Capítulo 5 – A morte da Premiada.

JUNTOS NO MESMO CAMINHO

Dois dias havia se passado. Dois dias de puro tédio para Sakura que só havia saído de seu quarto para ir à cozinha comer, e no banheiro para fazer suas necessidades. Não havia saído da casa para tomar um ar puro e ouvir o canto dos pássaros e a brisa suave da manhã, ou da tarde. O tédio era eminente, e havia atingido o estágio cem.

O dia clareava lá fora, fazendo assim com que os animais despertassem para mais um dia na fazenda, e não era diferente para o despertador natural que durante o seu tempo de vida não havia deixado ninguém na mão.

O galo com penugens vermelhas e pretas cantava em cima de uma cerca velha de madeira, cumprindo seu trabalho diário e despertando todos na fazenda, assim como Sakura.

A garota rolou na cama, irritada com o maldito animal que estava acabando com o seu sono.

Aquilo era um pesadelo.

Abriu os olhos preguiçosos, percebendo o quarto ainda pouco escuro, mas o céu lá fora - que ela via por sua janela aberta - estava ficando mais claro.

Bufou, escutando novamente aquele animal dos infernos soltar aquele canto agudo.

— Que inferno. — ralhou, ficando de bruços e colocando o travesseiro na cabeça, tentando voltar a dormir, mas novamente o galo voltou a cantar.

Grunhiu irritada, ficando de barriga para cima, seu travesseiro caiu no chão. Pegou o celular que estava na mesinha ao lado e viu as horas. 5hs e 45min.

— Galo filho da puta. - murmurou impaciente, deixando o celular em seu lugar e voltou a tentar dormir.

Era o seu terceiro dia na fazenda e era a terceira vez que ela se acordava com aquele bicho, parecia que fazia de propósito só para irritá-la de manhã. Ela não precisava acordar às cinco da madrugada com barulhos de galos ou outras coisas na sua casa de Tóquio. E mais uma vez amaldiçoou sua mãe por largá-la naquele fim de mundo.

Tentou voltar a dormir, mas já era tarde, havia perdido o seu precioso sono. Prendeu um grito irritado que queria escapulir por sua garganta e tentou se acalmar. Seus olhos ardiam levemente, odiava acordar cedo.

Ficou naquela cama olhando para o teto por algum tempo, vendo seu quarto ficar cada vez mais claro até não aguentar mais.

Bufou pela segunda vez e resolveu sair daquela cama, suas costas estavam começando a doer. Abriu o guarda-roupas com certa ignorância e tirou um short jeans folgado e rasgado que batiam no meio das coxas e uma camiseta preta de algodão com uma estampa de um revolver. Pegou sua toalha e marchou para fora do quarto até o banheiro. Levou a mão na maçaneta e percebeu que estava trancada, e logo uma voz familiar soou de lá dentro:

— Tem gente!

Bufou mais uma vez e encostou-se à parede e fitou o chão com uma cara emburrada. Além de acordar cedo ainda tinha que esperar para entrar no banheiro, e ainda por cima era o babaca do enteado de seu pai.

Não demorou e logo Sasuke abriu a porta. Seus olhos ergueram para o garoto que estava com os cabelos molhados, pingando sobre a camiseta de um branco amarelado. Até que ele tinha músculos, pensou, e logo seus olhos focaram na expressão calma de seu meio irmão.

Sasuke não era diferente, estava surpreso por vê-la de pé tão cedo, e surpreso por vê-la pela primeira vez sem aquela maquiagem pesada. O rosto claro com algumas pintinhas de sarda por debaixo dos olhos que estavam mais verdes, os cabelos róseos bagunçados e mal cortados não ocultava sua aparência de menina angelical, mesmo que seu cenho estivesse franzindo.

Ela era... linda.

— O que você está olhando, babaca? - a voz malcriada de Sakura havia acabado com todo o encanto.

Onde diabos aquela garota tinha de angelical? Só se fosse à cara, pois a alma era de um demônio.

Uniu levemente as sobrancelhas.

— Você é sempre mal-humorada desse jeito? - perguntou, desviando agora sua atenção para as vestes da garota.

Ela usava um pijama preto com estampas de caveirinhas. Ele se perguntava o que aquela garota via de bonito em ter roupas com estampas de crânios. Só podia ser coisa de gente da cidade grande.

— Você dá para sair daí? - Sakura ralhou, estava irritada e desconfortável com o olhar do garoto em seu corpo.

Sasuke ergueu seu olhar para a menina que era bem menor que ele, mas tinha um gênio de cão.

A garota estava arisca.

— Você não sabe o que é educação? Um simples, por favor? - ele questionou, arqueando as sobrancelhas e a olhando de cima para baixo.

Sakura uniu mais o cenho, crispando os lábios.

— Vai se foder.

Em seguida empurrou o rapaz com o ombro para que se afastasse da porta do banheiro, fazendo com que o mesmo tropeçasse nos próprios pés, mas manteve o equilíbrio. Ela entrou no banheiro, batendo a porta com força.

Sasuke voltou seu corpo para a porta fechada com as sobrancelhas unidas. Que garota grossa.

— Além de mal-educada é boca suja. - ele disse alto o suficiente para que ela ouvisse, mas não obteve respostas.

Suspirou revirando os olhos, e foi para o seu quarto.

Sakura resmungava enquanto tirava suas roupas e entrava no box. Deu um gritinho agudo quando a água gelada bateu em seu corpo quente.

— Mas que merda, além de perder meu tempo nesse fim de mundo, não tem chuveiro quente nesse bosta. - reclamou enquanto voltava para debaixo da água gelada que caía do chuveiro de plástico.

Tomou um banho rápido e logo saiu do box, se enrolando na toalha. Vestiu suas roupas, sentindo sua pele ficar arrepiada de frio, e fez sua higiene pessoal. Saiu do banheiro e foi para o seu quarto, jogou a roupa de dormir na sua cama bagunçada e ficou de frente a sua penteadeira.

Sua imagem sem maquiagem refletiu no espelho redondo, odiava aquela expressão de garota pirralha que ela via, estava se sentindo humana. Sorriu com esse pensamento, e pegou o lápis preto e começou a delinear seus olhos, pois só assim ela se sentiria bem com ela mesma.

Sasuke sentou-se à mesa posta, sentindo o cheiro de café quente que saia do coador de pano que sua a mãe preparava. Kizashi apareceu na porta dos fundos com um balde de alumínio com o leite pela metade e depositou em cima da mesa. Mikoto pegou o balde e derramou o líquido num recipiente menor.

O Haruno puxou a cadeira e se sentou na ponta da mesa retangular, seus olhos foram direto para seu enteado que havia criado como filho, assim como o mais velho que agora era um homem feito e estava numa outra cidade cursando uma faculdade.

— Sasuke. - chamou, fazendo com que a atenção do garoto que estava na manteiga que passava no pão para ele. - Quando terminarmos de comer, você alimente a Premiada e vá direto para o cercado no final das terras. Minato confirmou que vai vir hoje para nos ajudar com seu filho.

Sasuke apenas assentiu com a cabeça.

— Tá.

— Os danos da tempestade foram tão grandes assim, querido? - a voz de Mikoto soou suave, enquanto colocava a jarra com o leite quente em cima da mesa.

Kizashi fitou sua bela esposa.

— Sim. - fechou os olhos por um momento e suspirou. - Foram mais de cem metros de cerca arrancada. Temo pelos gados que possam escapar, por isso o quanto antes arrumar esse problema, melhor.

— Entendo. - ela disse baixinho. - Mas tudo vai dar certo.

Sakura entrou na cozinha atraindo a atenção de todos para si, principalmente de Sasuke que havia percebido que ela havia voltado a colocar aquela maquiagem pesada no rosto a deixando com uma expressão melancólica, e seus cabelos uma bagunça como sempre.

Kizashi não conseguiu reprimir o sorriso e a felicidade por ver sua menina ali, mesmo achando estranho ela está de pé àquela hora, já que os dois dias anteriores ela só aparecia na hora do almoço.

— Bom dia, minha filha. - a voz humorada de Kizashi soou, fazendo a garota o olhar enquanto se sentava na cadeira de frente para Sasuke.

— Bom dia. - respondeu com o tom baixo e ainda irritado.

Desviou sua atenção quando percebeu que um par de olhos negros a fitando e comprovou quando olhou para o garoto que a olhava de rabo de olho, mas logo desviram, tanto ela como ele.

— Bom dia, querida. - a voz macia e aconchegante de Mikoto soou, trazendo a atenção da garota para si. - Tem suco de laranja, leite, café, pão, queijo... você pode se servir o que mais lhe agradar.

Sakura apenas assentiu, preferindo optar pelo suco de laranja, sentindo a madrasta sentar ao seu lado.

— O que aconteceu para que acordasse cedo? - Perguntou Kizashi para a filha, enquanto levava a xícara de café na boca.

Sakura olhou seu pai e reprimiu a vontade de revirar os olhos e começar um barraco, dizendo o quanto queria que aquela fazenda explodisse.

— Agradeça ao lindo galo de vocês. - a resposta sarcástica junto com o sorriso irônico fez o mais velho erguer as sobrancelhas e Sasuke segurar um sorriso, enquanto levava o copo de leite aos lábios.

Aquela garota ainda não tinha viso nada, e aquilo era só o começo.

Depois de dias enfurnada dentro de casa, especificamente dentro de seu quarto, Sakura resolveu sair um pouco e andar na fazenda, e claro, não havia achado nada de interessante e sim um monte de mato e a natureza que a rodeava.

Ela odiava a natureza.

Entrou no curral e se sentou num reservado de feno empalhado e começou a mexer no celular. Estava se escondendo de Mya que havia resolvido mostrar a fazenda e todos os habitantes que havia nela. A pirralha falava tanto que se sentia tonta. Resolveu brincar de esconde-esconde para não ter que perder a pouca paciência e mandar a garota para o espaço. Por isso havia mandado a menina se esconder que ela iria procurar. Claro que foi uma estratégia de Sakura para cair fora.

Sentia-se entediada, não havia nada de legal que pudesse passar o tempo mais rápido, estava começando a pirar. Seu pai comentou que havia internet naquele fim de mundo, mas ainda não havia dado a senha do wi-fi. Já havia escutado suas cotas de músicas Heavy Metal no celular, ligava para Ino, mas o telefone da loira vadia - como ela chamava à amiga - estava sempre dando fora de área.

Ela tinha vontade de gritar, quebrar as coisas, para mostrar para alguém o quanto ela estava odiando aquele lugar. Ninguém a entendia, ninguém.

Um mugido alto da vaca soou atrás de si, fazendo-a dar um pulo e ficar de pé, virando seu corpo para trás, assustada.

A vaca estava atrás de um cercadinho de madeira velha a uns dois metros de distância, no fundo do curral. Não havia reparado naquele animal quando entrou no lugar.

— Era só o que me faltava. - bufou irritada, sendo alvo dos olhos redondos e grandes do animal.

A vaca mugiu novamente, alto e agudo, fazendo Sakura dá um passo para trás.

— O que foi? Você nunca viu uma garota com cabelo cor-de-rosa? - brigou com o cenho franzido, como se a vaca pudesse a entender. - Como você ver, é original.

A vaca a olhava com aqueles olhões redondos enquanto a boca remoía algo.

— Dá para você parar de me olhar?

E novamente o som alto e agudo da vaca soou mugindo.

Sakura bufou mais uma vez e deu as costas para o animal, iria sair dali e escolher um novo lugar para se esconder da pestinha de sua irmã mais nova. Ela caminhava com passos pesados e tropeçou em algo que estava ao chão, fazendo um barulho e quase foi ao chão, mas conseguiu seu equilíbrio.

— Essa porra...

Olhou para o que ela havia tropeçado, vendo um galão branco de plástico com um líquido pela metade. Agachou-se e ajeitou o galão, vendo as letras pretas escritas num papel branco colado no galão com um durex escrito: Gasolina.

Uma ideia passou pela sua cabeça, e automaticamente olhou para o animal que continuava a olhando e remoendo algo. Voltou sua atenção ao galão do chão e o pegou, ergueu seu corpo para cima e se aproximou do cercadinho de madeira que impedia a vaca de sair enquanto destampava o pequeno galão de plástico. O cheio forte da gasolina invadiu o ambiente, à fazendo espirrar.

— Você está com cede? - ela perguntou sorrindo ironicamente parando em frente à vaca.

Entornou o líquido no focinho do animal que passava a língua enquanto tentava se afastar do líquido amargo que a garota jogava.

— Isso, beba. Beba tudo sua vaca idiota.

Depois de derramar toda a gasolina do galão para a vaca beber, Sakura deu alguns passos para trás, olhando para os lados e jogou o galão num canto escondido. Ela deu um último olhar para o animal que passava a língua por seu focinho, tirando os resíduos da gasolina.

Deus as costas e saiu do curral enquanto um pequeno sorriso se abria no canto de sua boca diante da traquinagem que havia feito, e sabia que em breve a vaca iria sofrer as consequências de ter ingerido um líquido tóxico.

No final das terras da fazenda estava Sasuke e seu melhor amigo Naruto ajudando a concertar as cercas de arame que haviam sido arrancadas do temporal que teve no final de semana passado.

Naruto havia vindo com seu pai Minato dar uma força para Kizashi. Por muitos anos viveu com sua família numa casinha simples de madeira com quatro cômodos para o lado oeste da fazenda. Seu pai devia muito a Kizashi por tê-lo ajudado a conseguir com o tempo o pequeno sítio onde eles moravam hoje.

O loiro ergueu seu corpo para cima com as mãos na cintura e fitou o céu, o sol quente que queimava sua pele. Sentia suas costas doerem pelo tempo que estava envergado, colocando o arame nos pequenos troncos de madeiras.

Olhou para seu amigo sem camisa - assim como ele - que batia o martelo na madeira, socando-a mais no chão um pouco afastado. Resolveu dar-se um tempo para um descanso, que ele não era de ferro, e se aproximou com passos lentos até Sasuke que mantinha sua atenção em eu trabalho.

— Teme, eu penso que você às vezes não é humano.

Sasuke parou de martelar quando viu que a madeira estava bem enfincada na terra. Ergueu seu corpo ficando reto e olhou para seu amigo que estava se sentando no chão.

— Você que é um molenga, Naruto. - disse, tirando sua camiseta suja que estava pendurada no seu bolso de trás da calça e passou no rosto, tirando o suor.

Naruto agora se deitou no chão de terra com grama e mato, não se importando com algumas pedrinhas afiadas machucares e arranharem suas costas sem a camisa. Colocou um braço na testa para fazer sombra nos olhos.

— Eu estou acabado. - Murmurou, fazendo Sasuke o olhar e revirar os olhos.

— Ainda tem muita coisa pela frente, uns cinquenta metros para ser honesto.

Naruto resmungou alguma coisa fazendo uma careta, e Sasuke encostou o quadril na madeira redonda que havia fincado na terra e olhou as copas das árvores a alguns metros distantes, fazendo sombra.

— Você ainda não me falou sobre a sua irmã da cidade. - começou Naruto, ainda deitado, mas fitava o amigo que revirou os olhos mais uma vez.

— Ela não é minha irmã.

Naruto sorriu.

— Ela é bonita?

— Ela é maluca. - rebateu, se afastando para erguer a outra madeira caída.

Não estava afim de conversar com Naruto sobre a nova moradora da casa. Sabia perfeitamente que a mente do seu amigo era fértil o suficiente para supor coisas ou colocar coisas em sua cabeça que iria ficar martelando por semanas. Não que ele estivesse interessado naquela boca suja e bruta como um javali, mas ele tinha que admitir que ela era muito bonita.

Naruto sorriu mais, se levantou e seguiu Sasuke. Não existia coisa melhor do que tirá-lo a paciência, e o Uzumaki sentia uma vontade tentadora de fazer isso.

— Por que está fugindo do assunto? - perguntou Naruto sonsamente, vendo o outro começar a martelar a madeira.

— Naruto, temos muito trabalho para fazer do que ficar jogando conversa fora.

— Eu só quero saber se ela é bonita como o Kizashi descreve. Estou curioso.

Sasuke soltou a respiração pesada pelo nariz, e crispou os lábios, batendo com o martelo com mais força.

— Ela é maluca das ideias - começou depois de alguns minutos em silêncio. -, grossa, mal-educada e palavruda.

Naruto riu dos relatos do amigo, pelos anos que ele conhecia Sasuke sabia perfeitamente que o amigo odiava gente ma-educada e que falava palavrão. Para falar a verdade, ele nunca viu Sasuke falar nenhuma palavra feia, não que ele lembre. Sasuke era certinho demais.

— É uma dessas que você precisa para te tirar dessa sua vida chata.

Sasuke parou de bater e o olhou com o cenho franzido.

— E desde quando a minha vida é chata? - questionou. - Gosto da minha vida.

— Eu sei, senhor perfeição, mas estou querendo dizer que você precisa de algo ou alguém que te tire dessa rotina. Isso é chato.

Sasuke bufou e terminou de pregar a madeira no chão.

— Sasuke! - a voz de Kizashi soou longe, o chamando.

O moreno voltou sua atenção para o padrasto que se aproximava.

— Vá lá ao curral e traz para mim aquele saco de pregos e aquele martelo do cabo preto. O meu quebrou.

— Tá.

Sasuke deixou seu martelo no chão e se afastou com passos largos, e dez minutos depois entrou no curral e seus olhos foram à procura da caixa de ferramentas, a encontrando na entrada. Agachou-se e pegou o martelo do cabo preto e o saco pequeno de pregos pouco enferrujados, tampando a caixa em seguida e a colocando em seu lugar.

Quando ergueu seu corpo e seus olhos foram para os fundos do curral, viu a vaca Premiada de Kizashi caída no chão. O pequeno cercado que a mantinha presa estava quebrado por debaixo dela e uma parte a estripava o seu corpo.

Não era preciso chegar perto para saber que o animal estava morto.

Com os olhos assustados correu para fora do curral em direção ao cercado aonde Kizashi estava, havia deixado o martelo e os pregos para trás.

Kizashi que conversava com Minato ergueu a cabeça, franzindo o cenho quando viu seu enteado agitado enquanto se aproximava correndo.

— Sasuke, o que houve?

O garoto parou a sua frente, e apontou para trás sem tirar os olhos do padrasto, tentava tomar um fôlego.

— A Premiada... - a voz estava difícil de sair. - ela estar morta.

— O quê? - disseram Kizashi e Minato em uníssonos.

— Como assim, Sasuke? - a voz de Kizashi soou enquanto seguia em direção ao curral em passos apressados, assim como os outros dois.

— Eu não sei. Cheguei lá para pegar o que me pediu e a vi caída no chão com o um pedaço de madeira atravessado no corpo. - ele explicou.

— Ei, onde vocês estão indo? - Naruto gritou correndo em direção deles.

Minato olhou seu filho aproximando-se.

— Parece que a Premiada morreu.

— Morreu? - repetiu Naruto arregalando os olhos.

Os quatro não demoraram para chegar no curral e encontrar o animal morto no chão, do jeito como Sasuke havia descrito.

Kizashi se aproximou de sua vaca favorita que por anos ganhava prêmios em festivais da região, e o cheque generoso. Tocou o animal constando o corpo frio e sem vida. Fechou os olhos, suspirou pesadamente e se perguntava; como aquilo foi acontecer?

Minato se aproximou e pôs uma mão no ombro do amigo.

— O que fazemos agora, Kizashi?

O Haruno abriu os olhos e voltou a olhar o animal.

— Vamos levá-la a um abatedouro o mais rápido. - ele respondeu, sentindo uma dor no coração.

— Então eu vou pegar a caminhonete na minha casa.

Kizashi apenas assentiu com a cabeça, seus olhos estavam em sua Premiada desfalecida.

Minato se afastou e olhou o filho que estava na porta junto de Sasuke.

— Vamos Naruto.

O garoto assentiu com a cabeça e seguiu o pai, saindo do curral.

Sasuke podia sentir a dor de perder aquele animal de grande porte, e sabia perfeitamente o quanto seu padrasto adorava e zelava por aquela vaca. Ele deveria estar desolado.

Aproximou-se de Kizashi com passos cautelosos e parou ao seu lado, e olhou o animal morto.

— É uma pena Kizashi.

O mais velho apenas assentiu com a cabeça.

— Sim, mas não podemos fazer nada.

O garoto olhou o mais velho.

— O que será que aconteceu para ela morrer tão de repente? - perguntou, unindo as sobrancelhas com um ar sério e voltar a olhar o animal.

Se lembrava perfeitamente que a vaca estava em bom estado quando ele a alimentou de manhã antes de ir para os cercados. Não conseguia formular uma teoria para aquele desastre.

— Eu não sei, mas descobriremos quando chegarmos ao abatedouro.

Sasuke apenas assentiu com a cabeça, concordado.

— Vamos precisar de corda firme para suspendê-la e colocá-la na caminhonete.

— Tudo bem, eu vou pegar as cordas. - disse o garoto se afastando e preparando tudo, antes da chegada de Minato com a caminhonete.

Kizashi apenas suspirou mais uma vez. Nada poderia ser mais feito, a não ser o dinheiro que ganharia no abatedouro.

Mikoto estava limpando os móveis da sala, enquanto ouvia o som dos desenhos que Mya assistia deitada no sofá. Já fazia mais de quatro horas que Kizashi havia saído para a cidade junto de Sasuke, Minato e Naruto levando a vaca Premiada ao abatedouro. Ela sentia tanta pena do marido quando viu sua expressão desolada por ter perdido seu animal favorito, mas ela não podia fazer nada a não ser o consolá-lo.

O frango que ela havia colocado para assar fazia o cheiro bom invadir por toda casa e logo ela teria que dar uma olhada. Sakura havia se trancado no quarto depois de sua expedição pela fazenda com Mya. Percebeu a garota estranha enquanto subia as escadas apressada, mas resolveu deixar para lá e proibiu Mya de ficar a perturbando.

O telefone residencial começou a tocar. Correu para atender, poderia ser uma ligação de seu marido, mas a voz feminina pouco conhecida soou do outro lado.

— Alô?

É a Mebuki... estou falando com a Mikoto?

A mulher percebeu a voz da outra um pouco insegura.

— Sim - respondeu com a voz simpática. -, como vai Mebuki?

Bem, na medida do possível. — pausa. — O Kizashi está?

— Não, ele foi à cidade. - Mikoto mesmo tentando não transparecer, se sentia um pouco desconfortável com Mebuki.

Ela era a ex-mulher de seu marido.

Ah entendo, e a Sakura?

— Ela está no quarto, você quer falar com ela?

Sim, por favor.

— Só um minuto.

Mikoto subiu as escadas e bateu a porta da garota e esperou, mas não ouviu uma resposta. Levou à mão a maçaneta e a girou, abrindo-a. Encontrou a garota sentada na cama com as costas na cabeceira, com os fones no ouvido e os olhos fechados. Ela escutava os chiados da música barulhenta enquanto se aproximava.

Levou uma mão a perna da garota que se mexia no ritmo da música.

— Querida...

Sakura abriu os olhos e levou um pequeno susto por ver a sua madrasta ali no seu quarto. Franziu o cenho tirando os fones do ouvido.

— O que foi?

A mais velha ergueu o telefone para ela.

— Sua mãe.

Sakura pegou o telefone e esperou até que Mikoto saísse para poder levar ao ouvido.

— Mãe?

Olá filha, como vai? — a mulher do outro lado da linha perguntou, com um tom calmo, porém cauteloso.

Sakura segurou o telefone no ouvido agora com as duas mãos.

— Mãe... Mãe por favor, me tira desse lugar. Me tira daqui por favor. - a voz da Haruno era desesperada, suas mãos agora tremiam enquanto implorava.

Sakura...

— Mãe, eu juro que eu não vou mais te causar problemas. - ela continuou, interrompendo a outra. - Eu vou me comportar, eu juro. Vou ficar quietinha, você não vai nem perceber minha presença.

Sakura, esse tempo na fazenda vai fazer bem a você.

— Não vai! — gritou, sentindo os olhos lacrimejarem. - Mãe eu estou sentindo que estou ficando louca... já estou enlouquecendo. Por favor, por tudo quanto é mais sagrado mãe, me deixa voltar para casa. - a voz ficou mais desesperada, misturando com as lágrimas que caíam de seus olhos.

Sakura você...

— Olha, eu posso dar um jeito e comprar uma passagem de ônibus até Tóquio. - a interrompeu novamente. - Posso pedir algum dinheiro emprestado com o meu pai, ou posso simplesmente pedir carona... e-eu dou o meu jeito - sorriu chorosa. - Você não vai precisar se preocupar...

Não. — a voz cortante de Mebuki deu um basta. Ela não podia deixar que Sakura voltasse, sabia que o que ela falava era da boca para fora. — Você não pode voltar.

A expressão de Sakura estava incrédula.

— O quê? Você não pode fazer isso comigo!

É para o seu bem.

— Meu bem? - a expressão incrédula da garota deu lugar a uma de ódio. - Você está acabando com a minha vida!

Eu sinto muito.

— Vai pro inferno então! - gritou, jogando o telefone na parede e o despedaçando quando caiu no chão.

As lágrimas desciam por todo o seu rosto, chorava com a raiva que sentia de sua mãe idiota. Jogou-se de cara no travesseiro que abafou seu berro estrangulado.

Sua mãe só podia a odiar para largá-la naquele fim de mundo. Sentia que não iria aguentar o verão inteiro naquele lugar, seriam dois longos meses naquele lugar abandonado, naquele mato, naquela roça.

Mikoto entrou no quarto da menina depois do barulho que havia escutado lá embaixo e os gritos de Sakura. Ela estava deitada de bruços com a cara no travesseiro, e pelo sobe e desce de suas costas percebeu que a mesma estava chorando.

Aproximou-se com passos cautelosos, viu o telefone branco espatifado no chão, mas voltou à atenção para a menina. Sabia que a garota tinha um gênio difícil, mas sabia lhe dar com isso, afinal, seus dois filhos mais velho - principalmente o mais novo - eram geniosos.

Sentou-se na ponta da cama, e tocou com a mão as costas de Sakura que não se moveu de seu lugar. Ela não queria fazer mais nada, apenas queria ficar daquele jeito até morrer.

A mão de Mikoto subiu e agora afagava os cabelos embaraçados da Haruno. Ficou nesse gesto carinhoso por algum tempo.

Sakura apertou mais os olhos, não conseguiu evitar sentir o aconchego com aquele carinho em seus cabelos. Seu coração se acalmava aos poucos, assim como ela estava se acalmando, soluçava baixinho, mas não chorava mais.

Mikoto não precisava dizer nada, apenas demonstrava com gesto de carinho que Sakura não estava sozinha.

Depois de mais algum tempo naquilo, Sakura resolveu virar seu corpo para cima. Seus olhos estavam vermelhos assim como seu rosto com vestígios de lágrimas. Fitou o rosto sereno e tranquilo de sua madrasta que a observava abrindo os braços.

— Vem.

Sakura processou por um segundo o que ela estava fazendo, mas a angustia que sentia no momento com aquela sensação de abandono era mais forte para não pensar duas vezes e aceitar o abraço aconchegante de Mikoto. E por um segundo ela sentiu aquela sensação de que estava protegida.

Sentiu as lágrimas voltarem a cair novamente, molhando seu rosto e a roupa de sua madrasta, mas parecia que a outra não se importava.

— Shiii... - embalou Mikoto, como uma verdadeira mãe. - Vai ficar tudo bem, querida.

Sakura chorou mais.

— Por que ela me odeia? - a pergunta veio através de soluços.

Mikoto não precisou de muito para entender a quem a garota se referia. A abraçou mais, fazendo Sakura deitar a cabeça contra seu peito e sentir seu cheiro de algodão e Sávia. E naquele momento descobriu que Sakura era uma garota carente que precisava de carinho e muita atenção.

— Ela não a odeia, querida. – arfava o cabelo da Haruno. – Sua mãe só quer o seu bem.

— Mas eu não quero ficar aqui. – Sakura disse com a voz baixa e chorosa, fungou em seguida - Eu quero voltar para casa.

— Pense no lado positivo, você vai poder passar um tempo com seu pai que a ama muito. - Mikoto afastou um pouco a garota para poder olhar seus olhos marejados e vermelhos. - Ele fala sempre com muito orgulho de você para todo mundo o quanto te ama e que você é a alegria de sua vida, sua pequena primogênita bonequinha. - sorriu lembrando-se das palavras do marido. - Aqui pode ser o fim de mundo ou a roça, diferente da cidade onde está acostumada, mas todos aqui querem seu bem.

Sakura apenas engoliu a pouca saliva de sua boca, os lábios entreabertos.

Mikoto continuou:

— Dê uma chance a seu pai, você vai deixá-lo muito triste se for embora. Ele está radiante por você está aqui. Ele só fala em você.

Sakura soltou o ar pela boca e sorriu pouco irônica, se desfazendo do abraço da mulher e secou os olhos com as costas da mão.

— Eu só sei causar problemas. - murmurou, quando processava o que Mikoto havia dito.

— É só não aprontar. - sorriu, fazendo a menor sorrir debochada. - Dê uma chance a ele, Kizashi é um homem bom e não merece passar pelo desgosto de você o rejeitar, saindo da fazenda.

A Haruno fez uma careta quando o peso caiu nas suas costas. Poderia se arrepender e sair loucona no final, mas iria fazer aquele sacrifício por seu pai. Talvez respirar dois meses de ar puro não iria danificar muito o seu cérebro, não é?

— Tudo bem.

Mikoto sorriu mais com a resposta da enteada, e Sakura desviou o olhar para o lado, domada.

— Que bom, querida, estou feliz por sua decisão. Mya te adora, sabia?

Sakura sorriu levemente lembrando-se da pirralha fofoqueira.

— O que aconteceu com seu cabelo?

A Haruno a fitou.

— Cortei quando estava vindo para cá.

Mikoto não se surpreendeu, apenas balançou a cabeça para os lados e sorriu.

— Eu posso dá um jeito. - propôs. - Acho que você não vai querer andar por aí desse jeito.

Sakura sorriu sarcástica.

— Eu não me importo em sair assim. - disse, umedecendo os lábios. - Mas aceito sua proposta.

— Prontinho. - disse Mikoto, quando terminou de acertar o cabelo da garota, o deixando um pouco acima dos ombros, num corte reto.

As três, incluindo a pequena Mya, estavam na varanda da frente. Sakura sentada no banquinho de madeira e Mikoto atrás de si. A Haruno mais velha entregou um espelho para a rosada.

Sakura viu seu reflexo no espelho, sua madrasta era uma boa cabelereira, havia ficado bom.

— Nossa, não estou mais parecendo uma sem teto. - virou sua cabeça para o lado vendo o tamanho de suas mechas, acima do ombro. - Você é boa nisso.

— Faço o possível. - disse Mikoto e piscou um olho, sorrindo, que Sakura viu pelo reflexo e sorriu de lado.

— Você está muito bonita, Sakura. - a voz de Mya soou, chamando a atenção das duas para si.

— Valeu pirralha.

Levantou-se da cadeira, entregando o espelho para Mikoto, tirou o pano de seus ombros e começou a se sacudir, passando as mãos pelo corpo.

O barulho de motor de carro se aproximava chamando a atenção das três para a caminhonete que parou em frente da casa.

Kizashi saiu junto de Sasuke que segurava um embrulho de papel pardo retangular na mão. A caminhonete deu a ré e os dois acenaram para Minato que dirigia enquanto ia embora.

Os dois voltaram à atenção para frente e se aproximaram. Kizashi viu as três mulheres de sua vida na varanda, e um sorriso se abriu no canto de sua boca, mesmo estando triste por dentro. Mas o que chamou sua atenção foi Sakura que estava com os cabelos cortados e penteados, e apostava que isso era obra de sua Mikoto.

— Como foi lá, querido? Vocês demoraram. - disse Mikoto dando um passo para frente e recebendo o marido com um pequeno e rápido beijo na boca.

— Ocorreu bem. A causa da morte foi um líquido tóxico ingerido. A nossa sorte foi que levamos a tempo antes que o produto passasse para a carne. - suspirou. - Foi por muita sorte, iria ser um grande prejuízo.

— Eu sinto muito.

Sakura permanecia calada, queria que o tempo voltasse atrás para não fazer o que fez. A culpa era dela e estava pior quando soube por Mikoto que a vaca que havia morrido por "causas desconhecida" havia sido por ela.

Kizashi voltou sua atenção para sua filha e deixou o sentimento depressivo de lado e sorriu.

— Aparou os cabelos, está linda... radiante.

Sakura sorriu comprimido, desviando os olhos para o lado, envergonhada, não pelo elogio e sim pelo que havia feito no curral.

Encontrou os olhos negros de Sasuke a fitando, os dois desviram o olhar ao mesmo tempo. Sasuke gostou do corte, havia ficado bem nela...

— Sasuke.

Saiu de seus devaneios com a voz de seu padrasto esticando a mão para o embrulho em suas mãos e o entregou.

Kizashi voltou-se para a filha e ergueu o embrulho retangular e grande para ela.

— Para mim? - perguntou, unindo as sobrancelhas e pegando a caixa pesadinha.

— Sim, é um notebook. - sorriu, vendo Sakura ficar surpresa. - Usei o dinheiro que ganhei da vaca e resolvi gastar um pouquinho com você.

Sakura arregalou os olhos e engoliu em seco.

— O dinheiro da vaca?

— Sim, não é uma quantia grande como eu ganhava com ela nos festivais, mas foi um bom dinheiro. - Kizashi explicou - Passei numa loja e resolvi comprar algo para você. Sasuke ajudou a escolher, ele que entende mais dessas modernidades do que eu.

Sakura ergueu o olhar para o moreno, que olhava para um ponto qualquer, pouco constrangido. Voltou a olhar para o pai quando ele voltou a falar:

— Espero que você goste.

Sakura realmente não sabia o que falar ou pensar. A vaca... ela havia matado a coitada da vaca por ter olhado para ela e mungido. Ela matou o animal favorito de seu pai que fazia de tudo para não transparecer a tristeza, mas seus olhos diziam o contrário.

Naquele momento se sentiu egoísta, culpada e miserável. Seu pai todo atencioso e a mimando sempre, e ela o retribuía matando os animais da fazenda.

Kizashi percebeu o rosto angustiante da filha.

— Você não gostou? Eu posso passar amanhã na loja e trocar por algo que você queira...

Sakura ergueu seu rosto para cima e fitou seu pai e o interrompeu:

— Não... não é isso. Eu... eu adorei. - sorriu nervosamente. - Eu só estou triste pela vaca.

Seu pai sorriu e passou a mão em seus cabelos curtos.

— Não se preocupe filha, vai ficar tudo bem.

A garota apenas assentiu com a cabeça rapidamente, segurando o presente.

— Obrigada pai... de verdade.

— De nada.

— Bom, eu vou lá para dentro experimentar o presente. - disse dando passos para trás.

— Vai lá. - Kizashi sorriu.

Sakura não pensou duas vezes e correu para dentro de casa com a caixa na mão, e subiu as escadas rapidamente e se trancou no quarto. Foi para a cama e tratou logo de abrir o embrulho, só pela caixa pode ver o notebook preto novinho e moderno.

Um peso caiu em sua consciência quando olhava seu presente. Ela havia matado uma vaca e ganhado um notebook novinho com isso.

Aquele notebook era a própria vaca na sua cama.