Despertei sentindo beijos pelo meu rosto e meu pescoço. Havia um corpo pressionado contra o meu que estava fazendo maravilhas contra o meu centro. Fui acordando aos poucos, perdida na sensação prazerosa de uma língua macia e quente dentro da minha boca. Estava adorando sentir mãos subindo e descendo pelo meu corpo. Fecharia os olhos e deixaria as coisas fluírem até que um pensamento tomou conta de mim. Dawn. Abri os olhos em alerta e quando consegui focar na imagem da pessoa que estava me estimulando, quase entrei em pânico. Dawn!
_ Não! – a empurrei para fora da cama e ela caiu no chão sentada. Fiquei ainda mais em pânico quando me dei conta que ela estava semi-nua.
_ Will! – ela protestou – o que deu em você?
_ É... é... é... que não d... dá, ok? – se eu pudesse ser engolida pela parede, era o que eu desejaria que acontecesse.
_ Por que não? A gente já fez isso antes.
_ Não isso! – estava em pânico – Vo... vo... você... e... e... eu. Não d... dá certo. Não... p...pode.
_ Por que não? – ela veio para cima de mim com um sorriso malicioso.
_ Você é padawan! – eu corri para fora da cama antes que ela viesse para cima – e... e... eu t... também. E estou cumprindo pena!
_ Está ficando repetitiva em suas desculpas! – seu tom era brincalhão.
_ É... p.. proibido! Leva vo... você... ao la...lado negro. I... isso... é ruim!
_ Hey Will, não vai acontecer comigo – ela se aproximou de forma perigosa demais e começou a me tocar novamente – e você já esteve lá – foi beijando o meu pescoço – não vai cair de novo.
_ Não! – a empurrei de novo, achava que estava preste a ter um ataque cardíaco.
O pior de tudo é que Dawn era uma garota linda. Longos cabelos castanhos e lisos, olhos azuis vibrantes, pele branquinha, ligeiramente mais alta que eu, e um nariz que meu pai diria ser a marca registrada dos Rosenbergs. Olhando bem, ela se parece mais comigo do que Buffy. Se não houvesse a possibilidade dela ser a minha irmã caçula, até que arriscaria um relacionamento, mesmo não a amando do mesmo jeito que amei Tara. Quem a recusaria, afinal de contas?
_ Willow, o que está acontecendo? – agora ela ficou em suspeita – Ok, você sempre me recusa uma ou duas vezes antes da gente começar a namorar. Mas agora está agindo de forma estranha!
_ Olha... – procurei me acalmar – eu tenho um excelente motivo - e ela foi fazendo uma cara de protesto mas eu impedi qualquer argumentação contrária ao levantar um dedo em advertência - Por que você não se veste e volta para o teu dormitório? Eu prometo uma explicação razoável em breve, ok?
_ Se você me der um beijo de despedida, eu saio.
_ Ta – me aproximei dela e dei um beijo de leve e muito breve na boca.
_ Não, quero um direito! – ela avançou de forma sedudora mais uma vez.
_ Dawn! Pára! - a empurrei com mais força que a fez ir de encontro contra a cama e cair sobre ela.
_ Por que? - ela se sentou já assustada.
_ Eu não quero você! - disse com firmeza. Ela me encarou gozado, quase em choque.
_ Como?
_ Eu disse que não quero você - repeti ainda mais firme.
_ Mas achei...
_ Que fosse me interessar por alguém como você? - e de repente o meu lado Tasere fez funcionar - Olha Dawnie, foi divertido dar uns beijinhos aqui e ali, mas vou ser franca: você não faz o meu tipo. O meu plano era terminar isso da forma mais suave e sem traumas possível, mas você vem aqui querendo algo mais que sinceramente não estou disposta a lhe dar. Então para o seu bem, porque você não junta as suas coisas e some de vez da minha frente?
_ Me desculpe, meu erro – ela foi se vestindo frustrada. A voz trêmula de quem está segurando o choro - achei que você gostasse de mim.
_ Eu gosto de você, mas não quero...
Por coincidência, Buffy apareceu no meu quarto no instante que Dawn estava colocando a camiseta e eu estava no meio da frase. Ela me olhou atravessado e depois encarou a outra padawan que se apressou ainda mais.
_ Mestre Rosenberg! – Dawn ficou vermelha e em pânico.
_ Padawan... o que faz aqui?
_ Vim conversar um pouco com Willow - a voz era de choro.
_ Antes mesmo do amanhecer do dia e sem as suas calças? O que poderia ser tão importante?
_ Nada não - ela quase caiu no chão na pressa de colocar a calça.
_ E você já estava de saída? - a voz de Buffy era quase ameaçadora.
_ Sim.
_ Ótimo. Vá para o seu dormitório, padawan. Esteja de sobreaviso que logo teremos uma conversa.
Dawn saiu olhando para o chão. Assim que a porta se fechou, Buffy foi pra cima de mim, só que diferente de Dawn, ela foi para me agredir.
_ O que diabos você está pensando? – disse sussurrando e brigando ao mesmo tempo, segurando firme no meu braço.
_ Eu juro que não tive culpa! – me defendi – ela invadiu o meu quarto e...
_ E? – apertou o meu braço ainda mais forte, de forma que ficaria um roxo mais tarde.
_ Eu não permiti!
_ Então por que raios ela estava se vestindo quando entrei? - agarrou o meu outro braço e praticamente me sacudiu - Você estava se aproveitando dela?
_ NÃO! Claro que não! E porque diabos você acha que ela é a vítima? - lancei um olhar indignado - Olha Buffy quando acordei ela já estava deitadada na minha cama só com as roupas de baixo fanzendo... coisas. Eu pedi para ela ir embora, mas Dawn foi insistente...
_ E aposto que não resistiu e a beijou! - me sacudiu mais uma vez.
_ Sim, nós nos beijamos – me libertei dela, sentei na cama e levei minhas mãos a cabeça – só que não é o que você está pensando! Não podia simplesmente despejar na cabeça dela um "Quer saber? Acho que nós somos irmãs". Conheço aquele olhar, Buffy. Ela está tão apaixonada que nem está raciocinando. Sei por que já fiquei assim uma vez! Eu queria ir com cautela, mas Dawn foi insistente e não me deixou escolha. Quando você chegou aqui, estava terminando tudo e de uma forma um tanto quanto grosseira. Provavelmente ela está chorando de vergonha nesse instante e, sinceramente, eu não quero nem estar perto quando ela souber o que desconfiamos.
_ Tão ruim assim? – ela parou um tempo para refletir e depois sentou ao meu lado – Falarei com mestre Solo e mestre Wood agora pela manhã. Quero a opinião deles antes de seguir adiante.
_ Concordo. Mas até as coisas serem esclarecidas, quero ficar isolada.
_ Por quê?
_ Preciso pensar um pouco. Esse possível incesto está me deixando maluca, me corroendo de culpa.
_ De acordo... vou te isolar em uma das salas de meditação. É bom que você treina um pouco. Ainda está fora de sintonia com a Força.
_ Que seja!
...
As salas de meditação do Templo estão entre as mais simples. Paredes de cores claras, geralmente cor creme, carpete baixinho e algumas almofadas. Não há janelas. O que garante o ara sempre fresco que tem um leve cheiro de rosas, é um sistema de ventilação sofisticado, projetado para circular exclusivamente entre essas salas. É um lugar confortável. Meditação é uma parte importante do processo de amadurecimento de um jedi, é o que nos faz entrar em contato com a Força e controlar nossos poderes. Uma pena que eu mal consigo utilizá-los desde que fui sentenciada pela Ordem Jedi. Pior agora, depois do diário de papai e todas as revelações que contém nele. E não é a relação com Rack, a descoberta que meu pai era um sujeito ambicioso que me chateou. Dawn era o maior problema. Meu isolamento na sala de meditação foi importante para colocar minha cabeça no lugar. Menos meditação e mais reflexão de como levar todo o caso com sensibilidade e sabedoria.
_ Willow – Buffy abriu a porta interrompendo meus pensamentos. Pela formalidade da voz sei que ela não está falando como minha irmã. Ela entrou acompanhada dos mestres Wood e Anil Orvelos.
_ Sim mestres!
_ Nós falamos com Dawn Wood ainda a pouco e fizemos os testes genéticos. Por sorte, eles tinham o arquivo do nosso pai – e veio o suspiro dramático – o teste de paternidade deu positivo.
_ Ela já sabe?
_ Sim.
_ Como ela reagiu?
_ Muito mal!
_ Contou a ela sobre aquele outro negócio?
_ Achei que seria demais para a cabeça dela. É melhor deixar essa bomba para depois.
_ Será que posso falar com ela?
_ É para isso que estamos aqui.
Vi Dawn entrando na sala com os braços cruzados e os olhos inchados de tanto chorar. Os outros mestres jedis se retiraram, menos Buffy. Eu não sabia se pedia para que ela se retirasse também. Dawn e eu temos um problemão para resolver, por outro lado é justo que Buffy participe sendo a nossa irmã mais velha. Só que isso fica para depois.
_ Mestre Summers Rosenberg – disse com firmeza – nos de cinco minutos?
_ Will – ela foi protestar, mas acabou concordado – ok, cinco minutos! – e saiu.
Olhei para Dawn e fiquei a principio sem saber se me aproximava e dava um abraço apertado ou se mantinha minha distância.
_ Foi por isso que você agiu daquele jeito de manhã? – a voz saiu fraca.
_ Sim. Buffy e eu passamos a noite vendo o diário do meu... nosso pai. Ele disse que teve uma terceira filha e as descrições bateram contigo.
_ Ele disse nesse diário porque me abandonou?
_ Houve uma guerra civil no planeta e o informante que ele mandou para vigiar você e sua mãe disse que as duas morreram no conflito. Não sei de mais detalhes... papai não era um sujeito de muitas explicações.
_ Ah! – fez uma pausa – e ele era legal?
_ O melhor! – sorri. Sempre gostava de falar do meu pai – ele sempre procurou dar tudo do bom e do melhor para mim e Buffy. Ele tinha lá seus defeitos, alguns graves, inclusive. Mas quando se tratava das filhas, de nós, ele se transformava. Nenhum negócio, nenhuma transação, nada era mais importante.
_ Puxa... queria tê-lo conhecido.
_ Ele também queria ter te conhecido.
E veio o silêncio desconfortável.
_ Sabe o que é pior? – ela falou depois de algum tempo.
_ O quê?
_ É que eu ainda te desejo.
_ Nós vamos trabalhar esse problema, Dawn – me aproximei – com o tempo você vai me tirar da cabeça e logo vai me enxergar apenas como a sua irmã. Vai ser difícil no começo. Vai ter momentos que você vai querer fazer coisas estúpidas, mas com o tempo isso vai passar.
_ Como pode ter tanta certeza?
_ Porque você é mais forte que eu. Você é uma sobrevivente, Dawnie! Superar problemas é contigo.
_ Será que posso te abraçar? – ela disse com voz de choro.
_ Claro!
Nos abraçamos e ela chorou no meu ombro. A segurei firme até sentir sua respiração ficar mais calma.
_ Posso te beijar? – ela perguntou depois de algum tempo.
_ Dawn! – protestei.
_ Sem língua! – fez uma cara de inocente carente que ignorei e ela não tinha opção a não ser recuar. Sorriu fraco – se eu soubesse que aquele beijo de hoje de manhã seria o nosso último, teria aproveitado mais.
_ Dawn... – dessa vez disse desanimada – não faça isso...
_ Eu vi a gravação do seu julgamento. Você disse que o amor não conhece regras, convenções ou leis. Que ele é irracional. Não há verdade maior, sabia? Eu te amo, Will. Se você dissesse para a gente dar no pé daqui para ficarmos juntas, mesmo sabendo que somos irmãs por parte de pai, eu iria. Não pensaria duas vezes.
_ Está claro que confundo seus pensamentos – me afastei com medo. Aquelas palavras eram perturbadoras em vários níveis – o amor não conhece regras, mas ele precisa respeitar o sangue.
Nesse instante, Buffy entrou na sala e o que ela encontrou foi um cenário depressivo. Dawn estava num canto da sala preste a explodir em fracas argumentações, e eu no canto oposto, me sentindo um lixo e carregando nos ombros a pior das maldições.
_ Mestre Summers Rosenberg – disse baixo e seco – será que é possível conseguir uma concessão especial e me tirar desse Templo?
_ Por quê?
_ Dawn se recusa a ver o óbvio. Não vai facilitar as coisas para mim e, principalmente, para ela mesma.
_ É MENTIRA! – Dawn gritou – não coloque palavras na minha boca.
_ Logo – disse um pouco mais alto, ignorando Dawn – acho que seria sábio que eu me ausentasse por dois ou três meses... sob condição vigiada, é claro, para dar espaço a ela, fazer com que respire e pense melhor.
_ Não! – Dawn protestou com lágrimas nos olhos e praticamente implorou para Buffy – mestre Rosenberg, não escute que ela diz. Eu vou me esforçar. Eu vou dar o melhor de mim para esquecer. Família tem que ficar unida, não é mesmo?
_ Acha que é o melhor a fazer, Will? – Buffy ignorou Dawn.
_ Sim!
_ Não! – Dawn gritou.
_ Então isso será arranjado.
Não foi bem o que aconteceu. Os membros do Conselho acharam melhor retirar Dawn do Templo, não eu. Dois dias depois ela foi mandada para a base da Aliança em Hoth, um lugar tão inóspito que a base precisa ser subterrânea para manter um bom aquecimento interno. Do lado de fora, a temperatura fica em torno de -23°C nas horas mais quentes do dia. À noite chega a fazer -60°C e às vezes fica ainda mais frio. O grande propósito da Aliança manter uma base em Hoth são experimentos científicos, em especial por parte de geólogos e químicos. O local também serve como treinamento militar e é mantido um depósito de armas e pequenas naves em caso de alguma emergência. A solidão do lugar faz mesmo uma pessoa pensar na vida e rever conceitos. Talvez os mestres jedis estejam certos em mandar Dawn para uma gigantesca bola de neve. Talvez se eu tivesse feito algo assim após a morte de Tara, não teria desperdiçado a minha vida por quase três longos anos.
Sem Dawn perturbando os meus pensamentos, pude me concentrar mais na minha recuperação. Precisava aproveitar o tempo de calmaria o máximo que podia, porque quando a tempestade atacasse outra vez, as coisas vão ficar loucas e sei que preciso ficar preparada porque Lorde Rack não vai ficar em paz enquanto me ver morta. Eu o conheço o suficiente para saber que ele não tolera traições.
Todo o episódio do incesto inconsciente fez com que Buffy ficássemos ainda mais unidas. Acho que ela se sentiu culpada por ter deixado as coisas chegarem onde chegaram. Bobagem. Nem toda a meditação do mundo poderia prever algo assim. Mas gostei de ter minha irmã mais velha sempre por perto, assumindo o meu treinamento como aconteceu no início da minha reabilitação.
