_ Buffy!
Acordei com o corpo molhado de suor após mais um pesadelo. Minha irmã que estava curtindo um sono tranqüilo na cama ao lado, acordou com o meu chamado.
_ O que foi Will? – disse em voz rouca. Então ela me olhou ofegante e molhada. Ficou em alerta – Will! O que foi?
_ Nada demais... quer dizer... tive um pesadelo... nada importante.
_ Pesadelo? Pesadelo! Will, isso é importante! O que você sonhou? – ela pulou na minha cama e tirou uma mecha de cabelo molhado da minha testa.
_ Eu não consigo lembrar dos detalhes... mas eu estava num local escuro e havia sombras que pulavam em cima de mim, me sufocando...
_ Calma! – ela me abraçou – já passou, ok?
_ E se isso quer dizer alguma coisa? E seu o meu destino é ruim? E se eu sou uma pessoa ruim? Buffy... – chorei em seu colo.
_ Você só está assustada! Foi só um sonho ruim, mas se quiser a gente pode falar com Giles.
_ Não!
_ Não quer falar com Giles?
_ Também não!
_ Também não?
_ Não é a primeira vez que tenho esse sonho e não quero falar com Giles.
_ Olha... se não é a primeira vez, é porque se trata de algo importante. Você deveria dizer a alguém.
_ Estou dizendo a você.
_ Alguém com experiência que vai saber te aconselhar – me encarou com seriedade – não confia em Giles?
_ Confio. Mas você sabe como é... Giles faz parte do Conselho e vai acabar reportando mais essa – estava frustrada e desabafei – parece que tudo que a gente faz vira assunto do Conselho!
_ Puxa Willow, eu sei que Giles envia muitos relatórios ao nosso respeito, só que isso nunca nos afetou e nunca imaginei que isso te incomodava... quer dizer... Corellia é tão longe daqui...
_ Mas incomoda! – disse irritada.
_ Ok – ela passou a mão no meu rosto – vamos relaxar um pouco. Fico feliz que tenha me contado sobre os pesadelos e prometo que não vou falar com Giles... por hora – fui protestar, mas Buffy levantou o dedo para me impedir – Se – ela enfatizou – se os pesadelos continuarem, você vai ter que se abrir para alguém mais bem mais sábio e experiente do que essa sua irmã mais velha. Ou eu mesma vou falar!
_ Ok!
_ Estamos entendidas? – ela arrumou a minha coberta.
_ Cristal!
_ Ótimo – ela foi se levantando, mas eu a segurei pelo braço.
_ Será que você pode dormir aqui comigo? – disse num misto de carência e vergonha.
_ Claro!
A cama era estreita, mas nos ajeitamos mesmo assim. Buffy me abraçou por trás e ficou em silêncio. Para mim era o suficiente porque sempre me sentia segura com ela. Isso aconteceu quando ainda morávamos da lua santuário de Endor. Anos mais tarde, nos meus dias mais negros, quando nenhuma droga me dava consolo suficiente e pensar nos bons momentos com Tara era doloroso demais, a única coisa que me impedia de ficar louca de vez era essa lembrança. Então me transportava para os braços de quem nunca me falhou.
...
Os treinos aplicados pelos mestres do Conselho, em especial aqueles com mestre Skywalker, eram complicados e cansativos. Por outro lado ele mas ajudou o tempo passar rápido nesses cinco meses de reclusão no Templo Jedi. A guerra deu uma trégua desde que Rack não avançou mais nos sistemas da Aliança. O lado de cá também achou por bem aproveitar a calmaria para reorganizar. Pouco vi Buffy nesse período. Depois que ela entrou no Conselho, suas responsabilidades dobraram e ela não tinha muito tempo livre. Dawn passou a ser a pessoa com mais presença nesse tempo, uma vez que mestre Wood permaneceu em Corellia para fazer a ligação do Templo com os políticos da Aliança. Ele era, de fato, o mais habilidoso para tal função. Ficamos muito amigas. Amigas até demais se é que posso colocar as coisas nesses termos. Só pude conversar um pouco melhor com minha irmã quando celebramos seu aniversário de 23 anos e fizemos uma festa modesta no Templo com as presenças especiais de Faith, Spike e Angel. Foi uma ocasião curiosa. Angel mostrou que ainda estaria interessado em um relacionamento romântico com minha irmã, mas ela estava encantada com o jeito rebelde e cafajeste de Spike.
Meu aniversário seria duas semanas depois de Buffy, mas não haveria festa para mim. Na véspera, fui deitar no meu quarto, um lugar pequeno que mal cabia uma cama e um armário, mas era o suficiente. Mestre Skywalker havia se concentrado na parte física do meu treinamento. Estava exausta. E talvez, por isso mesmo, não consegui pegar no sono e resolvi andar para o lugar permitido que mais gostava no Templo: a biblioteca. No caminho, vi que Buffy havia recém chegado de Antar, mas quando me aproximei, percebi que ela estava acompanhada de mestre Wood e mestre Skywalker. Resolvi espiar. Em meio de tantos jedis, duvido que eles se preocupar em rastrear a minha presença.
_ Tem certeza que a mensagem é autêntica? – mestre Skywalker sussurrou.
_ Que ela é autêntica, sem dúvidas! – Buffy respondeu – se podemos confiar nela é que é a questão por aqui.
_ O que você sabe desse Alexander Harris? – Wood perguntou – ele é confiável?
_ Não sei te responder. Ele era um amigo de infância de Willow. Falei muito pouco com ele, mas era uma boa pessoa. Ele cuidava dela quando não estava por perto.
_ Isso não é garantia de que o pedido de socorro dele é autêntico. As pessoas mudam.
_ Eu sei, Robin! – Buffy suspirou – como eu sei...
_ Não acho prudente nos arriscar num resgate que pode ser uma armadilha – Skywalker falou em tom mais autoritário.
_ Mas e se for verdade e a gente se omitir? – Buffy ponderou – Podemos estar condenando um inocente e um possível aliado.
_ Estamos numa guerra, Buffy! – Skywalker retrucou – Não vou arriscar a vida de nenhum dos nossos numa missão sem importância. Ir ao seu planeta natal, um território dominado por Rack, é uma insanidade.
_ E se você arriscasse a minha? – me revelei, causando surpresa dos três mestres.
_ Will...
_ Bom, eu sou uma ex-sith cumprindo pena. Ou seja: pouco importa se eu vou morrer, não é? Vocês mesmos já deram ordem para me matar antes de... mestre Rosenberg provar que a minha recuperação era possível... Eu não sei do que se trata, mas se Xander pediu ajuda... quero ir!
_ As coisas não são tão simples, padawan!
_ Então façam elas ficarem – disse com firmeza – tudo que você tem a fazer é me dizer o que há com Xander e autorizar a minha saída do Templo antes que esse maldito chip de segurança me dê mais uma maldita dor de estômago! E depois, se acontecer qualquer coisa, há sempre o localizador colocado em algum lugar dentro do meu corpo.
_ Você se arriscaria mesmo por alguém que não vê há anos? – Buffy me perguntou.
_ Você não? – a encarei.
_ Vou contigo! – ela sorriu – sabe... eu nunca tive a chance de revidar o golpe de Cordélia Chase...
_ Ainda não esqueceu o golpe que ela deu para ser a rainha do baile?
_ Essas coisas são para a vida toda, Will!
_ Vocês duas devem estar brincando? – mestre Wood praticamente esbravejou – parecem que não olham a situação com a seriedade que é necessária. Vocês estão falando em entrar em território inimigo para resgatar algumas pessoas que nunca vimos e que um dia resolveram pedir ajuda. E por um acaso o autor da mensagem era amigo de vocês. Será que não percebem que pode ser um meio de capturarem vocês ou mata-las?
_ A dúvida pode matar antes, mestre! – Buffy falou com calma – e ela é mais cruel.
