Capítulo XVII

Lily

Levantei no domingo de manhã com uma dor de cabeça de rachar. Podia ouvir que, lá embaixo meus pais conversavam sobre comprar ou não um novo aquecedor. Resmunguei e enfiei a cabeça sob o travesseiro, uma vez que as últimas vinte e quatro horas tinham sido terríveis.

James e Dorcas. Dorcas e James. Lily e ninguém. Deveria ser umas cinco e meia da manhã, sim, fiquei acordada quase a noite toda olhando as trincas no teto, quando percebi como estava me sentindo mal. Agora disse as palavras em voz alta, para ver se ainda eram verdade:

— Estou apaixonada por James. – murmurei — Mas ele não me ama.

Falar isso era muito mais difícil do que simplesmente pensar. Enxuguei algumas lágrimas do rosto. Ainda nem eram dez horas e eu já estava chorando. Uau, que vida, pensei ironicamente. Rolei na cama, forçando a mim mesma a repetir a verdade inúmeras vezes.

Quando já não aguentava mais meus próprios pensamentos consegui me arrastar para fora da cama. Ainda era cedo, mas não dava para deixar de lado o inevitável. Tinha de me afastar de James e teria de ser hoje.

Coloquei um jeans bem velho e uma blusa desbotada de Hogwarts. Para completar enterrei um boné na cabeça e calcei um par de tênis já bem malhado. Enquanto brigava para pentear o cabelo, decidi que iria cortá-lo, mesmo que James não fizesse questão de cobrar a aposta quando eu perdesse. Para que me importar com a aparência? A partir de então, iria passar todos os fins de semana com meus pais mesmo.

Do armário da entrada peguei uma caixa de papelão e coloquei no meio da cama, ainda desfeita. Vagarosamente, caminhei pelo meu quarto, passando as mãos em cada uma das coisas que lembravam momentos dos anos do colégio. A maioria me lembrava James, de uma forma ou de outra, e senti mais lágrimas a rolar pelo meu rosto. Precisava me livrar dessas coisas. Até mesmo a menor das lembranças que me recordasse nossa amizade seria torturante de ter por perto.

Cuidadosamente coloquei no lugar o ursinho que James ganhara para mim naquela festa do colégio, no segundo ano, e que batizei de Risadinha, porque James sempre me fazia rir.

Depois do ursinho, guardei um par de brincos pingentes de prata, que James tinha me dado em meu aniversário de dezesseis anos.

Fui até a parede perto de minha mesa e peguei a foto de James e minha no lava-rápido.

Observei nossos sorrisos, com as caras cobertas por espuma de sabão, e mais uma vez meu coração doeu. Depois de colocar a foto na caixa, fui olhar nas gavetas de roupas da cômoda. Nos últimos anos, tinha acumulado um montão de camisetas dele, que nunca me dera ao trabalho de devolver.

— Ele vai gostar de receber de volta essas camisetas. — murmurei, passando uma delas em meu rosto.

Após o que pareceram alguns minutos, a caixa estava cheia. Dei uma olhada pelo quarto, que agora tinha ficado vazio e impessoal. A maior parte de minha vida estava dentro daquela caixa de papelão. Não sobrara nada.

Peguei a caixa e empurrei para a porta do quarto.

— Adeus Risadinha. – me despedi — Foi bom conhecer você.

A Senhora Potter nem tentou me impedir quando passei por ela a caminho das escadas.

Eu estava em plena missão, e nada ou ninguém se interporia em meu caminho. As escadas pareciam mais compridas do que nunca, e o peso da caixa deixava doloridos meus braços e minhas costas.

Coloquei a caixa na porta do quarto de James. O barulho ecoou pela casa anunciando que eu estava por ali. Bati com força à porta, pouco ligando se os pais dele pensassem que eu estava doida.

— Quem é? – gritou James lá de dentro.

Sua voz era tão familiar, tão própria dele, que quase virei as costas e fui me reconciliar com meus sentimentos. Porém balancei a cabeça com toda firmeza e me afastei da tentação. Sabia que não seria fácil enfrentar James.

— Sou eu. — respondi, esperando que a voz não denunciasse meu estado.

Abri a porta e empurrei a caixa para dentro do quarto com o pé. Então entrei e cruzei os braços.

— O que foi? — James perguntou, parecendo sonolento. Seu cabelo estava todo desarrumado e tinha as cobertas enroladas pelo corpo. Mesmo assim parecia maravilhoso. Poderia perfeitamente ser o garoto de um comercial de colchões.

— Trouxe de volta as suas coisas. — falei direto. Não sabia como começaria a explicar que nós dois não poderíamos ser amigos nunca mais. — Saquei que tinha um monte de camisetas suas nas minhas gavetas.

Ele deu uma olhada no relógio.

— Você sentiu vontade de me devolver as minhas camisetas às dez horas da manhã de domingo?

— Tinha de fazer. — respondi, como se isso explicasse tudo. — Tenho certeza de que você deve estar muito cansado depois de seu grande encontro com Dorcas, então vou deixa-lo voltar a dormir.

Virei as costas, pronta para ir embora.

— Espere! — James gritou, agora bem acordado. — Será que daria pra você me dizer o que está acontecendo? Você não está agindo normalmente.

Fiquei olhando para o chão, tentando achar alguma coisa para dizer. Parecia que meu plano tinha alguns furos.

— Não podemos ser mais amigos nunca mais. — disse finalmente.

Uma vez que já tinha falado, não pude segurar as lágrimas que brotaram em meus olhos.

James estava sério, e sua aparência era tão adorável e confiável que não desejava nada mais do que me atirar em seus braços e pedir que se apaixonasse por mim. Mas meu olhar ousou em seus lábios e o imaginei beijando Dorcas. Eles provavelmente tinham arrastado a sobremesa por um tempo enorme, trocando beijos em pleno restaurante. Essa imagem me fez doer o coração.

— Por que não? — perguntou James com a voz alta e forte.

— As coisas entre nós já não são mais as mesmas. — Explodi soluçando. — Não sei como explicar isso.

Ele estava silencioso, me encarando com a boca ligeiramente aberta. Desejei que o chão se abrisse para me engolir, mas nada disso aconteceu, nem mesmo um pequeno relâmpago cruzou o espaço.

— Você e Dorcas vão formar um belo casal. – disse. — Desejo a vocês toda a felicidade do mundo.

— Dorcas e eu? Nós não...

— Não diga mais nenhuma palavra! – Gritei. — Por favor não quero ouvir nada sobre isso.

— Mas Lily, você pirou! Ou pior que isso. — ele tinha se levantado e caminhava em minha direção.

— Desculpe, James. Eu falhei como amiga e estou sabendo disso. Mas, por favor, não precisa dizer nada. Só me deixe sozinha...para sempre.

Saí do quarto e batia aporta atrás de mim. Desci a escada com o coração partido e as lágrimas embaçando minha visão.

No final das escadas rumei direto para a porta, ignorando a cara de assustada da sra. Potter. Ouvia a voz de James gritando meu nome, mas consegui bloquear o som de sua voz.

Saindo da casa, corri para o carro de minha mãe, que eu tinha estacionado na entrada da garagem. Olhando para trás, vi James parado na porta da frente. Ele sacudia o braço e pulava.

Bravamente, segui em frente.

Acelerei pela rua quieta, deixando meu coração para trás...

Apesar do dia muito frio, abri a janela do carro para deixar entrar o ar. Eu me sentia sufocada, e o vento frio era um alívio. Dirigia inconsolável, esperando me recuperar à medida que me afastasse de James.

Liguei o rádio. Uma voz grave, baixa e melodiosa, se espalhou pelo carro, e me afundei no assento, agradecida por ouvir uma outra pessoa. Eu tentava mas não conseguia arrancar da mente a voz de James me chamando.

— E agora essa bela canção antiga, "Vamos nos apaixonar", vai de Sirius para Marlene. Ele manda dizer que se divertiu muito ontem à noite e está muito feliz por finalmente conseguir pedi-la em namoro. – dizia o locutor.

Desliguei o rádio, sorrindo amargamente. A ironia era muito grande e precisei estacionar o carro para poder me recompor. Quais seriam as chances de eu ligar o rádio e ouvir uma dedicatória de Sirius para Lene? Parecia que todo mundo no Hogwarts tinha sorte no amor. Todo mundo menos eu.

Apoiei a cabeça no volante, retomando o fôlego. Estava decidida a não ir a meu baile de formatura. Não compareceria à noite de colação de grau. Dorcas e eu não deveríamos nos encontrar no Baile de Inverno. James e eu não trocaríamos presentes no Natal, nem iríamos esquiar. A partir de agora, ficaria apenas andando pelos corredores do Hogwarts como um fantasma de mim mesma.

Comecei a fantasiar sobre a possibilidade de fazer os exames antecipadamente e deixar o colégio mais cedo. Poderia me mudar de cidade, arranjar um emprego e começar uma vida nova. Já me via morando em Nova York, dançando em algum musical da Broadway.

Então imaginei uma vida nova no Meio-Oeste. Poderia me mudar para Nebrasca e me tornar fazendeira, por exemplo. Ou quem sabe chegaria dirigindo até Califórnia e me tornasse uma Hippie. Talvez até assumisse uma nova identidade, passando a me chamar Arco-Íris ou Lua.

Finalmente me sentei e enxuguei as lágrimas dos olhos. Por enquanto ainda era a velha Lily. E me sentia péssima. Meus pais não me deixariam mudar para outro país, se quer outro estado ou fazer nada do que imaginara. Eles me fariam ficar e sofrer minha pobre existência, encarando um dia após o outro.

Liguei o carro e comecei a andar. Depois de dirigir não sei por quanto tempo, fui parar na frente do Cine Tivoli. O Tivoli sempre passava filmes antigos e os clássicos do cinema aos sábados e domingos. Quando vi que Casablanca estava na sessão que começava à uma hora, entrei com o carro no estacionamento vazio.

Casablanca era o filme a que James e eu tínhamos assistido enquanto conversávamos pelo telefone em setembro último. Naquela época, nossos sentimentos ainda eram puros e descomplicados. Se pudesse fazer voltar o tempo, desfazer tudo o que acontecera desde aquela noite inocente.

Quando comprei o ingresso, a bilheteira me olhou de um modo estranho.

— A sessão demora quarenta e cinco minutos para começar. – Disse ela. — Você pode voltar mais tarde.

Concordei, embora sabendo que não teria nenhum lugar para ir. Um cinema vazio era um bom local para ficar sozinha.

— Vou esperar. — Respondi, com voz de choro.

— Está bem, querida. – concordou ela, gentilmente. — Pode entrar.

Deserto, o cinema parecia sinistro e surrealista. Assim mesmo ocupei um assento.

Arrasada, fechei os olhos, ignorando a visão das filas de assentos vazios. Se ia esperar quarenta e cinco minutos ou até o fim dos meus dias, não importava mais. A vida tinha perdido o sentido.