Capítulo 5 – Soberba
. amor próprio exagerado .
. orgulho . altivez . arrogância .
Harry Potter chegou cedo ao Ministério no dia seguinte.
E todos o encaravam, pois nunca, ninguém, havia visto Harry Potter assim.
O cigarro aceso entre os dedos de uma mão, a varinha segura na outra. O andar firme, a cabeça erguida. A camisa que Hermione lhe dera de presente de aniversário era do mesmo tom de seus olhos. Um pouco larga para o gosto de Sin, mas havia ficado perfeita com a calça preta, muito justa, que Harry jamais usaria.
Mas agora usava.
Passou rápido por todos e pela segurança. Não perguntou pelo Ministro. Não sorriu para a secretária do Senhor Weasley, que o olhava abobada. Ele sabia onde precisava ir, e sabia com quem precisava falar. E nada o impediria, pois ele já enfrentara antes coisas piores que burocratas ambiciosos.
E era disso que se tratava. O problema do caso dos Malfoy é que eles não puderam evitar que seus bens fossem tomados pelo governo, seja porque estavam abalados demais para isso, seja porque não estavam inteiramente a par do que acontecia. O fim da guerra foi caótico e, pelo que Harry lembrava, eles foram uns dos primeiros a serem presos e, portanto, a perder apoio universal. Porque ninguém defenderia um Malfoy sem nada.
A não ser ele.
E ele queria fazer isso.
Queria, porque não queria ver Draco sofrer e Draco significava algo para ele. E ajudar Draco significava evitar que ele fizesse a maior burrada da vida dele, se casando por sobrevivência. E ele sabia que aquela era a sua forma de preservar Draco, como tentara preservar Ginny.
Como não conseguira preservar a si mesmo.
E descobriu que não se sentia bem com isso. E então Sin descobriu que poderia usar o nome de Harry para conseguir o que queria. E Harry descobriu que poderia usar as roupas de Sin para mostrar o que sentia.
Pois aquele era ele.
E quando o homem alto e bem vestido que não esteve na última batalha pediu para ele não fumar em seu gabinete, ele ignorou. Pois aquele homem não merecia seu respeito, mas o respeitava. E Harry soube usar isso quando falou da importância dos Malfoy na última batalha, com muitos mais detalhes do que constavam em seu primeiro depoimento. E soube mantê-lo em silêncio enquanto apresentava os documentos que comprovavam que os Malfoy não deviam para ninguém, e que, tendo cumprido o tempo de prisão determinado, sua dívida jurídica e social estava quitada, e, portanto, seus bens deviam ser restituídos.
E quando o homem baixinho e careca - que Harry reconheceu da conversa que entreouviu com Draco – disse, em nome da comissão responsável, que não podia fazer nada, Sin soube que ele tinha alguma vantagem no caso, pois Sin era treinado em reconhecer os interesses de estranhos pelo olhar. E Harry sabia do poder de um olhar – pois Snape, Dumbledore e o próprio Voldemort o ensinaram -, e soube que seria o suficiente para fazer entender que aquilo não era aceitável.
E como alguém que se sabia dotado do poder para vencer a morte, Harry também soube que poderia mudar aquilo. E quando deixou o Ministério muitas horas mais tarde, não foi para o seu treinamento de auror, pois não era o que ele queria. Mas pegou a pasta com o novo processo e foi para St Mungus, garantir o leito de Narcissa.
Porque era o que queria.
o0o
- Harry!
Harry somente levantou os olhos de sua xícara de café quando Hermione entrou correndo na cozinha de Grimmauld Place, seguida por Ron. Ela, porém, não conseguiu dizer nada além disso ao encontrar o amigo encostado displicentemente na pia, tomando café e fumando somente com a calça do pijama. Um pijama que ela não diria que era dele pelo simples fato de lhe servir perfeitamente.
- Bom dia, Mione.
Hermione o encarou, como se por um momento tivesse esperado que a voz de Harry fosse de outra pessoa. Mas talvez por ouvir que era ele mesmo, apesar da postura, dos novos hábitos e da expressão séria, ela se permitiu suspirar e perguntar, angustiada.
- Harry, o que aconteceu? Quando saímos do treino hoje soubemos que esteve no Ministério e ninguém conseguia dizer ao certo porque, mas...
- Mas todos falavam de mim.
- Harry! – o tom de Hermione era repreensivo, e Harry não viu motivo para repreensão. Era verdade, e não era culpa dele ou motivo para ele se sentir mal com isso.
E era hora de deixar isso claro.
- Sentem-se. – disse, sério, tragando uma última vez antes de apagar o cigarro na pia. E soube admirar a confiança dos dois ao obedecerem. Eram bons amigos.
Não quis se sentar. Somente os encarou algum tempo antes de começar a falar.
- Tem uma coisa sobre mim que vocês não sabem. – ele respirou fundo antes de olhar para Hermione – Mione, você lembra que logo depois da guerra a gente conversava bastante?
- Sim, Harry, mas você não me procura ma...
- E você lembra que eu falava que não estava bem, que eu sentia falta de algo, e você me dizia que era só o impacto das mudanças, que tudo ia melhorar? – ela concordou com a cabeça, visivelmente preocupada – Não melhorou. – Harry se voltou para o amigo - Ron, você se lembra daquela vez que eu te levei ao cinema trouxa?
- Claro, cara... Aquele lugar com a foto gigante que tem uma historinha, não é? A Mione foi com a gente depois...
- Foi, e depois eu voltei a chamar vocês, mas nunca mais deu para a gente ir juntos... Então eu comecei a ir sozinho. E naquele cinema foi meu primeiro ponto.
- Como? – Mione perguntou, incerta.
- Meu primeiro ponto, Mione. O lugar onde eu ficava parado esperando alguém me abordar querendo transar. – ele observou a boca da amiga se abrir e Ron o encarava como se não entendesse – Depois de lá, eu estive em muitos outros lugares. Faz 456 dias que eu me prostituo e já estive com 1094 pessoas diferentes nesse tempo, entre homens e mulheres, de diversas idades.
- Harry, isso é impossível! – Mione exclamou e Harry viu seus olhos se tornarem mais brilhantes. Ela acreditava. Ela podia não aceitar, mas ela acreditava, e isso era o mais importante.
- Não é tão impossível quando se chega ao ponto de aceitar fazer sexo com mais de cinco pessoas ao mesmo tempo ou se passa dias sem dormir. Quando se está exausto, não se tem pesadelos, Mione. E eu precisava disso.
- VOCÊ PRECISAVA? Você... você... Oh, meu deus, Harry! – as lágrimas corriam abertamente pelo seu rosto e Harry não se lembrava de ter visto a amiga sem palavras daquela forma antes.
Ron se levantou de forma violenta, batendo na mesa, e Harry pode ver raiva em seu rosto.
- Durante todo esse tempo! Você não disse nada! Ginny... Eu pensei que você estivesse com a gente, Harry!
- Eu estou, Ron. Eu nunca deixei vocês e não tem porque você pensar isso. Quanto a Ginny, eu gosto dela, mas não sei definir o que eu sinto, e eu não vou mais procurá-la. E, se você quiser, pode contar para ela. Eu não sinto mais vontade de estar com ela, e ela certamente não sabe quem eu sou. Eu não quero continuar com isso.
- E quem você é? – Ron perguntou, dando a volta na mesa e se aproximando do amigo até estar a poucos centímetros dele, o encarando.
Harry suspirou. Quem ele era? Essa era a pergunta que ele queria responder, mas as palavras não vieram tão rápidas à sua boca.
- Eu não sei quem estou olhando, porque o meu amigo não fuma, meu amigo não se veste dessa forma e não fala comigo como você falou...
- Ron! – Hermione tentou interferir, mas Ron somente continuou.
- E meu amigo não dá a bunda na rua e não abandona a namorada...
- E seu amigo faz tudo o que esperam que ele faça e mesmo assim não consegue ser feliz. – Harry completou, o encarando de volta – E foi para fugir de tudo o que esperam de mim que eu procurei... qualquer coisa... com pessoas que não me conheciam. E eu mudei, Ron. Mas ainda sou seu amigo.
O ruivo engoliu em seco, o encarando, aflito. E seu punho desceu com força contra o rosto do amigo. Harry caiu no chão com o impacto do soco e sentiu gosto de sangue. Não tentou se levantar. Sorriu, porque sabia que aquilo ele merecia.
- Foi pela Ginny? Te alivia saber que eu nunca fiz nada de mal para ela?
- VOCÊ A TRAIU!
- E ela nunca vai me perdoar e eu sei disso. Mas eu já não me sentia mais com ela quando tudo começou. Eu só não sabia. Eu demorei tempo demais para entender.
Ron avançou novamente para cima dele, e Harry se encolheu, esperando qualquer coisa, mas Hermione interferiu.
- RON, NÃO! – ela o puxou pelos ombros e se colocou à frente de Harry.
- ELE... ELE... HERMIONE, VOCÊ NÃO PODE...
- PARA! Para, Ron!
Hermione o empurrou, sem força, mas Ron se deixou afastar e caiu sentado em uma cadeira, segurando a cabeça entre as mãos. Harry cambaleou, se levantando e verificando com a mão que seu nariz e boca sangravam.
- Harry, você tem que parar com isso.
Harry a olhou de forma enviesada, e teve vontade de dizer que ele não tinha que fazer nada. Ele fazia o que sentia que precisava fazer.
- Eu já parei, Mione. Há 9 dias eu não saio.
Ela concordou com a cabeça, ainda visivelmente nervosa, e Harry se viu na obrigação de completar.
- Porque eu me envolvi com uma pessoa.
Ron voltou a se levantar, o olhando.
- Alguém como você?
- Alguém que me aceita como eu sou. E que gosta de mim.
- GINNY TE AMA!
- GINNY NÃO ME CONHECE! Ron, eu mudei! Ela ainda acha que namora o menino inseguro que não conseguia liderar um grupo de estudos, quanto mais uma guerra! Ron, eu MORRI! Eu tive que escolher abrir mão de tudo, TUDO, Ron, pelos outros! Eu perdi tudo, Ron! E depois disso, eu não sabia mais o que era ter alguma coisa, ou alguém. Eu vi as pessoas que eu amava morrendo por mim e tive que tentar ficar bem com isso. – Harry o olhou, aflito – AGORA PARA E PENSA, SEU IDIOTA! Olha para a Mione e pensa no que você sente por ela! Você conseguiria conviver com ela se não tivessem vínculo nenhum?
- Harry... – Hermione tentou chamá-lo.
- Não, Mione! Ele me perguntou o que eu sou, e eu sou isso: uma pessoa sem vínculos. E mais do que isso, por muito tempo, eu fui uma pessoa sem sentidos, porque eu deixei que os outros sentissem por mim! E por isso era tão fácil me entregar para um estranho, porque era intenso, e era algo para se sentir... E agora eu estou percebendo tudo de novo, e descobrindo que eu gosto de fumar, e que eu gosto que outros me achem bonito ou atraente, porque me faz bem. E eu gosto dele e do que ele me faz sentir. E o mais importante, Ron, eu sei que a Ginny não entenderia isso. E não quero machucá-la, porque eu gosto dela.
Hermione o abraçou e Ron deixou a cabeça cair sobre a mesa, não conseguindo continuar olhando para Harry. E Harry se sentiu feliz por Hermione ter parado de chorar, embora ela ainda o abraçasse de forma desesperada. E ele desejou, mais profundamente que qualquer coisa, que eles entendessem, que não tentassem mudá-lo, que o aceitassem como ele era, porque ele mesmo ainda estava tentando se aceitar como algo não errado.
E ele abraçou Hermione e se sentiu bem com o cheiro de seus cabelos e o conforto de seus braços. E se lembrou que gostava de abraços. E se perdeu no silêncio, e estava melhor assim.
- Harry... – a voz soou baixa vinda da entrada, e Harry soltou Hermione rapidamente, pouco antes de Draco Malfoy entrar na cozinha.
Draco olhou para Harry, machucado, ainda tendo Granger muito próxima, e depois para Weasley sentado à mesa com uma expressão desolada.
- Eu... – ele começou, sem saber ao certo o que fazer, quando Harry decidiu por ele.
Com dois passos rápidos, Harry o puxou contra o peito, como se ele pudesse sumir, e Draco se sentiu alarmado. O empurrou levemente, avaliando o estrago em seu rosto, tocando os lábios manchados de sangue levemente com os dedos, antes que Harry o beijasse. Um beijo desesperado. E Draco, sem conseguir fechar os olhos, viu os olhos azuis de Weasley se arregalarem e Granger olhar rapidamente para o chão, e não se sentiu bem com aquilo.
- Harry... – ele afastou o moreno – Você não prefere que eu volte depois? – perguntou, incerto.
Mas não teve resposta. Algo o empurrou, passando rápido pelos dois, e Draco viu o ruivo correr para a porta de saída, seguido por uma Granger transtornada.
- Mione! – Harry chamou, e Draco viu aflição em seus olhos. Mas Hermione só negou com a cabeça, em um gesto complacente, e saiu atrás do namorado.
Harry deixou a cabeça cair contra o ombro de Draco e gemeu baixinho. O loiro acariciou seus cabelos.
- O que aconteceu, Harry?
- Eu os perdi, Draco.
E algo lhe dizia que era melhor assim. E ele não conseguia acreditar.
- Harry... – Draco o fez encará-lo, e Harry se afastou, voltando para perto da pia e acendendo um cigarro – O que aconteceu, Harry? – Draco perguntou, aflito.
- Eu contei tudo para eles.
- Eles não sabiam?
- Não. – sua voz era baixa e fria, e Harry voltou a fumar antes que o que sentia o sufocasse.
Draco pegou um pano e molhou, se aproximando do outro e limpando o sangue seco em seu rosto com cuidado. Ele não tinha o que dizer.
- Você tem vergonha de mim? – Harry perguntou, sério.
- Não. – Draco o beijou levemente, e voltou ao seu trabalho.
Harry suspirou.
- Como está sua mãe?
- Já a encaminharam para o tratamento. Estava com os médicos até agora, ela foi internada no momento certo, mais um pouco e o tratamento talvez não fosse o suficiente. – Harry reparou que as mãos do loiro tremiam, e as pegou entre as suas, deixando o pano cair para beijá-las.
- Ela vai ficar bem.
Draco fez uma careta, e se afastou, acendendo um cigarro. Mas tragou só uma vez e o amassou, com raiva.
- O que houve? – Harry perguntou, preocupado com a reação do loiro.
- Nada. – ele respondeu, firme, mas sua tensão ainda era latente. Ele se virou para Harry – A resposta do processo saiu.
- Em dois dias? Eles estão se tornando eficientes. – Harry sorriu, tentando relaxar o ambiente.
Draco riu. Harry Potter instigava a eficiência. Ele se virou, encurralando o moreno contra a pia.
- Eles deram um prazo de dois meses para tudo ser restituído. Eu vim agradecer. – ele sorriu, malicioso, e roçou os lábios nos do moreno.
Harry o abraçou pela cintura, tomando sua boca, o puxando para perto e acariciando suas costas enquanto Draco aprofundava o beijo, o abraçando com força também. Deu alguns passos perdidos, se afastando da pia, até ter Draco sentado sobre a mesa, se encaixando entre suas pernas e o puxando para perto. Os lábios do loiro se desviaram dos seus para beijar seu pescoço e Harry fechou os olhos, aproveitando a sensação.
- Fica comigo. – ele sussurrou e abraçou Draco com força. O loiro o encarou, e Harry acariciou seu rosto – De verdade. Fica comigo para sempre, Draco.
Draco se desvencilhou de seus braços, se levantando, passando as mãos no rosto com força.
- Do que você está brincando, Potter? – perguntou, com raiva.
Harry somente o olhou, sério. Draco o encarava descrente.
- O que você espera de mim? Que eu me case com você e seja feliz para sempre?
- É uma opção.
- NÃO, NÃO É! E você sabe disso! Você sabe que eu vou me casar em breve e que não vai ser com você!
- E o que você vai fazer depois desse dia, Draco? – Harry se afastou na direção contrária, acendendo outro cigarro - Me ligar quando a esposa viajar e deixar dinheiro na minha cama antes de ir embora?
- Potter, nós estamos juntos há nove dias, você não pode exigir isso de mim!
- Eu pensei que você sentisse algo além de tesão por mim. – ele encarou Draco, e tudo o que o loiro conseguiu responder era a frase que martelava em sua cabeça há dias.
- Eu vou me casar!
- VOCÊ NÃO PRECISA SE CASAR! O que você está fazendo é idiotice, Draco! Você vai acabar com a sua vida e a dessa menina!
- E o que você quer? Que eu ignore a minha palavra, o compromisso que eu assumi com uma das famílias mais importantes da Inglaterra para ficar com você?
Os olhos verdes cintilaram na direção do loiro, e Draco se sentiu julgado por aquele olhar.
- Então o orgulho de um Malfoy não permite que ele fique com um garoto de programa, é isso. – Sin tragou, calmo, e aquela calma assustou Draco.
- Harry...
Uma música estranha surgiu baixa no ambiente, e Harry fechou os olhos, suspirando.
- Eu só espero que você saiba que o que você está fazendo também é se vender. – Harry abriu uma gaveta no armário do canto e retirou o aparelho celular que Draco não havia visto ainda, tragando antes de atender a ligação – Sin.
Sua voz não era melodiosa ou sedutora como a voz de Sin era, mas Draco o ouviu combinar o horário e o local para aquela noite, e sentia como se algo crescesse na base da sua garganta, impedindo-o de respirar.
- Quem era? – perguntou, seco, quando Harry desligou.
- Um cliente. – Harry o observou engolir em seco, a respiração se alterando, os olhos metálicos cravados nele – Se você está construindo a sua vida, Draco, eu tenho que continuar com a minha.
Draco o olhou por alguns instantes ainda, paralisado pela dúvida entre bater no homem a sua frente ou derrubá-lo naquela mesa e lhe provar tudo o que sentia.
Virou as costas e deixou a casa, na quase certeza de que não voltaria.
o0o
Draco voltou à porta de Grimmauld Place ainda em dúvida se deveria estar ali. Fazia mais de um mês que deixara aquela casa sem palavras, e agora voltava. Tocou a campainha e aguardou, com a certeza de que deveria ir embora.
A cabeça grande de Kreacher apareceu na soleira.
- Desculpe, senhor, mas o mestre Harry não quer ver ninguém.
- Espere! – Draco se colocou no vão da porta, impedindo-a de fechar – Kreacher, por Merlin, sou eu! Por favor, eu preciso falar com ele! Por favor, Kreacher!
O elfo se afastou, deixando a porta se abrir e encarou o rapaz loiro.
- Mestre Malfoy é um Black, e Kreacher deve respeito a ele, mas não incomode mestre Harry.
- Ok. Onde ele está?
Kreacher fechou a porta e o guiou até a sala de estar no primeiro andar. Draco entrou, incerto, e viu o elfo se abaixar em frente ao sofá, ao lado do qual havia uma mesinha com muitas poções, panos e água.
- Quem era, Kreacher? – a voz rouca, baixa e meio engrolada de Harry fez o coração de Draco bater mais rápido, prevendo algo errado, e ele deu a volta no sofá para poder olhar o moreno.
- Harry... Eu... OH, MERLIN!
- Draco...
Harry tentou se sentar, mas só gemeu. Kreacher lhe deu uma poção para beber e voltou a limpar seus ferimentos. Harry tinha um olho roxo, o nariz fora claramente quebrado e recolocado no lugar, mas o sangue ainda se espalhava pela sua face, se juntando aos dos cortes por todo lado direito, na boca e no supercílio. Sua camisa estava aberta, pois não tinha mais nenhum botão, amassada e suja, o peito tinha alguns vergões e marcas de mordida. Seu braço direito estava em uma tipoia, imobilizado. A calça estava rasgada, perto dos tornozelos se esfarrapava e deixava a mostra marcas vermelhas na pele branca, o fecho fora arrebentado e a cueca branca tinha manchas de sangue e parecia rasgada também.
Kreacher fez seu mestre fechar os olhos ao aplicar uma poção sobre o hematoma, e Harry gemeu baixinho, mas Draco pode acompanhar as marcas roxas clarearem e sumirem, os cortes se fechando aos poucos, restando pele pálida. Harry ainda permitiu que o elfo limpasse o sangue antes de pedir que ele os deixasse a sós.
O moreno tentou se sentar de novo, e Draco o ajudou, se sentando ao seu lado. Afastou com carinho os fios negros do rosto e sentiu que Harry se inclinava para o contato antes de se afastar.
- Merlin, o que aconteceu, Harry? – perguntou, aflito.
- O que você veio fazer aqui? – o moreno perguntou, frio.
Draco deixou a cabeça pousar contra o ombro do outro, fechando os olhos para não ver as marcas em seu pescoço. Precisava sentir o toque, sentir o cheiro. Ele estava ali para isso. Para a última vez.
- Eu queria te ver. – falou baixinho.
- Vai ser sábado, não?
Draco concordou com a cabeça e Harry se mexeu, desconfortável. O loiro se endireitou novamente, se afastando, mas o moreno entrelaçou os dedos dos dois, pousando a cabeça contra o encosto do sofá para olhar para o loiro.
- Você sentiu minha falta? – Draco perguntou, inseguro. De repente, Harry se sentir confortável com a presença dele ali pareceu importante.
- Desesperadamente.
A palavra saiu suave de seus lábios. Não era mentira, não era Sin falando o que Draco queria ouvir. Harry sentira falta e estranhou isso, pois sentia falta de tanta coisa em sua vida que não esperava que Draco Malfoy fosse despertar isso nele de maneira tão intensa. Desesperadora. Como aquele nada imenso que sentiu ao encarar seu quarto vazio naquelas noites. O moreno fechou os olhos e uma pontada de dor passou pelo seu rosto.
- Quem fez isso com você, Harry?
- Dois cafetões.
- Você... Você tem um... um... – Draco se afastou, assustado com a possibilidade. Não havia pensado naquilo, mas era lógico.
- Não, idiota. Eu trabalho sozinho. Cafetões ganham dinheiro em cima das dependências de quem se prostitui. Eu não tenho dependências. Mas os outros tem, e sempre ocorrem disputas por pontos e clientes e tal. É só eu mudar de lugar, não vai mais acontecer.
- Você entrou em uma disputa por clientes? – Draco perguntou, enojado.
- Não, não entrei. Mas devo ter tirado o cliente de alguém sem saber. E não dá para saber quem é o cafetão tão fácil... Eles se fazem passar por clientes, e quando estão sozinhos, bem... Fazem você se arrepender. – Harry se moveu, tentando achar uma posição confortável em meio à dor. Ele não encarava Draco.
O loiro se levantou e serviu uma dose de whisky, virando o copo de uma vez, a mão trêmula. Harry fechou os olhos e se permitiu deitar no sofá novamente, cobrindo o rosto com o braço bom.
- Você foi espancado e estuprado por dois caras e consegue me contar isso assim, calmo? Como se não fosse absolutamente nada, como se... – Draco entornou outro copo.
- Se fosse uma dor que eu nunca tivesse sentido antes, se fosse a primeira vez, se eu pudesse ter evitado, talvez eu pudesse simplesmente sentar e chorar. Mas não é assim.
Draco atirou o copo contra a parede, e Harry se sobressaltou.
- E COMO VOCÊ ESPERA QUE EU AME ALGUÉM QUE NÃO SABE CHORAR, HARRY?
O moreno tentou se sentar novamente, mas Draco não deixou, o empurrando de volta com violência e o segurando pelas vestes rasgadas. Harry se encolheu e havia medo nos olhos verdes. Um medo que fez Draco sentir dor, e ele viu que Harry, ou Sin, ou quem quer que o encarava daquela forma, estava frágil e não esperava isso dele. E mesmo ferido e forte o suficiente para suportar qualquer coisa, aquela traição poderia ser demais. E não quis se sentir traindo.
- Eu não vou te machucar, Harry. Eu nunca pude te machucar. Eu te quero por completo, com o jeito ridiculamente carente de me abraçar ou a forma como você me olha que me faz queimar, quando você fuma como um desesperado ou se sente responsável pelo mundo como o idiota que é, e a forma como você cuida de mim, e quando você mostra que eu estou errado e que você sabe pensar minimamente e argumenta. Eu te amo, Harry. – e dessa vez Draco não desviou os olhos quando disse isso - Mas eu não posso ficar com alguém que não tenha o mínimo senso de auto-preservação. – Draco engoliu em seco e não conseguiu mais encará-lo - Eu não vou mais te procurar, Harry, porque eu não quero te ver assim.
Ele depositou um beijo na testa do moreno, e aparatou.
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NA: Eu sei, o capítulo está sem indicação, sem música e atrasado. Desculpem. Foi mal. Me chicoteiem! Mas eu estava cansada ._.
Eu queria ter postado ontem à noite, porque já tinha dado o número de reviews, mas a Dark – vide beta – estava doente e eu não ia pedir "beta aí, blz?". Ela me entregou hoje pela hora do almoço, mas eu não parei o dia todo ._.
Eu costumo revisar o capítulo depois da betagem, antes de postar, mas nem isso rolou. Para não fazer vocês esperarem mais, hei-o!
Beijos e até amanhã. E torçam pra beta voltar inteira da festa, porque ela ainda não me entregou o próximo. XD
