A última vez que vi Xander foi justamente no dia que Buffy e eu deixamos Serenno. Enquanto nós éramos os excluídos conformados e quietos da escola e seguíamos nossas vidas, Buffy vivia um dilema: vingar ou não vingar de Cordélia Chase. A garota em questão havia chegado em nossa escola no início do ano letivo e sua postura auto-confiante, seu jeito de menina-madura, sem falar na beleza diferenciada, fez com que todos os olhares deixassem Buffy. Até mesmo suas amigas "mais fiéis" começaram a se debandar para o lado de Cordélia. Então veio o baile da escola, uma festinha anual de confraternização, mas que depois que você passa dos 12, ela vira um campo inescrupuloso de guerra. É nessa idade que as coisas começam a se definir. Geralmente são três grupos. Os perdedores natos, os invisíveis e aqueles que serão destinados a adoração até o fim da adolescência. Xander e eu lutávamos para ficar no grupo invisível: aquele que você é simplesmente normal. Buffy e Cordélia disputavam cada centímetro de território escolar para ver quem era a melhor. Mas a minha irmã levava uma grande desvantagem por ser... lógico... minha irmã. Eu, a que queria ser invisível, fui mesmo jogada no campo dos perdedores, ou seja, todos me conheciam e os mais espertos adoravam me espinafrar. E Cordélia tinha a atitude de me esculachar na frente de Buffy, algo que suas queridas colegas também faziam, mas em suas costas. Isso rendeu muitos pontos para ela.

Então eis que chegou a semana do baile. Buffy mobilizou uma verdadeira força tarefa para derrotar Cordy. Como era mais habilidosa com computadores, fiz uma verdadeira campanha publicitária e ainda cuidei da parte estatística. Xander e mais algumas amigas de Buffy ficaram encarregados com a pesquisa de opinião e a pobre Suki, a cozinheira da minha casa, precisou fazer dezenas de mini-bolos para que Buffy distribuísse entre os "perdedores" e invisíveis. Cordélia se valeu de uma campanha publicitária mais agressiva e ao invés de comprar votos com bolinhos, ela o fez com dinheiro vivo. Também usou as amigas de Buffy como agentes duplo. No dia do baile, Buffy foi acompanhada de Joss, um menino bonitinho, enquanto Cordy foi levada por Ford, o garoto por quem minha irmã nutria uma séria paixonite. Foi a sensação. Eu fui ao baile com Xander, não como acompanhante, mas como uma mera amiga. O que pra mim era frustrante. Lá estava eu começando a despertar minhas esperanças românticas pelo meu melhor amigo, enquanto ele só tinha olhos para minha irmã. Na hora da votação para a rainha do baile, Cordy não apenas ganhou o título, mas armou cilada genial contra Buffy. Suas comparsas mancharam o vestido branco de minha irmã com tinta bem no momento crucial da votação, a fazendo perder minutos preciosos no banheiro.

No outro dia, Buffy deixou de ser popular e se tornou uma perdedora! Foram duas semanas de tormenta vivendo a minha vida. Ela passou a ser ignorada, apontada e a se sentar comigo e com Xander todos os dias na hora da refeição, algo que raramente fazia depois que começou a pensar mais nos garotos e na própria beleza. E quanto a mim, só pude dizer "bem-vinda ao meu clube". Numa certa manhã Buffy acordou determinada a se vingar de Cordy. Disse para eu ajuda-la num plano perfeito para destronar a Rainha C, como ela passou a ser chamada depois do baile.

O plano nunca foi executado ou sequer planejado. Naquele dia, Buffy foi até o meu quarto e disse para planejarmos a tal vingança. Nos trocamos, fomos a escola e logo na segunda aula, Giles apareceu em nossas vidas.

...

Convencer o resto do Conselho em atender um pedido de socorro emitido por um "Alexander Harris" não foi nada fácil. O que esse tal Harris representava afinal? Nunca ninguém havia ouvido falar desse homem, a não ser Buffy e eu. Sim, eles estavam absolutamente certos em sua preocupação de que todo esse jogo pudesse ser uma armadilha para nos capturar. Por motivo de segurança algumas regras da minha custódia foram modificadas para esse caso. Para a segurança de Buffy, um pequeno chip localizador foi instalado debaixo da pele de sua mão. Dessa forma todo o Conselho poderia nos monitorar mesmo que estivéssemos em outra galáxia.

A primeira providência foi entrar em contato com Spike e Faith, que acabaram ficando curiosos com a missão às cegas e resolveram nos acompanhar. O primeiro passo foi viajar até o sistema Volar, que ainda estava neutro. O planeta de mesmo nome era um conhecido reduto de comerciantes que nem sempre gostavam de entrar em acordo com as leis. Lá, por um bom dinheiro, nós poderíamos alugar um cargueiro autorizado para entrar em Serenno. No meio de toda a bagunça de cidade que era Trig, a maior do planeta, encontramos Andrew e Johnatan, que eram transportadores. Eles eram terríveis para tal atividade porque faziam muitas perguntas e ainda nos torravam a paciência em comentários idiotas sobre filmes e tinham uma estranha fascinação por jedis e siths.

_ Então vocês são irmãs? – Andrew perguntou para mim e apontou para Buffy, que conversava algo aparentemente sério com Spike num canto mais reservado da nave.

_ Somos! – disse de forma ríspida, sem muita paciência com o garoto.

_ E o que ele é seu?

_ Apenas um amigo!

_ E a outra?

_ Ela é só uma amiga!

_ O que vocês são mesmo?

_ O dinheiro que pagamos não foi suficiente? – respondi com grosseria.

Andrew se calou e não falou comigo durante o resto da viajem. Buffy me olhou torto, mas eu ainda não podia evitar certas coisas como falta de paciência e, algumas vezes, de educação. Quando chegamos ao sistema de Serenno, admito que meu coração pulsou mais forte. De certa forma, era emocionante poder voltar para casa depois de tantos anos. Além da missão, se fosse possível, também gostaria de ver minha antiga casa e saber onde foram colocadas as cinzas dos meus pais. Andrew anunciou o código de entrada pelo comunicador e logo entramos na atmosfera do planeta sem aparentes problemas. Depois nos hospedamos numa pensão discreta para repassar a história e planejar melhor os nossos passos.

Uma mensagem foi emitida por Alexandre Harris para uma das linhas abertas do Templo Jedi. Ele pedia ajuda aos jedis, porque não tinha mais a quem recorrer. Ele estaria escondido no setor 26C da capital do planeta porque seu plano de fazer uma rebelião parlamentar havia falhado e agora ele e seus companheiros estariam sendo perseguidos e jurados de morte. Dois deles foram torturados e assassinados. Pediu, por tudo que fosse mais sagrado, que alguém o ajudasse a sair de lá e lhe fornecer exílio político. Minha antiga casa ficava no setor 26C! Era um dos bairros nobres.

Decidimos que Buffy cuidaria da minha retaguarda, Faith ficaria na nave para qualquer eventualidade e Spike... bom, esse disse que aproveitaria para resolver alguns problemas no planeta.

Coloquei uma capa preta, grande o suficiente para esconder o meu rosto e as minhas armas. Carregava em meu cinto, além do meu sabre, uma antiga pistola DL-68, um comunicador de pequeno alcance e três pequenas bombinhas de fumaça que se usa em fugas. Buffy tinha um arsenal melhor, afinal de contas, ela era a mestre.

Meu coração pulsou diferente quando comecei minha caçada. Voltar para casa original é sempre algo memorável, mesmo que a cidade tenha se modificado tanto. Também podia sentir a emoção de minha irmã. Fui andando com cautela pelas ruas e passei em frente a minha antiga escola. Pelo menos ela não tinha mudado quase nada. Meu coração bateu mais forte. Naquela época, se você seguisse em direção sul a partir da escola, iria direto para a parte nobre, onde eu morava. Fui seguindo o mesmo velho caminho e estava admirada como ainda lembrava de cada pedaço daquele chão. Mas ao invés de casas nobres, a medida que avançava a cidade ia empobrecendo. Podia-se ver dróides sentinelas voando em suas rondas. Na minha frente, onde deveria ficar a minha antiga vizinhança, encontro um muro. Eu o estudei bem e não teria problema algum em pular.

_ Cuidado ao querer entrar aí, moço – uma velha mal vestida alertou – aqui é o limite da cidade.

_ E o que há além desse muro?

_ Oh, você é uma moça... nesse caso, mais cuidado ainda. Além dele ficam os leprosos, os ladrões, os mortos de fome, os monstros. Não há leis ali. Se eles descobrem que é uma mulher, te estupram. Fazem fila para te arrombar. E depois te largam como um pedaço de carne e te deixam a própria sorte. Quem passa desse muro, não volta mais. Há dróides por toda parte para garantir que aqueles que estão aí dentro, permaneçam ali.

Levei as palavras da velha em consideração. Se há um inferno além do muro, então era melhor esperar até que tivesse menos luz no ambiente. Pelos meus cálculos, em pouco mais de uma hora o sol iria se pôr.

_ Esta é a sua casa? – apontei para a casinha mal conservada.

_ Sim!

_ Você poderia me oferecer um suco? Posso pagar pelo refresco.

_ Não precisa. Eu nunca tenho visitas. Ninguém quer a minha companhia. Será um prazer te receber.

Entramos e achei educado revelar, pelo menos, o meu rosto. A velha me olhou com assombro, como se me reconhecesse, o que achava improvável. Me convidou a sentar num banco de madeira da bancada do que parecia ser uma cozinha, e ela ofereceu um pouco de leite azul e alguns biscoitos.

_ Não é muito, mas é o melhor que tenho.

_ Está tudo muito bom. Obrigada!

_ É a primeira vez que vem a Serenno?

_ Não! Nasci aqui, mas deixei o planeta ainda criança – dei uma golada no leite e ele estava bom – o que aconteceu para a cidade mudar tanto?

_ Tudo mudou depois que o governo se aliou com Naboo – a velha suspirou saudosa – as pessoas que se importavam foram mortas e o lugar onde os líderes moravam, passou a ser profanado. É por isso que o muro foi erguido. Lá dentro eles jogaram toda a escória e esqueceram.

_ Como você sabe que lá dentro é tão ruim?

_ Porque – a velha ergueu a manga da blusa e mostrou as tatuagens que indicavam que ela já fora presa – eu sou uma das poucas pessoas que já entrou lá e conseguiu sair. É por isso que sei que lá é o inferno.

_ Preciso saber o que vou encontrar lá.

_ Não entendeu, jovem? Olhe para você! É ainda tão menina e tão cheia de vida.

_ Eu preciso! – insisti.

_ Você vai encontrar ruínas, caos, fedor, sangue, vômito. Boa parte mora na rua. Só os mais fortes e os líderes ficam nas construções. Quando você chega, é fundamental que você seja aceita por um grupo o quanto antes, ou estará perdida. Eu escapei porque fiquei no melhor de todos os grupos. Eram pessoas inteligentes, que sabiam bolar planos de fuga. Planejamos o nosso por dois longos anos, mesmo assim vinte pessoas foram mortas tentando. Só eu e mais duas pessoas conseguiram sair com vida. Ainda quer pular o muro?

_ Eu... preciso!

De súbito fomos interrompidas por alguém que usava uma capa igual a minha, só que o corpo era ligeiramente menor.

_ Será que você sempre tem que parar para tomar chá em momentos importantes? – Buffy disse zangada.

_ Não! – sorri – só achei melhor pular o muro depois de escurecer. Leite?

_ Mas será que o mundo enlouqueceu? Não ouviu uma palavra do que eu disse? – a velha deu um soco na mesa – quem são vocês para acharem que vão ao inferno e sair de lá como se tivessem feito um mero passeio?

_ Nós damos conta, ok – Buffy se aproximou e revelou o seu rosto.

_ Por que? São jedis ou algo assim? – a velha desdenhou e pela a expressão que viu em nossos rostos, descobriu que sua dedução era verdadeira. Logo de assustada ela passou a estar impressionada – jedis são inimigos do governo! Como conseguiram entrar aqui? Vieram nos libertar?

_ Não! – Buffy falou sem emoção – estamos aqui para resolver alguns negócios.

_ Então quem sabe um dia... – a velha estava decepcionada.

_ Um dia! Quando Rack cair... e eu prometo, ele vai cair! – a velha olhou confiante para Buffy. Ela agarrou a sua mãe e a beijou.

_ Que o criador te abençoe.

_ Obrigada pelo chá – me despedi antes de sair.

A situação me deixou comovida e era um mal sinal essa grande oscilação de emoções. Estava respirando pesado ao sair da casa e, por alguns minutos, até tinha me esquecido porque estávamos de volta. Buffy me abraçou firme e isso me fez relaxar um pouco. A noite estava caindo e Xander esperava por mim. Precisava me focar na missão.

_ Melhor? – ela colocou uma mexa do meu cabelo atrás da minha orelha.

_ Melhor! – e olhamos para o muro – Vamos?

_ No três!

Pulamos o muro e o que vimos do outro lado foram ruínas com pessoas vagando entre elas. Homens foram se aproximando com olhares ameaçadores e logo nos vimos cercadas. Éramos carne fresca, a novidade da vez.

_ Não há nada para ver aqui! Continuem com suas vidas – a voz de Buffy era imperativa.

Alguns de mente fraca atenderam ao seu comando. Outros não e eles continuaram a nos cercar e rir das palavras. Ela tentou outra vez e o resultado foi ainda mais ineficiente. Esse é o problema desse velho truque jedi: só funciona com mentes fracas. O que Buffy não sabe, mas eu conheço bem isso, é que a ralé e o grande bandido precisam ter mente forte ou não sobrevivem. Esse tipo de gente só conhece uma linguagem e era essa que eu mostraria. Quando um deles puxou o capuz de Buffy e tocou em seus cabelos, ficou sem parte do braço. Cortesia minha. Seu grito de dor foi terrível e os outros se afastaram. Buffy olhou para mim com espanto.

_ A gente vai ter que apelar?

_ É a linguagem que eles conhecem – e disse alto – vocês vão se afastar ou alguém quer morrer aqui, agora, posso providenciar isso – mostrei o meu sabre verde.

Alguns ignoraram o aviso. Pobres animais. Eles avançaram e eu me defendi decapitando membros ou simplesmente matando. Buffy se recusou a matar, mas também precisou brigar firme. Para mim não era nada complicado liquidar com aquela gente. Só pararam de nos importunar quando havia um número expressivo de corpos e pedaços de corpos a nossa volta. Só então pudemos andar entre as ruas que um dia eu chamei de casa. às vezes alguém tentava nos surpreender, mas em vão.

_ Buff – toquei em seu ombro – ali!

Apontei para aquela que era a nossa antiga casa. Entramos e encontramos dois homens e três mulheres lá dentro. Nos receberam a tiros, o que não foi problema. Avancei e quando estavas as vias de matar mais um, ouvi um grupo para que todos parassem de atirar. Felizmente foi bem a tempo de me controlar e recuar.

_ Quem são vocês? – uma mulher sem armas e de longos cabelos loiros apareceu.

_ Jedis! Não vê? – Buffy respondeu com certo cinismo.

_ Não. Você pode ser um sith!

_ Siths usam espadas vermelhas.

_ Nem todos... – respondi e logo me arrependi quando Buffy me olhou feio.

_ Siths já teriam matado vocês.

_ O que querem aqui? – a voz da mulher era incerta.

_ Vim procurar alguém – Buffy estava mais calma.

_ Poderia ser mais específica? – o homem que quase matei disse descrente.

_ Alexander Harris. Vocês o conhecem? Sabe onde podemos encontra-lo?

_ O que quer com ele?

_ Ele enviou um sinal de ajuda para o Templo Jedi. Viemos atende-lo.

De repente a loira levou a mão no rosto com perplexidade. Depois olhou para o alto como se agradecesse aos céus.

_ Eu disse que era uma loucura, que o sinal poderia ser capturado e revelar a nossa posição para aqueles cretinos – disparou a falar com lágrimas nos olhos – mas ele disse que os jedis eram bons e que eles viriam para nos resgatar! Isso só pode ser na nossa bênção ou o nosso castigo! Por favor – ela se aproximou de Buffy e ajoelhou na sua frente – me diga se você está aqui para salvar.

_ Ei, para com isso! Fique de pé... – ela olhou gozado para a moça.

_ Harmony – ela sorriu e revelou dentes amarelados – Harmony Kendall. Esse é o meu nome... eu vou ajudá-las no que for preciso.

Eu mal acreditei. Sabia que ela não me era totalmente estranha. Harmony estudava na mesma escola que nós. Ela era especialista em lançar olhares reprovadores e fazer caretas idiotas. Se não me engano, foi a primeira do grupinho de seguidoras de Buffy a se debandar para o lado de Cordélia. Sinceramente não lembro muito de seu rosto quando jovem e sua aparência atual não era das melhores. Incrível como alguém da minha idade pode parecer, pelo menos, dez anos mais velha que eu?

_ Harmony... – pelo tom de voz mais suave, acho que Buffy também se lembrou dela – me diga onde Harris está. Precisamos falar com ele.

Ela pegou a mão de minha irmã e a conduziu até a escadaria que dava para o antigo porão. Segui as duas de perto e em alerta porque se já não confiaria numa Harmony equilibrada, quanto mais em uma não muito sã e muito menos nos homens armados que nos olhavam ainda com desconfiança. Descemos as escadas. O local estava imundo e mal iluminado.

_ Eu já disse que não quero ninguém aqui! – ouvimos uma voz masculina fraca, porém irritada – cai fora e nos deixem em paz por um maldito segundo!

_ Xander... – Harmony disse quase sussurrando – elas querem te ver.

Das sombras do canto mais escuro saiu um homem magro, barbudo e de cabelo grande. Se ele passasse por mim, se conversasse comigo, eu nunca o reconheceria como aquele que foi o meu melhor amigo de infância. Suas roupas estavam imundas e o seu rosto ostentava uma grande cicatriz na testa, além de um tapa-olho. Ele parou em nossa frente ainda desconfiado e sem nos reconhecer. Aquilo me tocou.

_ Vocês são os jedis?

_ Sim – Buffy respondeu – viemos atender um pedido de socorro.

_ Bom... muito bom – ele disse ainda sem ter idéia de quem éramos na verdade – vocês têm algum remédio? Ouvi dizer que jedis podem curar! É a minha esposa... a febre não passa...

_ Mulher? – perguntei surpresa.

_ Venham...

Nos conduziu até o canto escondido em que tinha saído e nos mostrou uma mulher grávida dormindo num colchão sujo. Era morena, bonita, mas com jeito de quem foi muito maltratada. Eu não tinha habilidade para tratar doentes e nem Buffy. Sei que Spike tem grande conhecimento medicinal rudimentar e ele poderia ajuda-la.

_ O nome dela é Cordélia – disse ainda sussurando – e ela está grávida de nove meses, mas na última semana ela enfraqueceu muito e o nosso filho pode nascer a qualquer momento... por favor... vocês precisam ajudá-la.

Cordélia? Seria a mesma Cordélia Chase, a Rainha C que roubou o posto de garota poderosa de Buffy na escola? A mesma que um dia eu e Xander prometemos odiar para o resto de nossas vidas?

_ Você arriscou a sua vida e a vida de terceiros, no caso nós, só para ajudar a sua esposa?

_ Sim, mas eu tenho informações importantes... documentos importantes... coisas que podem ajudar na libertação de Serenno – ele quase suplicou – por favor! Nos ajude!

_ Nós iremos – Buffy disse com compaixão – mas primeiro precisamos sair daqui. Qual o tamanho do grupo de vocês?

_ Dez pessoas – Harmony respondeu – os sete lá em cima, eu, Xander e Cordy!

_ Não vai dar para passar com todos eles pelo muro – sussurrei no ouvido da minha irmã – especialmente com Cordélia grávida e doente.

_ Não vamos passar por muro algum – ela respondeu alto e claro.

Óbvio que mais ninguém entendeu o que Buffy quis dizer. Ela se referia a nave de Andrew e Johnatan, além das presenças de Spike e Faith no planeta. Enquanto ela se afastou para entrar em contato com a nossa base, eu dei uma rápida examinada em Cordélia. A febre não estava alta, mas só a sua presença indicava alguma infecção. O pulso estava levemente acelerado e a respiração pesada. Buffy e Harmony subiram as escadas, de certo para arrumar tudo. Mas fiquei ali naquele pedaço de chão imundo que um dia abrigou as reuniões secretas organizadas pelo meu pai, e onde Buffy e eu brincávamos de tantas e tantas coisas. Quem sabe, com luz adequada, ainda não fosse possível ver as marcas na parede que mediam o nosso crescimento? Lembro que toda vida sempre fui ligeiramente mais alta, para o desgosto de Buffy. Enquanto divagava em minhas lembranças infantis, reparei que Xander me olhava com curiosidade.

_ Algum problema? – perguntei.

_ Não – ele desviou o olhar para a esposa – é que você me lembra uma pessoa.

_ Mesmo? Quem?

_ Uma amiga de infância que morreu.

_ Vocês eram muito próximos?

_ Bastante.

_ Como ela morreu?

_ Os pais dela reagiram a uma voz de prisão e tentaram fugir. Eles, minha amiga e a irmã dela morreram na fuga.

_ E você acredita nisso?

_ Porque não haveria de acreditar... fui na cremação dela... – disse com saudosismo – mas a vida continua.

_ Entendo! – suspirei – A vida sempre segue – me levantei e o encarei – posso te fazer uma pergunta hipotética?

_ Sim!

_ Se você soubesse que essa sua de infância não morreu no acidente? O que faria?

_ Acho que ficaria feliz, claro. Will foi uma pessoa importante, mas ela faz parte do passado. Agora a única coisa que quero nessa vida é que minha mulher e meu filho possam sobreviver. Eles estão aqui por minha culpa, sabe?

_ O que você fez de tão grave?

_ Basicamente – ele sentou ao lado da esposa e fez um carinho em seu rosto – traí o meu governo, estraguei a vida boa que a gente tinha por que arrisquei tudo para conseguir informações.

_ Por um lado parece uma atitude decente. Serenno tem um governo corrupto!

_ Mas se eu soubesse o que aconteceria, teria agüentado a corrupção...

_ Não se preocupe – coloquei a mão em seu ombro – vocês vão ficar bem...

_ Will! – Buffy gritou – será que dá para você vir aqui em cima?

_ Claro! – gritei de volta. Quando fui subindo as escadas, senti um braço me segurando de leve, interrompendo a minha caminhada – Sim? – perguntei a Xander.

_ Will?

_ Esse é o meu nome… quer dizer… apelido…

_ Seu nome completo é? – ele ficou confuso.

_ Willow Rosenberg – fiz um carinho breve em seu rosto e em seguida subi as escadarias.

Acho que nem em um milhão de anos Xander esperaria por essa. Sorri para mim mesma ao imaginar o rosto de confusão que meu melhor amigo de infância deveria estar fazendo. Se me lembro bem, era uma das suas mais engraçadas. Ao contrário da expressão do rosto de Buffy, devo dizer. Ela estava com a testa levemente franzida, olhar compenetrado, um rosto que só se via quando ela exercia sua liderança diante de uma batalha. Devo dizer que não deixava de ser fascinante.

_ O que foi? – perguntei.

_ Vamos levar o pessoal para o terraço. Spike disse que deve chegar aqui em cinco minutos no máximo para nos buscar. Mas pelo que entendi, teremos menos que isso para embarcar todo mundo.

_ Entendo – suspirei – será que a nave de transporte agüenta?

_ Essa gente precisa ter pelo menos escudos fortes e naves velozes para se protegerem de piratas espaciais... é com o que estou contando. Olha, avise Xander e, principalmente, não deixa ele se esquecer dos tais documentos que ele mencionou. Devem ser importantes.

_ Ok! Te vejo lá em cima.

Desci as escadas e encontrei Xander ao lado da esposa com sinais de que estava despertando. Um quadro que admiraria se tivesse algum tempo.

_ Xander! – fui até os dois – será que Cordélia pode andar?

_ Posso! – ela respondeu com a voz embaçada, ainda sonolenta.

_ Ótimo, porque precisamos ir até o terraço. Vamos partir.

Cordélia sentou e segurou firme em Xander para se levantar. Sua barriga estava enorme, como se tivesse carregando gêmeos. Ao ficar de pé ela fez uma cara engraçada, como se percebesse algo inesperado. Foi quando reparei que seu vestido estava encharcado.

_ De onde veio essa água? – Xander ficou admirado.

_ Acho que sua bolsa estourou – tentei não entrar em pânico.

_ Oh! – ela se encostou um pouco mais no esposo.

_ Meu filho vai nascer aqui? – Xander deu sinais que ia ficar histérico.

_ Não – eu disse com firmeza – é provável que ele nasça na nave. Eu não faria parto nenhum aqui em casa.

_ Aqui em casa? – Cordélia estava confusa.

_ É... eu já morei aqui – sorri sem graça – depois eu explico... menos conversa e mais ação. Vocês precisam ir até o terraço.

_ Claro! – Xander começou a conduzir a esposa.

_ Hey, Xander... – o casal parou diante das escadas para me atender – os documentos... não podemos esquece-los sejam lá o que forem.

_ Há uma maleta embaixo da cama de Cordy. É só remover as madeiras soltas que você a verá.

_ Ótimo... agora vão.

Voltei até o canto escuro e tirei os panos unidos e sujos que serviram de cama para Cordélia sabe-se lá por quanto tempo. Haviam três tábuas soltas que revelavam um buraco com uma pequena maleta prateada. Estava lacrada, mas nada que a ajuda de um sabre não pudesse resolver. Corri para o térreo e depois para o segundo andar. O acesso ao terraço ficava numa escadaria entre o meu antigo quarto e o de Buffy. Cordélia ainda estava no início da subida sendo auxiliada por Xander e um outro rapaz. Tudo muito lento! Me concentrei em Cordélia e a fiz levitar com meu poder. Com cuidado, a fiz voar até o topo da escadaria. Xander olhou para a esposa para certificar de que ela estava bem e depois para mim como perguntasse o que eu havia feito. Ignorei. Xander, eu e o outro homem subimos as escadas em poucos segundos. Mal chegamos e já vimos a luz de uma nave ao longe se aproximando em alta velocidade. Buffy pegou uma pistola e lançou o sinalizador luminoso.

_ Vocês – apontou para os homens mais fortes – carreguem Cordélia até o interior da nave tão logo ela abrir a porta.

Os homens obedeceram e ficaram ao lado da grávida já a postos para correr. Quando a nave parou sobrevoando o terraço, demorou alguns preciosos segundos para a porta se abrir. Tantos, que pude ver outras naves se aproximando.

_ Vão! – Buffy gritou.

Os homens correram com Cordélia, a carregando no estilo "cadeira", seguidos de todo o resto. Buffy e eu fomos as últimas por questões óbvias. Se ocorresse qualquer eventualidade, nós teríamos a melhor chance de se livrar de problemas caso ficássemos para trás. Felizmente não foi preciso.

_ Corre! – Faith gritou para o piloto – já acionando o dispositivo para subir a porta da nave.

Sentimos um solavanco causado por um tiro que me fez desequilibrar e cair em cima da Harmony. Buffy e Faith gritaram pra todos se segurarem como podiam. A nave deu outro solavanco, e para piorar, o piloto começou a fazer manobras evasivas. Vi Buffy se segurando nas barras das paredes para tentar chegar a torre de comando, quanto eu ainda estava tentando me livrar de Harmony. Talvez por medo, ela me agarrou e não permitia que eu me soltasse. Sentimos solavancos seguidos e comecei a me preocupar com Cordélia. A procurei e vi que ela estava deitada e sendo segura por seu marido assim como Harmony ainda me segurava. Só que no meu caso, a proximidade era incômoda.

_ Quem está pilotando esse treco? – gritei para Faith.

_ Spike!

_ Cadê Andrew e o outro?

_ Nos traíram... tivemos de roubar essa nave às pressas.

_ O quê?! – olhei melhor ao meu redor e só então percebi que não era a mesma nave que nos trouxe – essa joça tem hyperdrive pelo menos?

_ Não faço idéia! – outro solavanco – não deu tempo de escolher.

De repente a idéia de que íamos todos morrer passou pela minha cabeça. Que raios de fim trágico era esse? Que fim! Imaginei a nave explodindo na ocasião onde retornei ao meu planeta natal depois de dez anos para resgatar o meu melhor amigo de infância na operação mais amadora que já fiz em toda a minha vida. E tudo isso sendo uma jedi, quer dizer... padawan experiente. Senti outro solavanco, mas um diferente. Esse nos empurrou com força para trás. Respirei aliviada ao ver que a nave havia estabilizado, um sinal que tínhamos entrado no hiper-espaço.

_ Pode me soltar Harmony! – dei um tapinha no braço dela – já estamos a salvo.

_ Tem certeza? – ela me segurou ainda mais forte.

_ Tenho! Pode soltar... a não ser que você queira me esmagar! – ela me soltou.

_ Todos estão bem? – Buffy veio até nós – Alguém se feriu?

_ OH DEUS – Cordélia gritou – O MEU FILHO VAI NASCER!

_ Oh deus – repeti, mas suspirando.

Vi Xander deitando Cordélia no chão, segurando a mão da esposa para tentar passar confiança.

_ Tem algum med dróide nessa droga? – Xander perguntou.

_ Não faço idéia – Buffy sorriu sem graça – Acho que vai ter que ser na moda antiga.

_ Ok, alguém sabe fazer um parto?

_ Me admira ver que ninguém aqui sabe – Spike entrou no compartimento fumando um cigarro. Estava ferido na testa, o que me dá a curiosidade de saber o que se passou na cidade – tudo consiste em saber puxar o bebê – ele foi até Cordélia e se abaixou ao seu lado – ei moça, sabe me dizer qual o intervalo de suas contrações.

_ Não – ela disse ofegante – mas estão próximas.

_ Ok – se levantou – eu vi uma cabine perto da torre. Vamos ter mais privacidade lá.

_ Mas ela não pode se levantar! – Xander protestou.

_ Mulheres são mais fortes do que você imagina, papai – segurou o braço de Cordélia – Vamos lá docinho, está na hora povoar um pouco mais a galáxia. Buffy, me dá uma força?

_ Claro! Só não sei o que fazer.

_ Preciso do seu sabre e do pano mais limpo que encontrar para enrolar a criança.

_ E eu? – Xander protestou.

_ Você fica aí.

Olhei para o meu nervoso amigo. Queria saber como calma-lo ou o que dizer em uma hora dessas. Mas a única coisa que veio a minha cabeça foi segurar a sua mão.

...

_ Lady Rubra? – estava distraída com as ruínas de Yavin 2 quando um dos meus subordinados me chamou.

_ O que foi?

_ Nós os localizamos.

_ Ótimo tenente. Prossiga com o plano.

Virei as costas para o subordinado e voltei a me concentrar na paisagem inusitada. Ruínas e ruínas de construções que foram tomadas por uma floresta tropical impressionante. Tudo conseqüência de uma guerra que tinha acontecido há 500 anos. Na escola nós aprendíamos a respeito da história da galáxia. Lembro que gostava do rico material sobre a antiga República, as guerras Imperiais, os rebeldes o nascimento da Nova República e sua queda até o formato da Aliança. Ver tudo pelos hologramas era legal, ver tudo com seus próprios olhos era ainda mais fascinante. Não sei por quanto tempo fiquei perdida nos meus pensamentos até ser interrompida por um choro de criança.

_ Lady Rubra! – o tenente tornou a me chamar – missão cumprida.

Me virei para ver as três crianças sendo seguras com força exagerada pelos soldados e dois adultos berrando como loucos. Tratava-se de um menino golk que não deveria ter mais de três anos de idade, o que correspondia a sete da raça humana. Havia um garoto humano que deveria ter uns doze anos e nos braços de um dos soldados, o menino humano de dois anos que chorava de forma quase que inconsolável. Ele era o meu alvo principal nessa missão simples. Os outros dois eram quase que descartáveis. Embora tivessem sensibilidade à Força, não se tornariam muito fortes. Ao contrário da criança menor. Era desejo de Rack que ela crescesse e se tornasse um de seus aprendizes. Talvez um dos mais poderosos.

_ Saudações crianças – sorri com cinismo – vocês foram escolhidos para se tornarem servidores do rei Yuri Gi Dasperet de Naboo. Espero que aproveitem bem essa oportunidade, porque ela vai mudar a vida de vocês para melhor.

_ Mentira – um dos adultos gritou – afaste-se deles demônio.

Ignorei os adultos. Pude ver o terror nos olhos das duas crianças mais velhas. Era óbvio que elas conheciam Rack e de seus seguidores, ou então não teriam sido trazidas para essas ruínas por seus pais traidores de Naboo.

_ Eu não quero servir Dasperet – o mais velho rosnou – prefiro morrer!

_ Cuidado com o que deseja – encarei o menino – que pode se realizar.

Ele tentou cuspir no meu rosto, mas a saliva jamais encostou na minha pele. Ela ficou flutuando entre eu e ele. Os meninos arregalaram os olhos talvez pela demonstração de poder ou talvez por causa da transformação que os meus olhos sofriam cada vez que eu usava o meu poder. Enquanto isso a criança menor continuava a berrar e aquilo já estava me irritando. Mandei o cuspe de volta para o rosto do dono e me afastei do trio.

_ Tranquem as crianças na cela.

_ E os pais delas? – o tenente perguntou.

_ Esses podem ser descartados!

O choro da criança aumentou de volume depois disso, assim com os gritos dos outros dois e dos pais deles. Aquilo me incomodou. Mesmo depois de dois anos trabalhando para Rack, ainda não havia me acostumado com os gritos de desespero que causava. Talvez nunca fosse.