Meu corpo não parava de tremer. Estava conseguindo me manter em cheque, mas quando explodi em choro, perdi o controle novamente. Depois do meu show, Buffy me colocou em outra cela, semelhante a anterior. Eu fiquei tremendo com o corpo em posição fetal, sem ter como reagir. Pouco tempo depois comecei a suar muito. Minha blusa ficava encharcada, assim como meus cabelos. Meus lábios e minha garganta, por outro lado, estavam secos. Meu estômago doía. Meu corpo inteiro doía. E eu mal conseguia me manter consciente. Na verdade nem sabia se estava viva ou morta. Precisava de uma dose de qualquer coisa, a menor que fosse. Poderia implorar uma para toda forma humana que passavam na frente da cela se conseguisse dizer qualquer coisa coerente. Passei dias assim, e foi um tormento. Num dia não tão ruim ouvi algumas batidas na grade. Estiquei o pescoço para ver a pirralha com uma bandeja de papelão em mãos. Era hora da comida e eu precisava colocar alguma coisa no estômago.
_ Hora do jantar – ela disse.
Levantei com dificuldade e peguei o copo d'água primeiro. Como não consegui colocar o canudo no lugar apropriado porque minhas mãos tremiam muito, abri a tampa do copo e dei algumas goladas.
_ O que há contigo? – a pirralha me olhou num misto de curiosidade e pena.
_ Abstinência – minha voz soou tão rouca que eu mal a reconheci – acontece às vezes.
A comida era um prato de mingau de aveia. Buffy sabe que odeio mingau, mas no estágio que estava, aceitava qualquer coisa. Peguei a colher descartável e tentei levar o alimento a minha boca. Só que minha mão tremia tanto que mal dava conta de segurar o talher. Por conseqüência a metade do mingau caía de volta no prato. Tentei duas, quatro, seis vezes e o resultado era o mesmo.
_ Quer ajuda?
_ Se você puder...
Me aproximei novamente da grade e entreguei o prato para a menina. Ela sentou no chão de frente para mim e começou a me dar comida na boca.
_ Você é viciada em quê? – perguntou sem maldade.
_ Em algumas drogas, brilho... você tem algum aí?
_ Brilho?
_ É uma coisa que meu mestre faz para te deixar numa boa – e lá veio o olhar de choque. Falar em drogas é um tabu. As pessoas sussurram quando o assunto entra na roda de conversa. Imagine o escândalo que é falar sobre com naturalidade? – e você? É aprendiz de Buffy?
_ Não. Robin Wood é o meu mestre – me entregou a última colherada de mingau.
_ Interessante... Eu quase o matei uma vez.
_ Eu sei! – sua voz ficou dura.
_ Qual é o seu nome?
_ Dawn.
_ Não tem sobrenome?
_ É só Dawn.
_ Não tem família?
_ Minha família está aqui, na Ordem Jedi.
Voltei a sentar na minha cama e me enrolei com o lençol, mesmo ele estando úmido do meu próprio suor. Dawn continuava a me observar e por mais estranho que fosse, aquilo não me incomodou.
_ Ok Dawn! Meu nome é... – pensei duas vezes em qual nome dizer. Optei pelo meu batismo sith – Rubra.
_ Mestre Rosenberg disse que Darth Rubra estava morta... que agora todos deveriam voltar a te chamar de Willow Rosenberg.
_ Eu não sei se esse nome ainda significa alguma coisa para mim.
_ Ela acredita que você voltará a ser o que era.
_ Isso não é verdade – pausei um pouco. Era o primeiro momento lúcido que tinha em dias – Depois de tudo que passei e fiz, não há como voltar a ser o que era. É possível que eu seja um caso perdido.
_ Você não me parece ser um caso perdido – disse com sinceridade.
_ Acredita mesmo nisso?
_ Mestre Rosenberg acredita. Acho que eu também!
_ Sendo assim – dei de ombros – quem sabe eu ainda tenha alguma chance?
_ Quer que eu te ajude em mais alguma coisa?
_ Pode me arrumar algum?
_ Fora isso...
_ Um cobertor!
_ Mas não está frio.
_ É porque você não está sofrendo abstinência. Eu estou gelada.
_ Tudo bem. Volto em cinco minutos – ela foi saindo.
_ Dawn! – gritei e ela voltou com os olhos arregalados achando que havia acontecido alguma coisa nos três segundos que me deixou. Mas eu apenas dei um esboço de sorriso, e foi sincero – obrigada!
...
Quando se fala em siths a primeira coisa que vem na cabeça de um leigo é a imagem de pessoas vestidas de preto com sabres vermelhos e olhos maus. Tudo bem que isso é fato, mas a outra parte do imaginário popular é quando o ambiente que um sith gosta de estar. Há quem diga que eles gostam de quartos escuros, com correntes enferrujadas na decoração e alguns prisioneiros quase sem vida clamando por suas almas num canto escuro. Não é nada disso. Um sith gosta de poder acima de tudo, de estar próximo ao poder, e são os seres que mais apreciam conforto e sofisticação.
Foi o que me impressionou nos primeiros dias ao lado de Darth Rack. Ele tinha aparência assustadora, mas estava sempre bem vestido, com os cabelos perfeitamente em ordem. Seus gestos eram suaves, sedutores, ele nunca gritava, nem mesmo quando alguém falhava. Nesse caso ele simplesmente matava e depois virava de costas como se nada tivesse acontecido. Ele gostava de viver com muito conforto. O seu palácio era sempre bem iluminado, com decoração requintada de móveis construídos pelos melhores artesãos de Naboo. A única jóia que usava era um enorme anel na mão esquerda, com um rubi gigantesco. Oferecia jantares fartos a políticos importantes de toda galáxia. Eles comiam como porcos e depois se deleitavam com as prostitutas numa orgia sem fim. Darth Rack comia pouco e não participava das orgias. Considerava que o ato sexual era uma arte e não poderia ser profanado em cenas grotescas que só permitia porque agradava seus aliados. Todas as mulheres diziam que Rack era um grande amante, mas ele não amava ninguém além de si mesmo.
Na primeira vez que fiquei frente-a-frente, ele me seduziu com sua voz doce. Disse que podia dar exatamente o que eu precisava para acabar com a minha dor. Então em encostou a mão no meu peito e eu senti como se estivesse sendo drenada. E de fato era o que ele estava retirando de mim: minha energia e força vital. Essa parte foi dolorosa. Depois ele encostou dois dedos em cada uma de minhas têmporas e me deu o brilho, que nada mais era que uma injeção de energia negra que te deixava em estado de êxtase. Era uma sensação tão boa que implorei por mais. Nos primeiros dias ele nunca se recusava em me dar o brilho, mas chegou um ponto que comecei a ter que fazer coisas em troca. Treinar o meu lado negro, cumprir minhas missões. Tudo que me era ordenado, procurava fazer com perfeição para poder receber o acalanto do brilho. Um dia, precisei estar fora de Naboo mais tempo que o esperado. Foi quando Buffy e Giles começaram a estragar seus planos, liderando movimentos ousados da Aliança Galáctica. Eles começaram a atuar infiltrados na população comum e ali organizavam um pequeno exército. A rebelião começava e tropas aliadas entravam com fogo pesado em outra frente. Uma idéia engenhosa de Buffy que fez a Aliança recuperar muitos territórios. Darth Rack precisava dar um basta nisso e mandou um dos seus aprendizes mais poderosos na cola dos dois. No caso eu. Aquele seria também o meu primeiro grande teste na minha busca de credibilidade com meu novo mestre. Também tinha o meu orgulho e não queria ser reconhecida apenas como uma viciada.
Darth Rack tinha vários aprendizes. Os mais menosprezados eram aqueles dependentes do brilho, como eu. Os mais queridos era aqueles que Rack treinou pessoalmente. Darth Darla era sua favorita e sua amante mais freqüente, seguida de Darth Drussila, que tinha o dom da vidência apurado. Lindsey Palpatine, ou Darth Sat, era o mais ambicioso entre os aprendizes e Rack sempre tinha cuidado especial com ele, sobretudo por ser apaixonado por Darla. Havia mais alguns outros, como Warren, com sua mania de grandeza e pouco poder; Amy, que amava Rack desesperadamente e tinha uma rixa comigo; Gunn, outro dependente que pensava pouco e batia muito; Wesley, talvez o mais inteligente entre os aprendizes, estrategista ousado e braço direito de Rack; e por último havia Darth Major, antes conhecido como mestre John Lohane Wilkins, um jedi que foi seduzido pelo lado negro e um profundo conhecedor na arte das relações públicas. Haviam mais alguns outros chamados minoritários, que não tinham sensibilidade à força, mas que eram cuidadosamente treinados para fazer certos serviços.
E eu era a mais nova desse quadro de seguidores. Enquanto me esforçava no trabalho de localização de meu antigo mestre, comecei a sentir falta do brilho e encontrei algumas outras coisas que substituíam: as drogas sintéticas. Uma pílula e o meu mundo melhorada. Passei dois meses em vão seguindo pistas dos dois, até que pensei no óbvio: porque não deixa-los me encontrar? Gritei ao mundo sobre minha localização, sentei e esperei. Giles me encontrou num bar em Kepving. Eu estava aspirando fumaça de líquido rosa, uma droga entorpecente e levemente alucinógena.
_ Oh, querida! – ele me encarou com tristeza – o que você fez consigo mesma?
_ Estava te esperando, Mestre! – minha voz estava pastosa – Chegou na hora.
Apreciei cada ruga formada no rosto de meu antigo mestre, tamanha a sua perplexidade, quando exibi meu exuberante sabre vermelho. Não queria muita conversa e o ataquei sem reservas. Não sei se foi por causa da droga que me deixou ligada ou se ele próprio de segurou para lutar comigo, mas o fato é que depois de inúmeras súplicas para que eu parasse, Giles ficou sem metade do braço. Ele me encarou ofegante com tristeza e decepção esperando a morte vir rápido. Não veio. Eu destruí parte do bar primeiro e a bola de demolição foi o corpo do meu mestre. Nunca havia sentido tanto poder em minhas mãos. Quanto mais eu o massacrava, mais eu percebia que não fazia aquilo por ódio e sim porque eu podia fazer. No ato final, eu o joguei para fora do bar e ele caiu no chão como um peso morto nos pés de Buffy, que havia chegado naquele exato momento. Reduzi um dos mais importantes e poderosos mestres jedis da Ordem em nada mais do que um grande pedaço de carne e sangue. Ela o pegou nos braços e lágrimas corriam em seu rosto. Uma cena comovente que eu poderia até chorar se não estivesse tão drogada. Giles ainda teve tempo de dizer suas últimas palavras, dar o seu último suspiro e seu corpo desaparecer como mágica. Foi quando Buffy enxugou as lágrimas e veio para cima de mim. Lutamos, e quando senti que não poderia vencer, recuei. Disse "até breve" e fui embora.
Meu feito virou lenda. Passei a ser chamada de "Rubra, a Sanguinária", pelos povos subjugados mais supersticiosos. Para aqueles que acreditavam no demônio, eu era a própria personificação dele. Inventaram tantas histórias dos meus feitos, e posso dizer que a grande maioria era pura invenção de mentes criativas. Acho que o ato mais cruel que cometi foi contra Warren em plena praça pública de Theed com milhares de testemunhas. Ele fez piada da pessoa que mais amei na vida, Tara, e pagou caro. Eu lutei com ele, cortei suas duas mãos, cortei sua língua para que nunca mais falasse asneiras. Pararia por aí, se meu mestre não tivesse ordenado que eu desse um fim naquilo. Então fiz como os primitivos de Valar e arranquei o escapulário de Warren com o sabre antes de degolá-lo. O povo disse mais tarde que eu arranquei toda a pele dele e carbonizei seu corpo. As pessoas de Naboo sabiam que o meu nome verdadeiro era Willow Rosenberg, mas também incorporaram o apelido após o evento. Tornei-me um paradoxo de Darth Rack. Um rei adorado pelo seu povo com um servidor cruel ao seu lado.
Meus atos me fizeram alcançar outro status entre os aprendizes. Todos passaram a temer meu poder. Rack dedicou um pouco mais da sua atenção para mim. Fez com que eu controlasse mais o um vício. Enviou-me para missões mais complexas que exigiam mais do meu intelecto e do meu poder de decisão. Fui bem-sucedida em todas, exceto uma: capturar a mestre jedi Buffy Summers Rosenberg.
