A tremedeira foi passando aos poucos, assim como o suor frio e as crises de choro. Buffy pouco saiu ao meu lado nesse período e devo admitir que talvez não teria conseguido sem o suporte dela. Mas também devo a minha melhora a Dawn, por quem me afeiçoei. Era ela quem sempre me trazia comida e que narrava histórias cheias de imaginação. Foi um bom passatempo. Sempre aparecia um jedi passando de um lado ao outro para conferir se estava tudo em ordem, mas dificilmente algum deles parava para dizer um simples "oi", nem mesmo aqueles que já lutaram ao meu lado.
Conheci um pouco mais da vida jovem padawan que me fazia companhia. Dawn tinha 17 anos e ela não sabia se seus pais verdadeiros morreram ou a abandonaram. Nunca os viu. Disse que foi criada por uma senhora pouco gentil que morava em uma favela em Eriadu, um planeta das regiões remotas. Ficou a maior parte do tempo se virando nas ruas até os 13 anos, quando foi pega enquanto tentava roubar dinheiro do mestre Robin Wood que por um acaso estava lá numa missão de escolta. Surpresa, a menina tinha o dom e ele resolveu treiná-la. Dawn tem alguns orgulhos de quem viveu nas ruas como roubar sim, matar nunca. Ganhou alguns trocados em trabalhos esporádicos e bate no peito para dizer que nunca vendeu o corpo, apesar de muitas de suas colegas sim. Judiação pensar em meninas tão crianças já condenadas pela própria vida. Por tudo que essa menina passou, fiquei feliz em saber que o destino sorriu para ela e lhe deu uma oportunidade. Depois me senti culpada por mestre Wood ter pernas mecânicas por minha causa.
Logo pela manhã, depois que percebeu que minha coberta não tinha amanhecido tão molhada e que eu tinha dormido mais horas, Buffy me fez a seguinte proposta: eu me submeteria ao seu treinamento por um mês. Ao final desse prazo eu escolheria entre continuar com ela ou ir embora, fazer da minha vida o que quisesse. Ela não iria me parar. No fim desse prazo, caso quisesse voltar para Darth Rack, então nosso destino estaria traçado. Apenas uma de nós sairia viva. Achei uma ótima oferta, considerando que era uma prisioneira.
Minha resposta foi "sim", o que provocou um enorme sorriso no rosto de minha irmã. Logo ela voltou e entrou na minha cela carregando uma esfera metálica do tamanho de um punho fechado. Sabia perfeitamente para o que aquilo servia.
_ Preparada? – Buffy segurou a minha mão.
_ Isso é ridículo!
_ Está com medo?
_ Não tenho medo!
_ Certo...
_ Não ouse duvidar!
_ Prove então.
Concentrei-me na pequena esfera em minha frente. O objetivo era mantê-la flutuando harmonicamente. Funcionou nos primeiros 15 segundos, mas depois senti uma corrente passar pelo meu corpo e meus olhos arderam. Meus sentimentos entraram em curto. Senti ódio, amor, raiva, calma, medo, confiança, tudo ao mesmo tempo. Isso me fez perder o controle por um segundo ou dois, e esse tempo mínimo fez com que a esfera se chocasse violentamente contra a parede e fizesse um pequeno rombo. A bola em si se achatou com o impacto. Se atingisse uma pessoa, dependendo do lugar que batesse no corpo, ela estaria morta.
_ Seus olhos estão negros! – Buffy disse com uma ponta de decepção.
_ Eles tem esse hábito – dei pouca importância.
_ Will...
_ Ok, eu sei...
_ Ta... vou sair um pouco. Volto logo! – fez o sinal para que abrissem a porta da cela e saiu de cabeça baixa.
Se conheço bem ela, devo me preparar.
...
_ Concentre-se na esfera, jovem aprendiz.
Olhei para o objeto e o fiz flutuar harmonicamente, como tantas outras vezes.
_ Ótimo! Agora coloque todo o seu desejo, sua raiva, ódio, frustração nessa bola e faça dela a sua arma. O inimigo está na sua frente. Ataque!
Fiz o que ele pediu, porém não com a força que ele desejava.
_ Tente outra vez, concentre-se, mate.
_ Mestre... eu não acho...
_ Eles não deixaram sua amante morrer? Você não quer se vingar. Imagine que na sua frente está aquela sua irmã jedi. A que deixou o amor de sua vida morrer por puro egoísmo e ciúmes.
Ergui a bola, fiz ela flutuar até a altura da minha cabeça. Então fiz o objeto colidir com a parede em frente com mais força. Mas ainda não o suficiente. Rack encostou a ponta de seus dedos em minhas têmporas. O que senti foi ódio, o mais puro que podia existir. Isso deixou meu corpo ofegante e trêmulo. Repeti pela terceira vez o exercício e dessa vez a esfera afundou na parede.
_ Bom! Muito bom – Rack me deu as costas – vamos repetir mais tarde.
Olhei o meu novo mestre seguir para o saguão interno do palácio e depois olhei para o espelho d´água ao meu lado. Meus olhos estavam negros e era possível ver pequenas veias azuis saltadas no meu rosto. Joguei uma pedra para que a imagem se dissolvesse. Nunca mais olhei o meu reflexo.
