Kyo e Shinya não me pertencem, e eu os respeito, só não respeito o meu respeito por eles. (y)
Título retirado de Higeki wa Mabuta wo Oroshita Yasashiki Utsu, de Dir en grey.
Que Voz, Que Palavras?
04. Don't-need-words
Naquela noite eu lembrei de perguntar se existia algum modo de me comunicar com ele sem que ele precisasse tropeçar em mim para nos encontrarmos
Naquela noite eu lembrei de perguntar se existia algum modo de me comunicar com ele sem que ele precisasse tropeçar em mim para nos encontrarmos. Depois de uma boa história sobre maníacos sexuais, ele me deu o número do telefone celular, perguntando se eu era inteligente o suficiente para saber mandar mensagens pelo celular.
Ele estava com o spray de pimenta, e eu tenho um certo prezo pelos meus olhos.
Ofereci-me para caminhar com ele até sua casa, visto que já quase passava da meia noite e as ruas não eram exatamente seguras nesse horário. E me arrependi bastante internamente. Porque ele morava um pouco longe da minha casa. Entenda pouco como exatamente do lado oposto da cidade.
Perguntei-me porque diabos ele andava até tão longe todos os dias, e como conseguia. Na verdade, fiz inúmeras perguntas a mim mesmo enquanto andávamos em silêncio pela cidade quase fantasma.
Atravessamos uma viela sombria, e ficamos tão preocupados com ela que não vimos um homem alto, musculoso e mal-encarado vir em nossa direção pela calçada a frente. Eu senti Shinya se retesar ao meu lado. O braço dele roçou no meu, desejando poder abraçar-se a ele para proteger-se, mas o abanei para longe. Seria bem pior. Um casal de gays era mais tentador para um espancador que um palito e um baixote.
Acendi rapidamente um cigarro e pus as mãos nos bolsos do casaco, erguendo o rosto com a minha melhor expressão de desprezo. Retirei o cigarro dos lábios e soprei a fumaça de meus pulmões. Shinya apenas não tremia porque estava tenso demais para isso. O homem me encarava nos olhos e eu sustentei seu olhar, tentando parecer o mais frio e confiante possível, até desviar levemente para cima, tragando despreocupadamente o Phlip Morris em minhas mãos.
Eu consegui ver os olhos dele brilharem quando cruzamos um com o outro e um arrepio correu minha espinha. Shinya quis se apressar, mas eu murmurei para que continuasse andando devagar. Mal viramos a esquina, ele soltou o ar, como se o tivesse prendido o tempo inteiro e cruzou os braços no peito, abraçando a si mesmo, e escondeu as mãos trêmulas debaixo dos braços. Não pude deixar de rir, e ele me olhou quase furioso.
Passei o braço por sua cintura e o trouxe mais perto.
- Exagerado. ... Sua casa é aquela?
Ele acenou que sim.
Talvez, por uma casa assim, eu aceitaria morar tão longe. Era pequena, de dois andares, branca, num estilo quase vitoriano, espremida entre dois edifícios escuros e altos. A tinta branca, mesmo na escuridão, não tinha nenhuma mancha ou falha visíveis, o minúsculo jardinzinho era impecavelmente verde e bem cuidado, e a calçada era a mais limpa que eu havia visto em quadras de caminhada.
Perguntei-me de onde ele teria arranjado uma casa como aquela, e como a mantia apenas com o dinheiro de passeador de cães.
- ... Você cuida disso tudo sozinho? – indaguei quando passamos pelo portão de finas barras de ferro, praticamente inútil, e paramos na porta, ele procurando as chaves na bolsa que trazia a tiracolo. De novo, ele acenou que sim, com um sorriso orgulhoso nos lábios, e eu tive que me estapear mentalmente para poder desviar o olhar do rosto dele, antes que começasse a ficar realmente esquisito.
Ele abriu a porta e atirou a bolsa numa mesinha que ficava bem ao lado, acenando para que eu o seguisse.
- Achei que eu fosse um maníaco sexual. – eu disse, deixando os sapatos no discreto batente depois de tropeçar nele.
"Você não consegue largar dessa idéia?" – o papel surgiu na minha frente poucos segundos depois, sendo segurado pelos dedos delicados dele. A luz demorou um pouco mais, até acharmos um interruptor, ele já havia me levado até a cozinha.
- Vamos fingir que você não falou isso. E eu acho que já está bem tarde, eu deveria voltar pra casa, parece que vai cair uma chuva enorme e eu tenho a impressão de que deixei as janelas abertas. Amanhã ainda é sexta, não posso nem sonhar em chegar atrasado na droga da editora.
"Apenas descanse uns minutos aqui, caminhamos demais no frio."
Silêncio.
- Quando acha que podemos nos ver de novo?
Minha voz falhou ridiculamente ao pronunciar a frase e senti meu coração acelerar um pouco. Quanta estupidez.
Eu vi um sorriso tímido cruzar seu rosto. Será que ele podia ao menos tentar parar de ser tão tentador?
"Porque acha que eu quero continuar me encontrando com você?"
... Que... facada. Ele não estava falando sério, estava?
"NÃO. Estúpido." - Eu ficava tão legível assim na frente dele? Tão... Vulnerável? Ridículo. Ele continuou escrevendo. – "Podíamos armar um 'esquema'. De três em três dias, dois em dois... No caso, nos veríamos sábado ou domingo."
- Sábado. – Respondi prontamente. Eu me sentia cada vez mais ridículo por agir assim com ele. Jamais ninguém me fizeram ser assim. As pessoas não me interessavam. Elas eram as ridículas, não eu. – No café.
"Certo." – ele olhou pela janela atrás de mim. – "Vai mesmo começar a chover. Quer um guarda-chuva emprestado?"
- Não precisa. Faz tempo que não pego uma boa chuva. – respondi ao me levantar da mesa. Ele fez o mesmo e, antes de deixarmos a cozinha, pôs as cadeiras exatamente no lugar onde estavam quando chegamos. Obsessivo. Andei lento até a porta, um bocejo deixando minha boca.
Shinya abriu a porta e deixou que eu passasse, depois posicionou-se entre ela e a parede, deixando visível apenas a sua silhueta fina aparecer contra a luz que vinha do corredor. Os lábios dele se moveram, mudos. "Boa noite."
- Você também. Até. – Ele acenou levemente a cabeça e fechou a porta em seguida. E, como se tivesse sido cronometrado, senti uma gota de água atingir minha testa. Ótimo.
...
E veio o sábado. Porque a sexta voou rápido sob meus pés, tão rápido que fiquei por um triz de não ser demitido por ter esquecido de organizar as canetas do chefe por cor. Primeiro as pretas, depois as azuis e as vermelhas.
Encontrei-o no mesmo café das vezes anteriores. Ele tinha aquele sorriso tímido nos lábios quando me sentei à mesa, e afastou a cadeira para um pouco mais perto da minha, mesmo que já sentássemos lado a lado para facilitar a passagem do caderno. E apesar do susto de dois dias atrás, não saímos mais cedo. De certo modo, fomos quase expulsos de lá.
Nessa noite, também deixei que ele se segurasse no meu braço quando passamos pelos trechos mal iluminados das ruas e dei-lhe meu próprio casaco ao notar que tinha a pele pálida e gelada. Eu estava me sentindo cada vez menos capaz de resistir à vontade de olhar infinitamente para o rosto dele e decorar cada traço. ... Talvez eu estivesse mesmo pensando como um maníaco. Ou como uma garotinha estúpida e acéfala apaixonada. Quem é esse e o que fez comigo, pelos céus?
Quando dei por mim, já estávamos passando pelo portãozinho delicado de ferro que, por algum milagre, não tinha o dobro do meu tamanho. Na verdade, eu tinha o dobro do tamanho dela.
Ele já estava abrindo a porta, como se esperasse que eu o acompanhasse quando entrasse – o que eu não ia fazer, só por precaução – e eu toquei a mão em cima da maçaneta, puxando-a para que Shinya se virasse para mim. Não esperei para ver a cara de indagação dele, pus-me nos pés erguidos e colei meus lábios aos dele superficialmente, tocando levemente seu rosto com a mão livre. Ele permaneceu imóvel, respirando lentamente. Deslizei rapidamente a língua pelo lábio frio dele e os pressionei novamente com os meus, afastando-me logo em seguida.
Ele continuou imóvel, os olhos fechados e a boca curvada em um minúsculo e adorável sorriso. Eu também sorri, fitando-o longamente até ver que suas bochechas estavam ganhando uma cor rubra. Chegava a ser irônico dizer que ficara sem palavras.
- 'noite. – murmurei, tendo certeza de que ele ouvira, e dei as costas, pondo-me no meu caminho de volta para casa. Acho que ele ainda estava na porta quando virei a esquina.
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