Disclaimer:
Essa é uma história original (minha!). Por favor, não copie.
Essa história também está sendo postada no canal em Inglês; Se desejar traduzir para algum outro idioma, checar comigo primeiro.
Obrigada e boa leitura.
CAPÍTULO 3
Andando apressadamente pelos corredores de forma desajeitada por causa das algemas em seus pés, Calisto equilibrava com dificuldade uma pesada bandeja de ouro repleta de frutas, pães e guloseimas. Ela parou em frente a uma grande e espessa porta de madeira com uma grande cabeça de dragão cuspindo fogo entalhada.
Quase derrubando a bandeja no processo, ela equilibrou tudo na mão esquerda e bateu com força na porta duas vezes com a outra mão.
"Entre." Uma voz masculina e fria soou de dentro da câmara. Calisto empurrou a porta com dificuldade e entrou.
"Você demorou hoje, Calisto." A câmara estava escura e Calisto não podia ver onde ele estava. Ela se sentiu tremer por dentro, mas adentrou o quarto.
"Perdão, mestre. Deseja que eu abra as cortinas?"
Silêncio.
"Mestre?" Calisto, ainda com a bandeja em mãos indagou com a voz já trêmula. "Ele vai me castigar? Por favor, Deus, por favor. Não deixe que ele me faça mal." Ela repetia em pensamento como um mantra.
"Não. Assim está bom. Deixe o café da manhã em cima da mesa." - A voz grave e fria do mestre soou novamente. Pausada e baixa.
Calisto já possuía o mapa do quarto em sua cabeça, aproximou-se da mesa como se conseguisse ver aonde ia. Depositou a bandeja e encaminhou-se para a porta.
"Deseja mais alguma coisa, mestre?" Ela perguntou obediente, rezando por uma negativa.
"Traga minha irmã." Calisto curvou-se em uma reverência e saiu do quarto fechando a porta.
No salão de treinos, Miaynore praticava com seu bastão. Dois outros homens a acompanhavam no treino. Ela girava o bastão com a mão direita e passava por trás do corpo para a mão esquerda, ainda girando. Fez esse movimento mais algumas vezes antes do homem da esquerda investir contra ela. Ela bloqueou o golpe, deu um passo para trás e alavancou a parte debaixo do bastão para cima de encontro com o queixo do homem. Ele foi ao chão inconsciente.
O segundo procurava por uma brecha para investir, mas a postura dela não dava nenhuma abertura. Ele continuava parado, com os pés levemente separados, joelhos flexionados e o corpo inclinado para frente. O homem parecia pronto para fugir dali. Miaynore decidiu por ele e começou a correr em sua direção. O homem arregalou os olhos e tentou se defender de um golpe que nunca veio. Miaynore fingiu investir com o bastão em seu rosto, mas antecipou um pouco e dirigiu o bastão ao chão. Apoiando-se nele, jogou o corpo e, enquanto o homem posicionava os braços para defender o rosto, ela chutou seu abdome, usando os dois pés, com força para longe.
Calisto chegou ao salão no mesmo momento em que o homem voava em direção à pilastra do seu lado esquerdo. Ela ignorou como se já estivesse acostumada àquilo.
"Minha senhora. Lorde Aru requisita sua presença." Murmurou a serva com voz baixa e pose servil. O corpo ereto, mãos postadas à frente do corpo unidas pelos dedos, sem nunca olhar diretamente para Miaynore.
"Não estou disponível." Disse Mia de mau humor. Calisto levantou os olhos timidamente com o rosto contorcido em agonia. "Por favor, minha senhora. Não me deixe voltar até ele com uma resposta negativa."
Miaynore olhou para ela com pena. Seu irmão não iria gostar… E como eles não tinham permissão para lutar, ele iria descontar sua frustração em Calisto. "Vamos." Calisto sorriu soltando o ar aliviada. "Obrigada, minha senhora."
Pelos corredores, os escravos saíam apressadamente do caminho, baixavam o olhar e faziam reverências enquanto Miaynore marchava largamente na direção do quarto de Aru com Calisto um pouco mais atrás de si, seguindo-a apressadamente com um pouco de dificuldade. Ao chegarem, antes que Calisto pudesse bater à porta, Miaynore irrompeu no quarto.
"O que você quer?" Ela disparou.
Uma risada baixa e debochada que vinha do fundo da garganta ecoou pelo quarto. "Isso são modos de falar com seu irmão mais velho, irmãzinha?" A ameaça velada de Aru não passou despercebida por Mia. Ela permaneceu em silêncio encarando-o no escuro.
A escrava tremia atrás de Miaynore. "Você já pode ir, Calisto." Disse Mia com voz baixa e suave olhando para a outra por cima do ombro. Calisto ia se retirando andando de costas, quando Aru berrou bravo "Eu não disse que ela podia ir!". Calisto congelou no lugar. Suas mãos começaram a tremer e olhos encheram imediatamente d'água.
"Ela me trouxe aqui, Aru. Você não precisa mais de seus serviços." Miaynore disse colocando-se à frente de Calisto como um escudo, quase como se o gesto pudesse impedir seu irmão de ferir a pobre escrava.
"Você não sabe disso." Aru disse aproximando-se. Ele sorriu afetadamente e retomou "Venha. Tome café da manhã comigo. Faz tempo que não conversamos, irmãzinha."
Miaynore odiava quando ele a chamava de irmãzinha.
"Já tomei meu café. Ao contrário de você, não finjo dormir até metade do dia." Mia retrucou de má vontade.
"Não quero comer sozinho hoje. É você ou Calisto, irmãzinha." Aru sorriu voltou a sorrir de forma afetada. "Abra as cortinas, por favor, Calisto." Miaynore se rendeu. Aru alargou ainda mais o sorriso. Era tão divertido dobrar sua irmã às suas vontades usando os escravos. Sempre funcionava.
Eles se sentaram à mesa e Calisto começou a servi-los. Era uma pequena mesa redonda de mármore escuro, assim como quase tudo no quarto de Aru. E no próprio Aru. Sentados um de frente para o outro, eles se encaravam. Aru sorrindo e Miaynore de carranca fechada. Eles eram parecidos. Cabelos escuros compridos, pele muito pálida, feições delicadas e orelhas pontudas características dos elfos. Entretanto, eram meio-elfos. A única diferença eram os olhos. Miaynore possuía lindos e brilhantes olhos azuis, ao passo que Aru possuía os olhos de sua mãe. Um tom caramelo avermelhado que dava a impressão de que seus olhos estavam em chamas. Calisto terminou e prostrou-se mais afastada segurando uma jarra com vinho.
"Como vai a vida, irmãzinha?" O mais velho perguntou colocando uma uva na boca. "O de sempre." Ela respondeu.
Silêncio.
Aru voltou os olhos para a janela encarando o horizonte e disse "Quarenta."
Miaynore o olhou confusa, mas não disse nada esperando que ele continuasse. Ele se voltou para ela, ergueu a taça de vinho como se fizesse um brinde e bebeu um gole encarando-a o tempo todo.
"Hoje é seu aniversário, Aru?" Como ela não havia se lembrado? Bem… Não é como se fossem próximos ou amassem um ao outro. Ele assentiu. "Meus parabéns, irmão." A palavra "irmão" saiu forçada de sua garganta. Não estava acostumada a ser familiar com ele. Desde que podia se lembrar, Aru nunca havia sido o mais amoroso dos irmãos. Com certeza ele não ganharia o prêmio de "Melhor Irmão Mais Velho do Ano". Principalmente após abandoná-la com 3 anos de idade, chorando e com fome, em uma floresta cheia de Orcs.
"Obrigado."
Silêncio.
"Cante, Calisto." Aru pediu. O que pareceu muito estranho para as duas. A entonação era diferente. Ele não estava ordenando. Estava realmente pedindo que Calisto cantasse para ele. Elas se entreolharam rapidamente e Mia assentiu para ela como um encorajamento.
Era aniversário do mestre. Uma canção alegre talvez? Ele não gostava de canções alegres. "Oh, talvez…" Calisto deixou sua voz melodiosa ecoar dentro da câmara. Uma canção sobre piratas explorando o mundo e vivendo aventuras. Aru recostou-se na cadeira e fechou os olhos apreciando a voz de Calisto, enquanto Mia beliscava um pão. A canção chegou ao fim e Calisto parou de cantar. Imediatamente, Aru lançou atirou em seu rosto um pesado castiçal. "Não me lembro de ter mandado você parar, Calisto." ele disse com voz baixa e tranquila, ainda que ameaçadora, como se nada tivesse acontecido. Para ele, nada tinha acontecido. Miaynore saltou na cadeira assustada. Ia levantar-se para ajudar a escrava quando percebeu o olhar de Aru para ela. Voltou e sentou-se na cadeira novamente.
Calisto começou outra canção com a voz baixa e trêmula. Sua sobrancelha sangrando. "Não, não, não. Essa não é a escrava que eu escolhi para me entreter. Sua voz soa horrível, querida. Vamos. Cante." Aru ainda encarando Mia. O sorriso afetado ainda no rosto. Calisto começou a ficar nervosa. Desafinou e errou a canção. Aru se levantou e Miaynore imediatamente se levantou com ele pronta para proteger Calisto. Não o deixaria intimidá-la novamente.
Ele fez menção de mover-se na direção da escrava quando Mia o interrompeu "Aru... Irmão. O dia está bonito hoje. Por que não damos uma volta? Uma corrida pela floresta dos Orcs? Faz tempo que não competimos, não é? Se bem me lembro, você perdeu da última vez." Ele voltou-se para ela "Se eu bem me lembro, você me envenenou e me deixou para trás." Eles se encararam.
"Chega de reunião familiar. Saia Miaynore." Ele recomeçou a andar na direção de Calisto, que agora estava encolhida no chão chorando olhando desesperada para Miaynore. "Não esqueça de fechar a porta ao sair."
Miaynore sentiu um desespero subir pela garganta. "Ele vai matá-la." Ela tentou pensar em algo mais enquanto o observava aproximar-se da serva. "Aru, por favor, não. Deixe-a ir. Não a machuque." Ele gargalhou.
"Eles estão aqui para isso, irmãzinha. Nosso entretenimento."
Miaynore sentiu que ia vomitar.
"Saia, junte-se a mim, ou junte-se a ela. Bebê." Ele sibilou com a voz carregada de malícia e sarcasmo.
Miaynore correu para fora do quarto enquanto ouvia a risada perversa de Aru ecoando nos corredores da fortaleza misturada aos gritos de socorro e desespero de Calisto.
Nunca mais viu Calisto novamente.
