe disso.
O rosto pálido de Isabella corou de raiva agora.
– Eu não disse isso.
– Foi exatamente o que você disse. – Ele estava furioso. – Certo, deixe-me lhe perguntar algo. E se tivesse sido eu no acidente? E se minhas pernas tivessem sofridos danos? Você procuraria outra pessoa?
– Você sabe que não.
– Então, por que acha que eu procuraria? E o que torna seu amor tão superior ao meu? Porque é isso que você está insinuando, e me magoando no processo.
– Você está distorcendo minhas palavras. – Isabella estava à beira das lágrimas. – Eu nunca disse que meu amor é melhor do que o seu.
Edward fitou-lhe os lábios trêmulos, as olheiras por falta de sono, e o corpo que perdera peso nos últimos meses. Praguejando baixinho, puxou-a para si.
– Não chore. Eu não quero fazer você chorar. Quero amá-la e cuidar de você. Mas você está me enlouquecendo, mulher. Quase fiquei insano nas últimas semanas. Eu até mesmo vinha para o hospital de noite e ficava sentado no estacionamento, apenas para estar perto de você. Loucura, não? Mas é assim que tem sido.
Isabella relaxou encostada nele por um momento..., mas apenas por um momento. Edward sentia que ficar com ela, apoiá-la, protegê-la, era seu dever. Dever não era um coisa ruim; ela apenas não queria que fosse a razão para que o casamento deles continuasse. Não podia viver com a piedade dele.
Distanciando-se, Isabella bebeu o resto de seu café. Após um momento, ele fez o mesmo, mas os olhos verdes permaneceram fixos nos seus.
– Em parte, isso tem a ver com sua avó – disse Edward, após um tempo. – Você sabe disso, não sabe?
Pega desprevenida, ela encontrou-lhe o olhar.
– Sobre o que você está falando? Minha avó está morta há anos.
– Eu sei que ela a criou e que você a amava, mas sua avó não era exatamente fã dos homens pelo que me contou. Ela nunca a deixou esquecer que seu pai abandonou sua mãe, e os casos extraconjugais de seu avô eram mencionados todo dia.
– Todo dia é um exagero.
– Não muito. Sua avó pingou o veneno da própria amargura por anos. Ela não podia superar o fato de que ele partira, no final, apesar de ela ter aguentado infidelidade pela maior parte do casamento deles.
Isabella ergueu o queixo.
– E por que ela deveria tê-lo perdoado? Ele era um homem detestável. Eu o teria levado ao veterinário para certa operação se ele fosse meu marido.
Edward sorriu.
– Eu manterei isso em mente. Mas a verdade é que a visão ressentida de sua avó causou danos, e tornou você insegura em certas áreas. Admita, Bella.
– Eu não farei uma coisa dessas. – Como ele ousava criticar sua avó assim? – E as ações de meu pai e de meu avô não têm nada a ver com esta situação.
– Esta não é uma situação, Bella. É o nosso casamento, e, independentemente do que você fale, a infidelidade deles tem um peso sobre como você me vê. Você já nos imaginou envelhecendo, juntos? Duvido. Mas isso não importava, porque eu pretendia provar que você estava errada, e que eu não ia a lugar algum. Ainda não vou.
Ele a estava confundindo, e isso não era justo. Isabella se preparara para o inevitável durante as últimas semanas torturantes, endurecendo seu coração contra qualquer esperança, e não voltaria para o terrível momento depois do acidente, quando não soubera o que fazer. Aquilo tinha sido pior do que depois que ela percebera que deixar Edward era a única maneira de reter sua dignidade. Não poderia assisti-lo deixar de amá-la, aos poucos, enquanto sua vida em conjunto não dava mais certo. O trabalho e colegas deles, os amigos... tudo estava incluso num mundo no qual Isabella não fazia mais parte. A mesma coisa que os unira, agora os separava. Grande ironia.
– Eu só sei que não posso mais continuar com nosso casamento, Edward. Não posso.
As portas de entrada do hotel se abriram, e um jovem casal de japoneses entrou com duas crianças pequenas e claramente excitadas. As garotinhas eram tão lindas em seus casacos e chapéus vermelhos iguais que, apesar de como estava se sentindo, Isabella teve de sorrir quando encontrou os olhos da mãe.
– É a neve – a mulher explicou num inglês perfeito. – Elas queriam tanto neve no Natal, de modo que Papai Noel pudesse aterrissar seu trenó aqui e se sentir em casa.
– Isso é muito importante – concordou Isabella, olhando para as crianças e acrescentando: – E não se esqueçam de deixar algumas cenouras para as renas, certo? Elas ficam muito cansadas levando tantos presentes em uma noite.
As crianças riram; se a entendiam ou não, Isabella não sabia, mas quando ela se voltou para Edward, ele a observava com olhos inescrutáveis.
– E quanto à família que nós dissemos que teríamos um dia? – Questionou ele. – Onde filhos se encaixam nos seus planos futuros?
Ela olhou para as mãos.
– Eles não se encaixam – sussurrou ela, sabendo que, se não tivesse bebês com Edward, não os teria com ninguém mais. O mero pensamento de outro homem tocando-a era insuportável. Ela era de Edward... corpo e alma... e sempre seria, mesmo que não pudesse estar com ele.
– Entendo. – A voz dele era baixa e tensa. – Então, você tomou a decisão por mim também. Que gentileza. E eu tenho direito de protestar por perder a chance de paternidade?
– Você não precisa perdê-la. Pode ter filhos com outra pessoa. – Ela ainda não o olhou.
– Se nós não estivéssemos num lugar público, eu lhe diria exatamente o que penso disso – respondeu ele, com fúria. – Você imagina, seriamente, que alguém possa tomar seu lugar? Nada que eu disse no passado significou algo? Eu me apaixonei por você. Não quero ninguém, exceto você. Nunca. Ouça o que estou falando, droga.
Isabella nunca o vira tão zangado como quando cometeu o erro de olhar para cima. O rosto dele era de um estranho... um estranho ultrajado, perigoso.
Seu coração começou a ceder, mas, de alguma forma, ela manteve a voz firme ao dizer:
– Era isso que eu estava tentando evitar não vendo você. Não quero brigar, Edward, mas falo sério, e não mudarei de ideia. Se você quiser esquecer sobre o almoço e ir embora agora, tudo bem.
Ela observou-o frear a raiva com formidável autocontrole. Ela já vira a habilidade de Edward de controlar as emoções, e era quase assustadora. Após alguns momentos, ele sorriu, e você teria de conhecê-lo muito bem para reconhecer que não era um sorriso real. Mas ela o conhecia bem.
– Estou aqui e vou ficar – disse ele.
E Isabella teve a impressão de que Edward não estava falando apenas sobre o almoço.
Boa tarde, meninas!
Neste capítulo vocês vão conhecer mais a Bella e suas inseguranças sobre seu casamento, e também o motivo que a mesma está querendo se divorciar do Edward. Tenham paciência com ela, o acidente foi um trauma muito grande.
MagaliSC: Fico muito feliz em saber que você me acompanha e sentiu falta das adaptações. Muito obrigada pelo carinho!
Cris: Muito obrigada pelo review, e pela atenção, fico contente em saber que está gostando da história e me esforçarei para postar muitas outras neste mesmo ritmo de postagem.
Isabelle: Neste capítulo você vai matar sua curiosidade sobre os motivos do divórcio. Espero que continue acompanhando e gostando da história. Gracias pelo review.
Até amanhã :*
