Depois de comer bem mais uma refeição e conversar um pouco mais com Dawn, Buffy entrou determinada na minha cela. Buffy determinada assusta até mesmo o mais malévolo dos siths.
_ Quero que você plante bananeira!
Pirou! Foi o primeiro pensamento que passou em minha mente. Minha irmã, garota prodígio, a mais nova mestre jedi ordenada na história. A garota que colocou em si a missão de recuperar um aprendiz de sith, e ela quer isso me fazendo plantar bananeira! Sorri irônica. Mas só para disfarçar minha perplexidade e descrença.
_ Quer que eu te mostre como plantar bananeira, caso tenha esquecido? – cruzou os braços em desafio.
_ Vai em frente!
Ela retirou sua jaqueta e a atirou num canto. Depois colocou as duas palmas no chão, impulsionou o seu corpo na medida certa. Endireitou o tronco e uniu as duas pernas. Ficou imóvel por alguns segundos até dobras suas pernas para frente e ficar de pé.
_ Acho que não entendi! Faz de novo? – levei na brincadeira.
_ Will, sem essa! Sua vez.
Fiz o mesmo movimento. Coloquei as duas palmas no chão, impulsionei o meu corpo e o que consegui foi dar uma cambalhota desajeitada. Já levantei olhando feio para Buffy, que estava com um pequeno sorriso no canto dos lábios.
_ É que eu não faço isso há muito tempo.
Tentei novamente e dessa vez consegui elevar as pernas um pouco mais alto, mas os meus braços tremiam sem força e me desequilibrei novamente. Na terceira tentativa meu corpo pendeu para o lado e na quarta e não tive forças para juntar as pernas. Na quinta já não tinha força para nada. O pior é que quando dei por mim percebi que tinha se formado uma pequena platéia em frente a cela. Ótimo! Todos estavam apreciando o circo. Só faltava os petiscos. Olhei para todos eles com raiva e precisei de muito auto-controle para não avançar até a grade e pegar alguém.
_ QUAL É A GRAÇA? – berrei para o público – ISSO AQUI POR ACASO É UM SHOW?
_ Pessoal! Fora! – Buffy disse se controlando para não rir.
A platéia logo se diluiu e pouco depois me vi sozinha mais uma vez com minha irmã. Cruzei os braços e sentei em minha cama com a respiração ofegante. A minha vontade era bater nela por causa da humilhação.
_ Não vai tentar de novo?
_ Vai se lascar! – resmunguei.
_ Se lembra quando a gente competia para ver quem ficava mais tempo assim?
_ Lembro... brincadeira inútil de criança!
_ Nem tanto, Will. Ficar de ponta cabeça não é só aprender a técnica e ter força nos braços. Isso requer concentração, equilíbrio – sentou ao meu lado – você não conseguiu porque tudo dentro de você está revirado, um caos.
_ E daí?
_ Nós precisamos recuperar isso. Juntas!
_ Plantando bananeira?!
_ E meditando, e fazendo exercícios de concentração, de controle emocional.
_ Já vi que esse mês vai passar devagar! – suspirei.
_ Venha, vamos tentar algo mais trivial – cruzou as pernas em cima da minha cama e ficou de frente para mim.
Fiz o mesmo. Buffy pegou em minhas mãos, fechou os olhos e respirou fundo. Procurei fazer o mesmo. Quem sabe no meio da minha suposta meditação eu pudesse cair no sono, afinal!
...
_ Vamos Will, só mais um pouco!
Meus braços já não agüentavam mais ficar sustentando a posição de ponta-cabeça. Ao contrário de Buffy, que aparentava poder ficar pelo menos mais meia hora na minha frente na mesma posição. Deus, ela poderia andar sobre duas mãos se quisesse. Eu não. O esforço que precisava fazer para ficar parada de ponta-cabeça em estado de não meditação era enorme. Desisti. Sentei no chão e respirei fundo, procurando me recuperar da leve dor de cabeça. Buffy sentou ao meu lado e senti que ela iria fazer mais uma piada sem-graça, mas desistiu. Ela tinha mania de desafios idiotas como esses.
Foi uma época difícil. Tínhamos acabado de nos mudar para Endor e Buffy estava encantada com a descoberta de tudo que era capaz de fazer. Com freqüência ela fazia desafios bobos como esse e quase sempre ganhava. Eu, por outro lado, ainda estava muito abalada com a morte dos meus pais, com a mudança de planeta e com a recém-descoberta de um destino completamente diferente daquilo que imaginei. Achava que me casaria com Xander, seria uma engenheira e trabalharia desenvolvendo novos veículos e máquinas em Corellia. Teria dois filhos, um menino e uma menina nessa ordem, que seria madrinha dos filhos de Buffy. No dia de graças, toda a família iria se reunir na casa dos meus pais para celebrar. Demorou um tempo para me conformar que meu destino não seria nada parecido.
Naquela noite, talvez por estar chateada ou ainda sofrendo dores de cabeça por aceitar os desafios idiotas de Buffy, fui dormir mais cedo sem comer nada. Tive um pesadelo. Imagens que se repetiram com alguma regularidade com o passar dos anos. Eu sendo engolida pelas trevas. No dia seguinte Giles olhou para mim e suspirou. Na época esse gesto passou despercebido, mas hoje tenho certeza de que ele já sabia que o meu destino era negro. Isso leva a uma questão: se o meu futuro negro era conhecido, então por que os mestres permitiram o meu treinamento?
