Perdi a noção do tempo dentro daquela caverna. A iluminação artificial era constante e por isso não sabia se era dia ou noite ao há quanto tempo estava lá. Sabia que estava no sistema Hantar, na maior lua do gigante planeta gasoso de mesmo nome. Estava aqui para cumprir uma missão designada por meu mestre: capturar a jovem líder jedi que era uma bela pedra no sapado. Em outras palavras: Buffy. Eu fiz um excelente trabalho de espionagem, consegui sua localização e esperei o momento certo para atacar. Nós lutamos como nunca, eu perdi como sempre, mas dessa vez sem conseguir fugir e ela me prendeu ao invés de me matar. Quanto fiquei na caverna? Dois, três dias? Uma pirralha que eu lembrava vagamente de ter visto uma vez era a única pessoa que me fez companhia nesse tempo, sempre para levar água, nunca comida. Estava fraca, com febre porque não recebi nenhum tratamento médico, e meu corpo tremia por causa de uma crise de abstinência. Para piorar desloquei meu pulso quando passei meu corpo entre meus braços para melhorar um pouco o desconforto e a falta de posição. Com o tempo minha cela passou a cheirar urina porque não tinha outra alternativa a não ser fazer minhas necessidades ali mesmo. O cheiro atraiu pequenos insetos que logo descobriram minha pele e minhas feridas. Eu já não agüentava mais, achava que a minha hora estava chegando. Foi quando ela chegou com uma pistola médica em mãos.

_ Desculpe a demora, Will – foi entrando na cela sem cautela.

Ela sabia que eu não tinha condição alguma de reagir. Olhou nos meus olhos com piedade antes de disparar a pistola contra o meu pescoço e eu a odiei por isso. Minha visão ficou negra em segundos.

...

Eu lembro quando os tempos negros chegaram. Tinha 12 anos. Minha casa havia se transformado num centro de reuniões de homens nervosos. Lógico que sabia que meu pai era um cara influente em Serenno por ser um empresário muito rico, porém nunca havia me dado conta que era um sujeito tão próximo da política. E por alguns meses o porão da minha casa havia virado ponto de encontro de homens poderosos. Na época eu não percebia todas essas mudanças ao meu redor porque estava focada em mim mesma. Estava saindo da infância e começando a me preocupar com problemas adolescentes. Me vi apaixonada pelo meu melhor amigo que amava minha irmã. Buffy estava perdida em seus próprios problemas, em especial um que se chamava Cordélia, e pouco falava comigo. Minha mãe mal me notava, envolvida demais com as discussões. Havia deixado de pegar no pé da Buffy inclusive. Algumas vezes Buffy e eu espionávamos essas reuniões. Aparentemente havia uma nova divisão na Aliança Galáctica e os quatro séculos de paz estavam caindo por terra. O bloco econômico liderado por Naboo e Serenno foi considerado ilegal e o caso foi parar no Conselho da Aliança em Corellia. O corpo diplomático decidiu pela dissolução do bloco, o que deixou o rei de Naboo furioso. Os pacíficos Naboo se revelaram comerciantes agressivos depois das guerras de sucederam o Império. Chegaram a dominar economicamente vários sistemas menores usando um jogo de estratégias ousadas. Parece que eles tomaram gosto pela atitude imperialista. Mas a decisão de Corellia, a nova capital da galáxia, estragou os planos e freou a expansão econômica do planeta.

Foi quando Serenno entrou na história. O rei de Naboo, Yuri Gi Dasperet, ameaçou a retirada do sistema da Aliança Galáctica e passou a reunir seus aliados e sistemas dependentes para derrubar o corpo diplomático de Corellia. Dessa forma eles poderiam modificar as regras para benefício próprio. Serenno era um dos sistemas que davam sustentação aos planos de Yuri. O governador geral de Serenno tinha enorme influência em Corellia e ele passou a ser peça vital nesse jogo. Um possível conflito com a Aliança traria vantagens pessoais e políticas enormes cara o governador e mais alguns outros interessados. Meu pai não concordava com a situação e secretamente conspirava contra. A melhor chance de frear os planos de Yuri Gi Dasperet contra a Aliança e livrar Serenno seria aplicar um golpe de estado. O problema é que meu pai e os outros conspiradores deveriam ter o apoio do corpo militar do planeta e de alguns sistemas importantes. A conspiração falhou e seus planos de traição foram descobertos.

Um dia meu pai foi nos buscar mais cedo na escola. Buffy o encheu de perguntas sem obter nenhuma resposta. Eu apenas observava. Nunca vi meu pai tão assustado em toda minha vida. Ele nos levou direto a um edifício na parte boêmia da cidade. Estacionamos na garagem e lá encontramos minha mãe ao lado de um homem alto, porte distinto, em trajes jedis. Ele tinha marcas de expressões no rosto e grandes entradas na testa. Aquele homem podia intimidar apenas com o olhar.

_ O que estamos fazendo aqui? – Buffy perguntou com voz temerosa – Vamos fugir?

_ Não, meus anjos – papai nos abraçou tão forte e tão emocionado que naquele momento o meu coração apertou. Lá no fundo, por mais que eu negasse, sabia que aqueles eram os últimos momentos – Quero apresentar o mestre jedi Rupert Giles. Vocês vão deixar Serenno e ficarão a partir de hoje sob custódia dele – e olhou para Buffy que, pela primeira vez na vida, estava tremendo de medo – lembra quando você me perguntou sobre sua força anormal? Por que você se sentia diferente das outras crianças? Por que só Willow conseguia te acompanhar em algumas atividades? É que você – segurou firme no ombro dela e depois olhou para mim e fez o mesmo – vocês duas são sensíveis à Força. São especiais, minhas queridas. Mestre Giles está aqui para treiná-las, para que vocês possam finalmente desenvolver todo esse potencial.

_ Mas papai – choraminguei – eu não quero ir! Eu não quero ser jedi! Eles são chatos e arrogantes! Quero ficar aqui com o senhor e mamãe, terminar a escola... não posso abandonar tudo... e tem Xander! – olhei para Buffy desesperada por um suporte em minhas argumentações. Nada!

Vi que meu pai tinha lágrimas nos olhos quando ele me pegou e me abraçou com força. "Eu te amo, minha caçula", ele sussurrou no meu ouvido. Depois ele me largou e abraçou Buffy com a mesma intensidade enquanto eu me despedi da minha mãe. "Seja forte. Você é minha única filha. Precisa sobreviver", ela chorou no meu ouvido e naquela altura a emoção também já tinha tomado conta de mim.

_ Vamos! – Giles nos interrompeu – estamos ficando sem tempo.

Antes de subir na nave, vi meu pai segurando Buffy pelos dois ombros.

_ Quero que cuide sempre de sua irmã. Não a perca de vista! Promete isso pra mim?

Ela balançou a cabeça em positivo. Pegou na minha mão com força e nós entramos juntas no carro de Giles. Ficamos observando nossos pais até perdermos eles de vista. Ao longe vi meu pai chorar e essa imagem me marcaria para o resto da vida. Dentro do carro, a caminho do hangar privado do senador Osborne, nos abraçamos. Ali fizemos um pacto silencioso. Seja lá o que acontecesse, nós deveríamos permanecer juntas, não importava como.

_ Vamos deixar Serenno assim que chegarmos no hangar – Giles nos interrompeu.

_ E nossas coisas? – Buffy perguntou num tom de voz sinistro. Um que gelava minha espinha toda vez que ela dizia.

_ Vocês não vão precisar delas para onde vamos, padawans. Será uma nova vida para vocês duas.

E ele tinha razão. A partir do momento que entramos na nave jedi, tudo mudou. Poucas horas depois Buffy e eu ficamos órfãs. A polícia invadiu a minha casa para prender os meus pais sob acusação de traição e conspiração contra a soberania de Serenno. Segundo o relatório, eles reagiram, atiraram nos guardas matando inclusive dois deles, e tentaram escapar. Durante a perseguição o carro explodiu, matando o casal Rosenberg. O paradeiro das duas filhas era desconhecido, possivelmente mortas. A história nunca foi desmentida, nem mesmo pela Ordem Jedi.