N/A: Eu estava em casa quando vi que já deu o número de comentários e, como eu sei que tem gente que não pode ler no fim de semana, estou postando mais cedo hoje. Aproveitem. Beijos.
Capítulo 6 – A hora
Harry acordou assustado. Havia alguma coisa errada. Os lençóis estavam molhados. Ele franziu a testa pela sensação e piscou, despertando e abrindo os olhos de vez. Seu coração quase parou. Draco estava deitado ao seu lado, meio curvado, gemendo de dor e abraçando a barriga. A calça do pijama que usava para dormir estava molhada.
- Draco... Draco, você está bem? – ele virou o loiro pelos ombros, passando as mãos pelo rosto contorcido dele.
- Não... Eu... Ah... Dói... Ah... Eu acho... Acho que... Ah... – ele parou e ofegou rápido e seguidamente várias vezes antes de conseguir voltar a falar – Vai nascer.
- Oh, Merlin!
Harry se sentiu estremecer. Eles haviam evitado o assunto o tempo todo. Draco não havia feito pré-natal por medo, e Harry não concordava com isso. Não sabiam exatamente de quanto tempo ele estava. Talvez fosse cedo demais. Talvez não. Talvez estivesse tudo bem. Levar Draco para o St Mungus não era uma opção. Harry não fazia idéia de como aquilo aconteceria, mas uma coisa era certa: ele não sabia fazer um parto, e Draco não conseguiria sozinho. Eles precisavam de um medibruxo.
- Draco. – Harry chamou baixinho, acariciando a testa suada do loiro, esperando ele parar de tremer e abrir os olhos – Draco, eu vou buscar ajuda. – ele viu o semblante do outro se tornar mais apavorado ainda – Não se preocupe. Eu não nos colocaria em risco. Mas você vai precisar de ajuda. Você entende? – Draco concordou com a cabeça, voltando a gemer de dor – Eu... Eu volto rápido, Draco. Não se preocupe. Eu volto rápido.
Harry sentiu seu punho ser firmemente envolvido por uma mão fria e trêmula enquanto via o loiro se dobrar mais ainda e voltar a gemer de dor. Ele não tentou se soltar, somente esperou, em aflição.
- Vai. – Draco disse, fraco, quando a dor pareceu permitir.
Harry se levantou correndo e vestiu qualquer coisa, indo até a lareira e jogando mais flu do que sabia que era necessário. Ele saiu no saguão do hospital e deu algumas voltas, completamente desnorteado, até que uma enfermeira o segurou pelos ombros.
- O que há com você, filho? Pode falar? Precisa de ajuda?
"Um parteiro"! "Um anestésico"! "Uma pessoa que eu possa confiar para abrir a boca nesse lugar"!
- Weasley! Preciso ver Hermione Weasley!
A enfermeira consultou sua prancheta. E voltou a olhar para o rapaz.
- Ela entra em serviço em dez minutos, mas normalmente chega adiantada. Deve estar na cafeteria. Hoje ela só tem visitas, talvez possa lhe dar alguma atenção.
- Obrigado. – disse, já correndo escada acima.
Foi com o coração acelerado não só pela subida que seus olhos correram todo o salão de chá. Ele nunca pensou que fosse tão difícil localizar os cabelos cheios e conhecidos de Mione, mas seus olhos passaram por ela três vezes até que a reconhecesse.
- Mione! – gritou e recebeu uma sova de "shssss" enquanto ela se levantava e vinha de encontro a ele.
- Harry! Merlin, você sumiu! Onde estava? Ginny me disse que você viajou a trabalho e...
Foi calada por um dedo em seus lábios e só então percebeu o estado de aflição do amigo.
- Mione, eu preciso muito da sua ajuda. E tem que ser você, porque eu não confio em mais ninguém. Duas pessoas que eu amo muito estão precisando de auxilio médico, estão correndo risco de vida. Mas não podem ser encontradas. De forma alguma. Eu preciso da sua ajuda, preciso que venha comigo, e preciso que faça um pacto jurando manter total segredo sobre o que vai ver e acontecer.
- Harry, você está me assustando, o que...
- Mione!
- Ta... Ta... – ela pegou uma faca sobre a mesa e retirou um lenço branco do bolso, furou o dedo, deixando cair três gotas de sangue, resmungando alguma coisa, então olhou para o amigo – Não me faça me arrepender disso, Harry Potter. Juro manter segredo sobre qualquer coisa que você me mostrar ou disser. Juro segui-lo para onde me levar. Juro que vou fazer o que estiver ao meu alcance para ajudá-lo. Agora me diga o que está acontecendo.
Harry pegou o lenço e enfiou no bolso, conduzindo a amiga pelo pulso até a lareira mais próxima. Os dois passaram diretamente ao quarto do chalé, e a primeira imagem que chegou a Harry foi um Draco em posição fetal, abraçando a barriga, gritando de dor.
- Draco!
Ele correu imediatamente para a cama, tentando acalmar o amante.
- Eu consegui ajuda... Vai dar tudo certo... Fica tranqüilo, meu amor... Você vai conseguir...
Hermione estava paralisada com a cena, tentando absorver a informação. Draco Malfoy estava... em trabalho de parto? "Duas pessoas que eu amo muito estão precisando de auxilio médico"... "Meu amor"... Harry estava trabalhando fora por quase... nove meses.
- Oh, Merlin! – Hermione passou as mãos nos cabelos, sentindo uma tontura súbita – Harry, ele... Isso não é possível... Ele não pode... Harry, ele é um homem!
- Eu não sei como isso aconteceu, Mione. – Harry a olhava de forma desesperada e implorante – Mas ele precisa de ajuda. Por favor, Mione. É meu filho...
Hermione respirava quase tão rápido quanto Draco, e foi somente quando este voltou a gritar que ela conseguiu deixar os olhos de Harry, olhando para o loiro. Ele não lembrava em nada o garoto arrogante do colégio nesse momento. Estava mais velho, certamente, e muito mais pálido. Trêmulo e suado, as mãos abraçando a barriga proeminente, os dentes rilhados de dor, a respiração irregular, as pernas entreabertas. Ela precisava fazer alguma coisa.
Ela tirou o jaleco e o suéter, se aproximando da cama. Tomou o pulso do loiro, recebendo um olhar que não poderia ser traduzido por menos que atemorizado, e pousou a outra mão em sua testa, verificando alguma alteração na temperatura corporal enquanto verificava a pressão.
- Fica calmo... Vai dar tudo certo. – ela disse com um sorriso doce, depois se voltou para Harry – Ele está no tempo certo?
- Não sabemos.
- Tá. Posso conjurar coisas aqui? Preciso do meu equipamento. Vou precisar examiná-lo.
- Claro. – Harry se levantou e esvaziou uma mesa que estava no canto do quarto, fazendo-a levitar até estar próxima da cama, enquanto Hermione ajeitava os travesseiros, acomodando melhor o loiro.
- Fique ao lado dele, Harry. Ele vai precisar de apoio.
Ela começou a conjurar diversos frascos de poções e muitos instrumentos, então se voltou para Draco, lhe oferecendo uma dose.
- Beba... Vai diminuir a dor.
Harry o ajudou a beber e ele relaxou quase instantaneamente sobre os travesseiros, tentando controlar a respiração. Harry beijou sua testa e pegou sua mão. Hermione se aproximou com a varinha, apontando para uma parede.
- Lumus corpus. – uma luz amarelada brilhou de sua ponta, em seguida ela direcionou para o corpo de Draco. O examinou da cabeça aos pés, e imagens do interior de seu corpo apareciam projetadas na parede. Hermione estava séria, mas não falava nada. Harry não pôde deixar de sorrir ao ver a imagem do bebê posicionado dentro de uma bolsa no ventre de Draco. Hermione resmungou.
- O que foi? – Draco perguntou, aflito.
- Eu não sei. A criança está bem, não se preocupe, e o parto está acontecendo na hora certa. Mas... Eu... Eu não sei como. Olhe. Você desenvolveu uma espécie de útero, ligado à porção final do seu intestino. Não se assuste, alguns animais têm o sistema reprodutor assim. Mas é um útero artificial, mágico, ele não esteve o tempo todo aí e provavelmente vai desaparecer depois do parto. Dentro do seu corpo, ele está posicionado da mesma forma que o útero feminino, e por isso eu pensei em fazer uma cesariana. Mas ele é diferente. Eu não sei como ele é formado, não sei como posso fazer isso sem provocar uma hemorragia.
- Você pensou em me cortar? Como os trouxas fazem? – Draco perguntou assustado e indignado.
- Draco, você tem noção da quantidade de magia que está fluindo neste momento pelo seu corpo? Eu nunca vi nada igual! Eu não poderia interferir com métodos mágicos para o parto, eu, você e o bebê estaríamos em risco. Só me restam essas duas opções. Cesariana, que, como eu te falei, é muito arriscada, é quase certeza que eu vá salvar o bebê, mas você corre um risco muito grande.
- Ou?
- Parto normal.
- Quê? Ele... ele vai... Quê? – Harry gaguejou, Draco se limitou a perder completamente a cor.
- Ele já está com uma dilatação uterina considerável e... dilatação anal também. A poção que eu dei diminui a dor, mas as contrações continuam, e estão cada vez menos espaçadas, e a placenta já descolou. Aparentemente, seu corpo está se preparando para isso. Eu só temo por uma coisa.
- O que? – a voz de Draco soou fraca.
- Você é um homem, Malfoy. Isso quer dizer que, por mais que a magia tenha adaptado seu organismo para isso, você não tem a estrutura necessária para dar a luz.
- O que você quer dizer, Granger? – sua voz era um desafio.
- Quero dizer que, como qualquer homem, o osso da sua bacia é estreito demais. A cabeça do bebê não passa.
Draco fechou os olhos com força e se encolheu para junto do corpo de Harry.
- Isso... Isso quer dizer... Quer dizer que é ou a vida do Draco ou a do bebê? – a voz de Harry tremia e seu rosto estava tomado por pavor enquanto ele segurava a mão de Draco com toda a força do mundo.
Hermione suspirou e se aproximou de Draco.
- Malfoy... Você está mesmo disposto a colocar essa criança no mundo, custe o que custar?
Draco a olhou firmemente durante alguns segundos antes de confirmar com a cabeça.
- Nem que eu tenha que morrer. – sua voz soou fraca.
- Talvez não seja necessário. Mas vai doer. Vai doer muito. Você já deve ter ouvido falar da dor do parto. O seu parto já será naturalmente mais dolorido. Se você quer que essa criança sobreviva, eu posso mutar o osso da sua bacia para que ele se torne maleável, permitindo a passagem do bebê. Mas isso vai ser absurdamente doloroso, e vai exigir uma recuperação lenta e rígida. Você não vai poder sair da cama por semanas, provavelmente.
- Faça o que for preciso, Granger. – sua voz saiu resoluta dessa vez.
- Certo. Harry, vou precisar que você dê apoio a ele. Apóie melhor o seu corpo, mantenha algo firme por perto ao qual ele possa se agarrar sem se machucar, e arranje um pedaço de pano para ele morder. Eu vou esvaziar seu intestino e bexiga, tudo bem? – Draco concordou com a cabeça e a ouviu proferir os feitiços – Vou precisar te despir da cintura para baixo... Ou você prefere ficar nu? Se estivéssemos no hospital, você usaria um avental especial, mas não temos isso aqui, então imagino que vá se sentir mais a vontade.
- O que eu estou vestindo não é minha maior preocupação no momento, Granger!
- Certo...
Ela murmurou um feitiço, despindo-o completamente, e voltou a trabalhar com seus utensílios na mesa. Então se sentou novamente ao lado dele ao mesmo tempo que Harry retornava com mais alguns travesseiros para apoiar o corpo de Draco.
- Certo... Vamos lá... – e começou a dar poções para ele beber – Esta é para manter sua pressão arterial estável, esta vai aumentar as contrações, e fatalmente a dor vai voltar em algum momento, esta para aumentar a dilatação, esta é cicatrizante, esta anestésico, esta é a que vai agir no seu osso junto ao feitiço, esta é para eliminar tecidos residuais e esta para lubrificar... Só. – Hermione lançou o feitiço, apontando a varinha para o quadril de Draco - Quando começaram as contrações?
- Umas três horas da manhã.
- Mas você só apareceu no hospital às sete! – Hermione olhou indignada para Harry.
- Foi quando eu acordei com o suplício dele. Ele não me chamou. – Harry encarava Draco, acusatório.
- Eu... Eu tive medo... Eu não sabia o que fazer...
Harry beijou sua testa, voltando a segurar sua mão.
- Certo... Isso significa que você já está em trabalho de parto há pelo menos quatro horas... As poções vão agilizar o processo, e eu vou ficar te monitorando, mas suponho que ainda temos muito tempo pela frente.
Foram mais três horas até que Draco voltasse a sentir as dores das contrações, e mais duas até que Hermione se desse por satisfeita com a dilatação e inclinasse seu quadril e suspendesse suas pernas abertas com uma estrutura de metal, parecida com a usada por ginecologistas, se colocando entre elas.
- Agora é com você, Draco... Força!
Draco suava. Uma mão se apoiando na cabeceira da cama, a outra segurando o braço de Harry como se sua vida dependesse disso. Ele gritava por entre as dobras do pano que separava seus dentes e tremia e respirava de forma rápida e rasa, como se não tivesse ar suficiente.
Em algum momento das horas que se seguiram, entre gritos e pedidos de "Força!", Draco começou a chorar, e Harry o beijava e sussurrava palavras de apoio, de carinho. "É nosso filho, Draco... Força, meu amor...". Quando Hermione gritou um "Está quase!", Harry pensou que Draco fosse morrer. Seu corpo se retesou e arqueou, seu grito se tornou contínuo, como se ele estivesse recebendo um Cruciatus, seus olhos fechados com força e as unhas cravadas no braço de Harry tiravam sangue.
Até que um choro, forte, limpo, tomou conta do ambiente, e Draco desfaleceu sobre a cama, tentando respirar, muito próximo da inconsciência. Harry ria e chorava ao mesmo tempo, intercalando beijos em sua face com carinhos e olhares brilhantes para o bebê ensangüentado berrando no colo de Hermione. "Você conseguiu, meu amor... Você conseguiu..."
Hermione trouxe o bebê ainda sujo e depositou sobre o peito de Draco, que o tocou, incerto, sentindo-o se acalmar e se mexer levemente sobre o seu peito, fraco e emocionado demais para conseguir dizer qualquer coisa.
- Você está bem? – Hermione perguntou, preocupada.
Draco sorriu, mordendo o lábio, deixando as lágrimas caírem enquanto acariciava o filho, os dedos da outra mão entrelaçados aos de Harry, absolutamente sem forças para responder.
A mão de Draco estremeceu e seus olhos ameaçaram se fechar. O sangue se espalhava rapidamente pela cama, tingindo os lençóis.
- Draco... Eu preciso cuidar de você... – a voz de Hermione chegou incerta, com medo de romper a magia do momento.
O loiro concordou com a cabeça e Harry pegou o bebê, trêmulo, com carinho, envolvendo-o em um pano e se afastou um pouco para que Hermione pudesse trabalhar.
Draco estava sangrando muito. Ele tremia, pálido, seus lábios arroxeados, seus olhos piscando molemente.
- Draco... Fica comigo... Não durma, por favor... Preciso de você consciente... – Hermione pedia continuamente, lhe dando poções para beber e executando feitiços para curar o corpo ferido pela passagem da criança. Draco resmungava e gemia, parecendo ausente, sem forças sequer para reagir à dor.
- Qual o problema, Mione? – Harry perguntou baixinho, vendo-a se ajoelhar entre as pernas de Draco algum tempo depois, assoprando os fios soltos de cabelo para longe do rosto, já que estava com as mãos ensangüentadas.
- Harry, um homem ter um filho não é algo natural, espero que você tenha reparado nisso. O corpo de Draco nunca estaria preparado para um parto. O corpo de uma mulher tem elasticidade e lubrificação e... a posição é diferente... e tem hormônios agindo e mais tantas outras coisas... Enfim, nosso corpo é complexo e o de Draco definitivamente não estava preparado para isso. Mas... acho que ele vai ficar bem. – ela suspirou e olhou para o loiro desmaiado – Eu espero.
Ela sorriu, se levantou e se lavou, tomou a criança das mãos do moreno, começando a limpá-la.
- É uma menina. Oh, Merlin, como isso é irônico. Uma menina nascida de dois homens. – ela olhou o amigo, apreensivo, e completou – Uma menina linda e saudável.
Harry a olhava cuidar da filha, sem conseguir tirar o sorriso do rosto, embora não pudesse esconder a preocupação com Draco.
- Ele vai ficar bem mesmo, Mione?
Ela não respondeu. Terminou de vestir o bebê e voltou a se aproximar da cama. Examinou Draco mais uma vez.
- As poções estão fazendo efeito. Seu corpo está voltando ao normal. Agora é só ele se recuperar. – sorriu – Ele é muito forte, Harry.
Ela desceu os pés do loiro da estrutura de metal com cuidado, mantendo as pernas dele flexionadas, murmurou um feitiço de limpeza. Draco parecia estranhamente frágil.
- Harry, vem cá. Pode carregá-lo um minuto? Passe um braço sob os seus joelhos... Isso... O outro sob os ombros. Mantenha os joelhos alinhados... É só um minuto.
- Ele está tão leve...
- Bem, você deve ter se acostumado com o peso dele com o bebê... Além do que, ele perdeu muito líquido, e não se alimenta desde ontem, não? – ela explicou enquanto trocava a roupa da cama e limpava o quarto – Pode deitá-lo de novo. Isso... Com cuidado... Mantenha as pernas dele dobradas...
Hermione ainda examinou Draco mais uma vez, antes de colocar o bebê deitado ao seu lado e chamar Harry para conversar.
- Ele está bem. Está fraco e cansado, mas vai ficar bem. Deve acordar logo. Ele vai precisar tomar uma série de poções regularmente nos próximos dias. Eu já deixei tudo preparado e etiquetado para você. Refeições leves e muito líquido. Se ele sentir vontade de ir ao banheiro, use um feitiço para resolver isso, mas ele não pode se mover muito até o osso estar firme de novo. Sentar só daqui três dias e andar em cinco ou sete, acho que posso voltar para vê-lo antes disso. Mas mesmo depois ele ainda vai ter que repousar bastante. Faça com que ele fique parado, Harry. O corpo dele está muito fragilizado, mas eu sei o quanto ele é teimoso. Ele vai sentir dores internas fortes, eu estou deixando poções para isso também. Ele vai ficar irritadiço, mais do que o normal. Seja paciente com ele. Aproveitem para curtir a filhona juntos.
Harry sorriu, olhando a filha dormindo ao lado do pai.
- Como aconteceu isso, Harry? – Hermione perguntou, uma nota de emoção e curiosidade na voz.
- Eu não sei. É verdade, Mione, eu não faço idéia. Ele... Ele simplesmente apareceu um dia passando mal... E, quando fomos ao médico... Merlin, eu quase desmaiei.
- Quem sabe disso, Harry? – agora a voz dela soava preocupada.
- Ninguém. Eu apaguei a memória do médico. O Draco teve o bom senso de vir para cá imediatamente. Ninguém sabe, só nós.
- E o que você pensa em fazer a respeito? Uma hora vocês terão que voltar, e eventualmente as pessoas vão saber...
Harry mordeu o lábio, observando os dois dormindo por um tempo.
- Eu não sei, Mione, eu não sei.
- Há quanto tempo vocês estão juntos? – havia amargura e reprovação na sua voz.
- Dois anos.
- Por quê, Harry? Por que você fez isso com a Ginny?
- Não estamos falando só da questão de eu trair a Ginny, Mione. Pense um pouco.
Os dois caíram em um silêncio desconfortável.
- Eu não estava feliz. Ele fez eu me sentir melhor.
- Você o ama, Harry? – sua voz veio baixa.
- Muito. – ele respondeu no mesmo tom, e a emoção confirmava o que estava evidente na sua voz.
- Então fica com ele. Você não está feliz com Ginny, e nem ela. Não será fácil para vocês se separarem, mas é uma questão de tempo. E eu sei que você não vai deixar suas crianças para trás, seja de um lado ou do outro.
Harry riu.
- Eu não sei, Mione, depende de tanta coisa... Depende de mim, dele, como vamos ficar agora. Ele é casado também, afinal de contas, e já tem um filho. – Harry sorriu – Gente boa o filho dele. Esteve aqui, os dois conversaram. Ele pareceu aceitar bem a decisão do pai de se afastar por um tempo, de se envolver com outro cara. – Harry se sentiu alarmado – Espero que ele não tenha falado nada para a mãe dele... Isso tornaria as coisas mais difíceis.
- Não, não falou. Scorpius está morando com os avós nos últimos meses. Aparentemente, a esposa de Draco se sentiu... ofendida. Com o sumiço dele. Foi manchete no Profeta e ficou no topo das colunas sociais durante algum tempo. Ela declarou algo do tipo que rejeição não estava no contrato nupcial e que não precisava agüentar a humilhação de seu marido sumir por meses sem satisfação. Confesso que o silêncio de Draco me fez pensar que ele realmente havia fugido com alguma biscate para as Bahamas, ou algo parecido, mas vendo agora o que ele estava passando, acho que não vai querer voltar a conviver com uma mulher que deixou o filho com os sogros e voltou para a casa dos pais na primeira oportunidade. Eu não voltaria.
Harry engoliu em seco.
- Eu não sei. Ele gosta da esposa.
- Ele gosta de você. E gosta da filha de vocês dois. Se não gostasse, ele teria abortado. Eu abortaria, na situação dele. É assustador demais!
Os dois caíram em silêncio por um tempo, observando o sono alheio.
- Eu preciso ir. Qualquer coisa, me chame, Harry. Eu vou dizer para a Ginny que você esteve na lareira do hospital na hora do almoço hoje, quando deu uma folga no seu serviço, para mandar notícias. Vou dizer que está bem, mas que não sabe quando vai voltar, e que sente saudades das crianças.
- Nossa, ela vai morrer se você falar isso.
- Mas é a verdade, não é? Ou vai dizer que você está pensando nela todos os dias, todas as horas, e que não agüenta mais de saudades?
Harry olhou para Draco.
- Eu tenho pensado muito nela. Mas, infelizmente, não são saudades.
Hermione sorriu.
- Eu vou deixar isso claro para ela, Harry, e vou deixar ela gritar um pouco comigo antes de gritar com você, quando você voltar. Vocês dois estão machucados demais para o próprio bem de vocês. Mas não se preocupe com ela agora. Você tem mais no que pensar nos próximos dias, como fraldas e poções. Bem... Vou indo. Cuida bem dos dois, sim? E, qualquer coisa, pode me chamar. Se eu não estiver em casa, nem no hospital, estarei na biblioteca do Ministério.
- Na biblioteca? Por quê?
- Preciso descobrir há quanto tempo foi o último caso de gravidez masculina e como aconteceu. – ela disse com um sorriso maroto brincando no rosto.
Harry acompanhou Mione até a lareira e depois voltou para o quarto. Examinou os inúmeros vidrinhos de poções que ela havia deixado sobre a mesa e depois se voltou para a cama. Beijou e acariciou a cabeça de Draco, que dormia profundamente, sereno. Depois se sentou no chão, de maneira que a forma inerte de sua filha ficasse na linha de seus olhos.
Nunca havia assistido a um parto antes. Nem dos seus filhos. Foi a coisa mais emocionante de sua vida, e olha que sua vida era agitada.
Levemente, tocou com as pontas dos dedos o rostinho de sua filha. Não haviam escolhido o nome ainda. Que displicência. Seria a primeira coisa em que pensaria quando Draco acordasse, comesse e tomasse todas as poções necessárias. Céus, ela era tão linda. O cabelinho ralo, claro, espalhado ao léu, os olhos nunca abertos ainda. A pele rosada. O corpinho pequeno. Os dedinhos, os pezinhos. Tão frágil, em tudo. Nunca havia tocado em uma vida tão nova. Seus outros filhos ele acabava vendo mais tarde; ela, ele pegou suja de sangue ainda. O sangue de Draco. Ouviu seu primeiro choro, sua primeira respiração.
O bebê bocejou e se mexeu um pouco em seu sono. Sua mãozinha tocou o dedo de Harry que a acariciava e o envolveu levemente com seus dedinhos pequenos. Duas lágrimas deixaram os olhos verdes, se perdendo em seu sorriso.
oOo
N/A2: Não vou comentar nada porque to MUITO ansiosa pela receptividade desse capítulo.
Beijos.
