Buffy estava alguns andares abaixo comemorando o seu 23° aniversário com alguns membros da Ordem. Fiquei um pouco com ela, a abracei, celebrei, e depois fui embora. Estava deprimida demais e não queria ficar por perto para não estragar a diversão da minha irmã. Ao invés disso pedi um favor a Dawn, que havia se tornado a minha melhor amiga: uma garrafa de bebida. A esperei no terraço de uma das torres do Templo. Era um lugar frio que ventava bastante, mas era reservado e proporcionava uma visão belíssima de parte da cidade.

_ Você não devia sair do Templo! – ouvi Dawn se aproximando.

_ Tecnicamente, eu não saí do prédio e isso não é área restrita.

Ela sentou no chão ao meu lado e me entregou a preciosa encomenda.

_ Isso é fino! – olhei o rótulo da garrafa.

_ Cortesia dos diplomatas!

_ Você roubou isso do estoque do parlamento?

_ Roubar é uma interpretação radical do texto – começamos a rir.

Abri a garrafa e dei uma golada com gosto. Eu não deveria beber, assim como nenhum dependente químico. Sabia das tentações que o álcool abre, mas acreditava que estava mais forte e merecia, afinal de contas, aquele alento. Ofereci a garrafa para Dawn, mas ela recusou, o que não achei de todo ruim. Era bom porque se passasse da conta, ela tiraria a garrafa de mim.

_ Por que estamos aqui?

_ Nós eu não sei... mas estou aqui para não estragar a festa lá embaixo.

_ Você e sua irmã brigaram?

_ Não... muito pelo contrário!

_ Então?

_ Eu sinto falta dela... – dei mais uma golada – todos os dias da minha vida sinto falta dela... só que agora que estou limpa... ou quase – ergui a garrafa – tudo fica pior.

_ Você a amava muito, não é?

_ Tara era tudo para mim... nós íamos nos casar, sabia? – lágrimas correram no meu rosto – eu ia deixar a Ordem para ficarmos juntas e nos casarmos.

Dawn passou o braço no meu ombro e me colocou próxima a ela. Ficamos em silêncio durante minutos, horas, não sei precisar o tempo. Só sei que estava curtindo a proximidade e o calor. Tempos depois de silêncio confortável e quando a minha garrafa estava quase no fim, Dawn beijou o meu rosto.

_ Eu te amo – sussurrou no meu ouvido.

_ Eu também, Dawnie – sorri.

_ Eu sou apaixonada por você desde naquele dia que conversamos em Yavin 4 – de repente fiquei tensa e meu coração disparou – Você lembra? Quando você estava com uma crise de abstinência e eu te ajudei a comer...

_ Ei Dawnie – me levantei de supetão e só então percebi o quanto estava tonta e caí de bunda no chão. Por um instante esqueci o que ia dizer.

_ Cuidado! – ela tirou a garrafa da minha mão – você já bebeu além da conta – ela tentou me ajudar a levantar, mas eu me recusei.

_ Não! – protestei – você não pode gostar de mim. Não sou uma boa pessoa, entende? Sou uma ex-sith condenada pela Ordem e você... você é uma padawan! É proibido... – ela me calou com um beijo. Foi o nosso primeiro. Fiquei sem palavras.

_ Deixa eu cuidar de você – ela disse com uma doçura irreal na voz. Dawn estava se tornando uma linda jovem mulher quase irresistível de 17 anos.

Eu não sei se foi a bebida, a depressão, a carência, ou o vento gelado que me fazia querer ficar próxima a alguém quente como ela, mas naquele momento permiti o que não deveria acontecer. Nunca! Jamais! Ficamos ali sentadas nos beijamos por minutos, horas, não sei precisar o tempo. Depois de um tempo Dawn me ajudou a ir para o meu quarto. Lá ela me colocou na cama, me cobriu, e meu deu um beijo na testa. Disse boa noite e foi embora. Muitos outros beijos aconteceram. Parte de mim fica aliviada por não deixar as coisas irem longe demais, apesar de mãos terem passado por lugares que não deveriam. A outra parte se culpa por ter permitido o primeiro beijo.

...

_ Que lugar é esse? – Buffy desceu do speeder bike com alguma dificuldade. Podia ver que ela estava suando frio.

_ Uma casa de cortesãs – disse simplesmente.

_ Nós vamos nos esconder numa casa de cortesãs? Você enlouqueceu? Precisamos é pegar uma nave e sair daqui...

_ Se você calar a boca um minuto – coloquei o braço direito dela ao redor do meu pescoço.

_ Eu posso andar!

_ Sei disso... cambaleando, mas pode! Agora cala a boca! – toquei a campainha.

Um rosto apareceu na tela do vídeo ao lado do portão.

_ A casa está fechada – uma mulher que parecia ter seus trinta anos atendeu – ou você não reparou que estamos em guerra?

_ Preciso falar com Anya Jenkins. É urgente! Diga que é Willow Rosenberg... ela vai me atender!

Não demorou nem dois minutos quando o rosto zangado de Anya.

_ O que faz aqui Rosenberg? Você deixou de ser bem vinda aqui depois que se aliou aos siths.

_ Anya, nos ajude, por favor. O Templo foi destruído, todos os jedis que estavam lá foram mortos... minha irmã está ferida e há siths atrás de nós.

_ Por que ajudaria você?

_ Porque Tara ajudaria! – apelei.

A imagem desapareceu e houve uns minutos sem resposta. Buffy e eu já estávamos dando meia volta quando ouvimos o mecanismo de segurança da porta ser destravado.

_ Rápido! – a mulher que nos atendeu primeiro apareceu.

Entramos depressa e logo ouvimos a pesada porta ser fechada trás de nós. Estávamos na sala de visitas das cortesãs. Onde as meninas recebiam seus clientes milionários antes de guia-los para algum dos quartos. Mas o que me interessava naquele momento era que aquela era a construção mais sólida e segura que conhecia no planeta. Tratava-se de um antigo abrigo que foi reformado e transformado numa casa de cortesãs. Havia mais duas meninas, além dessa moça mais velha, e um rosto que conhecia muito bem: Anya.

_ Obrigada por nos abrigar – mesmo mal, Buffy sempre procurava ser educada.

_ Anya, preciso usar a sua sala de segurança... é crucial que fiquemos por lá – fui direto ao ponto.

_ Entendo... meninas, ajudem as jedis.

Seguimos para um dos quartos e lá Anya abriu uma passagem secreta que dava acesso a uma porta reforçada. Descemos três lances de escadas com alguma dificuldade num corredor muito bem iluminado e limpo. No subsolo encontramos um salão onde se encontravam as cortesãs vestidas em roupas de guerra, organizando comida, água, camas e armas. Algumas delas podiam derrubar caças. Mas fomos além do salão e das meninas. No fim dele havia um corredor que dava acesso a uma cozinha, banheiros e um quarto minúsculo vazio. Anya digitou uma senha num painel ao lado da parede, onde se abriu um alçapão com mais um pequeno lance de escadas. Essas eram estreitas e mal iluminadas. Descemos e quando Anya acendeu as luzes, nos deparamos a um grande depósito. As meninas colocaram Buffy deitada numa cama limpa e bem feita que tinha por ali e que conhecia muito bem.

_ O nosso posto médico é lá em cima – Anya disse com alguma urgência - mas vou tranferi-lo provisoriamente pra cá.

_ Ótimo – disse agradecida - e se você tiver uma prótese de braço esquerdo, juro que te dou um beijo.

_ Isso a gente acha fácil por aqui... e dispenso o seu beijo – ela e as meninas subiram as escadas.

Eu achei um pano limpo em uma das caixas que estavam próximas a nós para poder limpar o suor no rosto de Buffy. Ela estava com febre e suas roupas estavam úmidas. Primeiro eu tirei as suas botas e meias. Depois ajudei com o cinto e o casaco.

_ Estou com frio – reclamou.

_ Eu sei, mas você não pode se cobrir... não com essa febre.

Procurei por mais algum ferimento e encontrei queimaduras de sabre na coxa direita e outra no abdômen, além do braço esquerdo decepado na altura do cotovelo. Aquilo era inédito para mim. Eu até podia me imaginar mutilada, perdendo uma batalha no sabre, como já aconteceu algumas vezes. Mas nunca pensei em encontrar Buffy nessas condições. Chegava a ser chocante. Ela chegou perto demais de falhar. Me sentei no chão, ao lado da cama e procurei mantê-la confortável.

_ Diga – ela disse – que lugar é esse?

_ Essa sala é um depósito de artigos contrabandeados. Ela está equipada com todos os sistemas anti-rastreamento conhecidos na galáxia... é tanta energia que faz aqui dentro parecer uma zona morta. É imperceptível para qualquer satélite, ou dróide de reconhecimento... e de certa forma, ela também nos faz ficar imperceptíveis aos sensíveis a Força. É por isso que estamos seguras aqui.

_ Como... – ela tossiu – como descobriu isso aqui?

_ Tara! – disse simplesmente.

_ Tara? A embaixatriz era cúmplice de contrabandista?

_ Mais ou menos – sorri. Aquela casa de cortesãs me trazia ótimas memórias – Tara era prima de Anya. As duas eram quase inseparáveis quando crianças... Bom, o fato que é mesmo seguindo caminhos diferentes, as duas continuaram sendo as melhores amigas. Tara não falava nada dos negócios ilegais da prima, e Anya, por sua vez, nos dava cobertura em nossos encontros secretos.

_ E vocês faziam... num quarto de cortesã?

_ Não num quarto de cortesã... nessa cama onde você está deitada, mais precisamente.

_ Will! – ela reclamou acintosamente.

_ Bom, a última vez que tive aqui foi com Tara... logo, os lençóis já não são os mesmos há muito tempo! Pode ficar tranqüila.

_ Como ela soube que você... foi uma sith?

_ Não sei... mas Anya é uma das pessoas mais bem informadas da galáxia! Aposto que ela sabe de coisas que nós nem imaginamos.

_ Ela também é cortesã?

_ Ela está mais para ninfomaníaca, acredito eu. O que sei sobre Anya é que ela ama o dinheiro e adora sexo... ela não se relaciona com nenhum "cliente", mas na época que vinha aqui com Tara, ela tinha dois namorados!

_ E você nunca falou desse lugar para ninguém?

_ Por incrível que pareça, você é a primeira pessoa que conto sobre isso aqui. Nem quando era uma sith revelei a existência dessa casa...

_ Acho que entendo o segredo... embora prostituição de maiores seja um trabalho permitido...

_ Prostituta não! – nossa conversa foi interrompida quando Anya desceu as escadas acompanhada de dois med dróides e mais três garotas – Cortesã! Willow Rosenberg, essa sua irmã não tem modos? Não é de bom tom ofender o anfitrião, sobretudo quando vocês é que estão com a corda no pescoço!

_ Corda no pescoço? – Buffy olhou para mim confusa.

_ Outras peculiaridades de Anya são frases estranhas, e uma sinceridade dolorosa – disse reservadamente para Buffy e depois olhei para Anya – perdão... deve ser a febre... minha irmã não sabe o que fala.

_ Pois saiba que prostitutas são mulheres vulgares e baratas que vendem os seus corpos para qualquer um – ela começou arrumar o centro médico improvisado enquanto uma das garotas procurava coisas nas prateleiras. Remédios talvez – para ser uma cortesã, por outro lado, é preciso ter estudo sobre a arte do prazer, tem que ter preparo. Não é qualquer uma que está apta a ser uma cortesã, jedi, é preciso ter classe.

_ Verdade! – precisei concordar.

Não sabia muito sobre Anya, a contrabandista. Mas Anya, a dona da casa de cortesãs mais chiques e profissionais da galáxia era uma lenda. Era preciso agendar uma visita, que era muito concorrida, sem falar que os preços eram consideráveis. Era até uma surpresa Rack não saber dela... ou se sabia, nunca comentou também. A chave do negócio dela é basicamente o segredo. Um dos méd dróide começou a examinar Buffy fazendo um scan do seu corpo, enquanto a garota veio até nós com alguns frascos e uma prótese de mão. Era um modelo novo que tinha um revestimento que imitava a pele que não era de todo ruim.

_ O que é isso? – perguntei.

_ Morfina e um sonífero. Ela vai precisar.

_ Eu não preciso dessas drogas – Buffy protestou.

_ Escute querida, não quero escutar seus gritos quando os dróides começarem a remendar os pedaços de nervos que tem aí nesses fios aqui – ergueu a prótese.

Buffy reconsiderou assim que o méd dróide começou a tratar a sua perna. E pela cara que fez, sabia que ela estava no limite. Anya preparou a injeção de morfina, enquanto eu coloquei um comprimido de sonífero em sua boca.

_ Engula, e não trapaceie! – sorri – ficarei aqui o tempo todo, ok?

Buffy dormiu e acho que foi um sono que ela não tinha há algum tempo. Enquanto isso cumpri o prometido. Fiquei todo o tempo ao seu lado, vigiando o trabalho das máquinas. Primeiro foram tratadas as queimaduras na perna e no abdômen. Depois começou o delicado trabalho de implantação da prótese. Anya tinha razão, mesmo dormindo e com a morfina, dava para ver que Buffy sentia dor visto os resmungos que ela fazia toda vez que a máquina mexia em sua carne. Morfina aliviava, mas não era anestesia. O procedimento durou quase três horas e terminou com injeções de antibióticos, anti-inflamatórios e um remédio que impedia a rejeição do organismo ao corpo estranho. A cama ganhou algumas poças de sangue. Não me importei. O importante era que Buffy parecia estar bem e até já respirava melhor em seu sono induzido.

_ Posso fazer alguma coisa por você? – o méd dróide perguntou com sua voz metálica.

_ Na verdade pode... preciso localizar e extrair dois chips que tem no meu corpo – peguei uma injeção e coloquei morfina. Depois apliquei em mim mesma. Coisa simples para uma ex-viciada – manda ver!

O meu caso foi simples. O scan detectou dois chips logo abaixo da minha pelo do abdômen. Na primeira investida do bisturi, no entanto, desejei estar dormindo. Pelo menos as coisas foram rápidas comigo. Dois pequenos cortes, a extração dos chips, a sutura, o antibiótico e o anti-inflamatório, a faixa do curativo e pronto! Vinte minutos de procedimento. Liberei o méd dróide e as máquinas foram para um canto da sala e se auto-desligaram. Eu me vi só, sentada na cama de casal ao lado de Buffy que ficava dentro de um depósito de temperatura controlada cheio de ante isso e ante aquilo. Nem poderia reclamar de tédio, visto o dia que tive. Em todo caso, destruí os dois chips e me perdi em meus pensamentos só para variar. Os olhos foram ficando pesados e a cama estava aconchegante apesar do sangue e do ar frio do sistema de ventilação. Acabei dormindo.

Acordei um pouco deslocada. Nunca era algo simples acordar num planeta e dormir em outro. Fiquei algum tempo me recobrando de tudo que havia acontecido. Encontrei Buffy ao meu lado sentada na cama. Já não havia sinal dos equipamentos clínitos ou dos méd-dróides. Apenas minha irmã dobrando o braço mecânico, como se fosse flexionar os bíceps. Depois ela esticava. Abria a palma da mão, afastava os dedos e depois colocava a palma da mão para cima e para baixo algumas vezes. Fechava a mão e repetia o movimento.

_ É tão estranho – ela disse – e irreal. Isso obedece o meu comando, tem percepções de toque, mas não é a minha mão... é titânio, alumínio, fibra óptica, sensores elétricos e uma pele sintética que nem tem o mesmo tom da minha de verdade.

_ Hummm – resmunguei ainda sonolenta – Que horas são? Tem idéia?

_ Segundo o computador local, é início da madrugada.

_ Eu odeio fuso horários... especialmente quando é de um planeta para outro.

_ É... e o dia aqui tem duas horas a mais – ela pegou algo no seu lado e eu ergui a cabeça para ver o que era. Tratava-se de uma mesa com comida. Tinha alguns biscoitos, duas frutas e uma jarra – está com fome?

_ Morrendo... quero um biscoito – Buffy me entregou um – o que tem na jarra?

_ Leite azul... está docinho!

_ Vou querer um pouco.

As únicas coisas que sobraram do lanche que Anya, ou alguma das meninas, deixou para nós foram copos sujos e as sementes das frutas. Parecia até que fazia semanas que não colocava nada no estômago.

_ Foi uma surpresa e tanto... – divaguei. Isso costumava acontecer quando se estava de estômago cheio.

_ Que surpresa?

_ Chegar aqui e ver Dawn já atraída pelo lado negro. Eu sabia que isso podia acontecer, só não esperava o que encontramos... também nunca desconfiaria de Skywalker...

_ Nem eu, Mas desconfio que sua traição não foi coisa recente.

_ Como assim?

_ Para mim ele estava infiltrado todo esse tempo na Ordem. Minha teoria é que ele teve um encontro com Rack há alguns anos e permaneceu no Conselho não apenas como um espião particular, mas também foi designado para nos vigiar.

_ Até que faz sentido. Só não entendo porque ele nunca tentou nos aliciar ou algo assim...

_ Lembra no diário quando papai disse que ele fazia verdadeiros interrogatórios ao nosso respeito, em especial sobre você? Rack tentou fazer pequenas investidas, mas não contava que papai tivesse um senso de preservação tão forte quando o assunto era nós duas. Depois tivemos mestre Giles, que sempre foi meio rebelde quando o assunto era seguir fielmente as determinações do Conselho. Lembro que a discussão era eu ser treinada por Giles e você por Skywalker.

_ Não me lembro disso.

_ Mas eu sim... como se fosse ontem! Imagino que ele estava louco para colocar as mãos em você... Mas Giles argumentou bem sobre a nossa situação de pais assassinados e tudo mais. Que seria traumatizante nos separar. O Conselho teve que acatar. Então a guerra estourou e eu fui nomeada cavalheiro jedi cedo demais! E quem realizou os meus testes foi justamente Skywalker.

_ Você se tornando cavalheiro...

_ Nós nos afastaríamos e ficaria mais fácil de nos pegar. Perdi as contas de quantas armadilhas escapei. Agora penso que elas existiram por armação do próprio Skywalker. Mas você ainda estava sob a forte proteção de Giles. Era ainda um caso complicado.

_ Verdade! – nem havia como negar essa informação.

_ Então veio Tara e o seu envolvimento com ela.

_ Acha que... isso foi arranjado? – fiquei chocada com a insinuação.

_ Não. Eu podia sentir que o amor entre vocês duas era puro e aquilo jamais poderia ser arranjado. Mas foi conveniente para eles. Lembra no seu julgamento quando o Conselho admitiu que sabia do seu relacionamento com Tara? – fiz sinal positivo – Encare dessa forma Will... como eles imaginariam a sua reação caso alguma coisa acontecesse com ela?

_ Acredita que a cilada em Aok foi premeditada por Skywalker?

_ Não posso afirmar nada, mas também não descarto. A questão é que a tragédia de Aok te levou exatamente para onde Rack queria.

_ Sem falar que ele parecia estar me esperando...

_ Exato! Então a guerra ficou intensa e eu fui mandada para as missões mais duras adivinha por quem?

_ Skywalker!

_ Bingo! Então fui ordenada mestre jedi e passei a controlar exércitos. Meu envolvimento na batalha ficou ainda mais intenso. Só que nunca deixei de te procurar, Will. Nunca perdi a esperança que poderia te trazer de volta. Então aconteceu aquele nosso providencial encontro onde te derrotei e te capturei.

_ E Rack foi até Yavin 4 para nos buscar.

_ Parece que foi essa razão, até porque Yavin 4 não é uma posição tão primordial assim nessa guerra... Bom, mas nós escapamos e quando voltamos a Corellia eu sou nomeada membro do Conselho.

_ O que significou mais responsabilidades...

_ ... menos tempo contigo. Não me admira que Skywalker assumiu o processo de sua reabilitação quase que integralmente. Um treino tão intenso que te provocava fadigas físicas e mentais. Tanto é que na primeira oportunidade, você bebeu e começou essa... coisa com Dawn. Mas depois veio o pedido de socorro de Xander em Serenno que mudou tudo.

_ Eu não entendo essa parte. Skywalker participou dessa discussão, mas ainda assim conseguimos... ele poderia avisar algum agente de Rack para pegar Xander ou nos capturar em Serenno.

_ Bom... nós quase fomos capturados em Serenno, mas acho que por outros motivos. Pára para pensar. Xander trouxe informações preciosas além do diário do papai. Coisas que Rack ficaria sabendo por meio de Skywalker. Seria prudente deixar a nossa missão ser bem-sucedida... Então veio a revelação que Dawn era nossa irmã, o que provocou uma mudança de planos. O foco deixou de estar centrado em você e passou a ser ela, assim Rack teria um herdeiro ao seu lado. Veja que curioso: quando fiz a proposta da nossa excussão entre os planetas devastados após o cessar fogo, Skywalker foi o primeiro a apoiar a idéia. Logo ele que estava comandando a sua reabilitação à mão de ferro.

_ Claro, ele não iria querer nós duas por perto! Bastardo!

_ Acrescente o incesto, a fragilidade do senso moral de Dawn, sua história de vida, e veio cartada final. Eles sabiam que você estava com Riley porque eu informei isso ao Conselho

_ Você o quê?!

_ Era uma exigência... sinto muito. A questão é que dou o braço que me resta se Skywalker não sugeriu a visita dela em Concord Dawn quando todos sabiam do que ela ainda sentia e que você, por sua vez, estava namorando Riley. Dawn disfarçou muito bem, Will, mas pude sentir que ela estava no limite e que você não estava nenhum pouco confortável. Mas era preciso colocar vocês duas frente-à-frente depois de tudo para que pudessem superar e admito que concordei com isso. Só que errei em não pedir que ela ficasse mais tempo conosco para se conformar mais. Dawn não deve ter voltado nada bem para o Templo. Devia estar tão fragilizada que deve ter sido fácil para Skywalker tenta-la para o lado negro! No mais... aqui estamos!

_ E tudo por culpa do amor... mais uma vez! – a conversa toda me deprimiu.

_ Amor não, Will – Buffy fez um carinho no meu rosto com sua mão "de verdade" – obsessão. O que você sentia por Tara não se compara com o que Dawn sente por você. O que vocês duas tinham era tão bonito, recíproco, e tão verdadeiro que tenho até vergonha de dizer que senti ciúmes porque nunca tive nada igual. Nem com Angel, nem com Spike. E por mais que o seu desespero te tenha levado a procurar abrigo no lado negro, foi o amor que você sentia por ela... e ouso falar que por mim e por nossa família também, que manteve uma parte do seu coração íntegro, intocável, que nunca se rendeu. Ele só estava adormecido por causa do efeito das drogas... daquele brilho maldito! Com Dawn é diferente. Ela não te ama nem como irmã e nem como amante... ela quer simplesmente te possuir. Aposto que Rack nem precisou de entorpecentes.

_ Fomos manipuladas desde o início... cada passo, cada movimento... é revoltante e o pior é que caímos feito coelhos.

_ Não foi nossa culpa, Will – ela pegou um cacho dos meus cabelos e o colocou atrás da minha orelha – Nunca foi! – nos abraçamos.

Ficamos em silêncio por alguns minutos.

_ O que vamos fazer agora? – minha voz saiu pequena.

_ Eu não posso falar por você, Will, mas quero dar o troco em todos esses idiotas!

_ Nós vamos, Buffy. E ainda vamos recuperar Dawnie...

_ Será que há salvação para ela?

_ Temos de acreditar que sim.

Sentamos na cama e ficamos abraçadas num silêncio contemplativo até que eu o rompi.

_ Buffy?

_ O que foi?

_ Para onde nós vamos depois daqui?

_ Eu não sei, Will. Vamos pensar em alguma coisa.