Capítulo 5 – Maridos

Harry ergueu os olhos da sua xícara quando ouviu os passos do loiro ecoando no piso da cozinha. Nos últimos dias, Draco estava com um sono incontrolável. Harry não esperava que ele acordasse tão cedo, pretendia usar o tempo a mais de sono do outro para dar um pulo na cidade, ver algumas coisas que precisariam comprar para o bebê e talvez algo para Draco também, que não parava de reclamar das roupas largas que passara a usar nas últimas semanas.

Sua surpresa se agigantou ao se deparar não com o loiro barrigudo e desengonçado com quem dividira o chalé nos últimos meses, mas com o homem esguio e bem alinhado com quem se encontrava no Ministério. Sua primeira reação ao ver a ausência da barriga foi pânico, mas ao notar que seu andar continuava levemente desengonçado, Harry chegou à conclusão de que se tratava de um feitiço de ilusão.

- Você está bem? – perguntou, se levantando para ajudar o outro a se sentar para o café da manhã.

Harry esperou por um segundo as reclamações habituais de dores nas costas, câimbras e pés inchados, mas, ao receber somente um aceno de cabeça tenso, começou a supor que o feitiço não era somente pela auto-estima.

Voltou a se sentar e esperou que o loiro falasse.

- Vamos receber uma visita hoje. – disse, se servindo de chá.

- Draco! – Harry chamou em tom de reprovação.

- Não me venha com sermões, Potter. Eu, mais do que ninguém, sei dos riscos que corremos. É uma pessoa confiável.

- Draco, isso não... – Harry se interrompeu quando a mão de Draco pousou sobre a sua.

- Eu preciso falar com meu filho, Harry.

Harry engoliu em seco, encarando o loiro.

- Scorpius está vindo aqui?

- Deve estar chegando.

Harry bebeu o chá em silêncio, pensativo, sob o olhar do loiro.

Não demorou mais de dois minutos, ouviram o barulho de chamas na sala, seguido por uma voz suave.

- Pai?

- Termine seu café, você deve estar fraco por manter o feitiço, eu o recepciono. – Harry se levantou, e Draco acompanhou com um olhar sério ele deixar a cozinha.

- Scorpius?

O garoto se sobressaltou, o encarando. Porém, não disse nada.

- Seu pai está tomando café. Ele já vem.

- O que o senhor faz aqui? – seus olhos se estreitaram de uma forma muito familiar, e Harry sorriu.

- Estou ajudando Draco.

- E ele precisaria da sua ajuda por quê?

Harry fez um gesto displicente.

- Por muitos motivos, talvez ele prefira explicar para você. Não quer se sentar?

Scorpius olhou para o sofá indicado por Harry, e voltou a encará-lo.

- Essa é a casa dos meus avós. Eu deveria te convidar para sentar, não o contrário.

Harry sorriu, se sentando e abrindo espaço no sofá, indicando ao garoto que deveria fazer o mesmo. Scorpius sentou ao seu lado, desconfiado.

- Tem sentido falta do seu pai? – Harry perguntou baixinho.

- Lógico. – respondeu, rude – Por que ele está aqui?

- Ele vai te explicar. – Harry umedeceu os lábios – Ele sente sua falta também. Você é muito importante para ele.

- Então por que ele foi embora?

- Ele não queria vir, Scorpius. Foi necessário. E ele vai voltar. Ele não te deixaria.

O loiro o encarou firmemente.

- Ele está aqui por sua causa?

- De certa forma. – Harry suspirou – Eu gosto muito do seu pai.

- É por isso que está cuidando dele?

- Sim. Eu nunca o deixaria sozinho.

Scorpius o olhava sério.

- Eu não entendo.

Harry suspirou.

- Basta que você entenda que eu não estou tirando o seu pai de você. Eu só quero o bem dele.

Scorpius continuou o olhando, Harry desviou o olhar para o sofá.

- Eu falei com o Albus. Nós estudamos juntos, o senhor sabe. Ele disse que a Lily ficou triste por você não poder levá-la na plataforma.

Harry fechou os olhos com força.

- Sim, eu sei. Ela... Ela me escreveu.

- Filho.

Harry viu o menino sorrir e ir até o pai, o abraçando. Levantou-se, caminhando em direção ao quarto, para dar privacidade aos dois.

- Senhor Potter. – Scorpius o interrompeu – Vou dizer para Albus e Lily que você também sente falta deles.

Harry sorriu, triste.

- E para James também, por favor.

- Scorpius? – Draco o questionou, vendo o filho sorrir para a figura de Potter, que sumia no quarto.

- O que está acontecendo, papai? Por que o senhor Potter precisa cuidar de você?

Draco sorriu para o filho e o conduziu pela mão de volta para o sofá.

- Como você está, Corp?

- Bem.

- E as coisas na escola?

- Está tudo normal... Pai, o senhor está doente? Está andando estranho...

- Scorpius – Draco afastou os fios loiros dos olhos do filho, com delicadeza –, o que você acha da idéia de ter um irmão?

O garoto o olhou, pensativo.

- A mamãe não pode estar grávida...

Draco sorriu.

- Não, sua mãe não está grávida, suponho. E não foi essa a pergunta que eu te fiz.

- Acho que eu não me importaria. Afinal, não passaria muito tempo em casa mesmo, não é como se fôssemos...

- Scorpius. – Draco o olhou, rígido.

- Eu não gostaria de... – o menino baixou os olhos – Dividir.

Draco sorriu. Era de se esperar que o filho considerasse as várias possibilidades da questão antes de responder. Mas ele não tinha muito tempo.

- Ter um irmão não significa necessariamente dividir, mas muitas vezes somar. E você ainda não respondeu minha pergunta.

- Não sei, pai.

Draco se encostou no sofá, se sentindo desconfortável, e puxou o filho contra seu peito, beijando seus cabelos.

- E o que você acha da idéia do papai e da mamãe se separarem?

Scorpius se afastou para poder olhar para o pai.

- Pai, você arrumou uma namorada e ela está grávida?

- Não, mas você já considerou essa possibilidade? – Draco perguntou, sorrindo.

Scorpius se sentou mais reto, pensativo.

- Eu não gosto da idéia de você... ir.

- Eu nunca vou te deixar, meu filho. – Draco voltou a puxá-lo para perto – Mas tem coisas... acontecendo.

- Eu conheço ela? – Scorpius abraçou o pai mais forte.

- Não... – Draco engoliu em seco – Não é ela. É ele.

Scorpius se afastou, o olhando, assustado.

- O senhor Potter?

- Sim. – Draco sentia que poderia sufocar.

- Ele... Ele disse que está cuidando de você.

- Sim, ele está.

- E por quê?

- Porque tem certas coisas na magia que nós não podemos controlar, filho. Nem tudo tem uma explicação... Tem coisas que... Acontecem.

- Como o quê? A professora McGonnagal disse...

- Eu estou grávido. – Draco o encarou em expectativa.

Scorpius o olhou em silêncio por um momento.

- Pai, homens não ficam grávidos.

- Eu fiquei.

Scorpius engoliu em seco, fechando a boca.

- Eu vou ter um irmão... Você e o senhor Potter...

- Isso.

- Pai, não pode ser. – sua voz tinha um tom de pedido.

Draco rompeu o feitiço de ilusão, revelando o corpo moldado pela gravidez ao filho, que deu um passo atrás, se afastando, a boca entreaberta.

O homem cobriu o rosto com as mãos, respirando fundo, e sentiu em seguida o toque em seus cabelos, fazendo-o afastá-las para encarar o filho. Scorpius passou devagar os dedos pelo contorno de seu rosto, sério. Draco pegou suas mãos e levou ao próprio ventre.

Scorpius sorriu.

oOo

Draco entrou no quarto, fechando a porta com mais barulho do que o necessário. Harry saiu do banheiro para olhá-lo, a toalha branca enrolada na cintura e os cabelos negros pingando sobre os ombros nus.

- Scorpius já foi?

- Já.

- Pensei que ele ficaria para almoçar.

- Ele disse que a mãe exigiria explicações, que era melhor ir.

Harry se afastou do espelho e jogou a toalha que usara para secar os cabelos sobre a cama, se aproximando do loiro, o observando atento, mesmo quando ele fez uma careta para seu gesto e se afastou, lhe dando as costas.

- Você está bem, Draco? – ele disse, sem obter resposta.

- O que... O que vocês conversaram? – Draco perguntou e se virou para olhá-lo, a voz soando casual.

- Hum... Nada demais. – Harry deu de ombros – Eu não quis falar muito, pois não sabia como você iria preferir colocar a questão para ele...

- Mas fez questão de falar com ele. – sua voz ganhou um tom acusatório, que Harry estranhou.

- Sim. – ele franziu a testa, tentando entender por que isso o incomodara tanto – Eu tentei me aproximar dele...

Draco deu um passo para a frente, o encarando.

- Para quê?

- Quê? – Harry recuou.

- Para quê você quis se aproximar do meu filho, Potter?

Harry o encarava, atônito.

- Eu... Eu quis conhecê-lo. Eu pensei que...

- Não importa o que você pensou, Potter. Não quero você conversando com meu filho.

Harry respirou fundo, franzindo o cenho, o olhando sério.

- E eu posso saber por quê?

- Porque você e a minha família são coisas diferentes, Potter.

- E eu devo imaginar que a nossa família e o seu filho também sejam, então?

- Nós não temos uma família, Potter.

- E como você nos chama, então, Malfoy? O que eu, você e essa criança na sua barriga somos?

- Eu e você somos amantes, Potter. Isso não entra no meu conceito de família.

- E no que o meu filho é diferente de Scorpius, Draco? – Harry gritou, se aproximando dele.

- ELE É O MEU FILHO! Não espere que...

- QUE O QUÊ? QUE EU POSSA CONHECÊ-LO? Ouça o que você está dizendo, Draco!

Harry se afastou, respirando fundo. Então se voltou repentinamente, passando por Draco e abrindo o guarda roupa, jogando suas coisas em cima da cama. Draco o observou em silêncio, cruzando os braços.

- Você vai embora. – era uma afirmação.

Harry se endireitou, o encarando.

- Eu devia, mas, aparentemente, eu valho mais do que você pensa. Eu só vou voltar para o quarto de solteiro. Não quero dormir com você.

Draco se aproximou e pegou uma mala do armário, jogando-a ao lado das coisas do moreno. Harry o encarou.

- Você quer que eu vá embora?

- Se você quiser, fique livre. Eu não sou uma obrigação sua, Potter.

Harry o encarou por um tempo.

- Sabe o que eu quero, Draco? Eu quero uma pessoa que confie em mim e que me dê apoio e me ajude a tomar decisões, sabendo o quanto pode cobrar de mim. Alguém que eu possa dizer que me conhece e que não se incomode com minha presença. Alguém que se preocupe comigo e que eu me aterrorize com a possibilidade de perder. Alguém que seja meu porto seguro e de quem eu possa cuidar. Alguém por quem eu sairia todos os dias para trabalhar e que me faria desejar voltar. Alguém para quem voltar, Draco. Por quem eu não pensaria duas vezes antes de arriscar tudo. – Harry suspirou, aflito – Para quem eu não tenha medo de dizer o que eu sinto.

- Eu não sou a Ginevra, Potter.

- Ela não me deu tudo isso, e nem você. Com ela eu sei que nunca terei o que eu quero, com você eu pensei que estava construindo alguma coisa. Eu não abandonaria meus filhos, minha família por um amante, por uma obrigação, por um erro! Eu acreditei que você fosse uma opção, Draco, que fosse... Algo mais. Algo mais do que uma transa, algo mais... Mais do que... Do que os outros pensam que eu sou. Mas eu acho que me enganei.

Ele se sentou na cama, vestindo uma calça, amontoando o resto das roupas de qualquer forma dentro da mala. Saiu do quarto, batendo a porta. Draco ficou parado, de pé, no mesmo lugar, encarando o mesmo ponto, respirando fundo.

A porta voltou a se abrir com violência e Harry entrou, andando rápido, parando em frente a ele.

- EU NÃO SOU UM CANALHA! O que você pensou que eu fosse fazer com seu filho? Bater nele? Te insultar? Dizer que eu te amo? Que o pai dele é um bicha pervertido que se enroscava comigo no trabalho por simples fogo no rabo, mais nada?

Draco o encarou e a intensidade do olhar dos dois brilhava de mais puro ódio. Harry se aproximou mais, segurando seu queixo com uma mão.

- Eu tenho vontade de te bater, porque parece que eu estou olhando para o moleque que me falava merda na escola, e não para o homem que eu trouxe para a minha vida. Mas você está grávido. Do meu filho. E eu não sou covarde. Mas exijo o mínimo de respeito, Malfoy, ao menos até meu filho nascer, então eu te deixo em paz, e você volta para a sua família de merda.

- Eu te odeio. – e isso era claro na voz do loiro.

- Mas eu achei que eu te amava.

- Foi seu pior erro.

Harry respirou fundo várias vezes, se afastando, passando as mãos pelos cabelos, nervoso, rodando a esmo pelo quarto. Draco enlouquecera! Ele não podia! Tudo não podia ser falso daquela forma! Não podia ter sido simplesmente... nada. Ele se virou, encarando inconformado o loiro ainda parado no mesmo lugar.

E Draco piscou. E uma lágrima correu pelo seu rosto.

Ele estava mais pálido do que o normal e Harry então percebeu que suas mãos tremiam. E ele chorava.

E Harry entendeu.

- Não! – ele passou as mãos no rosto, suspirando – Por Merlin, não, Draco! – ele voltou a se aproximar, passando os dedos por entre os fios loiros, aproximando sua face da de Malfoy em um carinho nervoso – Me diz que tudo isso é só medo, Draco. Me diz que você fez tudo isso porque está apavorado, como eu estou vendo que está... – Draco soluçou e tentou empurrá-lo – Não, Draco, não... – Harry o abraçou, o envolvendo em seus braços com força contra seu peito, contra o qual Draco batia sem força.

- Me solta... Vai embora... – a voz partida por soluços.

- Eu não vou deixar você. – Harry sussurrou contra seus cabelos, conduzindo-o, ainda abraçados, para a cama ao perceber que o loiro se abandonava no abraço.

Draco não chorava. Ele reclamava mais do que seria comum, fazia manha, exigia e machucava. Mas não chorava. A única coisa que o fazia chorar era medo profundo. Desespero. Harry presenciara isso três vezes: aos dezesseis anos, no banheiro do colégio; quando chegara ao chalé, e há alguns meses, quando tivera cólicas e um sangramento. E mesmo em desespero, Harry havia percebido que, se tivesse apoio, mesmo que um apoio desesperado, Draco não choraria muito.

Draco suspirou e Harry permitiu que ele se afastasse, deitando de barriga para cima. Harry teria enxugado suas lágrimas e o beijado, se não tivesse ouvido demais naquele dia. Permitiu que o loiro secasse o próprio rosto, tentando se controlar.

- Eu quero ficar sozinho. – sua voz saiu baixa.

- E eu quero que me diga o que está acontecendo. Eu não vou sair daqui.

Draco cobriu o rosto com as mãos, respirando fundo, e não respondeu.

- Tem algo grave acontecendo, Draco? – Harry perguntou, baixinho.

- Tirando o fato de que essa criança pode nascer a qualquer momento, não. – Draco respondeu, ríspido.

- E o que aconteceu com o Scorpius? – Harry perguntou, doce, acariciando seu peito.

- Nada.

- Então, era só para me machucar? – havia uma nota de mágoa calculada em sua voz.

Draco parou sua mão, entrelaçando os dedos nos dele.

- Eu te amo. – confessou em um sussurro, sem o encarar.

Harry se aproximou mais dele, o abraçando.

- Confia em mim, Draco, por favor. – sussurrou em seu ouvido.

Draco respirou fundo.

- Eu não quero morrer.

- Você não vai.

Draco mordeu o lábio.

- Eu não quero te deixar, Harry... Eu não quero... Merlin, eu te amo tanto! Eu nunca... Nunca antes... Harry, eu fiz você abandonar sua família, seus filhos por... Por nada.

- Por você, Draco. Pelo nosso filho. Pelo que nós somos juntos. Por nós, Draco. E eu não os abandonei. Eu vou voltar a ver meus filhos, a tê-los comigo. Eu acredito nisso, e você teve seu filho com você hoje, deveria saber disso também.

- Não quero abandonar Scorpius, mas não sei como posso... Ficar com os dois.

- Você não precisa abrir mão dele... Ele não te rejeitou hoje.

- Não... Mas... Ele, ele teria tudo para...

- Ele te ama e sente sua falta, e não te afastou.

- Ele... Ele podia te rejeitar...

- Nós nos demos bem. – Harry beijou seu pescoço e o sentiu ficar tenso com suas palavras – E antes que você pense merda, eu não tenho nenhuma intenção de me envolver amorosamente com ele ou tirá-lo de você de alguma forma ou pirá-lo ou sei lá o quê.

Draco girou em seus braços para poder encará-lo, seus olhos aflitos, sérios.

- Harry... – as palavras se perderam, a boca seca. Draco se aproximou mais, tocando seu rosto de leve com a ponta dos dedos, se aconchegando junto ao seu corpo, encostando sua face na do moreno. Um pedido silencioso de desculpas.

- Draco, eu só preciso saber uma coisa, e então posso esquecer qualquer coisa que você tenha me dito hoje.

O loiro o olhou por alguns segundos e concordou com a cabeça.

- Você compreendeu tudo o que eu te disse? Sobre... Sobre o que eu sinto... Sobre o que eu espero de você... Sobre o que eu quero.

Draco o abraçou com força e Harry o sentiu estremecer e ofegar em seu ouvido, sem palavras para dizer o que ele já havia entendido. O moreno fechou os olhos e o abraçou de volta.

Ele não fizera a escolha errada.

oOo

N/A: Agy tem um dia do cão e ainda encara duas horas de natação à noite. Chega em casa, louca para dormir, mas decide dar uma olhada nos emails antes na esperança de que a aula de amanhã tenha sido cancelada e ela possa dormir até cansar. Mas então ela se depara com comentários. Sim, muitos. E coerentes. E lindos.

Por isso resolvi postar antes de dormir. Especialmente porque houve alguns questionamentos sobre amor, então esse capítulo é todinho pra vocês. XD

E, dica: capítulo que vem tem parto.

Então continuem amores e eu publico logo.

Beijos e bons sonhos para todos, que eu pelo menos preciso MUITO dormir ¬¬"