É estranho ver a desconfiança e o medo no olhar de algumas pessoas toda a vez que Buffy entrava na minha cela. Faz uma semana que treino com minha irmã, nada muito puxado, basicamente trabalho de meditação para que eu reencontre o meu equilíbrio. Devo dizer que sinto uma melhora. Já não sofro tanto com a abstinência e noite passada veio o grande avanço: pela primeira vez em muito tempo não tive um pesadelo ou um sono obscuro. Foi um despertar diferente. Parecia que estava mais leve, pude aproveitar um pouco de paz interior mesmo que por alguns poucos minutos. Até que Buffy entrou e trouxe a notícia.
_ Will – ela puxou minhas cobertas – você vai sair hoje.
_ O quê? – disse ainda sonolenta.
_ Você nos deu algumas informações ontem e como prometi, hoje você terá direito a um breve passeio em nossas dependências.
_ Tão cedo? – disse ainda grogue – nunca pensei que você fosse conseguir essa concessão. Já achei um milagre eles não terem te mandado me matar.
_ Não se preocupe com o Conselho.
_ Como não?
_ Eles não importam agora.
E o sinal de alerta finalmente soou. Algo não estava nos trilhos e Buffy escondia alguma coisa de mim. Decidi não pressiona-la por informações, não agora. era cedo demais. Precisava primeiro era suportar os olhares da segurança jedi que se formou em volta do meu pequeno passeio. Saí de mãos dadas com minha irmã e passamos um longo corredor daquilo que era o setor de detenção até chegar na sala de segurança. Tudo muito parecido com os porões do Templo Jedi em Corellia, tudo nos mínimos detalhes. Entramos no elevador e logo imaginei o que veria quando a porta se abrisse: o hall de segurança do térreo e a paisagem urbana do planeta entrando pelas janelas. Quando a porta do elevador se abriu, surpresa! Não era o Templo, mas sim um grande hangar cheio de gente de várias espécies trabalhando em caças, outras circulando apressadas e mais algumas apenas conversando.
_ Onde estamos afinal? – perguntei boquiaberta.
_ Base de Yavin 4.
_ Achei que a Base de Yavin 4 tivesse sido tomada pela BARD.
_ E foi.
_ Quando vocês a pegaram de volta?
_ Ninguém a pegou de volta.
_ Como? – fiquei atônita – Você? Quando? Eu nunca...
_ Eu não, Will – sorriu – é que estamos lutando do mesmo lado nessa guerra!
_ E daí? Os membros da BARD são um tanto... temperamentais e com forte oposição política em relação ao Templo. Acho que eles e vocês lutariam do mesmo lado de uma guerra, mas não juntos.
_ Verdade! Você tem um ponto.
_ Então?
_ Lembra dos dias que me ausentei em Hantar? – fomos caminhando até uma párea reservada do hangar para evitar todos os olhares curiosos.
_ Vagamente – e Buffy fez cara de descrédito – é verdade! Estava jogada numa cela de rocha com vários ferimentos abertos e ainda com crise de abstinência! Você quer que eu ainda lembre de detalhes?
_ Desculpe – ela digitou uma senha e entramos num salão vazio – bom, nesse tempo eu recorri ao Conselho para que você recebesse ajuda. Mas os mestres mandaram te matar! No entanto alguns cavalheiros jedis acreditaram em mim e resolveram me ajudar. Então fomos até Quentin na lua Xion e pedi ajuda a BARD. Ele não gostou da idéia, mas me deu um crédito de confiança em retribuição a alguns favores que fiz a ele. Então me deixou te trazer para Yavin 4... até mesmo porque essa base perdeu a importância para eles. Estão aqui mais para marcar território – ela abriu um sorriso, mesmo que contido – Peguei a oferta e disse a eles que só precisava de algum tempo contigo e que tudo que você fizesse eles poderiam me responsabilizar diretamente.
_ Interessante! – Buffy sentou no meio da sala com as pernas cruzadas e com um gesto pediu para que eu fizesse o mesmo – mas esse é o passeio que você me prometeu? A um grande salão vazio? – ela olhou para mim e sorriu.
_ Computador! – disse em alto e bom tom – carregar programa três do arquivo de Buffy Summers Rosenberg.
E como um passe de mágica a sala foi criando vários raios holográficos a nossa volta. E esses fios azulados foram desenvolvendo formas e cores até que em poucos minutos eu estava no meio de uma floresta gigantesca. Estava fascinada com o ambiente e acho que pude sentir até o cheiro do verde. E tinha som ambiente. Toquei num dos troncos das árvores e pude sentir uma resistência, como se tivesse tocando de leve em um de verdade. Minha mão só atravessou a imagem holográfica quando coloquei um pouco mais de pressão contra o troco virtual. Era uma tecnologia incrível e totalmente nova para mim.
_ Uau!
_ Sabia que você ia gostar!
_ Alguma chance de saber quem projetou isso?
_ É coisa da BARD! Eles não disseram o nome do engenheiro, nem de onde veio.
_ Ok! – olhei ao meu redor – Endor?
_ Eu sou saudosista.
...
A BARD não é um grupo conhecido fora dos círculos políticos e do Templo Jedi. Eu mesma só ouvi falar da existência deles meses depois que comecei o treinamento com Giles. Trata-se de uma organização formada por desertores do Templo Jedi e dos oposicionistas mais radicais da Aliança. Eles têm filosofia meio anarquista. Os políticos acreditam que a Aliança deveria ser uma instituição puramente diplomática e não normativa. Sua finalidade deveria ser um centro de debate amplo entre representantes dos sistemas ditos "civilizados". Já os jedis do grupo discordam da política do Templo instituída pela família Skywalker. Eles dizem que as questões da Aliança não são de responsabilidade jedi e que eles deveriam atuar de forma livre e independente. Às vezes acontecem alguns confrontos diretos com bases da Aliança e Jedis. Num deles, antes mesmo do meu ingresso à Ordem, a BARD tomou a base jedi e Yavin 4 e ali se estabeleceu para marcar território. Acredito que se o Templo quisesse a base de volta, teria conseguido, mas a verdade é que a maior importância de Yavin 4 é histórica, uma vez que a capital da galáxia é Corellia, que está muito longe dali. Rack uma vez tentou fazer uma aliança com a BARD e mandou Drussila. Ouvi dizer que ela acabou desviando sua atenção para o então recruta Spike e esqueceu o alto-escalão. Os dois vivenciaram um romance tórrido por quase um ano que acabou alguns meses antes de eu me unir a Rack. Não sei muito à respeito dele, apenas que ele foi um caçador de recompensas renomado, que acabou se refugiando na BARD para se proteger de um chefão do crime. O que sei é que Drussila quase não voltou para Naboo! O grande líder deles é o ex-diplomata Quentin. Outro membro notório que me era familiar é ex-padawan Faith Lohane. Ela tem uma história curiosa. Começou a ser treinada ainda criança pelo pai, John Lohane Wilkins. Sempre teve problemas com disciplina no Templo. A regra do não relacionamento amoroso e de certa forma, da castidade, ela quebrou aos 14. Quando o seu pai foi atraído para o lado negro, ele tentou traze-la consigo. Mas Faith era uma rebelde, não uma vilã. Ela não se encaixava no Templo e tão pouco quis acompanhar o pai na jornada ao lado negro. Achou seu lugar na BARD. Lembro que essa era a maior bronca do pai dela. Sempre que tive a oportunidade de conversar com Wilkins em Naboo, ele sempre falava de sua filha com ódio, que no fundo você sentia que se tratava apenas de ressentimento por ela não o ter acompanhado.
