NARUTO NÃO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! SETE

Levando-se em consideração a situação financeira de Gaara, Hinata até esperara que eles voassem de primeira classe para a ilha. Mas jamais imaginaria que viajariam em um jatinho particular, incrivelmente luxuoso, com apenas os quatro como passageiros.

Mas foi exatamente isso o que aconteceu, e agora que os meninos haviam sido levados pelo comissário para visitar a cabine do piloto, ela e Gaara estavam sozinhos na cabine dos passageiros, com suas poltronas macias de couro creme e seus tapetes cor de marfim.

— O dinheiro para ter e manter uma coisa dessas poderia alimentar centenas de famílias pobres — Hinata não conseguiu se impedir de dizer.

O comentário dela e a acusação velada que carregava fizeram Gaara franzir o cenho. Jamais ouvira a mãe expressar qualquer preocupação com "famílias pobres", e o fato de Hinata ter feito isso foi como um golpe, leve, porém marcante, no julgamento que fazia dela. E Gaara não conseguiu ignorar isso, por mais que quisesse.

E acabou, para seu próprio espanto, defendendo sua posição para ela.

— O avião não é realmente meu. Faço parte de um pequeno consórcio de empresários que fretam a aeronave e a compartilham quando é necessário. Quanto a alimentar os pobres, na ilha nós desenvolvemos um sistema que assegura que ninguém passe fome e que todas as crianças tenham acesso à educação, com cursos técnicos específicos para desenvolver os talentos e habilidades de cada um. Também temos um sistema de saúde gratuito e um bom sistema de aposentadoria. Esses dois últimos foram implantados pelo meu pai.

Por que diabos ele achava que precisava justificar qualquer coisa que fazia para Hinata?

Já estava escuro quando finalmente aterrissaram na ilha. Uma brisa leve alvoroçava os cabelos dos meninos, que se colaram à mãe, subitamente inseguros. Depois de resolver algumas formalidades com os oficiais que os aguardavam, Gaara pegou os filhos agora quase adormecidos no colo e se acomodou com eles na limusine que os aguardava, deixando Hinata por sua própria conta.

A dor de cabeça e a náusea por sorte a haviam deixado em paz, embora Hinata ainda não se sentisse totalmente bem.

O carro desceu rapidamente por uma estrada plana, antes de entrar em outra, mais sinuosa, onde Hinata pôde ver o mar cintilando sob a luz da lua. Do outro lado, uma parede de rochas escarpadas logo deu lugar a uma antiquada muralha, com um portão que atravessaram. A limusine passou por prédios altos e entrou em uma rua estreita, que se abriu para uma praça larga, que Hinata vira na internet.

— Essa é a praça principal da cidade, com o Palácio Real logo acima — informou-a Gaara.

— É lá que vamos morar? — perguntou Hinata, apreensiva.

Gaara negou com a cabeça.

— Não. O lugar é usado apenas em ocasiões formais, hoje em dia. Depois da morte do meu avô, construí uma vila para mim, fora da cidade. Não dou muita atenção para pompa e circunstância. O mais importante para mim, assim como era para o meu pai, é a qualidade de vida do meu povo. Não posso esperar contar com o respeito deles se não dou o meu em troca.

Hinata desviou os olhos dele. Os comentários de Gaara mostravam um tipo de atitude que ela admirava... mas como poderia se permitir admirar Gaara? Já era ruim o bastante que se sentisse excitada fisicamente por ele, sem que também ficasse emocionalmente vulnerável.

— A cidade deve ser muito antiga — ela preferiu comentar.

— Muito — concordou Gaara.

Como sempre acontecia quando voltava para a ilha após ter passado algum tempo ausente, Gaara se sentia dividido por sensações opostas. Amava a ilha e seu povo, mas o lugar também guardava lembranças dolorosas de sua infância...

Na tentativa de afastar esses pensamentos, ele começou a contar a Hinata um pouco mais sobre a história da ilha e sobre as guerras persas que aconteceram ali.

— No final, uma aliança por casamento entre as forças oponentes acabou com as disputas pelas minas de cobre que temos aqui... — ele se interrompeu ao ouvir o som baixo de protesto que Hinata deixou escapar.

Ela estremeceu e foi incapaz de se conter.

— Deve ter sido terrível para as pobres noivas que eram forçadas a se casar.

— Não é um direito exclusivo do seu sexo detestar um casamento forçado — ressaltou Gaara, com a voz dura.

— Historicamente, os homens sempre tiveram mais direitos em um casamento do que as mulheres.

— A liberdade de escolha é parte da psiquê dos dois sexos e deve ser respeitada sobre todas as coisas — insistiu Gaara.

Hinata olhou para ele, incrédula.

— Como pode dizer isso depois de ter me forçado...?

— Foi você quem insistiu para que nos casássemos.

— Porque não tive escolha.

— Sempre há uma escolha.

— Não para uma mãe. Ela sempre coloca os filhos à frente de qualquer coisa.

Hinata falou com tamanha convicção que Gaara disse a si mesmo que deveria ser falsidade, e era isso o que dizia o olhar cínico que ele dirigiu a ela, fazendo com que Hinata ruborizasse ao lembrar como adormecera e deixara os filhos desprotegidos.

Gaara desviou os olhos do rosto dela, pensando, irritado, que Hinata provavelmente achava que conseguira enganá-lo alegando que a razão para insistir em se casar com ele fora o desejo de proteger os filhos. Mas ele sabia muito bem que ela acreditava que o casamento lhe daria uma boa parte da fortuna dele. E era isso o que realmente queria proteger.

Mas era inegável que Hinata era muito presente na vida dos filhos, estava com eles o tempo todo, assim como Anna(N. A. Não consegui adaptar ela aos personagens, preferi deixar como uma homenagem a mim, já que escreve da mesma forma que o meu e isso é raro de encontrar, kk) , que hoje era a governanta da vila, tomara conta dele e dos irmãos como uma mãe de verdade quando eram jovens. Ao contrário da mãe deles...

E Gaara precisava admitir que era simplesmente impossível alguém fingir ser um pai ou uma mãe atenciosos o tempo todo. Uma mulher que amava tanto o dinheiro quanto os filhos? Isso era possível? Gaara se irritou ainda mais por sequer estar se fazendo aquela pergunta. Qual era o problema com ele? Sabia exatamente quem era Hinata, então por que agora ficava procurando razões para ter uma impressão melhor sobre ela?

Gaara olhou para os filhos, que se aconchegavam contra seu corpo. Seus filhos. E ele os amava demais, não importava quem ou como era a mãe deles. E era pelo bem deles que tentava encontrar alguma coisa boa em Hinata, pelo bem deles que aquela voz interior insistia que ela era uma boa mãe. Afinal, sabia muito bem o que era ter uma mãe negligente.

Seria imaginação dela, ou os gêmeos já estavam ficando mais próximos de Gaara do que dela?, se perguntou Hinata, infeliz, enquanto olhava pela janela do carro para a estrada à beira-mar que seguiam.

Mas agora era tarde demais para desejar que Gaara não tivesse voltado para a sua vida, ela admitiu, enquanto o silêncio entre eles crescia, cheio do desprezo que Gaara sentia por ela e da sua própria culpa, que a sufocava. E fora aquela culpa por ter concebido os gêmeos tão imprudentemente que em parte a levara até ali, reconheceu Hinata. A culpa e o desejo de que os filhos tivessem o mesmo tipo de infância segura e feliz no seio de uma família, protegidos por um pai e uma mãe amorosa, que ela mesma tivera até a morte dos pais.

Do outro lado do carro, também olhando pela janela, Gaara pensava em sua própria infância e na péssima relação que sempre tivera com o avô abusivo e autoritário. A continuidade da família e do negócio foi o que sempre lhe importou de verdade. O filho e os netos eram meros peões a serem usados para favorecer seus propósitos.

Gaara crescera ouvindo o avô discutir os méritos de diversas jovens herdeiras, dizendo-lhe o quanto ele seria esperto se viesse a se casar com uma delas. Mas o que Gaara aprendera com a mãe, aliado à sua personalidade naturalmente dominadora, além do tempo que passara fora da ilha enquanto estava no colégio interno e na universidade, tornaram-no determinado a não permitir que o avô o intimidasse para que se casasse, assim como fizera com seu pai.

Os dois tinham tido muitas brigas sobre o assunto até que, farto das maquinações do avô, Gaara anunciara que toda aquela manipulação era perda de tempo, pois ele não tinha intenção de se casar. Afinal, já tinha o irmão como herdeiro.

O avô ameaçara deserdá-lo e Gaara o desafiara a seguir em frente, porque logo arrumaria emprego com um de seus concorrentes. Depois disso, a questão fora deixada de lado por várias semanas e Gaara tivera a impressão de que o avô finalmente percebera que não poderia controlá-lo. Mas então, bem na véspera de uma viagem à Inglaterra, agendada já há algum tempo, Gaara descobriu que o avô estava planejando usar sua ausência da ilha para anunciar à imprensa o iminente noivado entre Gaara e uma jovem viúva de outro proprietário de navios.

Gaara confrontara o avô e os dois haviam ficado furiosos um com o outro. O avô se recusara a recuar e Gaara o avisara de que se seguisse adiante com o anúncio público de noivado ele o negaria também publicamente.

Quando Gaara chegou a Manchester, sua raiva já esfriara e estava ainda mais determinado a viver a própria vida, quando retornasse a Grécia iria cortar todos os laços com o avô e começaria seu próprio negócio de navios de carga, para rivalizar com o dele.

E fora nesse estado de espírito, tomado por uma perigosa mistura de emoções, que encontrara Hinata. Ele estava naquela boate para se encontrar com um possível parceiro em seu futuro negócio. Enquanto esperava, recebeu uma ligação de um amigo, instando-o a não agir contra seus próprios interesses. No mesmo instante Gaara soube que de algum modo o avô soubera de seus planos, que alguém o traíra.

A fúria tomou conta dele, explodiu em suas veias até que ele já não conseguisse contê-la e se espalhou por tudo o que estivesse em seu caminho. E aconteceu de ser Hinata quem estava no caminho dessa fúria, como um sacrifício a essa raiva, totalmente disposta a permitir que ele a usasse para o propósito que escolhesse.

Tudo o que precisara fazer para atraí-la para perto dele fora dirigir-lhe um olhar longo e cínico. Hinata se inclinara sobre ele, o hálito cheirando a vodca e a pele com perfume de sabonete. Gaara se lembrou de como isso chamara a sua atenção. As outras garotas ao redor cheiravam a perfume barato.

Ele se oferecera para lhe pagar um drinque e ela não aceitara, ficara apenas encarando-o com tamanha fome no olhar que essa falta de compostura inflamara ainda mais a fúria que sentia. Mas Gaara sabia que poderia usar o corpo dela para aliviar aquela raiva da maneira mais básica que existia. Ele terminou o drinque que estava tomando, e que não era o primeiro da noite, virou-se para ela e disse bruscamente:

— Venha.

Um solavanco do caminho despertou os gêmeos e Haru perguntou se já haviam chegado, arrancando Gaara de suas lembranças do passado e trazendo-o de volta ao presente.

— Estamos quase chegando — respondeu ao filho. — Vamos entrar agora na estrada para a vila.

Enquanto ele falava, o carro fez uma curva fechada e Hinata deslizou no assento de couro, quase batendo com a cabeça na lateral do carro. Ao contrário dela, no entanto, os gêmeos estavam seguros, protegidos por Gaara, que os abraçara com mais força ainda no instante em que o carro começou a fazer a curva. Gaara amava os filhos, mas não a amava.

A dor que esse pensamento causou pegou Hinata desprevenida. Não estava com ciúme dos gêmeos, estava? E claro que não. A última coisa que queria era os braços de Gaara ao redor dela, disse a si mesma, irritada, enquanto passavam pelos portões de ferro forjado e desciam por uma alameda ladeada por ciprestes e iluminada por luzes instaladas no solo.

No final da alameda havia um espaço grande coberto de cascalho e, um pouco mais além, a vila propriamente dita, discretamente iluminada para revelar suas linhas elegantes e suas proporções modernas.

— Anna, a encarregada da casa, já estará com tudo pronto para receber você e os meninos. Ela e Vinicius, seu marido, que dirigiu a limusine, tomam conta da vila e dos jardins. Eles têm seus próprios aposentos acima do prédio da garagem, Gaara informou a Hinata quando o carro parou no terreno coberto de cascalho.

Quase no mesmo instante, a porta da frente da vila se abriu e de dentro da casa surgiu uma mulher alta e robusta, com os cabelos pretos entremeados por fios cinzentos e uma expressão serena.

Hinata sentiu uma nova pontada no coração ao ver o modo como os gêmeos automaticamente deram as mãos ao pai e não a ela enquanto caminhavam na direção de Anna. O sorriso que a mulher dirigiu a Gaara era de puro amor e satisfação, e Hinata observou divertida quando Gaara retribuiu seu abraço caloroso com óbvia afeição. Não esperava por aquilo. Anna obviamente significava muito mais para Gaara do que uma mera governanta.

Agora a mulher se inclinava para cumprimentar os meninos, sem assustá-los com abraços como o que dera em Gaara, mas esperando que eles viessem até ela, percebeu Hinata, aprovando.

Gaara deu um empurrãozinho nos filhos e lhes disse:

— Essa é Anna. Ela tomou conta de mim quando era menino e agora tomará conta de vocês.

No mesmo instante o instinto maternal de Hinata se eriçou. Seus filhos não precisavam de Anna, nem de mais ninguém para tomar conta deles. Tinha a ela. Hinata deu um passo adiante e pousou as mãos nos ombros dos filhos, mas se sentiu completamente desarmada quando Anna sorriu calorosamente para ela, obviamente aprovando, seu gesto, ao invés de considerá-lo um desafio ou um aviso.

Quando Gaara a apresentou à governanta como sua esposa, ficou claro que Anna já esperava por eles. O que Gaara teria dito para a família e para os conhecidos sobre os gêmeos? Como explicara a súbita aparição deles e dela em sua vida? Hinata não sabia, mas não era difícil perceber que Anna estava no mínimo encantada por recepcionar os gêmeos como filhos de Gaara... e que logo, logo estaria fazendo todas as suas vontades.

— Anna vai lhe mostrar a vila e providenciar para que você e os meninos comam alguma coisa — Gaara disse a Hinata.

Ele falou alguma coisa em grego para Anna, que sorriu feliz e assentiu vigorosamente, e então Gaara entrou na casa e desapareceu em uma das portas de madeira visíveis do hall de entrada.

Aquela sensação que a incomodava não era de perda, certo? Não era sentimento de abandono... vontade de que Gaara voltasse, porque sem ele a pequena família estava incompleta? Porque sem ele ela se sentia incompleta?

Assim que as palavras traiçoeiras se esgueiraram em sua mente, Hinata endireitou o corpo e tentou negá-las. Mas o pensamento deixara um eco que não seria facilmente silenciado e que a lembrava de tudo o que sofrera na outra vez em que fora tola o bastante para pensar que Gaara se importava com ela.