_ Tudo bem? – Buffy me perguntou assim que pousamos em Tatooine. Estava visivelmente tensa e nervosa.

_ Tudo! – respondi seca, mas sem a intenção de soar como tal.

_ Qual é o problema?

_ Eu só não gosto desse planeta! Odeio esse lugar, para falar a verdade.

_ Mesmo? Quando esteve... – ela fez uma dessas pausas dramáticas – esquece!

_ Não quer saber mesmo? – desafiei. Não pude me conter. Mesmo depois de ter vivido momentos intensos com minha irmã que só fortaleceu os nossos laços, ainda não conseguia parar de provocá-la.

_ Eu não quero mais saber de nada que diga respeito a Rubra – Buffy virou o rosto.

_ Mesmo que meus feitos do passado possam prejudicar nossa estadia por aqui?

_ Tão grave assim? – a voz dela era menor.

_ Nenhum genocídio... eu só matei dois chefões do crime.

Sempre ouvi que não há como escapar. Você vai sofrer as conseqüências boas ou ruins de cada ato que fez no passado. Somos o resultado daquilo que fizemos. E o que não sabia o que era naquele momento. Tudo que sentia era um turbilhão em minha mente. Não sentia remorso dos meus atos, mas também não estava orgulhosa. Não era uma boa pessoa e nem tinha a integridade de Buffy. Mas, por outro lado, também não era completamente má. Alguns diriam que estava apenas sendo humana, mas contradições do tipo são fatais para alguém como eu. É como Giles ensinou. Nenhum jedi conseguiu sobreviver a própria consciência dentro da dubiedade. Nem mesmo o lendário Anakin Skywalker e seus descendentes diretos. Ou você está de um lado ou de outro. Não dá para ficar em cima do muro. E eu estava em cima do muro. Sei que Buffy podia sentir o meu conflito e sofria por isso. De certa forma, ela também vivia algum conflito após a revelação atordoante que tivemos.

Antes de deixar a nave cobri o meu rosto como os povos da areia fazem, só deixando os olhos a mostra. Não queria que ninguém me visse. Não podia. As pessoas tinham medo da terrível Lady Rubra. Que desgraça era ter vergonha do próprio rosto! A primeira coisa que fizemos foi procurar o maior ferro-velho de Mos Espa para negociar a venda da nave. Buffy era um rosto desconhecido em Tatooine e por isso tomou a frente das negociações. Ela não precisava da minha ajuda para essas coisas, no entanto, pois se tratava de uma especialista nesse tipo de situação. Alguém com muito mais habilidade que eu e que não tinha pudor algum em trocar informações por dinheiro.

Conseguiu um excelente negócio. Muito melhor do que as minhas expectativas. Com a grana da nave, poderíamos comprar uma outra pequena em bom estado ou mesmo passagens com o mais careiro dos mercenários. Sentamos no bar para discutir a melhor estratégia quando uma figura conhecida chamou nossa atenção. Um homem de cabelo platinado, corpo forte e jeito durão. Juro que os olhos de minha irmã brilharam ao ver Spike jogando algumas moedas por um drink sozinho.

_ Posso te pagar uma bebida? – Buffy se aproximou do agente da BARD e sentou-se ao seu lado. Fiquei observando os dois na mesa mais próxima ao balcão.

_ Claro! As de graça são sempre melhores... – juro que ele quase caiu da cadeira ao reconhecer Buffy – Como? Eu achei que a sua irmãzinha tinha te ferrado... Faith viu vocês lutando e ela te entregado pro... pra aquele cara!

_ Minha irmãzinha fez isso, mas teve sua epifânia.

_ Ela...

_ Está há dois metros da gente.

Spike olhou discretamente por cima do ombro e eu acenei. Spike deu uma golada no seu drink e começou a conversar com Buffy de forma sussurrada. Não consegui ouvir mais nada, mas o debate foi curto e logo os dois saíram do balcão. Acenaram para que eu os acompanhasse para fora do bar. Fomos até um transporte terrestre estacionado nas proximidades e Spike começou a dirigir para algum lugar afastado da cidade. Contou que Faith salvou Dawn de uma emboscada dos guardas e fugiu com ela até um hangar seguro que ficava no subsolo da base. No meio do caminho elas ajudaram mestre Wood e Spike que estavam com muitas dificuldades em se livrar dos seus oponentes. Correram até o hangar e embarcaram na Slayer, que é a nave de Spike. Diz ele que é a mais rápida em toda a galáxia. Wood ainda quis voltar e tentar resgatar Buffy, mas foi logo convencido que ela estava jogada a própria sorte e que era preciso pensar na integridade de Dawn, sua filha adotiva. Escaparam por pouco da destruição de todas as instalações e do genocídio. Decidiram seguir para Tatooine antes de decidir o destino de todos porque nem Spike e nem Faith eram bem-vindos em Corellia. Nesse deserto sem fim, ao menos o mestre jedi e sua padawan poderiam arrumar um outro modo de voltar pra casa. Outra vantagem é que Spike é um nativo de Tatooine e sua mãe é uma pequena fazendeira de umidade. Um bom local para uma acolhida sem chamar atenção.

Após quase vinte minutos de viagem, Spike parou em frente a casa principal da fazenda. Um local muito bem arrumado e acolhedor. Uma senhora de idade apareceu para nos receber. Ela tinha certa aristocracia em seus movimentos, mas as marcas no rosto revelavam uma vida cheia de atos. Spike foi até ela e lhe deu um abraço forte e depois a beijou de leve na boca. Faith apareceu logo atrás da velha, surpresa com a nossa chegada.

_ Mãe – Spike anunciou – encontrei algumas amigas perdidas na cidade e decidi traze-las para um suco.

_ Sejam bem-vindas – ela acenou para que entrássemos na casa – a noite cairá depressa e uma tempestade de areia está a caminho.

A casa era aconchegante, que nos fazia sentir aquecidos. Eu não me lembrava de estar em um ambiente com atmosfera assim desde quando saí da minha própria. Sei que Giles tentou criar algo assim para Buffy e eu em Endor, mas não deu muito certo. Quando a velha senhora nos convidou para que sentássemos, fiquei de pé e relutante descobri o meu rosto porque sabia que em Tatooine era uma ofensa grave ser convidado a entrar em uma residência sem se revelar. A mulher me encarou, como se me reconhecesse de algum lugar. Procurei olhar para o chão.

_ Filho, apresente seus amigas. Achava até que você só tinha Faith de amiga – a acariciou o rosto da morena – que aliás, é quase como uma filha pra mim.

Sem perder a pose ele foi apenas apontando para nós e falando nossos nomes.

_ Mestre jedi Buffy Rosenberg e – fez uma pausa na minha vez – essa é Willow.

A gentil velha logo nos acomodou junto com um quarto razoavelmente grande que Dawn e Faith ocupavam. Logo descobrimos que eles também eram recém-chegados. A diferença era de algumas horas entre a nossa e a chegada deles. Todos estávamos de fato cansados por causa das últimas horas e da batalha. Não demorou muito até ver todos procurando dormir um pouco, menos eu. Fiquei na pequena cozinha da casa comendo um biscoito seco pouco saboroso, como tudo naquele planeta.

_ Não conseguiu dormir? – a velha me surpreendeu e eu levei um pequeno susto.

_ Não!

A expressão gentil de seu rosto havia desaparecido. Ela sentou na minha frente e me encarou com seriedade.

_ Seu nome de verdade não é Willow, ou é?

_ Willow Rosenberg para ser mais exata. Esse é o meu nome!

_ Mas você não o usou o tempo todo – Olhei para a velha com desconfiança. Até onde ela gostaria de chegar com aquela conversa? Deixei que ela continuasse antes de responder qualquer outra coisa – Você já se chamou Rubra, não é?

_ Eu se eu disser que sim?

_ Então eu responderei que você deveria morrer no fogo do inferno – esperei que sua próxima atitude fosse cuspir em mim ou gritar comigo ou tentar me matar a sangue frio. Só não sabia o porquê. A velha ficou parada em minha frente, com olhar fixo e rosto duro. Estava ficando difícil a encarar. Ficamos assim por algum tempo até que ela resolveu falar – só queria que você visse o que é o rosto de uma mãe cujo filho foi morto por você.

_ Senhora – fiquei intrigada – eu não...

_ Osny – ela falou duro, segurando as lágrimas – você matou o meu Osny.

_ Oh! – apoiei minhas costas na cadeira. Sinceramente não conseguia me lembrar de nenhum Osny. Talvez fosse alguém que acabou sucumbindo no fogo-cruzado ou mesmo que lutava do lado oposto – Lamento – procurei dizer baixo para não confronta-la – mas o nome do seu filho não me é familiar. Matei muitas pessoas e já não consigo ao menos lembrar de todos os rostos.

A velha ficou em silêncio olhando para mim e eu incomodada. Parecia que não cabia mais naquela casa. Precisava sair dali e tomar um ar fresco. Descobri que encarar uma mãe que perdeu o filho pelas minhas mãos era uma provação terrível demais. Ao mesmo tempo, isso me despertou algo novo... o desejo que isso nunca mais acontecesse.

_ Se me permite – fui me levantando – vou sair da sua casa.

_ Não! – ela segurou a minha mão com força e continuou com sua pose austera – senta que ainda não terminei – obedeci – sei que meu filho fez coisas terríveis, sei que ele procurou o seu destino – a partir daí fiquei ainda mais confusa. Então esse Osny não era uma boa pessoa? – Mas sou mãe e meu amor é incondicional, não importa o que o filho tenha feito – sua voz era dura e eu podia ver que estava lutando para não chorar – No início, quis que você tivesse o mesmo destino de Osny, queria te matar com minhas próprias mãos. Fiz Spike jurar que ele a traria aqui, na minha presença, para que eu vingasse meu outro filho. Estava disposta a sacrificar minha integridade e a me rebaixar até o seu nível. Mas quando você chegou aqui, percebi que não se parecia com Rubra, a Sanguinária, aquela cuja apenas a simples menção de seu nome aterroriza as pessoas. Vi uma jovem mulher acuada, insegura e incerta do próprio destino. Percebi que, de alguma forma, você teve direito a uma segunda chance. Foi difícil. Muito mesmo, mas decidi não tirar isso de você. Por alguma razão que nem eu consigo entender, meu coração diz que devo te perdoar.

_ Eu... eu – as palavras fugiram. Não que a velha tivesse alguma chance real comigo. Ela não duraria um segundo sequer. Mas ela me intimidava – eu não sei o que dizer...

_ Mas eu sei o que você vai fazer! Lutará em busca de sua própria redenção até o seu último suspiro. Só assim poderá pagar por todos os seus pecados.

De repente um calafrio percorreu meu corpo. Redenção! Uma palavra forte e um objetivo tão difícil de ser alcançado. Deveria eu mergulhar o resto da minha vida em busca de perdão. O pior é que a sensação do perdão era refrescante e percebi que precisava muito disso. Do perdão de Buffy, dos meus mestres, das famílias de minhas vítimas... Ser perdoado trazia alguma paz de espírito e era essa sensação nova que aquela velha estava me proporcionando ao sugeri-lo.

_ Farei o meu melhor, senhora – disse com a voz embaçada sem conseguir segurar as lágrimas nos olhos.

_ Termine o seu lanche, Willow Rosenberg – ela se levantou – Precisa dessa energia porque tem muito trabalho pela frente.

Não tinha fome, não tinha sono, não tinha vontade de me mover. Meu cérebro parecia que tinha entrado em curto-circuito. Poderia sair correndo por aí para só parar quando estivesse morta ou incapacitada. Tudo, desde que Buffy me capturou e me afastou do lado negro, era difícil, incerto, duro demais. O caminho até o lado negro é mesmo muito fácil. A volta é que parece intransponível. E a redenção um sonho impossível. O som da tempestade de areia batendo na janela parou. Subi as escadas que levavam até o terraço da casa. Estava muito frio, como é comum em locais desérticos, e eu não estava adequadamente agasalhada. Mesmo tremendo fiquei sentada num pequeno muro a olhar as luzes opacas da cidade. Não passou cinco minutos e senti que não estava mais só.

_ Sua mãe é uma grande mulher – disse a Spike sem ao menos olhar para ele.

_ A melhor – ele sentou a meu lado.

_ É por isso que você nos trouxe até aqui, não é? Você queria que eu a confrontasse.

_ Sim. Devia isso. O que ela disse?

_ Que não tiraria a minha segunda chance.

_ Essa é a minha mãe! – e ele fez uma pausa antes de continuar – Osny era um crápula. Eu nunca teria dado a ele o crédito que Buffy deu a você. Na verdade, eu poderia ter o matado sem nenhuma dor na consciência. E estou falando isso só para deixar claro que não há nenhum problema ou mágoa entre nós.

_ Obrigada.

_ Não vai entrar? Aqui está congelando.

_ Vou ficar aqui mais um pouco.

Assim que Spike saiu. Muitas emoções ecoaram em minha mente e eu precisava liberá-las de alguma forma. Foi então que levei minhas mãos até meu rosto e chorei.