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A nevasca parecia que duraria a semana toda e principalmente naquela noite estava sendo uma das piores, mas nem por isso tinha receio dela.

Sua capa sacudia e seu chapéu estava manchado de branco. De olhos estreitos observava a floresta que o cercava.

Uma tenda havia sido armada e seus companheiros estavam dentro certamente passando o tempo.

Fechou os olhos e se concentrou além do som do vento e dos troncos e galhos estalando conforme eram forçados a curvarem sob a pressão da corrente de ar e da neve.

Uivos corriam distantes no coração da mata...

Lobos que se comunicavam entre si, os alertando de sua presença...

Estava começando...

Ouviu o relato de um dos membros do Ministério que as famílias mais ricas estavam se queixando pelo desaparecimento dos elfos domésticos. Os duendes em Gringots estavam mais rabugentos e tinham a ousadia em escolher aqueles que iriam atender ou os que teriam que agendar atendimento.

Não era normal...

- Andrew...

Abriu os olhos ao chamado, então girou o corpo para encarar Ebert Nicholas Norris. Sua pele clara começava a ficar irritada pelo frio o que salientava as pequenas sardas que povoavam graciosamente a região sobre o nariz e um pouco nas maçãs do rosto.

Como ele não trazia chapéu, a neve começava a adornar e umedecer seu cabelo castanho preso em uma simples coleta que lhe chegava até os ombros.

- Ainda acordado? – perguntou desviando os olhos desses olhos esverdeados que brilhavam mesmo com a pouca claridade.

- Não deveria ficar aqui fora, vai pegar um resfriado. Venha pra dentro.

Apenas concordou com a cabeça caminhando juntos até a tenda. A parte de dentro era ampla e bem dividida.

Colle estava sentado ao centro da sala limpando os armamentos, coisa que adorava fazer. Sua principal presa eram os Trolls e os Gigantes, estes últimos infelizmente já extintos apesar que na última caçada no norte da Escócia conseguiram se deparar com um deles e foi uma aventura e tanto que quase acabaram mortos.

De estatura privilegiada e musculatura bem exposta e de caráter fechado e pouco comunicativo escondia seu imenso amor por Nara a única mulher do grupo e a mais habilidosa em luta corporal e manejo de poções. Por ser squib, ela nunca tomava as frentes de batalha sendo a encarregada de curar os companheiros e preparar venenos e entorpecentes quando necessário.

De beleza selvagem e curtos cabelos louros e olhos azuis, ela parecia ainda mais alva e pequena estando com Colle, que possuía a pele negra e era robusto.

Van Helsing retirou a capa e o chapéu indo se acomodar num sofá surgido quando solicitado. Seus olhos vagaram por todos indo pousar na figura desleixada que estava deitada no chão e com o chapéu tampando o rosto.

- O que tem em Wildshare chefe? – a pergunta saiu abafada pelo chapéu.

Todos ergueram os olhos prestando atenção sem deixar seus afazeres.

- Algo grande e que certamente nos deixará entretidos por muito tempo.

Nolan Scott se sentou finalmente, sua franja escura deslizou pelo rosto encobrindo os olhos. – Acho que está omitindo as coisas...

- Scott! – Ebert o repreendeu assim como a mirada de Nara.

Van Helsing apenas sorriu sabendo que havia chamado esse caçador por ele ser exatamente assim, atento e sincero.

Nolan era relaxado e por vezes deixava de fazer as coisas até o ultimo momento, mas era o mais rápido e talentoso com feitiços e muito suicida. Não recuava por pouco apenas se fosse necessário ou por ordem sua. Outro fato era que o único que conseguia lhe ordenar algo era ele e mais ninguém.

Poderia considerá-lo seu braço direito.

- Ainda não tenho certeza, mas as runas nos guiam para lá...

Nolan desviou os olhos de Van Helsing para pousá-los em Nicholas quem jogava as runas e aconselhava o líder. Sabia também que não era apenas esse tipo de relação que compartilhavam, pois por vezes havia os visto juntos.

- Não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo e você sabe disso – disse bruscamente para o líder enquanto se levantava – Inocente e inexperiente... Um dia se machucará e você não poderá salvá-lo – então se inclinou contra a orelha de Helsing, sussurrando – A minha linhagem de caçadores sempre ajudou a sua. Conheço tanto quanto você a história – fez uma pausa desviando os olhos para um enciumado castanho de olhos esverdeados e sorriu de canto - Não cometa os mesmos erros do seu avô Abraham. Você é forte e poderoso, mas não é invencível.

Com essas palavras deixou o grupo para ir dormir. Amanhã seria um longo dia...

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Dominique despertou assustado. Abriu os olhos e tentou se situar olhando ao redor. Sua cabeça doía e sentia um pouco de tontura.

- James? – chamou com a voz um pouco áspera.

Estava em um corredor estranho com várias portas. Girou o corpo levando uma mão à cabeça tentando fazer a dor passar. Praticamente estava sozinho ali.

Correu pela extensão até virar por uma esquina dando em outro corredor que ao final havia uma ampla porta dupla aberta e bem iluminada por onde vinham sons de vozes e talheres.

Cautelosamente se aproximou da entrada e olhou para dentro, pensando que talvez os primos estivessem ali. Como não tinha certeza se foram capturados, todo cuidado era pouco.

Apoiou uma mão na parede espiando o que lhe pareceu um enorme salão de festas. Era imenso e bonito, com velas flutuantes num teto transparente onde se via o céu noturno.

- Hogwarts? – reconheceu o salão apesar de não ter reconhecido o corredor. Então olhou para trás vendo que ele se estendia muito além de onde seus olhos enxergavam.

Não, essa não era Hogwarts, não a Hogwarts que conhecia. Voltou a olhar o salão, vendo que a decoração era em tom carregado e muito pouco iluminado deixando o ambiente sombrio.

As supostas pessoas eram poucas, nem chegavam a ser vinte ao total que se dividiam pelas quatro mesas. Na mesa dos professores apenas um ocupante estava sentado ao centro onde ficava a cadeira da diretora. Era um velho pequeno e de aspecto cansado.

Vozes vindas em sua direção o fez ficar em alerta, mas não teve para onde se esconder. Dois rapazes, um deles aparentemente do sexto ano e o outro do terceiro ano, caminhavam em sua direção.

- O que vai fazer no final de semana? – perguntou o mais novo.

- Edward estará me esperando na vila. Ficamos de passar o dia juntos.

Dominique arregalou os olhos ao reconhecer quem eram. Apesar de estarem mais velhos, não seriam outros senão os primos James e Albus.

Mas... Quem era Edward?

- Que inveja... – o mais novo dos Potter reclamou torcendo a boca – Enquanto tenho detenção você estará namorando...

- Só espero que nada aconteça para estragar meu fim de semana – James sorriu alegremente.

- Fiquei sabendo que o nosso primo irá pra Hogsmeade também – Albus frisou a palavra primo com desprezo.

- Ele que tente me importunar que o colocarei em seu devido lugar. Bem longe dos leões. – James ergueu o queixo e estreitou os olhos – E eu disse pro Teddy que ele vive me enchendo a paciência com seus amiguinhos imbecis. Tenho certeza que Dominique não irá gostar em nada de topar com a gente, pois vai levar umas boas maldições.

Os dois alunos passaram pela porta e foram se sentar numa das mesas ao lado dos demais estudantes que a ocupavam.

Dominique ficou estático, as costas contra a parede e os punhos apertados.

Será que... Este era o futuro? Quando foram tragados pela forte luz, havia sido lançado para o futuro e agora via parte do que aconteceria em suas vidas?

Edward era o nome do afilhado de Harry Potter, mas todos os parentes o chamava por Teddy porque o avô dele se chamava Edward, porém era conhecido pelo diminutivo Ted - Ted Tonks.

Recordou quando se reuniram na Toca para o aniversário de Lily fazia menos de um ano atrás e notou como James não desgrudava de Lupin. Também eram inseparáveis em Hogwarts e quando algum aluno dava de querer atazanar a vida do novato Potter, Lupin o defendia comprando a briga e o ajudando a conhecer melhor o castelo e algumas passagens secretas que infelizmente não conhecia porque o único parente mais próximo que possuía e que estava ali dentro fazia cinco anos era sua irmã Victoria, que sendo de Ravenclaw, era tremendamente certinha e indiferente com os demais, incluindo a si que pertencia a outra Casa...

E Potter e Lupin eram de Gryffindor...

Nesse instante um alvoroço se formou dentro do Grande Salão. Potter e um outro rapaz loiro discutiam e se xingavam apontando as varinhas e prestes a lançarem feitiços.

Via desprezo e ódio nos olhos de James assim como nos olhos do outro rapaz.

- Não te considero meu primo! – o moreno gritava – Você nem deveria ser da família, serpente asquerosa!

- Olha quem diz... – burlou o outro – A coitadinha que não faz nada sem o namoradinho lobo. Você só se acha por ser um Potter e por ter alguém mais velho pra te defender.

- Ao menos tenho alguém e não sou como você, mal-amado e invejoso só porque não consegue ser feliz como eu sou feliz!

Dominique fechou os olhos e tampou os ouvidos para não escutar as ofensas ferinas que escapavam da boca de ambos. – Quero voltar pra casa... Quero voltar! Quero voltar!

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Albus arriscou abrir os olhos assim que o clarão diminuiu. Estava abraçado a irmã que soluçava contra seu pescoço.

- Lily, você está bem?

A garota confirmou com a cabeça sem querer soltá-lo.

Vagou os olhos ao redor notando estarem em uma caverna presos em uma espécie de jaula de madeira e isso o desesperou. Seus olhos encheram de lágrimas, mas a todo custo conteve o choro. Não queria ficar débil e fazer com que Lily sentisse mais medo ainda.

Logo à sua frente havia outra jaula com um menino loiro encolhido num dos cantos. Ele parecia cansado e seus olhos fitavam o vazio, como que perdido em si mesmo.

- Hei... – Albus arriscou chamá-lo. O outro apenas ergueu a vista e o olhou franzindo o cenho – Me entende?

- Vocês... Também foram... – ficou em silencio quando seus olhos começaram a pinicar. Era a primeira vez depois de tanto tempo, que via outras crianças.

Albus observou o rosto do menino notando a semelhança com o amigo de seu pai, principalmente o cabelo claro que mesmo estando sujos, via-se que eram de um louro claríssimo.

- Você é um Malfoy?

O garoto se lançou pra frente agarrando nas barras de madeira quando pronunciou o nome.

- Conhece meu pai? Ele está aqui também? Veio me buscar? – dessa vez não reteve as lágrimas e sorriu.

O pequeno Potter ficou triste, mas não quis que esse sorriso deixasse a boca do outro. Então mentiu:

- Seu pai e o meu pai nos encontrarão...

O loirinho fez que sim com a cabeça sentindo-se aliviado e morrendo de saudade dos pais. Não via a hora de se lançar ao colo paterno.

- Quero o papai... – Lily disse baixinho.

- Eu também... – Albus lhe respondeu.

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James abriu as pálpebras e olhou ao redor notando silhuetas em meio à escuridão onde estava. Não distinguia nada e isso começou a apavorá-lo.

- Al! Lily! Dominique! – chamou em voz alta.

Nada, sua voz apenas ecoou até sumir. Ergueu-se cambaleante e passou a andar em busca de alguma luz, ou de pessoas, mas era como se não saísse do mesmo lugar.

Então o grito distante de Albus fez com que corresse em busca dele, sem conseguir achá-lo e tudo voltou a ficar em silencio.

Desesperou-se quando o choro de Lily estava tão próximo, mas não conseguia encontrá-la e quanto mais caminhava na direção de seus soluços, sempre faltava metros para alcançá-la.

- James! – a voz do primo lhe assustou. Ele o chamava desesperadamente – James onde você está? James!

- Dominique? – girou no mesmo lugar tentando enfocar algo além de vultos inanimados.

Então caiu de joelhos fechando os olhos e tampando os ouvidos quando o grito de Albus voltou a ecoar junto com o choro de Lily.

- Chega! Já chega!

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Harry estava sozinho na recamara que procedia a sala. Não queria ser o centro da atenção de ninguém, pois isso o deixava ainda mais nervoso. Suas mãos ainda tremiam muito e o frio em seu peito não diminuía.

Ia atravessar o meio da sala para chegar perto da janela e olhar se o tempo havia melhorado, quando uma dor repentina pareceu varar seu crâneo. Levou as mãos à cabeça apertando como se assim pudesse segurar a explosão que acontecia em seu interior, quando ouviu uma voz.

Ficou estático, sentindo que algo muito ruim estava acontecendo. Seu corpo estava tenso e seus sentidos pareciam ter se aguçado.

Pareceu ouvir a voz de James, mas não tinha certeza se foi realmente a voz dele ou algo dentro de sua cabeça. Baixou as mãos lentamente se concentrando em sua mente, em seus pensamentos e recordações.

Estaria enlouquecendo?

Às vezes suas lembranças surgiam trazidas das profundezas e se misturavam com a realidade e os milhões de pensamentos que giravam como um redemoinho de palavras, atos e sensações dentro de seu cérebro.

De cabeça baixa tratou apenas de erguer os olhos e enfocar o espelho sobre a lareira. Ao invés de se ver refletido nele, viu relances de um lugar desconhecido. Então notou uma arvore enorme que estava seca...

Essa imagem durou apenas um piscar de olhos antes do espelho se estilhaçar em mil pedaços que voaram como se alguém tivesse atirado algo contra sua superfície.

O fogo da lareira cresceu a ponto das chamas dançarem fora do mármore que a guardava.

- Potter!

Harry saiu do transe quando teve o rosto puxado até enfocar um par de olhos prateados. Só assim pôde respirar.

Suspirou entrecortado sentindo que seu corpo estava formigando inteiro.

- Potter, você tem que controlar sua magia.

- Não consigo... – sua voz soou apagada – Não controlo mais o meu poder, é como se fosse maior do que eu...

Draco ficou preocupado quando os vasos de cristais começaram a quebrar e os quadros nas paredes a tremerem, alguns caindo de seu suporte.

O moreno voltou a baixar a cabeça e levar a mão direita contra a testa. Parecia que uma hora ou outra ia explodir junto com as coisas.

- Olha nos meus olhos - Harry ergueu a cabeça e o mirou. Verde esmeralda se confrontando com azul prateado – Tem que se acalmar. Seu poder está se expandindo por você não possuir mais limitações humanas. Agora ele pode se soltar ao máximo e você tem que saber se expandir com ele. Pense na sensação de voar... De liberdade e emoção quando está voando... – sua voz se tornou suave – Quando você abre os braços para sentir o vento e inspira profundamente...

Draco respirou fundo e soltou o ar lentamente por lábios entreabertos.

Harry se perdeu nesses olhos, nessas retinas espelhadas que produziam uma sensação estranha dentro do corpo. Sentia a respiração de encontro a sua própria respiração o levando a inalá-la, a aspirá-la profundamente cada vez que ele respirava.

Era como se absorvia um pouco de Draco, seu calor, sua essência...

E sentiu como voltava a ter domínio do próprio corpo. Soube como retroceder o excesso de magia que sem querer liberava o guardando dentro do peito como se ali existisse um núcleo vital.

Sua audição se normalizou a ponto de conseguir ouvir o que os demais conversavam na sala ao lado se assim quisesse, e seus olhos se dilataram capturando toda paz que refletiam nos olhos de Draco, como se mirasse um lago calmo e espelhado sob a luz da lua cheia...

Estendeu a mão e tocou ao rosto pálido passando um polegar pelo lábio inferior sentindo como ele era macio. Seus narizes quase se tocavam. Respiravam juntos...

Mal havia notado que empurrou o loiro contra a parede, só soube quando apoiou a mão esquerda contra ela sentindo com os dedos os fios platinados.

- Draco... – murmurou.

Uma luz cruzou a sala e acabou atingindo a Potter o lançando contra a parede num grunhido de dor.

Enquanto o moreno se curvava no chão e tossia sangue, Astória ainda mantinha a varinha erguida em sua direção. Os olhos estreitos de raiva.

- Vampiro imundo...

Draco tentou se apoiar em algo quando foi tomado por uma repentina fraqueza. Fechou os olhos sentindo cair até a inconsciência. Era como se Potter lhe desse energia através do contato de seus corpos e ao extinguir esse contato sua fonte de energia também se extinguia.

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Continua...

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