Capítulo 2 – O acidente
- Malfoy, quero você no meu escritório às duas!
- Eu não sou seu empregado, Potter. Recebo ordens somente do Ministro, que é meu superior.
Draco se sentiu empurrado quando Harry passou por ele na fila para pagar o café.
- Não é assunto profissional. – o sussurro o atingiu e foi imediatamente ignorado quando o loiro virou as costas e entrou no elevador junto com mais dois rapazes, que tiveram o bom senso de não o encararem.
Uma mão, porém, impediu a grade de se fechar. Potter entrou, carrancudo, no cubículo.
- Você! – ele apontou para um dos garotos – É estagiário do Rony, não?
O garoto confirmou com a cabeça.
- Entregue isso para ele. – estendeu um jornal ao rapaz, que desceu no próximo andar. – E você – Harry examinou o outro – é da manutenção, certo? Minha mesa está bamba. Vou resolver uns problemas, mas volto logo. Resolva isso para mim.
O rapaz desceu no andar seguinte. Draco bufou.
- Não precisava ter atarefado os dois. Eu vou continuar te ignorando.
- Por quê, posso saber? Faz três semanas, Malfoy! Três semanas que você não se dá o trabalho de olhar na minha cara! Posso saber o que está acontecendo?
- Porque eu cansei da sua cara, Potter. Agora pode me deixar em paz? – respondeu, agressivo, abrindo a porta do elevador e andando apressado pelo Átrio.
- Malfoy! – Harry correu atrás dele – Você me deve dois relatórios para ontem!
Draco parou, parecendo se lembrar de algo, e voltou para o elevador, ignorando o chamado do outro. Harry forçou a porta novamente e entrou atrás dele, seguindo para o Departamento de Mistérios.
- Olha para mim! Olha para mim, Malfoy! – Harry pegou o loiro que encarava o chão e forçou seu queixo até ter as duas contas prateadas o encarando em fúria. Voltou a falar mais baixo e doce – Eu não acredito no que você disse. O que aconteceu?
Draco tentou fugir, desviando o olhar.
- Eu... Eu não tô bem...
- Não está bem como, Draco? – Harry perguntou, um fio de preocupação escorrendo em sua voz.
- Não estou bem, porra! Será que dá para me esquecer por um minuto? Quer trepar? Tá cheio de puta querendo dar pro Harry Potter! Agora me dá um tempo que eu já não estou agüentando o meu estômago revoltado, não preciso de você também enchendo o saco atrás de mim!
E empurrou o moreno para liberar o caminho, saindo do elevador para o corredor escuro. Harry ficou um momento parado, absorvendo aquelas palavras. Draco estava falando sério, mas dois anos de encontros não se resolviam assim.
- Draco! – saiu correndo atrás dele, animado quando Draco parou apoiado no corrimão da escada que levava para os tribunais – Precisamos conver... DRACO!
Harry saltou os degraus de uma só vez, aterrissando ao lado do loiro desmaiado no primeiro patamar depois de ter rolado todo um lance de degraus quando simplesmente perdeu a consciência do nada. Harry não pensou duas vezes antes de erguê-lo nos braços e correr para a enfermaria do Ministério.
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- Sr. Potter, o senhor não precisa aguardar.
- Ele é um funcionário que está sob minha responsabilidade, uma vez que eu fui a única testemunha que o viu passar mal e quem o socorreu. Só saio daqui com o diagnóstico.
- O que o senhor está sentindo, Sr. Malfoy?
- Nada assustador. Estou um pouco fraco e enjoado. Nada mais.
- E o que o senhor comeu? – perguntou o médico, afastando a camisa do loiro deitado na maca e apalpando seu abdômen.
- Nada... Tentei tomar café, mas o cheiro de tudo me enjoou. Tem sido comum nos últimos dias... Enjôo com crises de vômito se me forço a comer. Tomei uma água com gás aqui no Ministério, mas não ajudou muito...
- E o desmaio?
- O que tem?
- Foi o único?
- Eu... Eu ando meio zonzo... Mas foi a única vez que cheguei a efetivamente desmaiar.
- Você deve estar com alguma sensibilidade estomacal. Deve ser a origem do vômito e do enjôo. E, como não tem conseguido manter alimento o suficiente no organismo, tem tonturas. Vou examiná-lo mais detalhadamente para saber a causa do problema. Se importa de despir a camisa e abaixar a calça até a linha do púbis?
A face de Draco demonstrava preocupação. Tanto que nem se lembrou de se incomodar com a presença de Harry enquanto se despia. Voltou a deitar, e o médico passou um gel sobre seu tórax e abdômen, incidindo em seguida uma luz azulada saída da varinha, que se refletiu em uma tela à frente, com a imagem de seu organismo por dentro.
Harry se aproximou um pouco mais, observando a figura do coração do loiro batendo. A série de órgãos que veio a seguir era bem menos reconhecível ou agradável ao olhar, mas, assim como o médico e o próprio Draco, a atenção de Harry continuou presa na tela conforme a varinha se movia sobre a barriga do loiro. E, quando ela chegou à parte mais baixa, próxima da linha da calça, os três se sobressaltaram ao sinal de uma pulsação. O médico incidiu mais luz sobre a região e os três se retesaram e ficaram paralisados com o que viram.
Refletido na luz azul da parede, envolto em uma pequena bolsa que se destacava em meio aos outros órgãos de Draco, havia um pequeno feto. Algo irreconhecível em um primeiro momento, mas tanto Draco quanto Harry já haviam visto aquilo antes, há algum tempo, quando acompanharam suas esposas no pré-natal.
- Doutor... – Draco foi o primeiro a se recuperar – O... O que... que que isso...
O médico, porém, fez um gesto brusco, forçando Draco a se deitar.
- Não saia daqui. – disse em um sussurro nervoso.
O homem saiu da sala, e Harry e Draco trocaram um olhar desesperado. Draco se sentou na maca e acompanhou com o olhar Harry sair apressado no encalço do médico e uma luz vermelha brilhou no cômodo ao lado. Em seguida, a voz de Potter resmungou uma série de feitiços trancando e isolando a sala antes que ele voltasse para encarar o loiro.
Ambos pálidos, respirando com dificuldade, deixaram o silêncio se impor entre eles, enquanto a mão trêmula de Draco caminhava devagar até o próprio ventre.
- Não pode ser, Potter. Não pode ser...
- Draco... – Harry se aproximou.
- Não toca em mim!
Draco se levantou rápido da maca e deu algumas voltas, se mantendo o mais longe possível de Harry. Ele resmungava, mordendo o lábio, passando uma mão nervosamente pelo cabelo. Harry não sabia o que fazer. A outra mão do loiro não deixava o seu ventre e ele tremia visivelmente. Ele parou, apoiando o braço na parede e a testa no braço e ofegou algumas vezes antes de se voltar para Harry.
- Não é possível, Harry! Homens não engravidam! Eu não posso estar esperando uma criança! Não pode ter nada crescendo dentro de mim! Isso... Isso...
O silêncio caiu entre eles. Harry se aproximou e acariciou os cabelos do loiro, que afastou a sua mão com violência.
- Draco, eu não sei se isso é possível ou não! Eu já vi coisas demais para dizer que qualquer coisa é impossível. Mas mais do que qualquer lógica, tem o fato... Tem um feto dentro de você, Draco. E ele está vivo.
Draco mordeu o lábio com força e escorou o corpo na parede, e teria deslizado para o chão se Harry não o impedisse, o abraçando, sentindo as mãos de Draco se fecharem agarrando sua camisa. Ele somente o apertou com mais força e beijou seus cabelos, deixando o silêncio os envolverem. Não havia promessas a serem feitas.
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- Você vai ficar bem?
Draco concordou com a cabeça. Haviam saído escondidos do Ministério, pela saída de emergência da pequena enfermaria, depois de lançar um Obliviate no médico inconsciente. Draco ainda estava pálido e estranhamente ausente. Harry beijou sua testa.
- Pense bem no que pretende fazer. E não pense duas vezes em me procurar quando tiver decidido ou se precisar de alguma coisa. Acho que devia guardar segredo por enquanto. Não sei que tipo de comoção um homem grávido é capaz de causar.
Draco voltou a concordar com a cabeça, encarando o chão.
- Draco... – Harry estava começando a se desesperar com essa falta de reação – Draco... Eu... Eu posso fazer alguma coisa? Quer que eu te leve para casa?
- Não seja ridículo, Potter. – Draco o empurrou fracamente, deu alguns passos cambaleantes e aparatou em frente ao portão da Mansão Malfoy, onde agora morava com a família.
Foi difícil chegar à casa. Tudo parecia aberto demais, grande demais... difuso demais.
- Oi, querido... Chegou cedo.
O perfume da mulher que o abraçou e depositou um beijo breve em seus lábios frios fez seu estômago girar.
- Astoria, por favor... Eu não estou me sentindo bem...
Cambaleou para o quarto, sua esposa somente o observou de longe.
Draco se despiu rapidamente, deixando as roupas caídas pelo piso, e entrou debaixo do jato forte da ducha, esperando o mal-estar passar, sendo levado pela água. Lavou-se rapidamente, retirando o suor e o creme que o médico passara em seu corpo. Deixou a cabeça pender contra o azulejo frio enquanto a água levava consigo a espuma e o cansaço.
Draco se sentia exausto. Sentia-se perdido. Sentia-se quebrado.
Passou a mão pelo corpo, se acariciando, se sentindo. Estava diferente. Sabia que não podia ter mudado tanto assim em tão pouco tempo, mas era como se o conhecimento do que estava acontecendo lhe desse uma nova dimensão da própria pele.
Tinha uma vida crescendo dentro dele.
Ele não era somente responsável por aquele ser. Aquele ser era parte dele. Ele compartilhava o ar que ele respirava, tudo o que ele ingeria, tudo o que ele sentia. Ele não somente precisava dele para viver. Mas a vida daquele ser vinha dele.
Ele não podia. Não podia gerar. Não podia engravidar.
Ele estava grávido.
Mas aquilo não era possível. Não era normal. Aquela vida não era real.
O que iam fazer se descobrissem?
Trancariam-no? Tratariam-no como uma experiência? Um caso de magia particular? Uma aberração?
O que seria daquela criança? Nascida de dois homens! Como?
Como aquele ser intruso conseguira se instalar em seu corpo, deixando-o doente?
Como podia invadi-lo assim, como algo que o dominava, que o comandava? Que determinava o que ele desejava, que o fazia comer menos, dormir mais, maltratar as pessoas de quem ele gosta com suas oscilações de humor.
E tudo isso enquanto esse ser mal existia!
Era só um começo... Ele não podia ser mais forte... Não podia comandar... Não podia modificar o seu corpo pela sua própria existência...
Mas ele não modificava o seu corpo. Ele era parte dele. Parte de sua existência. Parte de sua vida.
Draco passou os braços sobre a barriga, se abraçando, e deixou o corpo cair contra a parede, deslizando para o chão. Ele se encarou no reflexo no vidro esfumaçado do boxe. Um homem loiro, oprimido pela água que caía sobre ele, desesperado, encolhido contra a parede, abraçado ao próprio corpo o encarou de volta. E ele percebeu que estava chorando. Seus olhos vermelhos e os soluços que sacudiam os seus ombros não permitiam mais que ele ignorasse o fato de que muitas das gotas que corriam pelo seu rosto não eram água. Ele se encolheu mais e escondeu contra a parede o rosto, contorcido em uma careta.
Estava feito e não tinha volta.
Mas ele tinha medo.
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Harry não pôde se concentrar novamente no trabalho. Demorou algumas horas até que conseguisse se declarar derrotado pela abstração e pedisse dispensa, voltando para casa.
- Papai! – a garotinha ruiva correu descalça pela sala, se jogando nos braços do pai mal o moreno saiu da lareira.
Harry deixou a pasta cair no chão para amparar a filha, a apertando contra o peito em um gesto espontâneo.
- Papai? Você está bem?
Harry sorriu e a olhou.
- Sim, Lily... Eu estou bem. E você?
- Você vai ficar o dia todo em casa?
- Vou, meu anjo.
- Ah! Que legal!
Lily indicou que queria descer, se debatendo, e correu novamente pela sala.
- Al! Al! O papai vai brincar com a gente! O papai vai brincar com a gente!
- Oi, Harry.
Harry se virou, dando de cara com Ginny, que vinha da cozinha. Ela o beijou rapidamente e voltou a olhá-lo, curiosa.
- Conseguiu dar conta do trabalho rápido hoje.
- Na verdade, eu não estava me sentindo muito bem... Muita pressão...
- Como se você não soubesse lidar com isso. As crianças têm sentido a sua falta. Você mimou muito elas por uns tempos... Agora eu tenho que me desdobrar.
Harry ia responder quando dois garotos entraram na sala.
- É!
- Não é!
- É claro que é!
- O que é? – perguntou Ginny, prevendo mais uma discussão interminável entre os dois filhos, que viviam nas intriguinhas deles.
- Não importa – disse Harry, puxando os filhos para mais perto.
Olhou bem para Albus, afastando os cabelos negros bagunçados de sua testa para poder beijá-la. Depois se sentou, puxando James para o seu colo.
- O que fizeram hoje?
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Draco entrou devagar no quarto escuro, tateando a parede. Acendeu o pequeno abajur e reduziu sua luz até o mínimo para ver o menino deitado no meio da cama de casal. Com cuidado para não acordar o filho, sentou-se no espaço vazio ao seu lado.
Scorpius dormia suavemente. Sua respiração fazia com que os finos fios loiros caídos sobre a sua testa se agitassem devagar. Draco sorriu em admiração ao filho. Ele era um menino lindo, saudável e feliz. Um bruxo. Draco se preparara para a separação que o colégio significava com certo receio, mas, quando ela ocorreu, o temor se misturou com orgulho e tê-lo em casa novamente naquele primeiro feriado era um bálsamo. Amava seu filho mais do que tudo, como tinha sido amado por seus pais. E a última coisa que desejava era que Scorpius tivesse que enfrentar algo semelhante ao que ele enfrentara para garantir o seu amor.
Scorpius era tão parecido consigo... Mas, de certa forma, mais maduro do que ele tinha sido na idade do filho. Draco não o mimara tanto quanto fora mimado. Não por regular os desejos do filho ou não servir suas necessidades, mas por ver a importância de mostrar-lhe o valor das coisas, o que era realmente desejar algo que não podia ter, ou perder algo valioso. E, por outro lado, o cobrava menos do que fora cobrado. A vida o ensinou seu jogo de poderes e influências, e ele tentava ensinar ao seu filho que, apesar de tudo isso, usar as pessoas e vestir-se com imagens ilusórias não era garantia de poder, bem-estar e felicidade.
Scorpius não era falante. Era perspicaz e sincero. Dizia coisas desconcertantes às vezes, muito diferente de sua mãe. Por outro lado, era extremamente carinhoso, algo típico de Astoria, a que Draco demorou a se acostumar, habituado que estava com poucos toques, poucas palavras e muitos olhares. Às vezes tinha medo de não conseguir traduzir para o filho tudo o que sentia por ele e acabar sendo rígido demais, distante demais. Mas já se acostumara a sorrir, cúmplice, quando seu filho o olhava com admiração, carinho ou pedindo aceitação.
Ele foi pai muito jovem. Exigências de um contrato de casamento, algo comum nas tradições das famílias sangue puro tradicionais: a garantia do herdeiro. Mas nunca uma obrigação se mostrou tão desejável. Mesmo depois de tantas tentativas frustradas, ele não se sentia preparado para ter um filho, embora sua esposa não demonstrasse grandes preocupações com isso: educada ciente de que este momento chegaria, desejava ansiosamente o filho, renegando o depois para babás e tutores. Draco sabia que ter um filho, e não um herdeiro, não era tão simples assim. E, apesar de tudo, achava que talvez até estivesse se saindo bem na função de pai.
Até aquele momento.
Draco se curvou sobre a cama e beijou a testa do filho, acariciando-lhe os cabelos.
- Me perdoa... – ele falou baixinho para o garoto profundamente adormecido - Eu... Eu tenho que ir... Você vai ficar bem... É... É só por um tempo... – Draco sorriu e uma lágrima escorreu pelo seu rosto – Eu sei que você vai ficar bem... Eu estarei aqui, se precisar de mim... Sempre...
Debruçou-se novamente sobre a criança e o beijou. Levantou-se, sussurrou algumas palavras e saiu do quarto. Quando fechou a porta, pegou a pequena mala que deixara oculta com feitiço de desilusão no chão e aparatou, sem falar com mais ninguém.
Em seu sono, Scorpius se virou na cama, dando as costas para o cartão apoiado em sua mesa de cabeceira, que somente ele poderia ler.
Eu volto.
D.
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N/A: Oi, galerinha. É o seguinte: vcs são lindos, por isso capítulo mais cedo xD
Eu vi que o capítulo anterior saiu com uns errinhos de postagem, vou corrigir no fim de semana, quando pretendo responder às reviews, ok? Mas, se vcs continuarem assim, até lá eu ainda posto mais um capítulo. XD
Beijos e comentem!!
N/A2: A quem interessar possa, eu atualizei o meu perfil aqui no ff. Coloquei links para novas capas, inclusive de fics antigas e algumas de fics que vou postar em breve. Coloquei os links para os perfis dos autores das capas também e minha lista do que eu ando escrevendo agora está certinha. Tentei organizar melhor as coisas por lá, mas o ff não deixou. ¬¬
Aliás, aos poucos – MUITO aos poucos -, eu estou revisando e padronizando a postagem de todas as minhas fics.
Beijos
