NARUTO NÃO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! TRÊS
A cabeça de Hinata parecia prestes a estourar de dor e seu estômago estava enjoado, era o tipo de reação ao estresse que ela já estava habituada a ter e sabia que poderia muito bem terminar em um forte ataque de enxaqueca. Mas aquele não era um bom momento para ficar doente nem para demonstrar qualquer fraqueza, mesmo que mal houvesse conseguido dormir e já houvesse acordado nauseada naquela manhã.
Os gêmeos estavam vestidos com pulôveres e os jeans novos que as irmãs dela haviam lhes dado de presente no Natal, e usavam os tênis novos que ela comprara usando o precioso dinheiro que vinha poupando. Gaara havia olhado com reprovação para os tênis antigos quando passara na casa dela para conversar sobre "tudo", por "tudo" entenda-se todos os arranjos que ele fizera, não apenas para a estadia deles em Londres, mas também para o casamento de ambos, antes que os quatro partissem para a ilha grega que seria seu novo lar.
Naquela manhã, prestes a partir, os meninos estavam agitados demais para conseguirem permanecer sentados, e insistiram em ficar de pé, diante da janela, para que pudessem ver quando Gaara chegasse para levá-los a Londres.
Será que teria tomado uma decisão diferente se as irmãs estivessem em casa? — questionou-se Hinata. Mas não imaginava como poderia ter feito isso. As duas eram maravilhosas para ela e insistiam para que ficasse em casa com os filhos, que elas os sustentariam, mas Hinata estava bem consciente, não só da imensa pressão financeira a que as irmãs estavam submetidas, como também do fato de que mais cedo ou mais tarde elas com certeza se apaixonariam por alguém. E quando isso acontecesse, Hinata não queria sentir que ela e os gêmeos eram um empecilho de qualquer modo.
Não, tomara a decisão certa! Para os gêmeos, que estavam animadíssimos com a prometida viagem a Londres; e também para as irmãs dela, que haviam dado tanto apoio e amor para ela e para os meninos.
Hinata já havia contado aos gêmeos, com muito tato, que ela e Gaara iriam se casar e os dois reagiram à notícia cheios de entusiasmo. Aiko logo comentara, esperançoso:
— Mitsuki tem um pai. Ele leva o Mitsuki para assistir aos jogos de futebol e ao McDonalds e também comprou uma bicicleta nova para ele.
A verdade era que tudo parecia estar trabalhando a favor de Gaara. Ela não podia nem mesmo usar a desculpa de que os meninos não poderiam faltar às aulas para ir a Londres por causa da escola, já que estavam em pleno recesso pelo feriado de Páscoa.
Quando voltassem a estudar, seria em uma pequena escola de língua inglesa na ilha. Gaara havia lhe explicado que era para lá que os ilhéus mandavam os filhos quando queriam que eles crescessem falando inglês.
A conversa entre ela e Gaara a respeito do futuro dos gêmeos fora mais uma sessão de pergunta e respostas, com ela fazendo as perguntas e Gaara dando as respostas. Tudo o que Hinata sabia a respeito do futuro era que Gaara preferia viver e trabalhar na ilha que sua família governava há vários séculos, embora o negócio de navios cargueiros tivesse escritórios e funcionários nos maiores portos comerciais em todo o mundo. Gaara também dissera a ela que o segundo executivo mais importante da empresa era seu irmão mais jovem, que se formara em Tecnologia da Informação e ficava no escritório de Atenas.
No que se referia à educação dos meninos no futuro, Gaara lhe garantira ser absolutamente contra colocá-los em um internato, para alívio de Hinata. Quando estivessem mais velhos, a família toda passaria o ano letivo na Inglaterra e, então, voltariam para a ilha quando os meninos estivessem de férias.
Além do irmão mais novo, Gaara lhe contara que também tinha uma irmã, a mesma que tirara a fotografia dos gêmeos no aeroporto. Assim como o irmão caçula, ela também morava em Atenas com o marido.
— Então seremos só nos dois e os meninos na casa? — perguntou Hinata cautelosamente.
— É o normal, não? — ele retrucou. — A família nuclear compreende pai, mãe e filhos.
Talvez fosse tolice ela não ter pensado até aquele momento no modo como eles iriam viver, mas estava tão apreensiva que sua mente parecia se recusar a encarar a realidade da nova vida deles juntos. Seria por medo de Gaara ou por medo de desejá-lo?
Fora muito mais fácil lidar com o lado prático do que estava por vir do que se demorar sobre as complexas questões emocionais que ele levantava.
Ela deixara cartas para as irmãs explicando o que estava fazendo e por que preferira contar a elas por escrito. Agora, enquanto esperava que Gaara chegasse para pegá-los, Hinata sentia a dor de cabeça aumentando e o estômago embrulhado de ansiedade. Tudo seria muito diferente se não houvesse cedido ao desejo que Gaara conseguira excitar em seu corpo.
Na sua bolsa estavam ás pílulas anticoncepcionais que ele exigira que tomasse. Hinata se sentira tentada a desafiá-lo, a insistir que podia confiar em sua própria força de vontade para garantir que não houvesse mais qualquer intimidade sexual entre eles. Mas ainda estava chocada com a lembrança do que acontecera entre eles no hall de entrada, ainda lutava para aceitar que realmente havia acontecido. A rapidez e a intensidade daquele instante fora como a erupção repentina de um vulcão, incontrolável. E a deixara sentindo-se vulnerável e incapaz de confiar em si mesma.
Não devia haver outros filhos, dissera Gaara. E não era verdade que ela mesma não queria conceber outra criança com um homem que não tinha nenhum respeito, nenhuma gentileza e menos ainda amor no que se referia a ela? Amor? Será que ainda não aprendera a não disfarçar luxúria pura em ilusão de "amor"? A confundir desejo com sonhos tolos mais adequados a adolescentes inocentes? Antes de Gaara beijá-la novamente ela teria jurado que não havia nada que ele pudesse fazer com ela, nenhuma intimidade que pudesse forçar, que conseguisse voltar a excitar seu desejo por ele. Mas o calor ardente do beijo a que Gaara a sujeitara transformara suas defesas em brasas.
Hinata odiava ter de admitir para si mesma que não podia contar com seu amor-próprio e com seu autocontrole, mas a verdade era que a única coisa a qual podia se agarrar naquele momento era a certeza de que Gaara estivera tão próximo de perder o controle quanto ela. De todas as cruéis Armadilhas que a natureza poderia aprontar para dois seres humanos, com certeza aquela devia ser uma das piores: criar dentro deles um desejo pelo outro que transformava em cinzas cada camada de proteção, deixando-os expostos a uma necessidade que nenhum dos dois queria sentir. Se Hinata pudesse arrancar aquele desejo do seu corpo, com certeza o teria feito. Era um monstro, um inimigo que carregava-dentro de si e ela precisava arrumar um modo de destruí-lo.
— Ele chegou! — anunciou Aiko, animado, interrompendo seu momento de introspecção.
Os dois meninos correram para abrir a porta, pulando de alegria quando Gaara saiu do carro.
Ele estava vestido de maneira informal, em uma camisa polo preta, uma calça de algodão bege e uma jaqueta de couro escura. Mas Hinata era forçada a admitir que, ainda assim, Gaara mantinha a mesma aura que atraía olhares de admiração dos outros homens e de desejo das mulheres. Não era apenas uma questão de boa aparência, isso muitos outros homens também tinham. Não, Gaara tinha alguma coisa a mais, uma mistura de poder com a mais pura sensualidade masculina. Ela sentira isso quando era uma adolescente inocente e mesmo agora, quando já tinha idade o suficiente para saber das coisas, ainda se sentia dominada pelo magnetismo sexual de Gaara, que ameaçava arrastá-la para suas águas turbulentas.
Um estremecimento percorreu o corpo de Hinata como uma carícia zombeteira, fazendo-a envolver o corpo com os braços para ocultar o súbito enrijecimento dos mamilos. Não tinha nada a ver com Gaara, ela assegurou a si mesma... era apenas uma reação do seu corpo ao frio da porta aberta.
Gaara a mediu com o olhar e se deteve por um instante em seus seios. O desejo se agitou dentro dele como um tigre acorrentado, tentando se libertar de suas amarras.
Nas últimas semanas ele passara mais horas do que gostaria de admitir lutando contra o desejo que fazia seu ventre queimar, quase o enlouquecendo.
Jamais permitira que qualquer mulher o controlasse pelo desejo, e agora, no espaço de alguns segundos, via-se dividido. Se via obrigado a lutar para ouvir a voz interior que o alertava a se afastar de Hinata, para se afastar do desejo que o inflamava subitamente quando a beijava. Um desejo como aquele não podia ser controlado, apenas apaziguado. Como algum deus da mitologia antiga que exigia sacrifício e autoimolação em seu altar.
E então Gaara viu os gêmeos correndo em sua direção, e qualquer pensamento de autoproteção se esvaiu, sobrepujado pela onda de amor que o invadiu. Gaara se agachou e abriu os braços para eles.
Hinata assistiu à cena com o coração apertado, tomada por uma emoção especial. O pai com os filhos, abraçando-os, protegendo-os, amando-os. Não havia nada que ela não arriscaria para dar aquilo aos filhos, admitiu para si mesma com intensidade.
Ainda abraçado aos filhos, Gaara percebeu que não havia nada mais importante para ele do que aqueles meninos, não importava o quanto desconfiasse da mãe deles.
— A mamãe disse que podemos chamá-lo de papai se quisermos.
Gaara logo soube que era Aiko quem falava. Ele sempre pensou em si mesmo como um homem capaz de esconder suas emoções, mas naquele momento elas ameaçavam escapar completamente de controle.
— E vocês querem? — ele perguntou aos dois, abraçando-os ainda mais apertado.
— O Mitsuki, da nossa escola, tem um papai. E o papai dele comprou uma bicicleta nova para ele.
Gaara percebeu que estava sendo testado e não conseguiu evitar olhar na direção de Hinata.
— Parece que o pai de Mitsuki também o leva para assistir aos jogos de futebol e ao McDonalds — ela respondeu a pergunta silenciosa de Gaara.
Ele olhou para os gêmeos.
— Pois bem, para as bicicletas eu digo um "talvez", vai depender de as encontrarmos no tamanho certo para vocês. Já quanto ao futebol, podem contar comigo. E o McDonalds, acho melhor deixarmos que a mãe de vocês decida a respeito.
Hinata se sentiu dividida entre o alívio e o ressentimento. Qualquer pessoa pensaria que ele estava acostumado a lidar com os meninos desde que nasceram. Gaara não poderia ter dado uma resposta melhor aos filhos.
— Está pronta? — ele lhe perguntou com o tom de voz frio e distante com que costumava se dirigir a ela.
Hinata abaixou os olhos para os jeans e o suéter largo que usava, os jeans enfiados dentro das botas que uma das irmãs lhe dera de presente de Natal. Sem dúvida Gaara estava acostumado a ter a companhia de mulheres mais elegantes, vestidas com roupas de grife e cheias de joias, mulheres que provavelmente passavam horas se enfeitando para impressioná-lo. Ela sentiu a pontada de uma mágoa antiga em seu coração. Belas roupas, não importava se de grife ou não, eram um luxo que simplesmente não podia se permitir, e também não combinariam com a vida que levava até então, mesmo se pudesse pagar por elas.
— Sim, estamos prontos. Meninos, vão pegar seus casacos — ela instruiu, voltando para o hall de entrada para pegar a mala que arrumara e quase sendo derrubada pelos gêmeos, que passavam correndo.
A mão de Gaara ao redor do seu braço impediu que caísse, mas o choque do contato físico com ele fez com que ela congelasse no lugar e se sentisse mais desequilibrada do que quando os filhos haviam passado.
O braço de Hinata parecia fino e delicado, em contraste direto com a robustez dos meninos, pensou Gaara. E seu rosto estava muito fino, como se ela nem sempre tivesse o bastante para comer. Subitamente uma pergunta se insinuou em sua mente... uma repentina consciência da situação de privação em que Hinata vivia e que ele vinha tentando afastar há algum tempo.
Embora Gaara estivesse parado atrás dela, Hinata podia sentir o perfume da colônia que usava e também o calor do seu corpo. No mesmo instante, ela se lembrou do jeito como ele a beijara há poucos dias. O pânico e o medo se somaram à tensão e deixaram seu estômago ainda mais revolto. Hinata viu quando Gaara abaixou os olhos para sua boca e todo o seu corpo começou a tremer.
Seria tão fácil ceder ao desejo que sentia por ela... tão fácil tomá-la com a mesma rapidez e a mesma luxúria com que ela estava se oferecendo a ele. Seu corpo queria isso. Queria o calor dos músculos de Hinata apertados ao redor dele, guiando suas investidas cada vez mais profundas. Queria o alívio rápido e primitivo que o corpo dela prometia.
Isso tudo era verdade, mas será que ele queria o tipo de sensação barata e de mau gosto que uma mulher como ela costumava vender, como fizera na noite em que o conhecera?
O gemido baixo e angustiado de Hinata quando se soltou das mãos dele o trouxe de volta à realidade.
— Essa é sua única mala? — perguntou Gaara, afastando os olhos de Hinata para a mala surrada no chão do hall de entrada.
Hinata assentiu com a cabeça e ele torceu os lábios com desprezo. Era óbvio que ela queria sublinhar sua pobreza para ele. O casamento seria o seu passaporte para uma nova conta bancária, cheia de dinheiro. Não havia dúvidas de que Hinata já estava planejando sua primeira onda de extravagâncias. Gaara se lembrava muito bem do quanto a mãe ficava satisfeita sempre que gastava o dinheiro do pai comprando roupas de alta costura e joias caras. Como ainda era um menino, ficava fascinado com a beleza e o encanto exterior dela e não percebia a deficiência de caráter que tudo aquilo escondia.
Ele se sentiu tentado a ignorar a indireta que Hinata estava claramente lhe dando e deixá-la viajar para a ilha com aquela única mala velha. Mas achou que isso acabaria punindo também os filhos dele e, além do mais, não tinha a menor vontade de que seu casamento se transformasse em motivo de fofocas e especulações, que era o que aconteceria se Hinata não tivesse um guarda-roupa à altura da posição e das posses dele.
— Nos casaremos nesta sexta-feira — ele disse a ela. — No sábado, voaremos para a ilha. Acredito que tenha tomado as providências sobre as pílulas anticoncepcionais, como a instruí.
— Sim — confirmou Hinata.
— Pode provar?
Hinata se sentiu indignada com a desconfiança dele, mas o orgulho ferido fez com que abrisse com raiva o fecho da bolsa, ambas as mãos tremendo com a intensidade das emoções que sentia, e pegasse a cartela de pílulas, mostrando a ele os espaços vazios nos dias em que ela já tomara.
Se esperara que Gaara se envergonhasse e pedisse desculpas, logo percebeu que se frustraria. Só o que recebeu em resposta foi um breve aceno de cabeça, antes que ele continuasse a falar.
— E como cumpriu com seu dever, imagino que agora espera que eu cumpra com o que sem dúvida considera o meu? O dever de fornecer-lhe os recursos para que substitua essa única mala por um conjunto de malas novas e muitas roupas para enchê-las.
O cinismo descarado na voz dele feriu ainda mais seu orgulho, como se Gaara houvesse posto sal em uma ferida aberta.
— Sua única obrigação para comigo é ser um bom pai para os meninos.
— Não — ele a corrigiu friamente. — Essa é minha obrigação para com eles. — Gaara não gostou da resposta dela. Não foi a que esperava e não combinava com o perfil que criara mentalmente para ela. Hinata saíra do roteiro que ele escrevera, no qual se revelava uma mãe inadequada e permitia que ele tivesse o direito moral de continuar a desprezá-la. — Não há necessidade de auto sacrifício. — A resistência dela a corresponder ao papel planejado fez com que Gaara se sentisse ainda mais determinado a provar que estava certo. — Como minha esposa, você deve naturalmente se apresentar bem, embora deva alertá-la para evitar roupas como aquelas que usava na noite em que se ofereceu a mim. O papel que vai desempenhar a partir de agora é o de minha esposa, não o de uma vagabunda.
Hinata não encontrou palavras para contestar o insulto desdenhoso, mas também não iria aceitar sua caridade.
— Já temos muitas roupas. Não precisamos de mais — insistiu com veemência.
Ela estava ousando rejeitar o que ele sabia ser a verdade a seu respeito! Mas iria aprender a não fazer isso de novo. Hinata iria aceitar as roupas compradas com o dinheiro dele, assim ambos saberiam exatamente quem era ela. Ele podia estar sendo forçado a se casar para ter direito legal sobre os filhos, mas não iria permitir que Hinata esquecesse que pertencia ao tipo de mulher que não hesitava em vender o próprio corpo para qualquer homem rico o bastante para lhe garantir um estilo de vida que privilegiasse roupas de grife e dinheiro fácil.
— Muitas roupas? — ele zombou. — Em uma única mala? Para três pessoas? Meus filhos e minha esposa se vestirão de maneira apropriada à sua posição, e não...
— Não o quê? — desafiou-o Hinata.
— Realmente precisa que eu responda a essa pergunta? — foi a resposta debochada de Gaara.
A bagagem foi colocada na mala de um carro de aparência muito cara e luxuosa, os gêmeos foram presos com segurança aos seus assentos. Sua decisão estava tomada e essa realidade se abateu sobre Hinata quando ela se voltou para olhar uma última vez para a casa.
— Onde está seu casaco?
A pergunta de Gaara a distraiu. - Não preciso de casaco — ela mentiu. A verdade era que não tinha um agasalho adequado para o inverno, mas não iria confessar isso, não depois do que ele lhe dissera. Gaara estava esperando, segurando a porta do carro para ela. Hinata estremeceu sob o vento frio quando o marido trancou a porta e entrou no carro. Sentia a cabeça doer cada vez mais. O interior cheirava a couro caro, muito diferente do cheiro do táxi que os levara até o hotel de Gaara naquela noite fatídica...
Hinata sentiu a boca seca.
Os gêmeos logo ficaram entretidos com as TVs instaladas nas costas dos assentos diante deles. Gaara estava concentrado em dirigir. Agora não é hora de pensar naquela noite, disse Hinata a si mesma, mas já era muito tarde. As lembranças já haviam passado por cima das suas defesas.
A morte dos pais em um acidente de carro fora um choque terrível, logo seguido pela decisão da irmã de vender a casa da família. Hinata não sabia, na época, que os pais haviam deixado muitas dívidas. A irmã mais velha tentara protegê-la e não contara a verdade, dizendo apenas que optara pela venda por causa de sua decisão de estabelecer o próprio negócio de decoração em Cheshire. Com raiva da irmã, ela decidira ficar amiga de Ino, uma menina nova na região, pois sabia que a irmã não a aprovava, e nem ao modo liberal como os pais da menina a criavam. Embora Ino fosse apenas 18 meses mais velha que Hinata, era muito mais esperta, vestia-se com roupas apertadas, tingia o cabelo de louro e usava maquiagem pesada.
Secretamente, embora não estivesse disposta a admitir isso para ninguém na época, principalmente para a irmã mais velha, Hinata ficara chocada com algumas revelações da nova amiga sobre as coisas que costumava fazer. Seu grande objetivo na vida era conseguir namorar um jogador de futebol. Ino ouvira dizer que os jogadores de futebol de Manchester costumavam frequentar uma boate na cidade e convidara Hinata para ir lá com ela.
Pelo que descobrira sobre a nova amiga, Hinata não ficara com a menor vontade de ir. Mas quando tentara dizer isso a Ino, alegando que a irmã não lhe daria permissão, a garota zombara dela e a acusara de ser um bebezinho que precisava da permissão da irmã para tudo o que fazia. Hinata obviamente negara que fosse um bebezinho e Ino a desafiara a provar isso acompanhando-a.
Hinata tinha apenas 17 anos, era muito ingênua para a idade e, naquele momento, estava vendo o mundo que conhecia virar de cabeça para baixo sem que tivesse qualquer controle sobre isso. Mas por mais que, depois de tudo o que acontecera naquela noite, houvessem lhe assegurado que a rebeldia era muito natural naquela idade, até compreensível, e que ela não fora culpada pelo que acontecera, Hinata sabia que no fundo sempre se sentiria culpada.
Antes de partirem para Manchester, Ino prometera que cuidaria do visual de Hinata, e enquanto fazia isso, serviu para as duas um copo de vodka com suco de laranja. O drinque subira direto para a cabeça de Hinata, que nunca havia experimentado bebida alcoólica, e a deixa-a tão zonza que ela nem fizera objeções quando Ino insistira para que mudasse a roupa que usava por uma das suas minissaias, junto com um top justo. Depois, Ino a maquiara no mesmo estilo que costumava usar: os olhos delineados com lápis negro, uma grossa camada de rimel nos cílios e muito batom de um rosa forte.
Quando Hinata viu seu reflexo no espelho, quase não reconheceu a garota de lábios rosa-choque e cabelos alvoroçados que a olhava de volta, mas como estava sob o efeito da vodka, não foi capaz de esboçar qualquer reação.
Ela podia ter apenas 17 anos, mas percebera, muito antes de Ino adular o segurança da boate para que as deixasse entrar, que nem seus pais, nem suas irmãs, aprovariam o que estava fazendo ali. Mas naquela altura já estava com medo demais do desdém de Ino para que conseguisse coragem de lhe dizer que mudara de ideia e queria ir para casa.
Hinata viu as outras garotas que entravam na boate, mais velhas, exageradamente vestidas com roupas muito colantes, e logo soube que se sentiria deslocada.
Dentro da boate o ar era asfixiante. O lugar estava lotado de garotas com a mesma intenção de Ino. Vários rapazes se aproximaram delas quando estavam paradas perto do bar. Ino recusou com zombaria a sugestão de Hinata de que se sentassem em uma mesa mais afastada.
— Não seja estúpida, se fizermos isso ninguém vai nos ver. — Ino, então, sacudiu a cabeça, ignorando os rapazes e continuando a falar com Hinata. — Esses aí não são nada. São só garotinhos.
Ela comprou drinques para as duas e Hinata, enganada pela aparência inocente da bebida, tomou-a com sofreguidão, pois estava com sede. Mas logo percebeu que ficara ainda mais tonta e desorientada do que quando experimentara a mistura de vodka e suco de laranja.
A boate estava cheia e barulhenta e a cabeça de Hinata começou a doer. Ela se sentia deslocada e solitária e o álcool só potencializava essas sensações, fazendo-a recordar a morte dos pais e todo o desespero e infelicidade que sentia nos últimos tempos.
Ino começara a conversar com um rapaz, excluindo Hinata deliberadamente da conversa e virando-se de costas.
De repente, Hinata ficou desesperada para ter de volta a segurança da vida doméstica que perdera, ter de volta a certeza de que havia alguém para protegê-la, alguém que a amasse, ao invés de ficar brava com ela como fazia a irmã mais velha. E foi nesse momento que ela olhou para a outra ponta do bar e viu Gaara.
Alguma coisa nele o tornava diferente dos outros homens na boate. Para começar, estava vestido com mais elegância, de terno, com o cabelo ruivo bem penteado e um ar de segurança e poder que imediatamente atraíram as emoções inseguras de Hinata. No estado de embriaguez em que ela se encontrava, Gaara lhe parecera uma ilha de segurança em um mar de confusão e infelicidade.
Ela não conseguia mais tirar os olhos dele, e quando Gaara retribuíra o olhar, Hinata sentira a boca tão seca de nervoso diante da possibilidade de falar com ele que passara a língua pelos lábios, para umedecê-los. O modo como o olhar de Gaara acompanhara o movimento, deixou claro para ela que ele a escolhera ente as outras garotas na boate e reforçou sua ideia, induzida pela embriaguez, de que havia alguma ligação especial entre eles, que estavam destinados a se encontrar... e que de algum modo, quando estivesse com ele, estaria segura, pois aquele homem a protegeria e cuidaria dela como seus pais haviam feito.
Ela não se lembrava de ter ido até ele... lembrava-se apenas de ter chegado onde ele estava, sentindo-se como um nadador que, depois de atravessar, um mar revolto, chega à segurança do mar calmo, onde pode flutuar em segurança. Quando sorriu para Gaara, sentiu como se já o conhecesse. Mas é claro que isso não era verdade.
Ela não sabia de nada, pensou Hinata amargamente no carro, com ele e os filhos, afastando as lembranças do passado e massageando as têmporas doloridas, enquanto Gaara entrava na autoestrada e acelerava o carro.
