NA1: Sugestão de música para se ouvir durante a leitura: "Prelude 12/21", AFI. Boa leitura XD
Capítulo 3 – Preguiça
. indolência . moleza . morosidade . negligência .
. inação .
Harry acordou com dor de cabeça, e isso não era comum, ou normal, ou bem vindo.
Levantou-se e fez sua higiene distraído. Um aviso mágico deixado por ele mesmo no espelho do banheiro o informava que tinha prova de disfarce no Ministério dali três horas e não se sentia nem um pouco melhor com isso. Tivera sorte de acordar a tempo, visto que havia ido dormir há poucas horas, depois de voltar do encontro com Malfoy.
Malfoy.
Lembrar daquilo também não ajudava. Foram horas estranhas aquelas que passaram juntos, conversando. E fazendo outras coisas.
Harry ergueu o rosto e se encarou no espelho, os provocantes olhos verdes de Sin sorrindo para ele. A noite passada não fora ruim, só... surpreendente. E ele não sabia o que pensar.
A declaração de Draco pegou os dois de surpresa. E os dois a ignoraram prontamente, se vestiram em silêncio e aparataram poucos minutos depois.
Era mais fácil assim.
Desceu as escadas descalço e ainda de pijama. Um pijama largo demais para o corpo de Sin. Cumprimentou Kreacher em meio a um bocejo e sentou-se à mesa para o desjejum.
E só então a viu.
- Bom dia, Mione. – sorriu para a menina sentada no outro extremo da cozinha.
- Já passa do meio dia, Harry. Você sabia que tem uma prova hoje?
- Sim. – ele respondeu e parou para tomar um gole de chá – Às três. E, pelo que eu sei, você e Ron também.
- E por que você está acordando quando devia estar se preparando?
Harry manteve silêncio durante um tempo. Ao longo dos anos se acostumara com aquele tipo de cobrança vinda de Hermione. A postura de mãe e o tom de voz não escondiam que aquilo era mais do que um aviso, era uma repreensão. E, no fundo, ele sabia que era certo. Que ele havia assumido um compromisso e devia estar preparado para honrá-lo.
Mas não era o que ele queria.
- Hermione, para que você está fazendo esse curso?
Ela se empertigou na cadeira frente à pergunta.
- Bem... Não é exatamente exigido para o cargo que eu quero, mas seria interessante ter essas aptidões, então... Harry, por que isso agora?
- Me diz... Por que eu estou fazendo esse curso?
- Porque você quer ser auror. – a resposta veio óbvia e rápida.
- Sim... Porque eu quero ser auror. – Harry remexeu os restos de seu café da manhã e decidiu que não queria mais comer. Deixou o prato em cima da mesa e se levantou.
- Harry, você não comeu nada. – Hermione veio atrás dele. E isso não soou como algo bom.
- Mione. – Harry parou no meio da sala e inspirou fundo – Você tem razão. Eu preciso me preparar para o teste. Se incomoda em me deixar um pouco sozinho?
- Eu pensei que talvez quisesse alguém com quem praticar. – ela sugeriu, sorrindo. E Harry realmente desejou que ela não fizesse isso.
- Eu vou ter que sair daqui a pouco... – ele constatou imediatamente.
- Certo. Harry, eu queria conversar com você. Acho que pode me dar um minuto, não? – ela sugeriu, já o puxando para o sofá.
Ele se sentou com as pernas cruzadas sobre o acento e quis poder puxar um cigarro. A expressão de Hermione ao se sentar na poltrona à sua frente não era promissora.
- Harry, onde você tem ido?
- Como assim?
- Não é a primeira vez que eu tenho que me dispor a ficar horas sentada na cozinha conversando com o Kreacher na esperança de conseguir falar com você. E eu me considero uma pessoa com sorte nos dias em que eu consigo, nos dias em que você está em casa ou acorda antes que eu desista ou precise sair.
- Eu estou cansado...
- De quê? Você não vai no teste de hoje, que eu sei. E sei também que não é o primeiro que você falta. O Kingsley foi me procurar porque está cansado de inventar desculpas para você.
- Eu não pedi para ele fazer nada! – Harry respondeu com raiva.
- E precisa, Harry? Ele só se preocupa.
Harry se levantou do sofá com violência, começando a andar agitado pela sala.
- E tem outra coisa. – Hermione continuou a despeito da reação do amigo – Ginny.
- O que tem ela?
- Ela terminou o colégio, Harry. Semana passada. Ela esperava que você a fosse buscar na plataforma, mas você não foi. E ela está na Toca, Harry, há uma semana, e você não apareceu por lá.
- Eu a vejo no domingo, no almoço. – o garoto respondeu rápido, a vontade de fumar aumentando a cada segundo.
- Faz três semanas que você não almoça conosco. – Hermione constatou, triste.
Harry se apoiou no caixilho da janela, passando a mão no rosto.
- O que você espera que eu diga? - e ele sabia que, o que quer que fosse, ele diria. Dizer era fácil.
Hermione o olhou por algum tempo antes de se levantar, pegar a bolsa e pousar um beijo sobre sua testa.
- Você não tem que me dizer nada, Harry. Você sabe o que é melhor para você.
E saiu, deixando Harry sozinho consigo mesmo.
o0o
Harry não foi à prova. Não sabia dizer se em algum momento teve realmente intenção de ir. Já há alguns meses vinha questionando o que significava para ele ser auror. E a resposta a que chegou era que ser auror era continuar fazendo o que sempre fez: caçar aqueles que lidavam com magia negra e iam contra as leis da sociedade bruxa.
Só que agora ele estava à margem dessa sociedade. E foi ele que se colocou ali.
Encostou o corpo contra a árvore e acendeu o cigarro, tragando profundamente e segurando a fumaça enquanto observava os passantes no parque. Era delicioso sentar ali, sentir a brisa leve e quente do verão londrino e observar as crianças brincando.
Ele nunca mais seria criança e precisaria de no mínimo três feitiços para conseguir parar e observá-las sem risco de ser incomodado. Pelo resto da vida.
Já havia coisas demais que ele não podia mais escolher, que ele não podia mais mudar. E havia tantas outras escolhas que ele sabia que estava queimando naquele mesmo momento, junto com seu cigarro.
Seu curso de auror era uma delas. Ginny podia ser outra.
Ele definitivamente sentia algo por ela, mas não era o que um homem deveria sentir por uma mulher. Sentimentos não eram o seu forte e ele não tinha muita base de comparação, mas não era. E, já há algum tempo, um outro detalhe o vinha incomodando. Ginny o aceitaria? Ele poderia abandonar Sin e viver com uma mulher que simplesmente ignoraria uma parte de sua vida? Ele conseguiria manter segredos para a sua esposa, a mulher com quem se casaria e teria filhos, formaria sua família?
Harry tragou mais uma vez o cigarro e voltou a olhar as crianças. Ele queria uma família, essa era uma das poucas certezas que ainda tinha. Queria filhos e queria alguém para ficar ao seu lado. Sempre.
E isso incluía não ter segredos.
E, nesse ponto, Sin o havia ensinado que não importava se essa pessoa seria homem ou mulher, mas Harry tinha a necessidade de ser aceito. E agora, ser aceito com Sin. Ser aceito como homem que tem vontades, desejos, iniciativas e carências próprias. E não precisa de uma pessoa com pudores e vergonha do que ele é.
Ele não tinha vergonha de Sin.
Mas tinha consciência de que Kingsley não inventaria desculpas para ele se soubesse que é Sin que falta nos testes, e não O Salvador.
E esse era o único motivo de ele não fumar na frente de Hermione, de ele não se separar de Ginny, de ele não abandonar o curso.
Ser Sin era difícil. E ele se sentia cansado demais de sua própria vida para conseguir lidar com dificuldades naquele momento.
o0o
A conversa com Kingsley foi curta. Ele se mostrou muito compreensivo quando Harry simplesmente pediu desculpas e mandou que ele fosse logo assistir aos treinos do dia.
A conversa com o Senhor e a Senhora Weasley foi um pouco mais longa, mas Harry falou tão pouco quanto com Kingsley. Aparentemente, eles realmente estavam preocupados com ele, e já haviam catalogado todos os motivos possíveis para a sua ausência e os aceitavam, com certeza.
Ron foi o único que se mostrou realmente magoado com seu afastamento, mas não colocou isso em palavras. Mione, por outro lado, sorriu de forma sincera ao vê-lo chegar para o almoço no domingo.
Ginny não quis conversar. Ela sorriu placidamente e o abraçou. Durante toda a refeição, Harry podia senti-la tocando-o por baixo da mesa, fosse encostando as pernas dos dois, enlaçando seus dedos ou esbarrando eventualmente enquanto se serviam. E aquilo estava deixando Harry preocupado.
Depois de comerem, todos foram para a sala e logo alguns dormiam nos sofás e poltronas ou conversavam aos sussurros. Não foi difícil Ginny puxá-lo para seu quarto com a desculpa de que queria mostrar seus NIEMs para ele. Porém, mal fecharam a porta, ela o puxou para beijá-lo de forma entusiasmada e suas pequenas mãos corriam pelas costas por baixo da camiseta do garoto.
- Calma, Ginny... – ele conseguiu afastá-la sem demonstrar repulsa com alguma dificuldade.
Ela o encarou e sorriu. Um sorriso compreensivo.
- Então... Como está o curso, Harry? Quando você vai começar a trabalhar como auror de verdade?
Ela perguntou, como se não tivesse acontecido nada, revirando seu malão e realmente puxando um pergaminho com suas notas. Sentou-se em sua cama e deu um pequeno tapinha no cobertor que a cobria, indicando que Harry se sentasse ao seu lado.
Ele sorriu e sentou. E sorriu e fingiu interesse enquanto ela falava de suas provas e dos novos professores de Hogwarts que entraram depois da guerra, e de como as coisas estavam diferentes lá, com o castelo reformado. E realmente se sentiu feliz quando ela contou do convite que recebeu para jogar quadribol por um time pequeno, e permitiu que ela fizesse planos e sonhasse com seu apartamento, onde poderiam morar juntos.
- Eu gostaria de ficar em Grimmauld Place por enquanto, Ginny.
Ela o olhou, especulativa.
- Eu achei estranho você voltar para lá. Achei que fosse só uma referência depois do fim da... Depois que tudo acabou. – ela suspirou – Harry, agora podemos ter a nossa casa. Você não precisa ficar naquele lugar.
- Eu reformei. E está tudo limpo... Não é como...
- Harry, você não precisa gostar de lá.
- Mas eu gosto. – Harry a olhou meio aflito. Por que era tão difícil aceitar suas escolhas?
Ela parecia triste, como se o fato dele não desgostar da casa significasse algo mais.
E Harry não queria aquela tristeza para ele.
Acariciou o rosto da menina com as costas da mão, delicadamente. Ela era delicada. Ela podia ser forte, ter o melhor feitiço de rebater bicho papão e enfrentar os irmãos por ele, mas, no fundo, ela era só uma menina. E ele desejou preservá-la assim. Só uma menina.
Ela deu um impulso e o beijou, mordendo seu lábio, e se afastou para olhá-lo por um momento. Ginny se ajoelhou sobre a cama, em frente a Harry, e puxou sua camiseta até retirá-la. E ele permitiu.
Ela tirou a própria blusa, fazendo os olhos verdes se prenderem na pequena peça que lhe cobria os seios. Branca, com florzinhas vermelhas. Quase infantil. O gesto da menina ao se sentar em seu colo, porém, não tinha nada de infantil. E Harry permitiu que as mãos pequenas de unhas bem feitas acariciassem seu peito enquanto ela o beijava lentamente. Doce.
Ele a deitou na cama com delicadeza, se debruçando sobre ela em um último beijo enquanto acariciava seu ventre branco, marcado pelas sardas típicas. E sorriu, triste.
- Eu não posso fazer isso, Ginny. – disse, baixinho.
- Eu quero, Harry. – ela respondeu, segurando sua mão para que ele não deixasse de tocá-la.
Mas ele não queria. E não soube dizer para ela, porque uma pessoa como ele era paga para fazer aquilo. E mesmo Sin não queria, porque ela, no fundo, não sabia o que aquilo significava para ele.
Harry se deitou ao seu lado, olhando para ela, e a abraçou. Porque ele sabia o valor dos abraços, e queria que ela entendesse.
- Não é que eu não goste de você, Ginny, não pense isso... Eu só... Não posso. Não agora.
Ele sentiu o movimento dos cabelos ruivos contra seu peito nu, e soube que ela concordava, mas sabia também que ela não o olhava, e ele não a olhou. Somente estreitou seu corpo contra o dele e permitiu que ela dormisse assim.
Era melhor desse jeito.
o0o
Quando Harry deixou A Toca já era tarde da noite, e ele permitiu que Ron e Mione o acompanhassem até Grimmauld Place, e prometeu que se veriam mais e que se precisasse de qualquer coisa chamaria os dois. E se permitiu sentir-se bem com o abraço de Ron e o sorriso de Mione antes que aparatassem.
Porém, só entrou em casa para trocar de roupa, pôr as roupas de Sin, e sair. Para a avenida.
E naquela noite, ele preferiu não levar o celular, preferiu clientes novos. Novos estranhos. Não queria ninguém que o conhecesse.
E quando a mulher com idade para ser sua mãe o pediu para estuprá-la, ele fez.
E quando o grupo de três homens o abordou, ele aceitou ir junto após negociar o preço, independente do que fariam com ele.
E aceitou que a menina e seu namorado colocassem objetos dentro de seu corpo enquanto o assistiam transando com outro homem.
E permitiu ser amordaçado e chicoteado. E permitiu mordidas e beijos. Em diversas posições.
E se permitiu fazer devagar com um menino que chorava ao ser tocado. E foi bem pago por isso.
E só voltou para casa três dias depois, e mandou Kreacher comprar mais cigarros e poções de cura.
E estava melhor assim.
-:=:-
NA2: Obrigada à twin, pela super betagem.
E obrigada a todos que leram e comentaram. Vocês são lindos. XD
Espero não ter decepcionado vocês com esse capítulo... O próximo: A Gula.
Aguardo os comentários.
Beijos
