NARUTO NÃO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! CINCO

— Seu cabelo é fantástico, cheio, mas como é muito liso, acho que ficará melhor se o cortarmos reto, uma franja também ficaria muito boa, daria mais graciosidade ao seu rosto. — Aquilo fora a primeira coisa que o cabeleireiro fizera ao examinar o cabelo de Hinata. Ela simplesmente assentira, sem se importar muito com o corte que ele pretendia fazer. Ainda estava se sentindo mal, a cabeça continuava a doer e ela sabia por experiência própria que essas dores de cabeça muitas vezes duravam dois, até três dias, antes de ir embora.

No entanto, no momento em que o cabeleireiro se afastou e perguntou "O que você achou?", Hinata foi obrigada a admitir que estava quase sem palavras para descrever a diferença que o talento dele fizera em seu cabelo. O homem transformara seu longo cabelo sem muita forma em uma moldura chique e cheia de estilo para o seu rosto, que agora caía suavemente sobre os ombros, o tipo de corte que ela vira em várias das mulheres que tomavam chá no hotel na tarde anterior, simples, mas que destilava riqueza e elegância.

— Eu... Eu adorei — admitiu Hinata, por fim, em voz baixa.

— É fácil de manter e voltará rapidamente a esta mesma forma depois que você lavar. Tem sorte por ter o cabelo naturalmente liso.

Hinata agradeceu a ele e foi levada para outra área do salão. Ao menos conseguira comer algumas torradas puras naquela manhã e também tomara dois analgésicos, que felizmente haviam conseguido diminuir um pouco a dor de cabeça que sentia.

Agora era preciso seguir em frente com os outros compromissos já agendados no salão de beleza. Hinata respirou fundo, levantou a cabeça e foi adiante.

Duas horas depois, quando voltou a sair, dessa vez ao lado da consultora de estilo que a ajudaria a escolher o novo guarda-roupa, Hinata não conseguiu evitar relancear os olhos para checar seu novo visual nas vitrines por que passavam. Suas unhas estavam bem cuidadas, pintadas com um esmalte de cor escura que estava na moda, as sobrancelhas estavam depiladas e a maquiagem havia sido cuidadosamente aplicada, em tons tão sutis que ela mal parecia estar usando qualquer coisa. Ao mesmo tempo, seus olhos pareciam maiores e mais destacados, a boca mais cheia e macia, e sua figura parecia tão delicada e perfeita que Hinata mal conseguia afastar os olhos do seu reflexo.

Embora jamais fosse admitir isso para Gaara, o tempo que passara no salão de cabeleireiro fora divertido. Agora se sentia mulher novamente, e não apenas uma mãe ansiosa.

— Pelo que entendi, você vai precisar de roupas adequadas para viver em uma ilha grega e sua vida também incluirá compromissos sociais e profissionais, não é? — A profissional que a acompanhava não esperou que ela respondesse e continuou. — Felizmente, já chegou às lojas uma boa parte da coleção para a nova estação, por isso estou certa de que vamos conseguir encontrar tudo de que você precisa. Quanto ao seu vestido de noiva...

O coração de Hinata deu um salto no peito. Não esperara que Gaara ressaltasse a necessidade de um vestido de noiva.

— Vai ser apenas uma cerimônia simples, no cartório — respondeu.

— Mas é o dia de seu casamento, e uma mulher jamais esquece o que estava usando no dia em que se casou com o homem que ama — insistiu a outra mulher.

Hinata lembrou a si mesma que a consultora de estilo estava pensando apenas no lucro que teria com as compras. Não havia razão para ter uma reação tão emocional às palavras dela. Afinal, não amava Gaara e ele certamente não a amava. O que iria ou não usar não teria a menor importância, já que nenhum dos dois gostaria muito de se lembrar, no futuro, do dia de seu casamento. Esse pensamento fez com que ela sentisse a garganta apertada e uma dor indesejada no peito. Por quê? Tinha 23 anos e era mãe de dois filhos com cinco anos de idade. Há muito tempo já abandonara qualquer ilusão a respeito de romance. Preferia se apoiar em um tipo de amor mais sensato e duradouro, como o dos filhos e das irmãs, que não trazia as desilusões do amor romântico.

Sem nem saber direito como isso havia acontecido, Hinata adquiriu um guarda-roupa muito maior e mais caro do que desejava. A consultora de estilo insistira, de maneira educada e agradável, mas ainda assim determinada, que tinha instruções para selecionar para Hinata um guarda-roupa completo, adequado a uma grande variedade de situações. E é claro que as roupas eram um pecado de tão lindas, calças de corte perfeito, um short elegante de linho, com um detalhe em seda no cós que combinava com a blusa desestruturada que fazia conjunto com ele, vestidos fluidos e macios, de seda, tops de seda e algodão, vestidos mais formais para coquetel, junto com outras peças mais casuais, mas ainda assim assustadoramente caras, para "praia e lazer", como descrevera a vendedora. Havia também sapatos para todas as ocasiões e roupas de baixo delicadas, peças de seda e renda que Hinata quis rejeitar em favor de alguma coisa mais sensata, mas que de algum modo acabaram sendo acrescentadas à pilha que a vendedora descrevia como a dos "imprescindíveis".

Agora, faltava apenas o vestido de noiva, e a consultora de estilo levantou com um floreio um vestido creme com um casaquinho combinando e disse a Hinata, com orgulho:

— É da nova coleção de Vera Wang. Como é curto e tem um corte fantástico, é perfeito para um casamento no civil, e é claro que depois você poderá usá-lo como um vestido para coquetéis.

O vestido era lindo, elegante e muito feminino e se ajustou ao corpo de Hinata com perfeição, tornando-a mais curvilínea. A imagem que a olhou de volta no espelho era a de uma mulher que ela quase não reconhecia: alguém que ela poderia ter sido se tudo em sua vida tivesse sido diferente... Se Gaara tivesse se apaixonado por ela?

Trêmula, Hinata sacudiu a cabeça e começou a despir o vestido, desesperada para escapar da cruel realidade que representava a mulher do outro lado do espelho. Jamais poderia ser aquela mulher!

— Não. Não quero esse — falou, olhando desnorteada para a consultora. — Por favor, leve-o embora. Vou usar outra coisa.

— Mas esse ficou perfeito em você... Hinata continuou a negar com a cabeça.

E já estava no trocador se vestindo quando a outra mulher reapareceu, carregando um casaco cor de marfim, de aparência quente e aconchegante.

— Quase me esqueci de lhe entregar — ela falou. — Seu futuro marido disse que você havia esquecido seu casaco em casa e que iria precisar de alguma coisa quente para usar enquanto estivesse em Londres.

Hinata não conseguiu dizer nada e apenas pegou o casaco da mão da mulher. Era forrado de lã macia e tão bem cortado quanto elegante.

— É de uma estilista nova — informou a consultora de estilo. — É italiana, treinada por Prada.

Hinata inclinou a cabeça para que a mulher não visse a emoção brilhando em seus olhos. Gaara a protegera de uma vergonha pública dizendo que ela havia esquecido o casaco, mas a humilhara secretamente. Afinal, Hinata sabia que ele imaginara que ela não tinha um casaco para o inverno e por isso tremera de frio na véspera, enquanto caminhavam no parque.

Enquanto voltava para o hotel, aconchegada ao casaco novo, ela olhou agora com tristeza para seu reflexo nas vitrines, pensando que as roupas novas eram só uma fachada, assim como seria seu casamento com Gaara.

Para ela, sim. Mas não para os gêmeos. Eles jamais deveriam saber como se sentia. A última coisa que queria para eles era que crescessem, achando que ela se sacrificara por eles. Os meninos precisavam acreditar que era feliz.

Hinata tivera a intenção de ir diretamente para a suíte, mas o olhar de avaliação que percebeu em uma mulher no saguão, que logo desviou o olhar com um sorriso satisfeito, como se Hinata não fosse uma competidora à altura, mexeu com seu orgulho e ela resolveu que ao invés de se esconder, iria sentar para tomar um chá.

Pouco tempo depois, viu os filhos entrarem no salão, seguidos por Gaara. Os três estavam com os cabelos molhados, como se tivessem acabado de sair do banho. Hinata sentiu o coração acelerado e as mãos trêmulas e apesar de os meninos estarem agitados, querendo lhe contar como fora seu dia, não conseguia desviar os olhos de Gaara, que parara de andar e a encarava.

No entanto, não fora a transformação dela que o paralisara.

Aos olhos dele, o novo penteado e a maquiagem apenas haviam realçado o que ele já percebera quando ela abrira a porta para ele há poucos dias, que suas feições delicadas guardavam uma rara beleza.

Não. O que o detivera fora o sentimento de puro orgulho masculino quando vira o trio diante dele. Seus filhos e a mãe deles. Não apenas os filhos, mas os três. Eles combinavam, se pertenciam... pertenciam a ele? Gaara sacudiu a cabeça, tentando afastar aquela reação tão atávica e desconhecida. Ficou com raiva. Era tudo tão oposto ao que queria sentir! O que estava acontecendo com ele?

Enquanto isso, Hinata, ainda sensível às mudanças de sua aparência, prendeu a respiração, aguardando que Gaara fizesse algum comentário. Mas quando ele alcançou a mesa, apenas franziu o cenho e quis saber por que ela não pedira nada para comer.

— Porque eu só queria uma xícara de chá — respondeu Hinata. Ele não gostara do seu corte de cabelo? Era por isso que parecia tão aborrecido? Bem, com certeza ela não iria lhe perguntar se aprovava a mudança. Virou-se então para os filhos e perguntou:

— E então, gostaram do Museu de História Natural?

— Sim — confirmou Haru. — E depois o papai nos levou para nadar.

Nadar? Hinata olhou preocupada para Gaara.

— Há uma piscina no hotel — ele explicou. — Como os meninos vão viver em uma ilha, quero que saibam nadar.

—O papai comprou sungas para nós—contou Aiko.

— Deve haver dois adultos com eles quando estiverem em uma piscina — Hinata não pôde evitar dizer. — Uma criança pode se afogar em segundos e...

— Havia um salva-vidas a postos — Gaara a interrompeu. — Os meninos têm um dom natural para a natação. Deve ser genético, pois meu irmão fez parte da seleção grega de juniores.

— O cabelo da mamãe está diferente — comentou Haru de repente.

Hinata voltou a ficar ansiosa, imaginando que agora Gaara faria algum comentário. Mas ele apenas declarou, indiferente:

- Espero que tenha comprado tudo de que precisa, porque não haverá mais tempo para compras. Como eu já havia lhe dito, já reservei um voo para a ilha no dia seguinte ao casamento.

Hinata assentiu com a cabeça. Era tolice se sentir desapontada porque Gaara não dissera nada sobre sua nova aparência. Tolice? Ou era um risco? A aprovação ou não de Gaara não deveriam significar nada para ele.

Os meninos estavam famintos e ela estava exausta. Mas era mãe antes de tudo e precisava cuidar de suas responsabilidades, ao invés de ficar se preocupando com coisas sem importância.

— Vou levar os meninos para a suíte e pedir uma refeição para eles — ela disse a Gaara.

— Boa ideia. Preciso acabar de acertar algumas coisas com a embaixada — ele falou bruscamente.

— E quanto ao jantar? — A boca de Hinata ficou seca e o silêncio com que sua pergunta foi recebida fez com que ela achasse que havia dito alguma bobagem.

Por que a pergunta simples de Hinata trouxera de volta aquele sentimento atávico que sentira pouco antes?, se perguntou Gaara, zangado. Por um instante ele se permitiu imaginar jantando sozinho com Hinata. Só os dois? Não, é claro que pensara nos quatro, já que fora apenas por causa dos gêmeos que a trouxera de volta para a sua vida. Gaara jamais cairia nas Armadilhas emocionais de uma mulher, fossem maternais ou sexuais. Sabia muito bem que essas emoções apareciam de repente e sumiam com a mesma rapidez.

— Já combinei de jantar com um velho amigo — ele mentiu. — Não sei a que horas estarei de volta.

Um velho amigo, dissera Gaara. Mas não seria uma velha amiga? Uma amante, talvez?, se perguntou Hinata mais tarde, depois que os meninos já haviam tomado o chá e ela mesma se forçara a comer alguma coisa com eles. Sabia muito pouco sobre a vida de Gaara e sobre as pessoas que faziam parte dela. O pânico apertou seu peito.

— Mamãe, venha ver a nossa ilha — Aiko chamou, parado em frente ao laptop que tentava abrir.

— Não, Aiko, você não deve mexer nisso — protestou Hinata.

— Não se preocupe, mamãe — Haru assegurou-a, adotando uma postura masculina, tão semelhante a do pai que chegava a ser comovente. — O papai disse que poderíamos ver.

Aiko conseguira abrir o laptop; como todas as crianças, os gêmeos ficavam muito à vontade com a moderna tecnologia, e antes que Hinata pudesse dizer qualquer coisa, apareceu na tela a imagem de uma ilha no formato de um crescente, com uma longa cadeia de montanhas em um dos lados.

Anos antes, depois do seu primeiro encontro com Gaara, Hinata tentara descobrir o máximo que pôde sobre ele, pois ainda se recusava a acreditar que tudo o que teriam seria apenas uma noite.

Ela descobrira que a ilha, que ficava bem próxima à ilha de Chipre, fora invadida e conquistada várias vezes e que nas veias de Gaara corria o sangue mouro, do tempo das Cruzadas. Também ficara sabendo que a família de Gaara governara a ilha por muitos séculos e que o avô dele construíra seu negócio de navegação aproveitando as oportunidades surgidas para o setor na Segunda Guerra Mundial. Quando finalmente aceitara que a noite que passara com ela não significara nada para Gaara, Hinata parara de buscar informações sobre ele.

— Hora do banho — ela falou para os meninos com firmeza.

As novas roupas dos gêmeos e também as de Hinata haviam sido entregues enquanto eles estavam fora da suíte, junto com um conjunto de malas novas, e assim que colocasse os filhos na cama ela planejava passar o resto da noite arrumando-as, para que tudo já ficasse pronto para voarem para a ilha.

Mas depois que Aiko e Haru já estavam de banho tomado e acomodados na cama, Hinata se viu atraída para o computador, para a imagem sedutora da ilha.

Quase sem perceber o que estava fazendo, ela clicou no pequeno ponto vermelho que representava a capital. Imediatamente apareceram várias imagens em miniatura. Hinata clicou na primeira delas, para aumentá-la, e viu uma fortaleza de um branco ofuscante, localizada no alto de um rochedo, sobre um mar absurdamente azul, suas torres em estilo mourisco se estendendo em direção ao céu de azul profundo.

As outras imagens mostravam lindas praias com rochedos ao fundo, pequenos ancoradouros de barcos de pesca e montanhas cobertas por flores silvestres. Isso tudo contrastava com uma moderna doca para desembarque de carga e com as pequenas cidades com prédios brancos e ruas estreitas.

Ela foi obrigada a admitir que era impossível não se sentir cativada pelas imagens da ilha, mas ao mesmo tempo teve uma aguda consciência de como a realidade ali seria diferente de tudo o que ela e os meninos conheciam. Estava fazendo a coisa certa? Não sabia nada sobre a família de Gaara ou sobre seu modo de vida, e depois que chegassem à ilha eles ficariam totalmente à sua mercê. Mas se ela não tivesse concordado em ir com eles, Gaara tentaria lhe tirar os filhos. Do modo como estavam as coisas, ao menos ela iria com eles.

Hinata voltou a olhar para o computador e subitamente não foi capaz de resistir à tentação de fazer uma busca do nome de Gaara na internet. Não estava exatamente bisbilhotando, pensou. Afinal, precisava pensar nos filhos.

Ela não sabia muito bem o que esperava encontrar, mas seus olhos se arregalaram quando descobriu que Gaara era no momento o governante da ilha, um papel ao qual era atribuído o título de Rei, embora, de acordo com o site, ele tivesse decidido dispensar esse tratamento, preferindo adotar uma abordagem mais democrática do que haviam feito seus predecessores no governo da ilha.

Ao que parecia os pais de Gaara haviam morrido quando ele tinha 18 anos, em um acidente aéreo. O avião em que estavam era pilotado por um primo da mãe de Gaara. Hinata sentiu que esbarrava em um ponto nevrálgico. Eles dois eram órfãos e seus pais haviam morrido em acidentes. Se ela tivesse sabido disso quando se conheceram... Que diferença teria feito? Nenhuma.

Gaara tinha 34 anos, ela estava com 23; ele era um homem no auge de sua energia. Hinata sentiu um arrepio correr por sua pele, como se fosse a carícia da língua de um amante. Em sua mente, no mesmo instante se formou uma imagem: a mão morena de Gaara segurando seu seio nu, a língua dele brincando com o mamilo inchado e rígido. O arrepio logo se tornou um estremecimento. Ela se apressou a afastar a imagem e fechou a tela do computador. Estava se sentindo novamente nauseada. Trêmula, foi cambaleando até o banheiro.