Capítulo XVIII

James

Fiquei em pé na porta, olhando até que o carro de Lily desaparecesse ao virar a esquina.

Minha mãe, em pé ao meu lado, parecia mais chocada do que eu.

— Mas o que foi isso? – ela perguntou.

— É uma história muito comprida. — Respondi, suspirando.

Sem dizer mais nada, subi as escadas e coloquei a caixa de papelão que Lily havia trazido em cima da cama. Com o coração partido, comecei a contemplar cada coisa que se encontrava ali dentro. Quando encontrei o Risadinha no fundo, eu o abracei e me enfiei sob as cobertas.

Não sabia o que tinha se passado pela cabeça de Lily. Será que Dorcas contara sobre nossa conversa de ontem à noite? Sacudi a cabeça. Tinha acreditado na palavra de Dorcas, quando me prometera que guardaria segredo.

Rememorei tudo o que tinha se passado desde o feriado em que fizemos a aposta. Embora nós tivéssemos brigado mais do que de costume (muito mais), nunca pensei que Lily fosse se desfazer de nossa amizade. Para mim a ideia de não sermos amigos era tão esquisita quanto a de não respirar. Nós devíamos era ficar juntos e, no entanto, agora ela estava nos separando. Por quê?

De todo meu coração, preferia acreditar que ela estivesse com ciúmes de Dorcas. Mas se fora a própria Lily quem dera a ideia de convidar sua amiga para sair. Ela queria que eu me esquecesse de Emmeline e continuasse tocando a vida. E era Lily quem estava toda entusiasmada com Amos, agindo como se o mundo tivesse vindo abaixo quando ele rompera com ela e voltara para Tanya. E mais, quando eu a havia beijado na sexta-feira, fora ela quem pusera os pés na Terra primeiro. Quando me lembro dela se lamentando por Amos, meu estômago dá voltas.

Por toda a manhã fiquei remexendo em tudo o que Lily tinha colocado na caixa para me devolver. A cada vez que olhava para a cara marrom do ursinho sentia uma pontada no coração. Lily tinha pedido que eu a deixasse em paz, e não havia mais nada que eu pudesse fazer.

Finalmente fiquei zangado. Quem ela pensava que era? Desde quando tomava decisões sobre nossa amizade, sobre nossa vida? Peguei o telefone. Iria força-la a conversar comigo mesmo que tivesse de ir a sua casa e acampar em seu quarto.

Desliguei quando a secretária eletrônica atendeu. Não sei por quê, mas a ideia de deixar uma mensagem desesperada, com a possibilidade de que ela estivesse no quarto ouvindo, era muito para minha cabeça. Não poderia forçar Lily a falar comigo. Ela simplesmente ficaria brava e me chamaria de animal. Tudo o que eu poderia fazer era... exatamente nada.

Estava em estado de choque quando o telefone tocou. Atendi ao primeiro toque, esperando que Lily tivesse reconsiderado e voltado ao normal.

— Alô, Potter? – ouvi a voz de Sirius.

— Ei, Sirius.

Meu coração desabou e comecei a procurar uma desculpa para desligar o mais rápido possível.

— Finalmente tomei coragem e fiz aquilo. — Ele comentou com entusiasmo.

— O que você quer dizer com isso? — Perguntei, massageando o pescoço com uma das mãos.

— Marlene. Ontem à noite convidei Marlene para sair. Foi demais, cara. Acordei pela manhã e disse a mim mesmo: "Sirius, hoje você vai tomar coragem e convidar a garota para garota que está fazendo pirar a sua cabeça". Então telefonei para ela, ela disse sim, e o resto é uma história romântica.

— Imagino que vocês se divertiram um bocado. — Respondi, procurando disfarçar a ironia na voz.

— Cara, foi como se tivéssemos sido feitos um para o outro. E sabe da melhor parte? – ele perguntou.

— O quê?

Apertei o Risadinha tão forte quanto pude, desejando me sentir contente por ver a felicidade de Sirius e Marlene.

— Ela me confessou que está apaixonada por mim desde o começo do semestre. Não é demais?

— É maravilhoso. – respondi.

Não podia acreditar que Sirius Black estava apaixonado. Ele sempre fora o cara que mais pegava no pé pelas minhas ideias de procurar a garota certa. Agora era quem falava pelos cotovelos sobre isso, feliz como eu nunca tinha visto.

— Quer saber o que fiz esta manhã?

— Fala.

Sirius não tinha percebido que eu não estava tão a fim de papo quanto ele.

— Liguei para uma estação de rádio e pedi ao locutor para fazer uma dedicatória. Então liguei para Marlene e disse pra ela ligar o rádio. Ficamos os dois ao telefone, a gente nem mesmo falava, apenas esperando pela música.

Sirius suspirou profundamente.

— Parece que o amor pegou você fundo. — Comentei, não sabendo bem o que dizer a ele naquele momento as declarações de amor eram para mim como uma faca cravada no coração.

— Até mesmo a convidei para o Baile de Inverno. – prosseguia Sirius. — Ei, quem sabe a gente pode formar uma dupla de casais!

— Bom, não sei se vou ao Baile.

— James, claro que você vai. Se não tiver outro jeito, você pode ir com Lily. Os dois estão sozinhos mesmo, e a maioria das pessoas acha que vocês namoram, então..

Comecei a rir, amargurado. Continuar a conversar com Sirius iria me fazer pular pela janela.

— Olha cara, minha mãe está me chamando. Mas estou realmente muito feliz por você e Marlene. Continue assim, cara.

Desliguei o telefone antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Eu tinha apenas dezoito anos e minha vida não era nada mais que dor e solidão. Deitado ali, não sabia quanto mais poderia suportar.

Não sei quanto tempo tinha se passado quando minha mãe colocou a cabeça pela porta do meu quarto. Podem ter sido minutos, horas, dias.

— Papai e eu estamos indo a um leilão. – disse ela. — Quer vir conosco?

Enfiei o Risadinha debaixo do cobertor e balancei a cabeça.

— Vou ficar por aqui mesmo.

Mamãe deu um sorriso maternal, que me fez sentir como se tivesse cinco anos.

— Está bem, querido. Mas não fique na cama o dia todo. Não é saudável.

Ela fechou a porta, e eu peguei o Risadinha de novo de seu esconderijo.

Quando ouvi a porta da garagem abrir, rolei para fora da cama. Fui ao banheiro escovar os dentes e lavar o rosto. Mas até mesmo pensar em pentear o cabelo me pareceu um esforço excessivo.

Ainda me sentindo como se estivesse em um vácuo, fui para a cozinha pegar uma xícara de café preto. Então me pus a folhear o jornal, meio indiferente, esperando tirar Lily do pensamento.

Passei pela sessão de esportes, mas assim que vi os resultados dos jogos percebi que já nem lembrava de quem tinha vencido quem no futebol. Percebi que também nem me importava com isso.

Fui para a sessão de artes. Talvez um filme me distraísse da dura realidade. Notei um grande anúncio de Casablanca. O filme estava passando no Tivoli, e a primeira sessão era à uma da tarde. Lembrei-me da última vez que havia assistido aquele clássico.

Lily já estava na cama quando telefonei avisando, mas se levantou e viu o filme inteiro.

Dei uma olhada no relógio. A sessão teria início em quinze minutos. Corri para a porta, vesti a jaqueta e peguei as chaves. Então automaticamente fui ao telefone para chamar Lily e perguntar se queria ir comigo.

Assim que toquei meu telefone, recuei. Por um instante tinha me esquecido de que a ideia de ir ao cinema era para esquecer o que tinha acontecido naquela manhã. Afastei-me do aparelho sentindo o estômago meio embrulhado. Lily tinha pedido para que não a chamasse nunca mais. Precisava me acostumar a ir ao cinema sozinho. Nenhum dos meus amigos apreciava os encantos de um filme em preto e branco.

Dirigindo até o cinema, saquei que assistir Humphrey Bogart e Ingrid Bergman não ia contribuir para afastar Lily de meus pensamentos. Ainda mais sabendo que ela chorava na parte em que Sam toca As time goes by para Ilsa...

Comprei a entrada, de qualquer jeito. Nada iria me distrair e fazer esquecer Lily, então achei que era melhor esconder minha depressão na escuridão do cinema.

— Você tem um encontro com alguém aqui? – a senhora da bilheteria perguntou enquanto me dava o troco.

— Não, muito pelo contrário. – respondi.

Ela fez que não se importava.

— Deve ser alguma coisa no ar hoje. — Observou, quase que para si mesma.

— Acho que sim. — Concordei, sem saber do que ela estava falando, e pouco me importando também.

Como já estava atrasado mesmo, fui comprar pipoca. Não tinha comido nada o dia inteiro, e o estômago estava reclamando. Não tinha certeza se conseguiria comer todo o pacote, mas por via das dúvidas pedi manteiga extra.

Lá dentro do pequeno cinema meio vazio, Humphrey Bogart estava na tela e havia música ao fundo. Naquele momento me identifiquei com Bogart e seu personagem Rick. Rick havia perdido seu único e verdadeiro amor e agora estava sendo forçado a viver uma vida sem sentido. Era sempre muito frio e intocável, porque não se importava com nada.

Decidi ser como ele dali em diante, um declarado macho man que vai pela vida afora sem ser afetado por emoções ou desejos.

Perdido em meus pensamentos trágicos, esperei que meus olhos se acostumassem com a escuridão. Caminhei devagar, procurando um lugar não muito cheio de gente. Queria ficar sozinho se por acaso viesse a ter um chilique.

Quando cheguei à terceira fila do corredor, meu coração pareceu querer sair do peito. Um cabelo ruivo com jeito conhecido estava a poucas fileiras à minha frente. Parei, quase derrubando o saco de pipoca.

Com uma das mãos esfreguei primeiro um olho e depois o outro. Achei que era alucinação. Quais seriam as chances de Lily estar sentada bem a minha frente, quase como se soubesse que eu viria encontrá-la?

Fechei os olhos por um momento e, quando abri, ela ainda estava ali. Quando recomecei a andar, não conseguia controlar o sentimento de que, ao contrário de Rick na tela, meu romance poderia ter um final feliz.