_ Sua parada é aqui!

Ela me empurrou com força para dentro de uma cela. Era um lugar construído dentro de uma caverna. As barras eram fortes, que entravam vários centímetros, quem sabe metros, dentro da rocha sólida. Mesmo se eu descobrisse uma forma de escapar dali usando minhas habilidades, isso levaria um bom tempo. Era uma conclusão óbvia, porque se ela me jogou ali, é porque ela própria encontraria muitas dificuldades para sair. Procurei me acomodar num banco de rochas. Qualquer movimento do corpo doía e os meus pulsos começaram a ficar dormentes por causa da algema. Ela ficou me observando com cuidado, como se tentasse ler meus pensamentos. Estava tão mudada desde o nosso último confronto. Quanto tempo se passou? Tanto assim? Seus cabelos estavam cortados até os ombros, abandonou a túnica jedi e adotou roupas típicas de contrabandistas. Era uma imagem mais rebelde de si mesma.

_ Achei que a ordem fosse eliminar sumariamente todos os siths que aparecessem – provoquei – não está quebrando mais uma regra preciosa?

_ Você sabe que sempre quebrei regras – não entrou na brincadeira e nem se incomodou com o meu cinismo. Ao contrário, me olhou tão mais profundamente.

_ Quanto tempo pretende ficar aqui, olhando para minha cara? Há uma guerra espetacular lá fora. Você não deveria estar protegendo seus amigos, ou sendo a salvadora de algum vilarejo?

_ Eles estão seguros – mais uma vez nenhuma emoção em sua voz. Então o jogo é mais sério que imaginei – posso ficar aqui o tempo que for necessário.

_ Ainda acha que pode me trazer de volta? – sorri com ironia – isso é uma grande bobagem. Não há volta possível depois que se conhece a verdadeira natureza da força.

_ Decorou direitinho a frase! – sorriu irônica.

_ E você continua brilhante no seu teatro. Essa postura de forte, de inabalável. A rebelde cheia de ética. Você é patética!

_ Obrigada – e veio mais um sorriso cínico.

Eu a conhecia bem demais para saber que seja lá qual fosse o seu plano, ela o levaria até o fim. Seria um jogo interessante.

_ Mestre Rosenberg! – uma voz feminina interrompeu o nosso breve diálogo.

Não pude ver de quem se tratava, mas imaginei que estaria próxima a um quartel general da Aliança Jedi. Ela acenou para a dona da voz e depois me encarou.

_ Não saia daí, Willow! Volto o mais rápido possível.

...

"Não saia daí, Willow, volto o mais rápido possível". Acho que já ouvi essa frase milhares de vezes em minha vida, desde que Buffy encarnou o papel de minha irmã mais velha e protetora. Acho que a primeira vez foi quando tinha uns sete anos. Gostava de jogar bola na escola. Se nas aulas era uma menina extremamente tímida e acuada, que todos adoravam maltratar, nas quadras eu me sentia uma deusa. Ninguém era mais habilidoso do que eu no jogo. Nenhuma criança da minha classe conseguia marcar tantos pontos quanto eu. Ninguém menos uma: Buffy. Só mais tarde é que fui entender porque nós nos destacávamos dos outros, mas não me convém comentar isso agora.

Buffy e eu não tínhamos os mesmos amigos na escola. Ela vivia cercada de pessoas que eram consideradas as mais legais e eu só tinha a companhia de Xander. Na frente dela, suas amigas me tratavam com respeito, mas bastava virar as costas para elas despejarem insultos por causa das minhas roupas caretas, do meu cabelo reto e ruivo, da minha pele que era branca demais, do meu jeito desengonçado, e até minha inteligência era alvo de piadas. Eu não falava nada para Buffy, não via razão e não queria ser a bebê chorona que corre para a irmã mais velha por qualquer problema. Além do mais, tinha os jogos para me vingar.

Um dia cheguei ao limite da tolerância. As meninas me atormentaram tanto que na hora das atividades físicas eu descontei cada um dos insultos. Buffy ficou admirada no dia. Nunca tinha me visto tão agressiva. Distribuí cotoveladas, chutes, entradas duras até que fui expulsa do jogo.

No final da aula, depois que eu me despedi do Xander, essas mesmas meninas me cercaram para me bater. Mas sabe como é briga de criança. Um empurrão na lama, um puxão de cabelo um murro nas costas e estamos resolvidos. Quando caí, esfolei o meu joelho e fiquei parada na calçada, chorando, imóvel. Assim que Buffy me viu, correu para me socorrer. Meu joelho sangrava o suficiente para assustar uma criança da nossa idade. Foi a primeira vez que a vi temerosa. Buffy era uma criança tão firme que nem os maltratos de minha mãe pareciam a atingir. Vê-la tão preocupada com um joelho esfolado me surpreendeu.

_ Não saia daí, Will. Volto o mais rápido possível.

Ela correu em direção do prédio da escola e voltou poucos minutos depois puxando o enfermeiro pelo braço. O gentil profissional me pegou no colo e me levou até o centro de primeiros socorros da escola. Depois do curativo, ela me perguntou o que aconteceu e eu só respondi que escorreguei na lama e caí de joelhos. Simples assim. Nunca tive certeza se ela acreditou.

Com o tempo vários tipos de "não saia daí, volto o mais rápido possível", aconteceram: por causa de namorados, emergências, ferimentos. E em cada uma dessas situações nós ficávamos mais unidas.