Parte II

E lá estava eu novamente vendo o ensaio de balé e sendo completamente ignorado pelo bailarino mais talentoso.

Talvez ele nem se lembrasse do garoto patético que tinha ido elogiá-lo como possivelmente tantas outras pessoas. E se por um lado eu estava aliviado ao imaginar que ele tivesse esquecido o quão ridículo eu havia sido, por outro me sentia frustrado por não receber um único olhar dele.

Ele praticamente não me via. E não era muito agradável passar despercebido daquela forma.

Mas eu não podia fazer nada e nem faria mesmo que pudesse. Eu só podia me limitar a minha admiração em vê-lo dançar sempre tão perfeitamente. Não entendia muito de balé, mas ele não parecia cometer erros. E se os cometia deviam ser ofuscados pela forma como ele era tão gracioso e seguro em cada movimento.

Mesmo assim eu continuava dizendo mentalmente que aquilo era só uma admiração pela dança, ainda que sentisse meu coração acelerar a cada vez que via ele em um dos corredores do Centro Cultural.

Não queria mesmo pensar no exato motivo de ter essa reação porque eu sabia que se parasse um pouco para pensar nisso eu daria um verdadeiro nó na minha cabeça. Mas eu também não precisava pensar muito quando June aparecia e se sentava ao meu lado nas poltronas com um sorrisinho enigmático de quem sabe o que está acontecendo.

Eu precisava dar um basta em ir todo o dia ao auditório de apresentações ver o Cisne dançar antes que aquilo se tornasse uma obsessão e um grande problema para mim.

Estava mesmo decidido a não aparecer mais lá e me limitar a ir ao Centro apenas nos dias que tinha aula de pintura.

As vezes eu me pegava inconscientemente sendo levada em direção ao auditório, a imagem dele dançando sem sair da minha cabeça.

Mas eu tinha que me contentar apenas com a lembrança que era aquele quadro perfeito do primeiro dia que vi Cisne. Quadro esse que eu tentava reproduzir, mesmo achando que qualquer coisa que eu fizesse nunca estaria a altura.

Eu nunca conseguiria mostrar em cores e traços a mesma emoção que havia sentido naquele dia. Meu quadro não passaria de um rascunho, mas me serviria como uma vaga lembrança do momento mais bonito e perfeito.

Eu o pintava sempre a noite, com a porta do quarto trancada como quem guarda um grande segredo. E sempre cobria a tela inacabada, torcendo para que Ikki não entrasse no meu quarto e descobrisse o meu tesouro secreto.

Mas aquele tesouro não devia valer muito aos olhos alheios considerando que eu continuava a ser criticado pelo meu professor de pintura sempre tão exigente.

A aula do dia já havia terminado e eu tinha pedido a Milo para continuar ali, tentando terminar o acabamento de uma tela. Ele cedeu mesmo avisando que eu não conseguiria terminar já que eu teria que sair dali em menos de uma hora quando a próxima turma dele entrasse.

Continuei concentrado no que fazia, toda atenção voltada para tela. Pintar sozinho e com todo aquele silêncio, sem os resmungos de Milo sobre os quadros de outros alunos era bem melhor.

Parei ao ouvir a batida na porta e alguém entrar pedindo licença, e ao desviar os olhos do quadro estaquei ao ver o Cisne vasculhando a sala com seus olhos como se procurasse alguém.

Até que inevitavelmente seus orbes me alcançaram e eu estava em um estado de choque tão profundo que imaginei ter visto um sorriso divertido passar pelos lábios dele rapidamente.

Larguei o pincel ainda em estado de choque, mais uma vez parecendo ridículo e ao me dar conta disso, me abaixei desajeitadamente a procura do pincel, o coração batendo acelerado e o típico frio na barriga.

Quando levantei de forma estabanada, derrubei a tela junto com o cavalete e no mesmo instante me abaixei novamente, o rosto vermelho e desejando que um buraco se abrisse debaixo dos meus pés.

Ouvi o riso baixo dele, provavelmente debochando de mim, a apertei a tela com força em meio ao nervosismo. Por que eu tinha sempre que agir de forma idiota na frente dele?

E quase larguei o cavalete no chão ao vê-lo me ajudando e controlando o riso.

Murmurei um agradecimento, as bochechas queimando absurdamente e ele deu o sorriso mais lindo que eu já tinha visto ao aprumar o cavalete no chão, dizendo que não era nada.

- Você viu o Milo por aí? – me perguntou em um tom casual e eu pisquei os olhos varias vezes com dificuldade em compreender o que ele havia falado por conta do nervosismo.

- Ah... e-ele saiu, disse que ia fazer um lanche... antes da próxima aula – murmurei, desviando os olhos dele e voltando para a frente da tela, o pincel já na mão, pronto para fingir que estava calmo e que iria voltar a fazer o que estava fazendo antes dele entrar.

Mas o loiro andou até o meu lado, observando o desenho e o olhei com o canto dos olhos, querendo secretamente ver sua reação.

- Você gosta de tons pasteis, não é?

- Hm? – virei o rosto para olhá-lo e ele apontou o quadro com um aceno de cabeça, sem tirar os olhos da tela.

- Não há nenhum outro tom além desse – disse, só então virando o rosto para me olhar. – Não que não esteja bom, mas acho que o que combina com você é algo com cores mais viva.

- Ah... – sorri meio nervoso, voltando os olhos para a tela. – Milo fez um comentário parecido. Você faz aula de pintura também?

- Não, mas convivo com um pintor nos últimos oito anos.

- Sério? – voltei a fitá-lo novamente e ele assentiu parecendo meio contrariado com o que tinha dito.

- Não que eu goste muito do fato. Pintores são tão temperamentais e com um gênio difícil de lidar.

- Hm, nem todos são assim...

Ele riu ao me escutar, o som da sua risada fazendo meu peito aquecer.

- Você não foi mais me ver nos ensaios.

Arregalei os olhos, sentindo as mãos gelarem e abaixando o rosto voltando a pedir mentalmente que um buraco se abrisse debaixo de mim.

- Enjoou de me ver dançar?

Levantei o rosto imediatamente negando de maneira enfática.

- Os ensaios são sempre maravilhosos. E-eu só não ando com muito tempo.

- Você vai na apresentação?

- No festival cultura? Hai, vou sim! Uma amiga minha é uma das atrizes na peça teatral – respondi sem conter a empolgação, contemplando o sorriso dele em retorno ao meu, seus olhos azuis atentos a cada palavra que eu dizia.

- Mas a Cia de Balé não vai se apresentar no festival. Daqui a duas semanas vai haver a uma apresentação no Tokyo Teather.

- Eu pensei que estavam ensaiando para o festival – ele negou com um suave aceno antes de voltar a desviar os olhos para o quadro.

- Os ingressos já estão esgotados. Mas você parece gostar tanto de balé, eu posso conseguir um pra você.

- Mesmo?!

- Mesmo... – ele deu uma pausa e eu entendi a deixa para dizer meu nome.

- Shun – respondi estendendo a mão para o loiro e ele a segurou apertando-a em cumprimento.

Esperei com ansiedade ele dizer o próprio nome, mas antes que ele pudesse falar qualquer coisa a porta se abriu e Milo apareceu por ela cantarolando alguma música baixinho.

- Ah, Hyoga, você estava aqui? – o loiro soltou minha mão imediatamente ao ver o professor de pintura, suas feições ficando subitamente sérias. – Camus pediu para avisar que não se atrase para o jantar hoje de novo.

- Eu vim justamente avisar que vou chegar tarde hoje por conta do ensaio – o loiro que agora eu sabia se chamar Hyoga se afastou de mim sem me dizer mais nada.

- Camus não vai gostar de saber disso... – Milo resmungou, praticamente para as paredes. - Então, Shun, conseguiu terminar? Minha turma já deve estar começando a chegar.

Vi Hyoga sair da sala e só então olhei para o quadro percebendo que eu não tinha feito quase nada.

- N-não consegui fazer muita coisa. Desculpe, sensei.

Ele riu pegando novas telas e distribuindo-as nos cavaletes e eu me dispus a ajudá-lo como agradecimento por ter me deixado usar a sala.

E enquanto eu o ajudava a reorganizar tudo, mais distraído do que o costume, não conseguia refrear a sensação de alegria que fazia surgir um sorriso tímido em meus lábios a cada dois segundos.

Eu nem me lembrava que agora sim era a hora de começar a questionar o porquê de sentir tudo aquilo quando se tratava do bailarino.

Não, eu preferia continuar na ignorância.


- O que está acontecendo com você – Ikki me questionou, enquanto assistíamos tv na tarde de domingo.

- O quê, nii-san? – tirei os olhos da tela, sem saber o que se passava no filme por conta da minha distração.

- Você anda sorrindo mais do que o normal nos últimos dias, Shun. Tem chegado tarde e sempre com um sorriso bobo. Arranjou uma namorada?

Engasguei com a própria saliva, abaixando a cabeça e apoiando as mãos nos joelhos ao mesmo tempo em que pensava em uma resposta.

- Não é nada disso, nii-san!

Senti os olhos de Ikki em cima de mim como se me avaliasse. Então ele bufou irritado, voltando olhar a tela e pegando o controle para mudar de canal sem parar.

- Então você está apaixonado.

Engasguei uma segunda vez com mais intensidade, o rosto queimando ao ouvir a sentença que Ikki havia proferido com calma e certeza.


Entrei na sala de aula esbaforido e apressado recebendo um olhar repreensivo de Milo. Estava há mais de dez minutos atrasado e isso se devia ao fato de não ter pegado o metrô no horário certo. Ikki estava absolutamente certo quando dizia que eu estava mais distraído do que o normal.

E eu não queria pensar no motivo de estar daquele jeito.

Sentei ao lado de June, olhando a tela branca e tentando me concentrar para pintar algo sem prestar atenção no que Milo dizia a classe. Eu estava ansiosamente esperando o dia em que Hyoga apareceria com o ingresso para o balé, a perspectiva de vê-lo dançar em um espetáculo me atingindo e deixando algo dentro do meu peito batendo de maneira eufórica.

E incrivelmente eu ainda continuava ignorando de maneira enfática a razão de tudo aquilo.

Por que me parecia muito mais fácil e seguro continuar assim.

Mas uma hora eu sabia que teria que confrontar o que se passava comigo e talvez eu não gostasse muito da conclusão.

Quando a aula terminou June me chamou novamente para ir até o auditório. Eu já havia decorado todos os horários do ensaio de balé e minhas pernas formigavam para me levar até lá só pra assistir o finzinho e poder ver Hyoga, mas eu também sabia que talvez o melhor era deixar aquele encantamento e adoração de lado antes que não tivesse mais volta.

Dei uma desculpa a June o que com toda certeza deve ter estranhado já que eu nunca recusava ir assistir aos ensaios.

Juntei o meu material rápido, pensando em dar uma passada na biblioteca e depois no supermercado para comprar os ingredientes do jantar daquela noite.

Me despedi, a mochila em um dos ombros e ao sair da sala me deparei com Hyoga encostado na parede em frente a porta como se esperasse alguém.

E lá ia eu sentindo todas aquelas sensações que sempre me pegavam de surpresa e as quais eu ainda não havia me acostumado.

Ele se aproximou, tirando algo do bolso com cuidado.

- Trouxe o ingresso.

Não consegui conter o sorriso e ele me entregou o ingresso, nossos dedos roçando com o rápido contato.

- Obrigado... – murmurei, guardando o ingresso em um dos bolsos da mochila. – Você não deveria estar ensaiando agora? – me reprimi mentalmente por ter deixado a pergunta curiosa escapar, mas ele não parece se importar com isso e apenas sorriu.

- Deveria, mas eu fugi – respondeu, sem culpa e com o tom de quem tinha feito uma travessura.

- Não devia fazer isso, Hyoga.

Ele riu baixo com o meu tom de repreensão e tocou meu ombro de leve, me empurrando suavemente para o lado para que não atrapalhasse a saída do pessoal da sala.

- Eu sei... Mas eu ando ensaiando todos os dias a dois meses. Achei que precisava e merecia uma folga.

- Deve ser exaustivo às vezes – ele assentiu, acariciando a própria nuca com a mão.

- Às vezes tenho vontade de largar tudo. Mas um segundo depois eu me dou conta que não ficaria realmente feliz se fizesse isso.

- Eu acho que sei como é...

Ele balançou a cabeça meio impaciente pela primeira vez.

- Escute, Shun, eu estou indo fazer um lanche e beber algo antes que o coreógrafo me ache e me obrigue a ir ensaiar durante horas sozinho em uma sala... Então, você não quer ir comigo? Tem um café em estilo ocidental aqui do lado e os biscoitos de aveia com canela de lá são bem gostosos.

- Ah, eu... – pensei em recusar, dizer que ainda precisava voltar para casa e preparar o jantar, mas quando eu vi já estava aceitando, um sorriso largo ao dizer: - Seria ótimo, também estou com fome.

Hyoga sorriu e começou a andar comigo ao lado enquanto conversamos sobre algo aleatório.

Não demorou muito para que chegássemos ao café que ele havia mencionado. O loiro pediu um café expresso junto com os biscoitos que havia dito e eu pedi um chocolate quente acompanhado dos mesmos biscoitos.

Ele me contou que era russo e entrou no balé aos sete anos, um pouco depois da morte da sua mãe e de ser adotado por um francês. Três anos depois eles se mudaram para o Japão devido a transferência de trabalho do pai adotivo dele.

Eu expliquei a ele que também tinha ficado órfão muito cedo e que tinha sido criado por um tio até meu irmão terminar o colegial.

Quando nos demos conta já estávamos ali a mais de uma hora no que era para ser um lanche rápido. Hyoga ia pagar a conta, mas eu insisti para que dividíssemos e depois de muito falar ele aceitou.

Ele se ofereceu para me deixar na estação do metrô e eu, parecendo mais uma garotinha em um encontro, aceitei usando como desculpa o fato de querer prolongar nossa conversa.

Era agradável estar ao lado de Hyoga e eu tinha aquela sensação de que o conhecia há muito tempo, minha timidez parecia diminuir um pouco e eu me pegava falando quase sem parar enquanto ele me ouvia atentamente.

Eu até andava mais devagar, prolongando assim nossa ida a estação do metrô e quando chegamos lá não contive a expressão meio desanimada, sabendo que teria que me despedir dele.

- Bom, eu ainda tenho que voltar para o Centro Cultural – ele disse, ao me deixar nas escadas que levava ao subsolo da estação.

- Você não precisava ter vindo até aqui comigo, Hyoga – murmurei, me sentindo culpado com a possibilidade de ter atrapalhado e o atrasado.

- Como eu já tinha dito antes, eu precisava sair um pouco de lá. E depois de conversar com você renovei meu ânimo. Eu só tenho a agradecer, Shun – e ao terminar de falar ele se aproximou de mim, um sorriso no canto dos lábios.

Estaquei quase em choque, podendo sentir a suave fragrância do seu perfume, controlando a vontade de fechar os olhos. Meu pescoço e rosto pareciam queimar em antecipação ao que viria, mas Hyoga apenas se aproximou mais, quase roçando os lábios no meu rosto.

Fechei os olhos, esperando pelo contato que nunca veio e ao sentir ele se afastar arrisquei entreabrir as pálpebras.

Hyoga sorria de leve, um brilho diferente nos olhos azuis fazendo com que meu peito aquecesse.

- Até amanhã, Shun – se afastou ao se despedir e eu continuei parado lá sem conseguir dizer nada, ainda esperando algo mesmo que ele já estivesse caminhando adiante e de costas para mim.

E eu não precisava de mais nada para finalmente cair em si e perceber que estava completamente apaixonado por ele.



N.A: Obrigada a quem comentou na primeira parte e a quem está acompanhando, mas não pôde comentar por algum motivo.

Atualizo de novo semana que vem ^^

Até mais!