Capítulo 10

– Agora, eu posso estar errada, mas algo me diz que você precisa de uma boa xícara de chá, querida. Está congelando.

Por um momento, Isabella não conseguiu focar na pequena mulher rechonchuda que se sentou ao seu lado no banco, um cachorro igualmente pequeno e rechonchudo aos seus pés. Ela olhou para o rosto rosado.

– Perdão?

– Eu passei por aqui pouco tempo atrás... meu Jake precisa de seu passeio matinal, independentemente se é dia de Natal ou não... e vi você então. Está muito frio para ficar sentada aqui por um longo tempo, não está, querida? – Os olhos castanhos eram penetrantes e gentis. – Você está bem? Parece cansada.

Isabella tentou se recompor. Agora que tinha voltado ao mundo real, percebeu que estava congelando.

– Estou bem, obrigada. – Sua resposta foi desmentida pelo tremor convulsivo que a acompanhou.

– Eu sempre tomo uma xícara de chá quando entro, e minha casa é logo ali, querida. Por que você não vem comigo e se aquece antes de voltar para casa?

– Não... não, obrigada. – Isabella levantou-se, forçando um sorriso, apenas para descobrir que estava completamente rígida. – A senhora é muito gentil, mas eu estou bem.

– Você não parece bem – insistiu a pequena mulher. – Está da cor da neve. Ouça, meu nome é Charlotte, e não tenho nada para fazer, até que meu filho venha apanhar Jake e eu para o almoço de Natal, mais tarde, na casa dele. Uma casa linda, a propósito, toda moderna e aberta. Não serviria para mim, mas é perfeita para ele, a esposa e os filhos, e isso é tudo que importa. De qualquer forma, tenho uma ou duas horas disponíveis e gostaria de companhia para falar a verdade. Eu geralmente não me importo de ficar sozinha... meu Jake é uma boa companhia..., mas no Natal é diferente, não é? Sinto falta do meu Peter então. Ele faleceu dois anos atrás, e ainda não consegui me acostumar. Fomos casados durante cinquenta anos.

Isabella umedeceu os lábios, pronta para recusar o convite, quando viu a expressão nos olhos de Charlotte. A solidão conectou-se com alguma coisa profunda em seu interior, levando-a a dizer:

– Se não for trabalho, eu adoraria uma xícara de chá. Não percebi como fiquei gelada.

– Ótimo, querida. – Charlotte levantou-se, alegremente, puxando Jake. – Nada como uma xícara de chá para dar novo ânimo... é o que sempre digo. A xícara que alegra... Meu Peter costumava falar.

A casa de Charlotte possuía um ar de grandeza desbotada, e fotografias da família adornavam cada superfície na pequena cozinha bem-arrumada, onde Isabella foi levada. O ambiente estava quente, um fogão tendo um lugar de destaque dentro da velha lareira, e duas cadeiras de balanço complementavam a mesa da cozinha e quatro cadeiras, num canto. Havia uma serenidade na casa, a qual deixou Isabella imediatamente confortável. Ela experimentou uma estranha sensação de voltar para casa.

– Sente-se, querida. – Charlotte apontou para uma das cadeiras de balanço, enquanto falava. Jake curvou-se em sua cesta, perto do fogão, e fechou os olhos.

– Obrigada. – Isabella sentou-se, perguntando-se como tinha ido parar na casa de uma estranha na manhã de Natal, quando Edward estava dormindo na suíte de hotel. Pelo menos, ela esperava que ele estivesse dormindo. Bem, se ele não estivesse, era tarde demais para se preocupar sobre isso. Ela estava ali agora.

Charlotte ocupou-se com o preparo do chá, e quando a mulher aqueceu o bule, então acrescentou duas colheres de folhas de um pote, antes de colocar água quente no bule, Isabella não ficou surpresa. Chás de saquinho não eram o estilo de Charlotte.

– Aqui está, querida. – Charlotte lhe passou uma xícara de chá, com uma fatia de bolo caseiro. – Agora, se não se importa que eu pergunte, por que uma garota magrinha como você estava sentada sozinha na manhã de Natal, parecendo ter perdido uma libra e achado um centavo?

Isabella teve de sorrir. Ninguém poderia acusar Charlotte de fazer rodeios. Ela deu um gole de seu chá e pôs a xícara sobre o pires de porcelana chinesa.

– Eu não sei o que fazer – respondeu ela simplesmente. – ou para que caminho me virar.

Charlotte acomodou-se na outra cadeira de balanço e sorriu.

– Um problema compartilhado é um problema dividido em dois... é o que eu sempre digo. Então, por que você não me conta sobre isso? – Ela deu uma mordida de seu bolo e indicou que Isabella experimentasse o dela. – Coloque-se do outro lado da situação, querida, e me conte o que está errado.

– É uma longa história – murmurou Isabella com hesitação.

– Mais um motivo para você começar logo. A lógica era irrefutável.

Uma hora e diversas xícaras de chá depois, Isabella estava se perguntando como contara a história de sua vida para uma estranha. Não apenas isso, mas estava se sentindo mais relaxada e à vontade na casa de Charlotte do que se sentira em anos.

Charlotte não a interrompera, enquanto Isabella lhe contara sobre sua infância, sua adolescência, sobre quando conhecera Edward e todo o trauma que seguira o acidente. Ela simplesmente ouvira.

– Então – elas haviam ficado em silêncio por uns dez minutos, e Isabella estava quase dormindo, quando Charlotte perguntou: – O que você vai fazer quando voltar ao hotel?

Isabella olhou para sua nova amiga.

– Eu não sei. Oque devo fazer?

– Eu não posso lhe dizer, querida. Esta tem de ser uma decisão unicamente sua. Apenas você sabe como se sente.

Desapontada, Isabella endireitou a coluna na cadeira.

– Eu não posso ficar com Edward – disse ela, uma dor a cortando por dentro.

– Não pode ou não vai ficar? – Questionou Charlotte, calmamente. – Há uma diferença. Meu Peter e eu perdemos cinco bebês, antes de termos nosso filho. Depois do quinto, eu disse que não poderia passar por aquilo novamente. Peter não discutiu comigo, que Deus o abençoe, nem mesmo quando eu decidi que não podia continuar aqui, nesta casa, com todas as memórias que continha. Eu queria recomeçar em algum lugar longe. Austrália, talvez. Eu tinha um irmão que emigrara e estava bem lá. Ou Nova Zelândia. Qualquer lugar, exceto aqui, com o quarto infantil no andar de cima, com o berço vazio, que estivera esperando um bebê por muitos anos.

Isabella estava muito acordada agora, atenta a cada palavra de Charlotte.

– Então eu fiz meus planos. Peter era engenheiro, bem qualificado em sua especialização, de modo que poderíamos ter ido para qualquer lugar do mundo, e ele teria arranjado emprego. Meu irmão me mandou informações sobre casas adoráveis perto de onde ele morava, e um colega de Peter estava interessado em comprar a nossa casa, então nós não precisávamos nos preocupar com a venda. Demos o preço, e ele concordou. Peter pediu demissão do emprego, e estava tudo pronto para partirmos no final de maio. Lembro que 28 de maio era o dia que viajaríamos. Engraçado como algumas coisas ficam em nossas mentes, não é?

Isabella assentiu, hipnotizada pela história que a pequena mulher estava contando.

– Estava uma primavera encantadora naquele ano... Dias quentes e com sol durante todo o mês de abril. Garotas usavam vestidos de verão, e todos estavam felizes. Todos, menos eu. Nossos planos haviam dado certo, e Peter tinha um bom emprego agendado na Austrália, mas eu sabia que aquilo não era certo. Queria ir, precisava ir, mas aqui dentro – Charlotte tocou o lugar do coração –, eu sentia que não era certo. Eu estava fugindo. Sabia disso, mas não queria admitir. E eu tinha bons motivos para querer um recomeço. Sentia que não suportaria o futuro, se ficasse. O mesmo ciclo de esperança, depois de pura tristeza, quando meu corpo me desapontasse novamente.

Charlotte inclinou-se para a frente, pegando as mãos de Isabella entre as suas.

– Eu me sentia fracassada, entende? Toda vez que acontecia, eu sentia que decepcionava Peter, e aquilo estava afetando nosso casamento. Eu não era a garota com quem ele se casara, ambos sabíamos disso, e, embora ele dissesse que me amava do mesmo jeito, e que, contanto que me tivesse, não importava se filhos viriam ou não, eu não via a situação assim. Até mesmo pensei em deixá-lo. Ele tinha três irmãos, todos com grandes famílias, e Peter era bom com as crianças... o tio favorito delas. Pensei que se eu o deixasse, ele poderia ter filhos com outra pessoa.

Charlotte balançou a cabeça grisalha.

– Eu estava tão confusa. Confusa, ferida e tentando ser forte.

– Como eu – sussurrou Isabella, e Charlotte apertou-lhe a mão. – O que aconteceu? Vocês chegaram a ir para a Austrália?

– A mãe de Peter veio me visitar uma manhã. Era fim de abril, e o sol estava brilhando. Eu abri a porta para ela e caí aos prantos. Ela ficou o dia inteiro, e nós conversamos muito. Eu tinha perdido minha própria mãe anos antes, e não costumava dividir meus problemas com ninguém... muito menos algo tão privado. Ela me falou uma coisa muito sábia naquele dia, e foi o que mudou tudo.

– O que ela disse? – perguntou Isabella, prendendo a respiração.

– Que a única coisa a temer é o próprio medo. Lutei contra a ideia, no começo, dizendo a mim mesma que eu não estava com medo, que não era tão simples assim. É incrível quantas razões você pode encontrar para se justificar, quando tenta. Mas é claro que minha sogra estava certa. Eu estava com medo do futuro, de tentar novamente, de fracassar, de perder o amor de Peter... de todo tipo de coisa. E medo tem um jeito de abalar cada base de sua vida, de nublar cada problema, especialmente amor e confiança. Medo cega as pessoas.

– E então, você ficou – murmurou Isabella, suavemente. – Vocês não partiram. Charlotte assentiu.

– Não foi um mar de rosas. Eu tive de trabalhar naquilo todos os dias. As preocupações não desapareceram da noite para o dia... Estavam profundamente enraizadas, suponho..., mas, aos poucos, vi a luz no fim do túnel, e quando engravidei de novo, alguns meses depois, acreditei que seria diferente, e foi. Nosso Randall era um bebê grande e sadio, com um par de pulmões para acordar os mortos, e um sorriso tão largo quanto à ponte de Londres.

Isabella sorriu.

– Fico feliz por você, de verdade, mas suas circunstâncias eram diferentes das minhas. Charlotte soltou-lhe a mão, mas não tirou os olhos dos de Isabella quando falou:

– Circunstâncias diferentes, querida, porém a mesma causa. Pelo que me contou, seu Edward não vai mudar de ideia a seu respeito por causa de algumas cicatrizes. Nem agora nem nunca. E você está fugindo da mesma forma que eu tentei fugir, mesmo que não para o outro lado do mundo. Todavia, você poderia ir para tão longe, e o erro seria o mesmo. Porque não se pode fugir do medo. Nós o levamos conosco. Quando você estava falando mais cedo, chamou a si mesma de dançarina, mas isso não está certo, querida. Dançar era algo que você fazia, mas que não resume quem você é. É feita de milhões de coisas que formam um todo, e, pelo que parece, é este todo que seu marido ama. Do mesmo jeito que Peter me amava.

Isabella olhou para o rosto enrugado... um rosto tão gentil que lhe deu vontade de chorar.

– Edward disse algumas coisas nessas linhas – admitiu ela. – Mas eu pensei que ele estivesse apenas sendo o marido devotado e tentando falar a coisa certa para me confortar.

– Não há nada errado com isso... com um marido querendo confortar a esposa – argumentou Charlotte. – O que não significa que ele não estava sendo sincero. Passei a entender que o que não a quebra a deixa mais forte. Falo por experiência própria. Os jovens de hoje crescem tendo tudo na vida, e quando algo que precisa de determinação para lidar acontece, metade deles fica desnorteada sobre como agir. Você não é assim, e não acho que seu Edward seja também.

Isabella pensou nas últimas 24 horas, e nas centenas de pequenas maneiras que Edward mostrara que a amava, e enxugou uma lágrima do rosto.

– Mas ele não viu a minha aparência agora – sussurrou ela. – E há tantas mulheres aí fora que se jogam em cima dele.

– Olhe o medo falando novamente. – Charlotte inclinou-se para a frente e lhe deu uma tapinha na mão. – Agora eu vou fazer outro chá para nós e um bom sanduíche de bacon antes de você ir. Peter e eu costumávamos começar o dia com uma xícara de chá e um sanduíche de bacon, mas eu perdi o hábito desde que ele se foi. E, Isabella... – ela encarou-a, a voz suave. – Não espere atravessar todas as suas pontes de uma só vez, querida. Você terá dias bons e dias ruins, mas irá vencer... como eu venci. Parece-me que seu Edward precisa de você tanto quanto você precisa dele. Já considerou isso? Todas aquelas mulheres que citou estavam se jogando em cima dele por anos, antes que ele a conhecesse, e ele não se apaixonou por nenhuma delas. Acredite no seu marido, querida. Tenha fé. Natal é melhor do que a maioria dos dias para começar a fazer isso, não acha?

Isabella assentiu, apenas meio convencida.

De súbito, percebeu que precisava ver Edward novamente, olhar dentro dos olhos verdes quando ele dissesse que a amava, olhar dentro da alma dele. Mas nem isso seria o bastante. Edward precisava vê-la como ela estava agora, e então Isabella saberia. Ela o amava tanto que seria capaz de ler como ele se sentia sobre ter uma esposa que sempre mancaria, que enfrentaria infinitas sessões de fisioterapia, com possíveis complicações no caminho de artrite, quando ficasse mais velha. O mundo deles tinha sido um lugar de pessoas lindas... estrelas, celebridades, os ricos e famosos.

Isabella consultou seu relógio e ficou impressionada ao ver como o tempo voara. Eram 9h da manhã. Edward estaria acordado agora, imaginando onde ela estava. Ela precisava voltar para o hotel.

Comeu rapidamente seu sanduíche de bacon, ansiosa para partir, mas não querendo ofender Charlotte, depois de toda a gentileza da mulher, então a abraçou antes de deixar a casa.

Estava um frio cortante do lado de fora, apesar de o sol brilhar para o mundo coberto de neve. A cidade estava propriamente acordada agora, e Isabella viu diversos pedestres ao longo das calçadas geladas, passeando com seus filhos em suas novas bicicletas ou patinetes.

Isabella estava a meio caminho do hotel quando avistou Edward a distância... uma figura mais alta do que a maioria. Mesmo de longe, ela podia ver que o semblante dele era furioso. Com o coração batendo freneticamente no peito, ela parou, observando-o se aproximar. Edward ainda não a vira, e Isabella não sabia se acenava ou não.

Ela sempre tentara não o aborrecer no passado. Evitava confronto de qualquer tipo. Não somente com Edward, mas com qualquer pessoa, reconheceu. Isabella sempre precisara da aprovação das pessoas, ou, no mínimo, da aceitação delas, e para conseguir isso, muitas vezes, sufocara suas próprias opiniões e desejos. De alguma forma, o acidente havia mudado isso, e ela não queria voltar ao que era antes. Endireitou os ombros e ergueu o queixo.

Edward avistou-a no instante seguinte, e ela viu o alívio inundando as feições tensas dele. Engoliu em seco e começou a andar em direção a ele, perguntando-se como sua vida tinha se tornado este espiral de emoções. Queria algum tipo de normalidade de novo. A vida nunca seria monótona, se ficasse com Edward, mas o dia a dia deles tivera certo padrão. Os momentos que ficavam a sós não eram tantos quantos ela gostaria, mas houvera noites nos braços de Edward quando ele tinha sido somente seu. Se, ao menos, isso pudesse acontecer outra vez.

Isabella não sabia o que esperar quando Edward a encontrasse. Certamente, não o rosto e a voz inexpressiva, quando ele lhe pegou o braço, dizendo:

– Vamos voltar para o hotel.

Enquanto eles andavam devagar, Isabella o olhou, registrando as linhas de tensão em volta da boca e dos olhos de Edward. Sim, ele estava zangado, mas também estivera preocupado... como ela teria ficado, se suas posições fossem invertidas. Todavia, ela precisara sair um pouco, por mais egoísta que isso tivesse sido.

– Desculpe – murmurou ela, baixinho. – Eu saí para uma caminhada, a fim de pensar. Não... pretendia demorar tanto.

– Aproximadamente quatro Horas, segundo a recepcionista que a viu sair do hotel – disse Edward, sedosamente.

Isabella encolheu-se. Teria preferido ouvi-lo gritando a usando aquele tom perigosamente suave.

– E não lhe ocorreu me telefonar para dizer que você estava bem? – Continuou ele. – Ou ligar seu celular, de modo que eu pudesse contatá-la? Mas, não. Você está totalmente no mundo de Isabella, não está? Sou meramente seu marido.

Isabella mordeu o lábio para não retrucar. Ele tinha todo o direito de estar furioso.

– Eu estava bem.

– E como eu deveria saber disso? Por telepatia? Fiquei vasculhando as ruas à sua procura, tentando ignorar o fato de que o rio é muito fundo e muito gelado.

– Você não pensou... – Ela parou, apavorada que Edward pudesse imaginar que ela tiraria a própria vida. – Não pode ter imaginado...

– Eu não sabia o que pensar, Isabella.

O fato de Edward tê-la chamado pelo seu nome inteiro informou-a que ele estava mais do que irado.

– Eu não consigo alcançá-la; essa é a questão – disse ele. – Você me fechou do lado de fora de maneira mais efetiva que eu podia ter imaginado. Não há mais espaço para mim. Nós não somos um casal. Talvez nunca tenhamos sido. Talvez tudo que imaginei que tivéssemos tenha sido pensamento desejoso de minha parte.

Isabella não sabia o que dizer. Tudo que sabia era que o magoara profundamente.

– Eu... eu pensei que pudesse estar de volta antes de você acordar – murmurou ela, a desculpa soando esfarrapada em seus próprios ouvidos. – E eu não pretendia ficar fora tanto tempo, mas encontrei alguém... uma senhora idosa com seu cachorro. Nós... conversamos um pouco.

– Verdade? E essa senhora com o cachorro era uma companhia tão estimulante que você esqueceu completamente que tinha um marido que talvez... apenas talvez... estivesse preocupado com seu desaparecimento no meio da noite?

– Eu não consigo conversar com você quando está assim.

– Você não consegue conversar comigo? – Edward deu uma risada sarcástica, mas não diminuiu os passos ou olhou-a. – você é inacreditável, sabia? Somente você poderia falar uma coisa dessas.

Isabella sentiu súbitas lágrimas encherem seus olhos, mas piscou contra elas, furiosamente. Que irônico que, justo quando ela começara a pensar que talvez eles tivessem uma chance, ele decidira que estava tudo acabado. Edward não aguentava mais, e ela não o culpava. Agira como uma mulher louca nos últimos meses, e não poderia prometer-lhe que estava com menos medo do futuro. Ele não precisava suportar isso, e por que suportaria?

No momento que eles chegaram ao hotel, suas pernas estavam doendo pelo exercício, mas ela teria andado sobre brasas, antes de demonstrar isso. Eles tinham acabado de entrar no saguão, quando Isabella viu a família japonesa, vindo da direção do salão de jantar, as duas garotinhas segurando lindas bonecas e conversando. A mãe sorriu para Isabella, quando eles se aproximaram, claramente lembrando-se da conversa delas no dia anterior.

– Papai Noel achou seu caminho, como pode ver – disse ela serenamente. – E as renas devem ter gostado das cenouras, porque elas haviam desaparecido esta manhã.

– Que ótimo. – Isabella parou e admirou os brinquedos das crianças, antes de falar: – Vocês viram a família de neve que chegou de noite? Eu acho que Papai Noel os trouxe também.

– Oh, sim, elas ficaram encantadas. – Quando o pai passou com as crianças, a mãe virou-se, murmurando suavemente: – Alguém esteve muito ocupado.

As duas mulheres trocaram um sorriso antes que Isabella e Edward fossem em direção ao elevador. Quando as portas se abriram, Edward questionou:

– Por que uma estranha ganha seus sorrisos?

Atônita, ela o encarou.

– Perdão?

– Esqueça. – Ele apertou o botão da cobertura e, enquanto eles subiam, ele enfiou as mãos nos bolsos e olhou para o chão.

– Edward, por favor, deixe-me explicar. Podemos conversar pelo menos?

– Espere até estarmos dentro da suíte.

Os poucos segundos até que eles estivessem dentro da saleta de estar pareceram horas, mas então Edward fechou a porta, e Isabella forçou-se a encará-lo. As primeiras palavras dele deixaram-na perplexa.

– Há outra pessoa?

– O quê? – Ela o fitou em total confusão.

– Você conheceu outro homem?

– Eu? – A voz de Isabella soou aguda, e ela pigarreou. – É claro que não. Como posso ter conhecido alguém quando estive no hospital pelos últimos três meses? Eu só vi médicos e outros pacientes.

– Coisas mais estranhas do que isso já aconteceram.

– Bem, não comigo. – Como ele podia pensar aquilo? – E sua pergunta me magoa.

Edward fitou-a intensamente, então as feições dele relaxaram.

– Desculpe, mas eu precisava perguntar. Isso teria explicado muitas coisas... inclusive por que você sentiu necessidade de escapar na manhã de Natal e desaparecer por horas, enquanto se certificava de ficar incomunicável.

– Não foi assim – protestou ela com fraqueza.

– Na verdade, foi exatamente assim.

Isabella observou-o respirar fundo, e percebeu que ele estava tendo dificuldade de manter o autocontrole. Edward queria gritar com ela. Mas acalmou-se, respirando mais algumas vezes.

– O que eu quis dizer foi que não me tornei incomunicável de propósito – argumentou ela. – Simplesmente não pensei nisso.

– O que prova que eu sou tão pouco importante que sequer registrei em seu radar – disse ele com sarcasmo.

– Pare de ser assim – pediu ela, tentando manter a calma, a fim de pensar sobre o que dizer, como alcançá-lo. – Eu detesto quando você fica assim.

Os olhos verdes endureceram.

– Assim como? Como se eu estivesse zangado, ferido ou com medo? Como alguém que passa as noites em claro, tentando tornar uma situação impossível numa possível, novamente, sabendo que enfrento uma adversária que contém todas as cartas porque eu a amo? Minha vida está desmoronando, e tudo se desintegrando. Estou enlouquecendo, e não consigo me concentrar em nada, exceto em nós. Mas não devo mostrar isso. Certo? Bem, eu sou humano, acredite ou não.

O coração de Isabella pareceu parar de bater. Edward era sempre profissional, o típico magnata de negócios. Não importava o que acontecesse, ele não deixava outras circunstâncias interferirem no seu trabalho. Ela não pensara realmente sobre como seu acidente o afetara, porque estivera muito focada em sua própria dor, mas se tivesse pensado, teria concluído que ele estava levando a vida normalmente, envolvido nas atividades diárias frenéticas que constituíam seu império na indústria de entretenimento. Todavia, esse não tinha sido o caso, em absoluto. E Edward já admitira que se culpava por não a ter encontrado para o almoço naquele dia, como originalmente planejado. Ele vinha se atormentando tanto quanto ela.

Isabella engoliu o nó na garganta quando seu coração começou a disparar violentamente. Como não percebera que ele também estava sofrendo?

Porque estivera focada apenas em si mesma, uma parte de sua mente respondeu com honestidade. Tão imersa em sua própria batalha, primeiro para sobreviver, depois para sair da névoa de desespero e depressão. E Charlotte estava certa. Era medo que governava sua vida agora. Em algum lugar no meio daquelas primeiras semanas, ela deixara o medo dominá-la, e este permanecia no controle desde então, colorindo cada pensamento seu, cada decisão.

Ela o magoara. Muito. Isabella o rejeitara quando Edward precisava dela tanto quanto ela precisava dele. Até mesmo o impedira de visitá-la no hospital. O que ele dissera? Que passara noites dentro do carro, no estacionamento do hospital, apenas para estar perto dela. Por que Isabella não percebera que ele também estivera pedindo ajuda? Como pudera ter entendido tudo errado?

Olhou-o agora. Edward não tivera tempo de se barbear, quando descobrira que ela havia sumido, e os cabelos escuros estavam desalinhados. E ele emagrecera um pouco nos últimos meses, apesar de parecer mais sexy do que sempre. Ela o amava, pensou com tristeza. Amava-o mais do que a vida em si, e estragara o relacionamento deles com sua cegueira estúpida.

Isabella respirou fundo.

– Sinto muito, Edward. Eu fiz tudo errado, e não o culpo se você se cansou de mim, se me odeia.

– Odiar você? Eu a amo! – Ele estava gritando agora, o que era um alívio. – Eu a amo tanto que estou enlouquecendo, mulher. O que você quer de mim de qualquer forma? Diga-me, porque eu realmente gostaria de saber. Diga-me o que fazer, e eu farei.

Poucas horas atrás, Isabella não teria sido capaz de responder-lhe... especialmente quando ele a estava olhando com tanta intensidade.

– Eu quero que você continue me amando, porque eu o amo, e não posso viver sem você. – Pronto... ela falara, e agora o medo a estava estrangulando, diante da enormidade do que fizera. Encarou-o, esperando a reação dele.

Edward não se moveu por um momento infinito, então o corpo forte relaxou num suspiro longo.

– Venha aqui – convidou ele, abrindo os braços. – Nós precisamos conversar. Mas antes, eu necessito abraçá-la e me convencer de que você está realmente aqui, e não no fundo do Thames, ou nos braços de algum outro homem.

Ele abraçou-a por um longo momento sem falar nada. Isabella o abraçou pela cintura, ciente das batidas frenéticas de seu próprio coração. Este era o momento da verdade... ou, pelo menos, logo seria o momento da verdade. Porque a conversa deles só poderia terminar de um jeito, e quando terminasse, quando eles fizessem amor, Edward veria suas cicatrizes. Ambos sabiam disso. O pensamento deixou-a fisicamente enjoada.

– Certo. – Ele afastou-se, mas apenas para conduzi-la até o sofá. – Antes de mais nada, eu vou ligar para serviço de quarto. O que você quer comer e beber?

– Nada. – O pensamento de comida foi o bastante para embrulhar o estômago dela. Edward pegou o telefone e pediu café e croissants para dois, antes de sentar-se ao seu lado.

– Primeiro, conte-me aonde você foi esta manhã – pediu ele. – Nós chegaremos aos motivos num minuto.

– Eu andei por um tempo, então me sentei num banco, e uma senhora veio conversar comigo. E me convidou para tomar uma xícara de chá na casa dela. – Isabella falou de maneira entorpecida. – Ela... ela era amável.

– Então, sou grato a ela – disse Edward.

– Charlotte me contou sobre sua vida, como perdeu diversos bebês, então teve o filho. O tempo... voou. Eu não percebi. Acho... que ela é solitária à sua própria maneira.

Ele assentiu.

– E presumo que você também contou a ela sobre nossos problemas?

Isabella ficou tocada por ele ter dito "nossos", quando poderia, com toda a honestidade, ter dito "seus". Foi sua vez de assentir.

– Isso não é uma crítica, mas uma observação – disse Edward cautelosamente. – Você foi capaz de passar horas conversando com essa senhora sobre como estava se sentindo, mas não pode compartilhar isso comigo?

– Eu não passei horas com ela – defendeu-se Isabella. – foram duas horas, no máximo... Provavelmente, uma e meia. E eu conversei com você sobre tudo.

– Não, Bella, você não conversou comigo. Apenas me deu uma lista de motivos pelos quais ficar comigo é impossível... nenhum dos quais me convenceu. Na verdade, você não poderia surgir com uma razão para nós nos separarmos, porque não existe uma. Desde o primeiro dia, eu soube que ficaríamos juntos. Eu lhe disse isso com frequência. Mas você nunca acreditou em mim, verdade? Nem mesmo depois de dois anos de casamento.

Ela o fitou, seus olhos enormes no rosto pálido.

– Eu queria que isso fosse verdade. – Ela engoliu em seco. – Eu realmente queria.

– Mas nunca acreditou – repetiu ele. – Não importava o que eu dissesse ou fizesse, você não acreditava.

Ela não podia negar aquilo. Algum instinto de sobrevivência impedira sua crença. Se tivesse se permitido aceitar que era a única para Edward, a "mulher dos sonhos" dele, como ele frequentemente afirmava, o risco teria sido grande demais. Se tivesse acreditado nele, Isabella nunca se recuperaria, se tudo desse errado.

– Suponho que eu não conseguia acreditar que alguém como você iria querer alguém como eu para sempre.

Edward segurou-lhe o rosto e encarou-a.

– Como assim, alguém como você, Bella? Você é linda, única... a melhor que existe. E o mais incrível é que você é adorável por dentro e por fora. A primeira vez que a vi, quando você foi à audição, eu a quis fisicamente. Você dançou fluindo com a música, e foi a coisa mais erótica que eu já tinha visto. E então, ficou parada do meio do palco, recusando-se a ser intimidada por minhas perguntas ou por mim. Um pouco rebelde e desafiadora. Depois, eu a ouvi falando com as garotas, e descobri que você chegara atrasada porque ficara com pena de uma velha mulher que estava devastada pela perda do gato. Aquelas outras garotas não podiam entender aquilo. Não havia outra que teria feito o mesmo. Eu não podia entender. Você era um enigma. Tive dificuldade de acreditar que você era real.

– Eu? – Fascinada pelo jeito que ele a descrevia, ela achou difícil acreditar que ele estava falando sobre a comum Isabella Cullen.

– Seu temperamento doce é algo contra o que eu não tenho defesa, meu amor – murmurou Edward com voz rouca. – Sua alma generosa me derrete, me fazendo querer ser um homem melhor do que sou, e acreditar que o bem pode triunfar sobre o mal... que Papai Noel existe, e que rosas em volta da porta e "felizes para sempre" estão à minha disposição. – Então ele sorriu. – Não me olhe assim. Sabe o quanto eu a adoro?

Não, eu não tenho ideia.

– É claro que sei.

– Mentirosa – acusou ele imediatamente. – Querida, você entrou em meu coração com incrível facilidade. Não vou fingir que algumas vezes eu me senti frustrado por não poder fazer o mesmo com você. Mas sou um homem paciente.

Edward? Paciente? Ele tinha muitas qualidades, mas paciência não era uma delas. E ele possuía seu coração. Sempre possuíra.

Seus pensamentos deviam ter transparecido no seu rosto, porque Edward sorriu de novo, então corrigiu:

– Um pouco paciente, pelo menos... por você, isto é. – Ele inclinou-se e beijou-lhe a boca, depois a ponta do nariz e a testa, antes de afastar-se e estudá-la com seus olhos verdes. – Então, conte-me por que você me proibiu de visitá-la no hospital, e por que seu advogado falou para meu advogado que você queria o divórcio – disse ele com voz neutra. – E por que, depois que fizemos amor... duas vezes... você ainda sentiu a necessidade de escapar e colocar distância entre nós?


Boa tarde, meninas!

Ufa, e não é que a Charlotte conseguiu colocar juízo na cabeça dessa mulher? Finalmente. O que a Bella precisava era conversar com alguém que de certa forma também passou pela mesma insegurança que ela e que no final tudo deu certo. O Edward vai fazer uma revelação nos próximos dois capítulos...

arqdayse: Chegou o fim da Bella cabeça dura Kkkkk Ainda bem que a Charlotte conseguiu fazer com que ela visse as coisas de um outro modo. Obrigada pelo review :*

Rosangela Pattz: A Bella pode ganhar o troféu de baixa auto estima do século kkk Esse Edward é apaixonante demais, e vai ter uma coisa que ele vai revelar que você vai desfalecer de amores por ele. Beijos e obrigada :**

Ah, eu tinha dito no capítulo anterior que o ultimo cap seria segunda, mas me enganei, é no domingo agora, 18/06.

Até amanhã, com o penúltimo cap!

PS: Tomei vergonha na cara nesse feriado e arrumei o link de download das adaptações que já estão concluídas. Caso alguém tenha interesse, o link está no ultimo cap de cada história, ou então me mandem uma mensagem, e-mail ou Facebook que eu mando.