NA1: Esse capítulo vai pro Shade, porque ele ainda vai gostar de slash XD
NA2: Sugestão de fundo musical para o capítulo: "Uno", Muse
Capítulo 4 – Gula
. abuso de comida ou bebida .
. grande amor a boas iguarias .
. excesso .
Harry estava encostado na viela ao lado do Ministério da Magia, terminando de fumar um cigarro. Fazia mais de duas semanas que não aparecia no curso e precisava se preparar para o que quer que fosse ouvir. Estava fumando muito ultimamente.
Sin bateu a bituca entre os dedos, fazendo a cinza cair no chão, deu uma última tragada e a jogou na sarjeta, virando a esquina e andando firme até a cabine telefônica que levava ao saguão do Ministério.
Por mais que o local estivesse lotado, por mais que as pessoas tivessem pressa, por mais educadas que fossem, ele sabia: era observado. E isso o incomodava.
Chegou até a bancada onde deveria deixar a varinha e perguntou pelo ministro. Ele estava no Departamento de Mistérios, resolvendo algo relativo a ampulhetas. Harry se surpreendeu, raramente o ministro deixava seu gabinete, mas talvez os artigos do Departamento de Mistérios exigissem atenção especial. E decidiu que não queria ficar esperando sozinho no gabinete. Era melhor se encontrarem logo e, se fosse para ir embora, já sairia de uma vez.
Pegou o pequeno elevador e esperou pela breve descida até o nível dos tribunais. Aquele lugar sempre lhe trazia arrepios. Puxou a capa para mais junto do corpo e andou devagar, esperando realmente que tropeçasse em Kingsley antes de ter que chegar àquela porta no fim do corredor que vira tantas vezes na sua vida, fosse pessoalmente, fosse em seus pesadelos.
O barulho de seus passos no chão de pedra ecoava no vazio daquele lugar, e ele já pensava em dar meia volta e esperar no Átrio quando os sons de uma porta se abrindo e da voz de um homem chegaram até ele, também amplificados.
- Eu sinto muito, Senhor Malfoy. Não acho que tenho recursos para ajudá-lo em mais nada.
O homem baixinho, careca e bem vestido saiu de uma sala a apenas alguns passos de onde Harry estava, passou por ele sem cumprimentá-lo, e entrou no elevador.
Harry se adiantou com cautela, a curiosidade quase infantil sendo maior e o fazendo espiar no limiar da luz que saía da sala. Draco estava sentado em frente a uma mesa coberta de papéis, os cotovelos apoiados na superfície, as mãos cobrindo o rosto. Elas escorregaram pelos cabelos loiros até a base do pescoço em um gesto de derrota, e o loiro suspirou. Dedos trêmulos juntaram os papéis em um único monte e o reduziram, colocando-o no bolso da capa. Harry achou que ele ia se levantar e sair dali, mas Draco aparentemente estava transtornado demais para conseguir sequer andar. O loiro deixou a testa cair contra a mesa e Harry o viu respirar fundo várias vezes seguidas antes da voz baixa o atingir em um resmungo.
- Merlin, o que que eu faço?
Harry se virou, encostando as costas contra a parede fria do corredor, saindo da área de luz. Conhecia aquilo. Sabia perfeitamente do que se tratava aquele tom na voz do loiro.
Desespero.
E Harry sentiu seu peito se comprimir, porque ele precisava fazer alguma coisa. Merda. Era Malfoy. Mas há um mês Malfoy caíra dentro da sua vida e agora parecia que quanto mais ele ignorava, mais ele o perturbava.
E ignorar não era tão fácil assim.
Mas fazer Draco falar sobre os seus problemas já havia se mostrado um desafio uma vez. Harry sabia que não seria fácil. E sequer sabia se queria realmente fazer aquilo. Fazer qualquer coisa por Malfoy. Qualquer coisa para que aquele desespero não o atingisse como ele sabia que estava muito perto de acontecer.
Harry suspirou e desejou fumar. E em seguida não quis fumar, porque sabia que estava buscando algo no cigarro que não estava lá. E estava fumando demais.
Endireitou-se, respirou fundo e se voltou para entrar na sala no mesmo instante em que Draco resolvera sair. As mãos nos bolsos e a cabeça baixa, mergulhado nos próprios problemas. O choque foi inevitável, e Harry teve que segurá-lo pelos ombros para que ele não caísse.
E agiu por impulso, como sempre, ao ver os olhos prata se arregalarem quando o reconheceram. Aparatou para Grimmauld Place.
- Mas que merd... Quê... – Draco caiu sentado no sofá, tentando se localizar. E acabou se deparando com Harry enchendo um copo com algo em cima da mesinha ao lado dele.
- Tome. – Harry estava sério. E ele não pediu, ordenou.
- O que é isso? – Draco olhou para o copo, desconfiado – Para onde você me trouxe?
- Para minha casa, e isso é whisky. Trouxa. Mas é forte o suficiente.
Draco aceitou o copo e cheirou a bebida, deu um gole e fez uma careta, mas tomou outro em seguida enquanto olhava o lugar com mais atenção. O braço do sofá tinha o formato de serpentes, assim como os detalhes do lustre. Tudo parecia muito limpo e... aristocrático. E, ao observar a parede mais além, finalmente entendeu.
- Esta é a casa dos Black. – ele disse baixinho, fitando a tapeçaria.
Harry seguiu seu olhar e deu de ombros, tomando um gole do seu copo.
- Essa é a minha casa.
- E o que eu estou fazendo aqui? – Draco perguntou, desconfiado.
- Bebendo. – Sin fez um brinde no ar e entornou seu copo. Draco o imitou, tossindo um pouco. O moreno voltou a enchê-los e encostou-se à mesa, o olhando – O que está acontecendo, Draco?
O loiro o olhou com desprezo.
- Ainda não me embebedou o suficiente para me fazer passar por um interrogatório com você novamente, Potter. – disse em tom de desafio.
Sin sorriu e virou a garrafa no copo de Draco, fazendo-o transbordar.
- Então eu vou ter que me esforçar. – disse, baixinho, olhando diretamente para o loiro.
Draco estreitou os olhos e deu um passo para trás, batendo contra a parede. Engoliu em seco, deixando o copo cair de sua mão. Não ia permitir que Sin brincasse com ele de novo.
Em um movimento rápido, o beijou. Um beijo rápido. Um beijo de cala a boca.
Harry recuou um passo, surpreso. Mas Sin sorriu, fazendo Draco sorrir da mesma forma.
Aquilo era só um jogo.
Sin encurralou Draco contra a parede e aproximou seus rostos. Se o loiro queria dar as cartas, ele permitiria.
E Draco jogou.
O beijo já começou forte, bruto. Draco o puxou pela frente das vestes, fazendo com que seu corpo todo colasse ao dele enquanto mordia seu lábio, invadia sua boca, engolia sua alma. E o empurrou.
E Sin sorriu, e jogou a capa em cima do sofá antes que Draco o pegasse pelo pescoço, os dedos longos o acariciando de forma nervosa enquanto voltava a beijá-lo, para em seguida se decidirem a arrebentar os botões da camisa de Harry de forma rápida e fácil, enquanto cambaleavam pela sala até saírem, e Sin ser empurrado com violência contra a parede da escadaria, uma perna do loiro entre as suas, se movendo e o pressionando de forma quase dolorosa.
Empurrou Draco para que subisse as escadas, mas o loiro tropeçou e Harry teve de segurá-lo firme contra seu corpo para que não caísse. E Draco retomou o beijo, sentindo as mãos de Sin puxando sua blusa e descendo, o tocando sem nem mesmo abrir sua calça. E suspirou encarando duas chamas verdes.
- Suba. – o sussurro veio junto com a língua em seu pescoço, e Draco se permitiu ser guiado pela escada acima, até poder jogar Harry contra a primeira porta que viu, mordendo seu ombro e peito enquanto suas mãos se livravam da calça dele, retribuindo a atenção que lhe era dada.
Harry suspirou e o empurrou pelo corredor, cambaleando enquanto despia o loiro, deixando as peças de roupa espalhadas pelo chão em uma trilha que os levava ao seu quarto.
O som da porta batendo fez Draco se afastar novamente, o suficiente para olhar o ambiente e empurrar Sin para a cama, fazendo-o se virar de bruços enquanto se deitava sobre ele, seus dedos buscando preparar seu corpo minimamente antes de se posicionar entre suas pernas e dar o primeiro impulso.
Harry gemeu entre dentes, segurando o lençol com força, sentindo a respiração alterada do loiro contra seu pescoço. E ele parou, e permitiu que Harry respirasse antes de começar a se mover, devagar. As mãos de Draco corriam os lados de seu corpo buscando dar carinho enquanto gemia contra seu ouvido, seus lábios tocando seus ombros ritmados com seu quadril.
Sin moveu o quadril contra o do loiro e ouviu um palavrão e a cadência de gemidos aumentar junto com o ritmo dos movimentos de Draco. O rosto do loiro mergulhado entre os cabelos negros em meio a sons incoerentes vindos dos dois. E quando a mão do loiro alcançou a sua, entrelaçando seus dedos, e Harry virou a cabeça para se beijarem, Draco já tremia, puxando o moreno contra si com força, movendo-se mais rápido, mais forte, até tudo se tornar demais e o corpo de Harry se contrair sob o seu, com um grito contido.
E tudo acabou.
Draco respirou fundo, ainda se sentindo trêmulo, e não teve vontade de se mover. Sentiu Harry apoiar a testa contra a cama, e olhou as mãos dos dois entrelaçadas, e realmente não quis se mover. Depositou um beijo cálido sobre a nuca do moreno e apoiou o rosto em seu ombro, deixando o corpo repousar sobre o do outro, fitando os olhos verdes em silêncio quando Harry voltou a face para olhá-lo. Sabia que seu peso deveria ser incômodo e se virou contra a cama, deixando seu corpo e se deitando de lado para poder continuar olhando-o.
Estavam sérios. Os dois. E Draco sabia que Harry queria lhe fazer perguntas, e desejou que ele não fizesse. Mas sabia que também tinha perguntas a fazer, mas não quis falar. Acariciou de forma suave os contornos do rosto bonito de Sin e se sentiu repentinamente cansado. Desejou simplesmente poder dormir naquele momento. Ao lado dele.
Como em resposta a seus pensamentos, Harry se virou de lado, puxando dois travesseiros que estavam arrumados sobre a cama, e ajeitou um sob a cabeça de Draco, enquanto encostava-se a ele, deitando sobre o outro, as pernas entrelaçadas e sua mão entre os fios loiros, retribuindo o carinho.
E Draco se permitiu fechar os olhos, não se incomodando se fosse Harry Potter ou Sin quem o acariciava, não se incomodando com o fato de suas pernas estarem em parte para fora da cama, ainda na posição em que caíram nela, não se incomodando com o sol que entrava devagar pelas janelas de um quarto que ele não sabia onde ficava, não se incomodando com o fato de ainda estar sujo com as marcas do que fizeram. Ele sabia que tudo aquilo estava errado, mas o cansaço era maior, e adormeceu com os dedos ainda sobre os lábios de Sin.
o0o
Harry acordou deitado de forma estranha em sua cama. E lembrou. E se encolheu, pois se sentiu repentinamente vazio. O cheiro de Draco ainda estava lá, em seus lençóis, seu quarto, seu corpo. Mas ele não estava mais, e Harry se sentiu idiota por esperar que estivesse.
Clientes não ficam para tomar café.
- Espero que não se importe. – a voz chegou baixa até ele e o fez se virar e ver o loiro parado em frente à janela. Ele sinalizou com o cigarro aceso na mão – Eu peguei um.
Harry sorriu.
- Tudo bem. – disse simplesmente, sentindo vontade de fumar também.
- Eu não sabia que você fumava. Fiquei surpreso quando vi.
Harry sorriu, triste. Qualquer um ficaria. Sentou-se na cama com um gemido, o que fez o loiro olhar para ele, e acendeu um cigarro.
- Eu te machuquei?
Sin o encarou. Clientes não se importam. Ele estudou o loiro por alguns segundos. Ele estava de pé no canto do quarto, banhado pela luz do fim da tarde, um lençol que reconheceu como seu envolto na cintura e o cigarro quase terminado na mão. Os braços apoiados no próprio peito nu indicavam uma certa reserva, mas seu olhar era ansioso pela resposta.
- Não. – respondeu simplesmente. Era verdade. Poderia acrescentar que não importava, que já estava acostumado, mas não quis. Ele quis aquela preocupação.
Draco o encarou ainda por alguns segundos antes de sua atenção voltar para o que via fora da casa novamente.
- Este lugar é horrível. – constatou.
- Eu gosto daqui. – Sin afirmou, sabendo que a praça mal cuidada, o acúmulo de lixo e as casas trouxas à volta realmente reforçavam a fala do loiro.
Os olhos prata somente relancearam em sua direção antes de voltarem-se para fora novamente. Draco terminou de fumar e se dirigiu para a cabeceira da cama, jogando a bituca no cinzeiro que tinha ali, pegando o maço e tirando o cigarro dos lábios de Sin para acender outro.
- Se você pretende começar a fumar no mesmo ritmo que eu, é melhor pedir a Kreacher um pouco da poção que ele faz. – Harry sugeriu, soltando a fumaça.
- Que poção? – o loiro perguntou, pouco interessado, voltando para junto da janela.
- Cigarros trouxas provocam doenças graves, como câncer, e incômodos, como mau hálito. É uma poção preventiva. Acho que foi Regulus quem inventou. Kreacher disse que ele fazia desde que Sirius foi deserdado. A Senhora Black também fumava, por isso a quantidade de cinzeiros por toda a casa.
- Não imagino um Black tocando em algo trouxa. Por que você não fuma cigarros bruxos, então? É mais prático.
- Por que quem me ensinou a fumar não foi um bruxo. – Harry tragou – E eu não passo mais tempo suficiente no mundo bruxo para comprar a quantidade de cigarros que eu fumo.
Sin apoiou a cabeça na cabeceira da cama, fechando os olhos e soltando a fumaça com um suspiro.
- Você é estranho. – Draco constatou, o olhando por um momento antes de se voltar para a janela, quando os olhos verdes o encararam questionadores – Você se arrisca por muito pouco.
Harry sabia que ele não estava falando só do cigarro, e não gostou.
- Me ensinaram a ser assim.
- Eu estudei com você, e não me ensinaram nada disso. – Draco constatou, tragando.
- É, mas você não teve que enfrentar dragões e basiliscos no colégio. – respondeu, ácido.
Draco não o olhou. Soltou a fumaça e apoiou a testa contra o vidro.
- O que você pensava de mim no colégio?
- Que você era um idiota. – respondeu, tragando e voltando a fechar os olhos.
- Sempre?
Harry riu ao ouvir o tom meio infantil na pergunta do loiro.
- Não, acho que não sempre. Mas certamente na maior parte do tempo.
Draco riu.
- Eu também achava você um cretino. Mas acho que só até o sexto ano.
- Então... – Harry suspirou, tragando – Você quebrar meu nariz, aquele discurso e todo o resto durante o ano inteiro foi só encenação?
- Não, cretino. – Harry riu – Mas digamos que quando você tentou me matar eu já torcia por você.
Harry o olhou examinador. Draco bateu a cinza do cigarro no caixilho da janela e tragou, sem olhar para ele. Harry o viu soltar a fumaça e engolir em seco, sorvendo o silêncio enquanto olhava o largo vazio.
- Torcia como? – perguntou, incomodado com aquilo.
- Eu não sei como ou quando começou. – Draco falava para a janela, os dedos agitados brincando com o cigarro, a expressão séria – Mas em determinado momento eu quis que você vencesse, que a guerra acabasse. Eu já sabia disso antes do... daquele dia no banheiro. E eu sabia que você estava me seguindo e isso me deixava com medo e apreensivo, mas ao mesmo tempo me dava algum conforto. E isso não era bom, porque eu tinha algo a fazer e eu sabia que você não me ajudaria em nada, que não faria nada por mim. E eu ignorei o que eu sentia.
Harry se sentiu angustiado, vendo o loiro tragar com uma mão trêmula antes de voltar a falar.
- Você tentar me matar era óbvio, esperado e necessário. Eu sabia que aquilo viria, mais cedo ou mais tarde, que nossas brigas evoluiriam, mas eu esperava que fosse em meio à guerra, no futuro, em um momento que eu não tivesse mais esperanças de que você vencesse para eu não precisar matar ninguém. E aquilo doeu.
- Eu não quis...
- Não importa. – Draco o cortou, e Harry percebeu toda a amargura que ele sentia – Aquilo não foi nada. Eu sobrevivi e a esperança continuava. E você me salvou, mesmo quando eu quis te entregar. Eu queria ainda um futuro, mas já não poderia matar você. E você me salvou. E à esperança se juntou gratidão, e quando a guerra acabou surgiu uma admiração que me enojava. E na prisão eu me vi pensando em você mais do que eu gostaria, mais do que seria saudável. E eu pensei que havia virado uma obsessão. E quando eu soube que o que me tirou de lá foi um depoimento seu, eu já não sabia nomear o que eu sentia quando eu pensava em você, quando eu ouvia seu nome, mas era... sufocante.
Harry se levantou, deixando o cigarro no cinzeiro, e se colocou atrás dele, tocando de leve seu ombro. Draco se encolheu, se afastando do seu toque.
- O que você sentiu quando me viu? Com a Isabelle.
- Desejo. – Draco respondeu de forma rápida e direta, ainda de costas para ele – Eu não acreditei que fosse você, meu primeiro pensamento foi que deveria ser proibido existir um trouxa com olhos como os seus. E então vi a cicatriz, e me assustei, porque era e não era você. E de repente te ter pareceu tão fácil que me deu medo de ser uma ilusão, e eu fugi.
- E quando você me ligou...
- Aquilo foi diferente. – Draco se virou de frente para ele com violência – Eu realmente pensei que você iria me chantag...
Harry não o deixou completar. Descobriu que não importava. A coisa mais importante para ele naquele momento era os lábios de Draco, e ele quis que ele se calasse, porque eles estavam deixando de falar do passado e chegando perto do agora, e agora sentimentos eram perigosos para Sin, e ele não sabia o que pensar. Ele só sabia que Draco sentia, e quis sentir também.
E a forma como Draco o abraçou, aprofundando o beijo, seus dedos se perdendo em seu cabelo, o fez querer puxá-lo contra seu peito, o envolvendo pela cintura, tê-lo seu.
Harry rompeu o beijo, assustado com aquele pensamento. Ele nunca desejou ter. Desejou ter pais, desejou ter amigos, desejou outras coisas como não ter que morrer, mas aquilo era diferente. E ele sempre esteve disposto a perder, a se doar, a dar o que os outros queriam dele, esperavam dele, e a abrir mão de tudo. Pelos outros.
E aquilo era novo.
Ele encarou o loiro sério a sua frente e viu insegurança em seus olhos. E não quis ver aquilo.
Ergueu seu rosto com delicadeza, um dedo apoiado no queixo fino enquanto o beijava levemente. Beijou sua face com delicadeza e depois seu nariz. O fez fechar os olhos para poder beijá-los também, e beijou sua testa, sentindo-o abraçá-lo como se Harry fosse seu ponto de referência.
O moreno afagou seus cabelos, sentindo seu cheiro, os fios finos tocando seu rosto como uma carícia, e ele quis poder sorver Draco por inteiro. Seu. E seu rosto desceu pelo pescoço do loiro, beijando e chupando, se sentindo inebriar.
Quando sua boca chegou ao peito, as mãos que o firmavam pela cintura fizeram o lençol cair no chão, e tê-lo nu à sua frente o fez querer vê-lo, mas a expressão de desejo em seu rosto foi o suficiente para que voltasse a se concentrar no que fazia, capturando um mamilo entre os dentes e ouvindo a primeira resposta, acompanhada pelos dedos finos em seu cabelo.
Draco se sentiu tonto e deu um passo para trás, se apoiando na janela. Harry o acompanhou, sem se importar, e voltou a boca para o outro lado do tórax do loiro, sentindo o carinho em seus cabelos se tornar mais enfático. Usou as mãos para apoiar seu quadril contra o caixilho e desceu, beijando seu ventre, devagar, e sentiu a respiração de Draco acelerar quando chegou ao púbis e aspirou novamente seu cheiro.
- Eu quero você. – a voz de Harry saiu rouca e baixa, e ele não saberia dizer de onde veio a audácia daquele pedido. Ele nunca pedia nada, eram sempre os outros. E olhou para Draco, ajoelhado a sua frente, esperando uma resposta que veio muda, um aceno nervoso de cabeça.
Harry mordeu seu ventre de leve, chupando o local em seguida e fazendo o loiro se sobressaltar. Desceu a mão pousada na sua cintura, apertando e a escorregando até o joelho, que elevou, o apoiando em seu ombro. Draco ofegou, sentindo as mãos de Harry o acariciando por trás enquanto o moreno voltava a beijar a parte interna da sua coxa. A boca de Sin parecia querer enlouquecê-lo, tocando-o, quente, em todos os lugares, enquanto seus dedos o testavam, preparando-o de uma forma tão lenta que o fazia querer gritar. Draco puxou os cabelos negros com força quando Harry o envolveu por completo. Não suportava mais.
- Harry!
O moreno o sugou e o abandonou em seguida, fazendo-o choramingar, se segurando forte em seus ombros conforme ele voltou a ficar de pé na sua frente. A mão acariciando seu rosto o fez olhá-lo e o desejo que viu nos olhos de Sin o desorientou. Queria aquilo, mais que tudo. E se deixou ser beijado, sentindo seu próprio gosto na boca do outro.
Era vertiginoso, mas não da forma perdida que Harry se sentia com seus clientes. Ter Draco daquela forma em seus braços e querê-lo com tanta intensidade lhe dava uma nova dimensão do que estava fazendo. E, se por um lado queria tomá-lo naquele instante, por outro queria fazer da melhor forma que já fizera em toda a sua vida.
O abraçou com força, andando com Draco em direção à cama, mas diferente da noite passada, não deixou que ele caísse. Fez um sinal para que se deitasse, e Draco se acomodou meio sentado, com a maior parte dos travesseiros às costas, e puxou Harry pela mão, para que se deitasse sobre ele, entre suas pernas, voltando a beijá-lo.
E Harry aceitou a forma como Draco o tocava, beijando-o com carinho enquanto o trazia para perto, uma mão em seus cabelos, outra apertando seu ombro conforme seu corpo se abria para ele, gemendo baixinho em sua boca.
E Harry quis olhá-lo, e quis guardar cada segundo para sempre, e quis sentir. Sentir o que Draco sentia. E se importou pela primeira vez com isso, em não somente esquecer ou buscar alguma forma de prazer, mas olhar no rosto de Draco enquanto se movia em seu corpo e procurar por algo. Pois Draco não deixaria dinheiro sobre sua cama, a recompensa de Harry estava ali, na forma como as mãos trêmulas o acariciavam, nos sons perdidos que deixavam os lábios finos entre os beijos ansiosos, nos movimentos do loiro ritmados com os seus, no suor e em seu próprio tremor, no calor que sentia e em todos os arrepios que o percorriam. E na forma como Draco jogou a cabeça para trás e chamou pelo seu nome. E na forma como ele pensou que fosse se afogar com o que sentia.
E quando Draco se deixou cair sobre os travesseiros, ainda trêmulo, ainda o abraçando, Harry viu algo em seu rosto. Algo novo.
Entrega.
Pois o loiro parecia frágil e seguro ao mesmo tempo. E Harry se sentiu responsável por ele, e não quis negar isso, pois não era algo que lhe era incumbido. Ele pediu aquela entrega e Draco confiou o suficiente para se permitir estar ali, nos braços de Harry, não entregue no sentido de simplesmente permitir que outra pessoa faça o que for com ele, mas de se abandonar.
E Harry percebeu que ele mesmo havia se abandonado. Nas mãos de ninguém.
E quando ele deitou a cabeça no peito de Draco, agradeceu o silêncio, e agradeceu o carinho em seus cabelos, e agradeceu por ter alguém ali.
Alguém que sabia quem ele era. E o aceitou mesmo assim.
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Harry acordou desorientado. O quarto estava escuro, apesar da janela aberta, evidenciando que era madrugada. E ele estava sozinho.
Suspirou, se sentando na cama e olhando em volta para ter essa certeza. Os vestígios de Draco estavam ali: seu cheiro, o cigarro fumado pela metade apagado no caixilho da janela, o lençol caído no chão. Mas suas roupas não estavam. E o mais importante: ele também não.
Sin pegou o cigarro pela metade e o acendeu novamente, provando um gosto amargo enquanto fumava em silêncio. Não queria ficar ali, encarando aquele quarto vazio. Vestiu a calça larga do pijama de Harry e desceu para a cozinha.
Sua surpresa, porém, foi grande ao encontrá-la ocupada: Draco, vestido, dormia debruçado sobre a mesa, em cima do que pareciam os papéis que Harry o vira recolher no ministério.
Harry sorriu, admirando a expressão do loiro adormecido e afastou com carinho os cabelos loiros dos olhos. Seu olhar, porém, recaiu sobre a pasta logo abaixo de sua cabeça. Harry a retirou, com cuidado, se sentando em silêncio ao lado do loiro para examiná-la.
O título em linhas grossas já evidenciava o conteúdo: Prontuário médico – Narcissa Malfoy. Dentro, alguns resultados de exames que Harry não soube interpretar, alguns pedidos para a realização de outros, guias médicas, vias de hospitais, a maioria negada. A mãe de Draco estava doente, isso era um fato.
Harry pegou outra pasta e encontrou a transcrição do depoimento que deu no final da guerra, a ficha criminal dos três Malfoys e o que lhe pareceu ser o andamento do processo desde então. Uma olhada rápida pelas outras pastas o evidenciou que Draco estava estudando formas de reaver os bens da família, em geral, mas algo chamou sua atenção: uma pasta dedicada aos Greengrass.
Harry não sabia nada sobre eles, a não ser que as duas filhas estudaram em Hogwarts na mesma época que eles. Não conseguiu imaginar porque informações sobre eles pudessem ajudar Draco em alguma coisa. Ia abrir a pasta quando Draco ressonou, resmungando algo. Harry voltou a sorrir, reunindo todo o material sobre a mesa, lançou um feitiço de leveza em Draco e o pegou no colo, levando-o de volta para a cama.
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Harry acariciou os cabelos loiros jogados sobre seu peito. A mão livre levou o cigarro à boca e a fumaça se dissipou na direção que ele olhava, atingindo a pilha de documentos sobre a mesa no canto do quarto.
Draco estava em Grimmauld Place há cinco dias. Há cinco dias os dois não viam ninguém, não falavam com ninguém, não saiam daquele lugar. Comiam pouco, dormiam pouco, fumavam muito e transavam mais ainda.
E estavam bem assim.
Mas Harry sabia que aquilo não era normal. Não era saudável ou bem vindo. Sabia que seus hábitos cotidianos, como aqueles, não faziam bem, mas ele não se importava de se machucar. Agora, ao se dar conta que Draco compartilhava daquilo com naturalidade, ficou preocupado.
Além de tudo, Draco ainda tinha um agravante: ele estava o tempo todo em constante preocupação. Era comum flagrá-lo com o olhar distante e uma expressão tensa no rosto, e muitas vezes Harry dormia por algumas poucas horas, e quando acordava, o encontrava naquela mesa, lendo e trabalhando em algo que não dizia o que era.
Trabalhando à exaustão. Pois não foi uma ou duas vezes que Harry o pegou dormindo em cima dos papéis, e, muitas vezes, durante o sono, Draco resmungava, como se nem mesmo no descanso parasse de pensar.
E Harry, observando Draco dormindo tranquilo sobre seu peito depois de passarem a tarde toda na cama entre beijos e carinhos, se permitiu ficar preocupado. E se permitiu desejar poder livrá-lo de toda aquela preocupação, para realmente ter Draco por inteiro.
Pois já percebera que, se ele fugia do mundo se matando aos poucos nas ruas, Draco se matava aos poucos naqueles papéis.
E ele não queria isso.
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- Você trabalha demais. – Harry resmungou, acendendo um cigarro e se sentando ao ver o loiro, ainda nu, deixar sua cama para se sentar à mesa no canto do quarto, passando a examinar os documentos.
- Infelizmente, Harry, minha vida não se restringe a sexo. – o loiro respondeu, ácido.
Sin tragou, o encarando, frio, enquanto o loiro fazia anotações e consultava um livro grosso que encontrara na biblioteca dos Black.
- Não vai me contar o que está acontecendo? – Harry insistiu, mordaz.
- Você não pode fazer nada. – Draco disse, amargurado.
- Você tem certeza? – o loiro o olhou, desconfiado, e o viu erguer uma sobrancelha e tragar, sugestivo.
- Eu estou falido. Já disse. Preciso de dinheiro e rápido.
- Para quê? O que houve com a fortuna de vocês?
- O que estava atrelado ao nome Malfoy foi confiscado pelo governo. O que restava da herança de solteira da minha mãe eu usei para comprar uma casa para morarmos. Algo muito abaixo dos nossos padrões, evidente, mas estávamos na rua. – a voz de Draco se tornou um sussurro quando ele voltou sua atenção novamente para o livro – E ainda assim não é o suficiente.
- E como está sua mãe?
- Bem. – respondeu, seco.
- Mesmo?
Draco ergueu a cabeça, olhando para Sin desconfiado.
- Por que você está perguntando?
- Nada. Só acho que ela deve estar preocupada com o fato de você estar fora de casa por uma semana sem dar notícias.
Harry viu Draco engolir em seco.
- Eu já passei mais tempo fora tentando resolver as coisas antes. Ela sabe que estou bem. – respondeu, baixo, passando as mãos nos cabelos, nervoso. Harry se aproximou, pegando as mãos dele entre as suas – Harry... – havia um tom de pedido na forma como o loiro falou seu nome, mas o moreno somente o encarou, o acariciando – Ela não está bem. – acabou admitindo.
- O que ela tem? – perguntou, preocupado.
- Está doente. Não sei ao certo o que é, ela precisava ir a mais médicos, mas não temos como pagar. E o último hospital em que eu fui simplesmente se recusou a atender um Malfoy.
- Isso é ilegal.
- Fale isso para eles. – Draco respondeu com raiva.
- Já foram no St Mungus?
- Foi onde descobrimos que há algo errado, mas não tem como cobrir com toda a despesa do atendimento...
- Escreva para ela e mande-a ir que eu pago.
- Não seja idiota.
- Não estou sendo idiota, estou tentando te ajudar. Porque eu posso, Malfoy. E eu quero.
- Mas eu não vou aceitar. – Harry o encarou e viu todo o orgulho do loiro brilhando nos olhos claros.
- Considere um empréstimo, então. Quando você recuperar a sua herança, você me paga.
- Se eu recuperar minha herança, não? – Draco corrigiu, passando as mãos pelos cabelos, nervoso.
- Eu posso ajudar nisso também.
- Como? Comprando os juízes?
- Não. Pelo que você disse, tem gente tirando os direitos de vocês. Vocês tinham uma casa. Casa é algo essencial, a justiça não tinha o direito de deixar vocês sem teto. Mas o caso é que você dizer isso não provoca nada, pois você é só um Malfoy falido. – Draco o olhou com raiva – Mas se o Salvador falar que eles estão errados, será mais difícil questionar.
- Você vai usar a sua influência para... – Draco perguntou, espantado.
- Bem, acho que não desse jeito. Eu só vou ser eu mesmo. Acho que tenho chances de conseguir alguma coisa...
O loiro pensou por alguns minutos, olhando os papéis a sua frente, e continuou a encarar a mesa enquanto voltava a falar.
- Eu já tinha pensado nisso.
- Em me pedir ajuda?
- Não, em usar um nome mais forte para pressionar o tribunal. Alguém que ainda tenha prestígio social e político.
- Em quem você pensou?
Draco deu de ombros.
- Ninguém com nome aceitou defender um Malfoy depois da guerra. Então eu pensei em eu mesmo, em recuperar meu nome de alguma forma...
Ele encarou os olhos verdes, e completou, muito sério.
– Eu vou me casar em dois meses com Astoria Greengrass.
-:=:-
NA3: (Agy assovia e sai de fininho.)
Estou postando pontualmente hoje. Só que vou passar o dia todo fora, mesmo se der o número de reviews até a noite, acho que só volto à net amanhã. E, de qualquer forma, Gula é um capítulo para ser saboreado, com tinto seco, de preferência XD
Próximo capítulo (que ainda precisa ser betado): Soberba.
Aliás, beijão pra twin que betou esse da Gula perdida entre váááárias NCs XD
Beijos, pessoal XD
