CAPITULO II

Abril na Grécia! Nos poucos segundos antes que o senso comum de Rin se restabelecesse, as gravuras do livro que Sesshomaru lhe havia emprestado passaram-lhe pela mente. Teve também uma visão dela mesma, deitada numa praia ensolarada, sem nada a fazer senão tomar banho de sol e de mar e saborear os deliciosos pratos gregos, sobre os quais seu pai tanto comentava.

— Isso está fora de cogitação — disse ela agudamente. — Estou surpresa. Você não deveria nem sugeri-lo!

— Por que está fora de cogitação? — perguntou Kagome, franzindo

— Oh! Eu logo imaginei que você iria erguer o topete à ideia de ir sozinha. Mas se você fosse comigo, a viagem não se tornaria mais respeitável? Dê uma boa razão para que não possamos ir.

— Posso dar-lhe meia dúzia de razões. A mais óbvia é que não temos condições financeiras para isso.

— Gastaríamos apenas nossas passagens e algum dinheiro. O voo de excursão para Atenas custa cento e vinte e cinco libras ida e volta, o que significa duzentas e cinquenta libras para nós duas. Ao todo, não gastaríamos mais do que trezentas libras.

— Mas acontece que, infelizmente, não podemos dispor de trezentas libras agora — retrucou Rin esmagadoramente. — E se tivéssemos, eu pensaria duas vezes antes de esbanjar tudo numa viagem de férias.

— Temos mais de quatrocentas. Dei uma olhada no nosso depósito bancário. Sei que temos bem mais de trezentas libras.

Chegou até a ponta da língua de Rin dizer que ela não tinha o direito de espiar a conta bancária, mas como o depósito em banco era oficialmente feito numa conta conjunta, ela não podia acusar a irmã de espionagem.

— Esse dinheiro está destinado a coisas mais importantes. Para termos a casa pintada vamos gastar no mínimo duzentas libras. Temos que mandar pintá-la porque ela já está ficando com aparência de coisa abandonada.

— Não me importa que isso tudo caia. Não estarei morando aqui por muito tempo. Mas se as despesas a preocupam, por que não vendemos a velha escrivaninha da sala de estar? É uma peça genuinamente antiga e deve valer mais do que temos que pagar pelas passagens.

— Não são as despesas que me preocupam — disse Rin rapidamente. — Estou preocupada com o lado moral.

— Pelo amor de Deus, que lado moral? Não consigo ver nada imoral em ser convidada para fazer parte de um grupo, numa casa.

— Como você sabe que vai ser um grupo? Pode ser apenas você e Sesshomaru.

— Levando em conta que você é pura, é surpreendente como salta rapidamente para conclusões indecorosas a respeito das pessoas. Se Sesshomaru tivesse intenção de me seduzir, não ia ter o trabalho de me levar até a Grécia. Ele teria tentado semanas atrás. Como não tentou, deve estar levando as coisas a sério. — Kagome riu. — É possível que ele não tenha começado dentro dos padrões que você chama de intenções honoráveis. Mas tem sido exemplar. Talvez não de acordo com os seus padrões, que são um tanto intransigentes. Mas, pelos meus, ele tem se comportado como um santo.

— Gostaria que você não falasse desse jeito, Kagome. Isso soa tão. . . tão vulgar.

Kagome deu de ombros, mas seu rosto enrubesceu ao responder.

— Bem, com sua companhia ou não, eu vou à Grécia, e não há nada que você possa fazer para impedir vou levantar dinheiro de qualquer maneira. É possível até que eu pague a passagem em prestações. — Saiu do seu quarto e quase em seguida partiu para o trabalho, sem se despedir.

Quando Rin voltou da escola naquela tarde, contou a Sango o que havia acontecido.

— Você acha que há algum jeito de impedi-la? — perguntou, ansiosa.

— Não acho que você deveria tentar impedi-la. Acho que ambas deveriam ir — disse Sango.

— O quê? Oh! Sango, você não pode estar falando sério. Ir à Grécia como convidada daquele homem detestável? Isso nunca me passaria pela cabeça.

— Há uma boa chance daquele homem detestável ser seu cunhado, minha querida. Suponhamos que ele esteja começando a levar Kagome a sério. Ela é linda e os homens costumam ficar caidinhos pelos rostos lindos. E se ele está pensando em casamento, você acha que tem direito de interferir?

— Mas ela não o ama! Além disso, é muito imatura para se casar com quem quer que seja!

— Não concordo. Conhecendo Kagome, acho que o casamento será a melhor coisa para ela. Será muito bom que se case com um homem mais velho. Duvido que ela tenha a capacidade de amar profundamente alguém. E quem não tem capacidade de amar intensamente nunca sofrerá muito, também.

— Não, eu não acho — disse Rin, meio ausente. Até aquele instante não lhe havia ocorrido que Kagome pudesse realizar sua ambição de se tornar a sra. Sesshomaru Taisho.

— Pois eu não posso imaginar Kagome como esposa de um homem pobre — disse Sango. — Ela não foi talhada para o amor numa cabana. Ela faria o marido se afogar em dívidas ou viveria azucrinando-lhe a paciência o tempo todo.

Rin tinha de admitir que Sango tinha um pouco de razão. Mas Kagome era tão jovem! Ela ainda poderia encontrar alguém cujo amor compensasse qualquer sacrifício material.

Mas, por mais que defendesse esse ponto de vista, Sango se mostrava cética.

Tudo é possível, mas acho isso muito difícil. Você precisa ser realista, Rin. Não desejo ofendê-la, mas o fato é que Kagome está sendo terrivelmente estragada. Sua madrasta nunca disse não a ela. E também a deixa escapulir de uma série de responsabilidades. No meu modo de ver, a única solução é deixar que ela se case com alguém que continue estragando-a.

— Mas Sango, ela não tem nenhuma atração física por ele disse Rin, lembrando que Kagome achava Sesshomaru muito exotico, com aparência de estrangeiro. — Como poderá passar o resto de sua vida com alguém cujo apelo é o seu dinheiro?

— Atração física nunca dura muito tempo, a não ser que haja também uma certa atração sentimental. Kagome deve achá-lo razoavelmente bem apessoado. Não acho que ela seja tão crua em termos de amor, a ponto de casar-se com um homem que ela repele. O que há nele para que você o deteste tanto, Rin? Não é só por causa de Kagome que você está preocupada, é? Tenho a impressão de que a coisa é muito mais profunda do que isso. Você o detestaria em quaisquer circunstâncias.

— Sim, detestaria — disse Rin irritada. — Você também, se o encontrasse. Ele é muito senhor de si. Olha para as mulheres como se tivesse apenas que sorrir para elas lhe caírem aos seus pés.

— Talvez muitas se comportem assim — disse Sango. — Talvez ele pensa que poderia cativar você também com seu charme.

— Ele não apenas pensa isso, mas está convencido a respeito. Ele... — Rin fez uma pausa para firmar a voz. — Teve a audácia de me acusar de ter ciúmes de Kagome.

— Ele disse isso? Meu Deus, que audácia! Não é à toa que você o detesta. E você, o que disse?

— Dei-lhe um olhar de desprezo e deixei-o de pé, onde estava. Mas queria esbofeteá-lo.

— Você disse isso a Kagome? Talvez isso o levasse a deixá-lo.

— Duvido. Ela provavelmente concordaria com ele.

— Então esqueça e não seja cabeça dura — disse Sango. — Você não vai conseguir impedir que Kagome vá à Grécia, nem que ela se case com ele, se for isso que eles quiserem.

Se ele for um aproveitador, não vai conseguir muito com você presente. Depois, algumas semanas ao sol são exatamente o que o médico recomendou. Você precisa de umas férias, Rin. Quem sabe? É possível até que você acabe gostando da viagem. Pode ser que na Grécia você encontre alguém agradável. Se eu não tivesse nunca feito algo que não queria fazer, jamais teria encontrado Miroku.

— Não creio que vá surgir algum compadre ou amigo íntimo de Sesshomaru Taisho para candidatar-se a meu marido — disse Rin, incrédula. — Devem ser todos como ele.

Naquela noite ela já estava na cama quando a irmã chegou. Na manhã seguinte Kagome partiu para o trabalho sem dizer nada sobre o projeto da viagem, embora estivesse eufórica e amiga. Rin concluiu que ela devia ter conseguido comprar a passagem a prestação.

Era sexta-feira. Depois das aulas Rin foi ao cabeleireiro, em seguida encontrou-se com Kohaku Fisher e foram ao cinema.

— Você parece preocupada hoje — disse ele, quando iam para o restaurante Soo Chow.

— Desculpe, Kohaku, eu estava no mundo da lua.

— Você esteve assim durante a última semana. Há algo errado?

— Não, nada errado. — Ao chegarem no outro lado, ela viu, na vitrina de uma agência de passagens, um póster mostrando uma paisagem e, ao fundo, a Acrópolis grega.

Afastou os olhos rapidamente.

No restaurante Soo Chow um garçom chinês conduziu-os a sua mesa habitual. Assim que fizeram o pedido ao garçom, Kohaku falou, surpreso:

— Não é sua irmã que está ali perto da porta?

— Kagome, aqui? Não, não pode ser. Ela foi ao teatro esta noite — disse Rin, sem voltar os olhos. Como Kohaku havia visto Kagome somente uma vez, há muito tempo, provavelmente não se lembrava dela claramente.

— Tenho certeza de que é ela. Há um homem também. Com jeito de francês.

— O quê? — Rin girou na sua cadeira. — Oh! não! — murmurou ao ver o casal perto da entrada. Sesshomaru Taisho estava ajudando Kagome a tirar o casaco e um garçom, solicitamente, pendurava-o. Rin afastou os olhos rapidamente.

— Eles nos viram e estão vindo para cá — disse Kohaku, afastando a sua cadeira e pondo-se de pé.

— Oi! Kohaku — Kagome cumprimentou-o calorosamente, como se fossem velhos amigos.

Enquanto ela falava com ele, Sesshomaru inclinou-se para Rin:

— Boa noite, senhorita Hirugashi. Nem preciso perguntar se se recuperou bem de sua doença. Vejo que está bem. — Seus olhos dourados passearam pelos cabelos bem penteados e pelo lindo vestido de Rin. — Você está muito elegante esta noite.

Aquele elogio fez ela fechar os punhos em baixo da mesa. Mas, quando ela estava para responder friamente, lembrou-se do que Sango a havia aconselhado na tarde anterior: "A melhor maneira de desarmá-los é fazer o que eles menos esperam". Então, sorriu e respondeu amavelmente.

— Obrigada, sr, Taisho, estou perfeitamente recuperada. Esta é uma surpresa agradável. O que os traz aqui?

Antes que ele pudesse responder, Kagome tocou-lhe o braço e apresentou-lhe Kohaku. Mas Rin teve satisfação de notar que sua docilidade o chocara.

Quando os dois homens apertaram as mãos, ela notou que Kohaku se retraiu. Embora ele tivesse mãos grandes, seu toque era flácido. Essa era uma das muitas razões triviais pelas quais Rin achava que ele não podia ser seu namorado. Além disso, suas unhas nunca estavam perfeitamente limpas. Kagome sorriu para a irmã.

— Vocês se incomodam que nos juntemos?

— Claro que não — disse Rin amável. — Mas pensei que não apreciassem comida chinesa.

Por um instante Kagome pareceu desconfortável, depois disse.

— Bem, Sesshomaru aprecia, e você já disse várias vezes que este lugar é particularmente bom.

— Nós o achamos — disse Rin, relanceando os olhos a Kohaku.

— Mas não somos connaisseurs, como o sr. Taisho. — Dirigiu um olhar inocente na direção dele. — Espero que não se desaponte, sr. Taisho. É uma caminhada vir até aqui, com tantos outros restaurantes chineses no extremo oeste da cidade.

Kagome sentou-se ao lado da irmã e Sesshomaru ao lado de Kohaku.

— Sim — concordou Sesshomaru. — Mas os restaurantes menos pretensiosos, nos subúrbios, servem comidas melhores. — Em seguida, estudando cardápio: — O que vocês recomendam?

Rin deixou Kohaku aconselhá-lo sobre as especialidades do Soo Chow. Não tinha dúvida de que Sesshomaru e Kagome tinham ido ali de propósito. Por quê?

Durante toda a refeição ela esperou que Sesshomaru puxasse o assunto da viagem à Grécia. Mas mesmo quando Kohaku fez referência à Páscoa, ele não aproveitou a chance.

Foi Kagome quem convidou os homens a entrar para tomar café, depois que Sesshomaru os levou de volta a Montrose, em seu carro.

— Quer que eu faça o café, Rin? — perguntou Kagome.

— Não, eu farei — disse Rin imediatamente. — Vamos toma-lo no estúdio. Quer trazer o aquecedor elétrico da sala de estar, por favor, Kohaku? Não quero acender o fogo de carvão só por meia hora.

Sozinha, na cozinha, Rin se sentiu deprimida. Representar durante o jantar tinha sido mais fácil do que ela pensava. Para prolongar sua pequena folga, resolveu moer um pouco de grãos de café torrado que havia comprado uma semana antes. Colocava os grãos no moedor quando a porta se abriu e Sesshomaru entrou na cozinha.

— Posso ajudá-la em alguma coisa? Ela conseguiu disfarçar o seu desânimo.

— Acho que não é necessário, obrigada, sr, Taisho — e começou a girar a manivela do moedor.

— Parece um trabalho duro. Deixe que eu o faço. — Aproximou-se da mesa e estendeu a mão, tomando a manivela. — Foi uma noite agradável. Precisamos promover um novo encontro desse tipo, os quatro — disse ele com voz macia. A manivela girava facilmente na sua mão.

— Sim, foi uma noite agradável — concordou ela, com insinceridade. Ele teria de fazer muito mais do que aquilo, se desejasse irritá-la.

— Vejo que você não está usando um anel — disse ele mas não deve demorar muito para anunciar o seu noivado.

— Meu noivado? — repetiu ela encarando-o. — De onde tirou essa ideia?

Suas sobrancelhas claras ergueram-se um pouco.

— Talvez eu tenha observado mal, ou talvez a senhorita deseje mante-lo em segredo por enquanto. Nesse caso, peço-lhe desculpas. Não foi minha intenção embaraçá-la.

Nem tanto, pensou Rin. Em voz alta, disse:

— Kagome lhe disse alguma coisa sobre isso?

— Não, não, ela tem sido muito discreta. Mas disse que a senhorita e Kohaku são amigos chegados há algum tempo. Foi minha conclusão a de que a senhorita tinha, como dizem, um entendimento com ele.

— Compreendo — disse Rin, pensando rápido. Será que ele havia realmente tirado essa conclusão? Ou era um novo truque?

— Acho que o senhor não acredita em amizade entre homens e mulheres — prosseguiu ela calmamente. — Mas isso é tudo que existe entre Kohaku e eu. Não há nenhuma perspectiva de noivado.

— Talvez não do seu lado. Mas pode estar certa a respeito dos sentimentos de Kohaku? Se ele não a achar atraente, deve ser um cara estranho.

Rin conseguiu controlar sua voz e sua expressão. Mas não pode evitar o rubor que lhe cobriu o rosto.

— Mas achar alguém atraente não é o mesmo que desejar passar a vida com essa pessoa.

— Isso é verdade. É possível ser atraído por alguém que, em outros aspectos, se detesta.

Será que ele estava sugerindo, de novo, que sentia atração por ela? Rin se eriçou. Mas desta vez não mostrou sua indignação.

— Isso pode acontecer a pessoas muito jovens e suscetíveis disse ela, mais ou menos contente com sua indiferença. — Mas duvido que um charme superficial cause muita impressão em pessoas mais maduras.

Ele tirou a gaveta do pequeno moinho e entregou-a a Rin.

— Então, não é por causa de Kohaku que a senhorita não está

querendo ir à Grécia na Páscoa?

Ah!, pensou ela. Até que enfim, chegamos ao ponto!

— Não, não é por isso — respondeu em voz alta. — Não tem

nada a ver com Kohaku.

— Nesse caso, talvez eu possa persuadi-la a mudar de ideia. Será que Kagome disse que você e ela não seriam minhas únicas hóspedes?

— Sim, ela disse que seria um grupo.

— Bem, o que poderia ser mais conveniente? — perguntou ele com um sorriso. — Você mesma deve admitir que há segurança nos números.

— Depende dos números — disse ela, com um toque de aspereza.

— E você acha que meus amigos possam ser mais decadentes do que eu? — ele ria. — Está completamente enganada, asseguro-lhe. Meus outros convidados são todos de probidade irreprovável. Kagome pode achá-los meio chatos, mas você gostará deles. — Fez uma pausa para acender um cigarro. — Eu posso não falar a sua linguagem acrescentou ele provocando -, mas os meus três outros convidados ingleses se ajustarão perfeitamente a você.

Essa alusão à conversa que tiveram no estúdio fez o rosto de Rin esquentar novamente. Voltando-se para pegar suas melhores xícaras de porcelana, ela perguntou:

— Onde fica, exatamente, sua residência na Grécia?

— Fica numa pequena ilha chamada Marina. Chega-se lá através de navio, que sai de Piraeus. Se vocês decidirem ir, vou encontrá-las no aeroporto e as levarei para a ilha. Sem um conhecimento superficial de grego, podem sentir-se perdidas. Uma primeira viagem ao exterior é sempre um pouco atrapalhada. -Esperou que ela dissesse alguma coisa, depois prosseguiu. — Tenho uma razão especial Para desejar que você vá.

Olhando-o de relance, ela notou que, pela primeira vez desde que se conheceram, o seu semblante estava sério. Achou mesmo que ele parecia austero.

— Que razão, sr. Taisho?

Um sorriso iluminou-lhe os olhos.

— Seria prematuro fazer uma declaração de intenções neste momento — disse ele calmamente. — Mas talvez se tranquilizasse se eu lhe disser que, desde a primeira vez que nos encontramos, eu... digamos. . . mudei a minha melodia.

— O senhor quer dizer. . .

— Quero dizer que, daqui por diante, a reputação de sua irmã, estará tão segura comigo, como a sua com o digno Kohaku disse ele, parafraseando Kagome.

— Compreendo.

Houve uma pausa, Sesshomaru fumava e a observava. Rin colocava as xícaras azuis e brancas na bandeja e tentava pôr ordem em suas reações conflitantes.

— Em vez de se tranquilizar, você parece mais preocupada. Não acredita em mim, não é verdade?

— Sim, acho que acredito no senhor — disse ela olhando-o de relance, sem esconder a sua perturbação. — É que eu não. . .

— Bem, não vamos entrar nesse assunto agora — interveio ele, imediatamente. — O café está quase fervendo.

— Oh! Deus! — Ela apressou-se a desligar o gás.

Quando a bandeja ficou pronta, ele a pegou e dirigiu-se para a porta.

— Consegui fazê-la mudar de ideia? Você irá à Marina no próximo mês? — ele perguntou.

Ela evitou-lhe os olhos.

— Parece que devo ir — disse vagamente. — Muito bem, sr. Taisho. irei.

— Neste caso, acho melhor começar a tratar-me por Sesshomaru e por você. Posso, também, começar a tratá-la pelo primeiro nome?

— Se você quiser.

— Bom. Combinado. — Ele deu um passo para a frente e em seguida parou de novo. — A propósito, acho uma excelente medida manter Kohaku meio à distância. Ele pode ser um ótimo amigo, mas, em termos de amor, não é, de jeito nenhum, o seu tipo.

Na semana seguinte, a satisfação inicial de Kagome pela capitulação da irmã já não era tão grande. Rin havia concordado na parte mais importante, mas continuava renitente em pequenos detalhes, tais como quanto Kagome podia gastar em roupas para as férias.

Quando decidiram resolver essa questão, Rin já tinha a escrivaninha francesa devidamente valorizada. O representante da firma que ia consultou garantiu que, se a peça fosse levada a leilão, alcançaria mínimo quinhentas libras. Então Kagome achou que podiam esnobar um pouco. Rin, entretanto, tinha outras ideias.

— Não, vamos gastar só o que temos no banco e talvez não seja necessário vender a peça. Quando voltarmos vou falar com o gerente do banco, para conseguir um empréstimopara a pintura da casa. Ele provavelmente não cederá, mas vou tentar.

Quando voltarmos, é possível que eu esteja noiva — disse Kagome. — Então dinheiro não terá mais nenhuma importância. Acho que você está sendo mesquinha, Rin. Você sabe que tudo depende dessas férias. Não posso ir à Grécia com as roupas que tenho. Você pode apostar a sua vida que os outros convidados estarão estonteantes. Quero parecer ainda mais estonteante.

Mas desta vez Rin estava intransigente.

— Você pode gastar cinquenta libras — disse ela, decidida. O que você usar não vai influenciar Sesshomaru. Se ele realmente tem intenções de se casar com você, suas roupas não farão nenhuma diferença.

— Cinquenta libras? Isso não é nada hoje em dia. Que posso comprar com cinquenta libras?

— Você ainda tem muita roupa.

— São roupas do ano passado. Saíram de moda. Quanto você vai gastar?

— Cem libras — disse Rin, calmamente.

— O quê? O dobro do que está me oferecendo! Por que você vai ficar com a parte do leão?

— Porque o seu guarda-roupa está abarrotado e você é linda e se sobressai com qualquer roupa. Não sou linda e meu guarda-roupa está praticamente vazio.

— Mas se não fosse por mim, você não iria! Você não tem o direito de gastar mais do que eu. Isso não está certo.

— Oh! Deixe de criancice, Kagome! Você não está pensando que estou louca para ir, está? De sã consciência, estou odiando cada minuto dessa viagem. Mas, se tenho que passar duas semanas numa situação intolerável, acho que tenho o direito de umas poucas roupas apresentáveis.

Dois dias antes do encerramento do período letivo. Rin chegou em casa no momento em que o telefone chamava. Quase sem fôlego, pois correra para evitar uma chuva que ameaçava, ela ergueu o fone.

— Rin?

— Sim. Quem é? — No começo não reconheceu a voz no outro lado da linha.

— É Sesshomaru. Você não parece muito contente em ouvir-me. Estou telefonando num momento inoportuno?

— Não. Estou acabando de chegar em casa, do trabalho. Em que posso ser útil?

— Eu é que estou tentando saber se lhe posso ser útil em alguma coisa. Soube pela Kagome que vocês já fizeram todos os planos. Gostaria de checá-los com vocês.

— Não houve muita coisa a fazer. Está tudo certo, obrigada. Quando vai partir para a Grécia?

— Amanhã. Já que tudo está bem, eu encontrarei vocês no aeroporto de Hellenikon, na quinta-feira de manhã. — Ela ouviu uma risadinha baixa. — Agora que você já teve tempo de se acostumar com a ideia, está se sentindo um pouco mais entusiasmada?

— Vai ser maravilhoso ver um céu azul, para variar.

— É só isso que você almeja? — Poderia ter sido um truque de ligação pois, de repente, a voz dele passou a soar como se ele estivesse ao lado dela, no hall. O tom estava também muito diferente. Mais profundo, estranhamente perturbador.

— Vou me deliciar nadando, também.

— Tenho certeza de que deseja muito mais do que isso.

— Não sei onde quer chegar.

— A maioria das moças vai para as férias esperando encontrar um homem, não é verdade? Será que você é tão diferente das outras?

Rin não respondeu.

— Não sei se você sabe. -Ela sentiu a voz dele pertinho do seu ouvido. — Acho que em Marina você vai sentir que a verdadeira Rin é muito diferente da senhorita Hirugashi, a professorinha arrogante.

— Bem, se eu sentir, não será através de você — disse ela irrefletidamente. No momento em que essas palavras saíram, ela se arrependeu.

— Veja, essa é uma observação curiosa — disse ele. Depois de uma pausa. — Tenho que desligar agora. Você me explicará isso quando nos encontrarmos. Até lá.

O voo para Atenas era às onze horas da noite e Miroku ia levá-las para o aeroporto no seu carro. Depois de lavar a louça do jantar e verificar que todas as janelas do andar térreo estavam trancadas, Rin trocou de roupa e subiu para passar o tempo com Sango.

— Oh! Você está linda — disse a amiga ao vê-la nas suas roupas novas.

Miroku entrou na sala e não pode conter o elogio:

— Puxa, como você está linda! Nunca a vi tão elegante.

— Verdade? — Seu semblante iluminou-se. Miroku era o tipo de homem que raramente notava o que as mulheres usavam. Elogio da parte dele era para valer.

Inesperadamente, Kagome chegou. Ela não tinha visto o vestido cor-de-rosa da irmã e suas sobrancelhas se ergueram:

— Nossa! Que cor viva — observou ela em tom de crítica.

— Sim, mas fica bem para ela — disse Sango.

— Hum! É lindíssimo — disse Kagome, pouco animada.

Sango teve vontade de lhe dar umas palmadas, mas Rin sabia que a irmã ainda estava ressentida por não poder gastar tanto quanto queria. Não podia esperar que Kagome se entusiasmasse com as suas compras. Finalmente chegou o momento da partida.

Embora tivesse maus pressentimentos a respeito do propósito e do

resultado das férias, Rin não pôde deixar de sentir uma grande excitação ao pensar que, em poucas horas, estaria num país estranho e lindo. Viajar tinha sido o seu grande sonho, sempre. E ela mal acreditava que isso estivesse acontecendo realmente.

Kagome cochilou durante a maior parte do voo, como a maioria dos passageiros. Rin não conseguiu dormir. Para ela, era uma experiência mágica. Voar à noite. . . passar sobre os grandes Alpes. . . dirigirse para o sul, para as praias do Mediterrâneo, como poderia alguém dormir, em tal circunstância?

O avião desceu às quatro da manhã. Depois da atmosfera fechada, o ar lá fora parecia quase tão frio quanto o da noite de abril que haviam deixado em Londres.

— Onde está Sesshomaru? — disse Kagome, ansiosa, depois que passaram pela alfândega. Não havia nenhum sinal dele. Esperaram durante alguns minutos. Depois Rin notou:

— Ali há um balcão de informações. Se ele estiver atrasado por alguma razão, terá telefonado. Talvez tenham algum recado para nós.

Mas não havia nenhum recado. Depois de meia hora, Rin sugeriu:

— Não adianta a gente ficar esperando aqui. Vamos ao restaurante tomar um café.

— Quero gastar um penny — disse Kagome, no restaurante. . . Foi à toalete, deixando Rin pensando no que fariam se Sesshomaru não aparecesse nos próximos instantes.

— Senhorita Hirugashi? — perguntou uma voz masculina.

— Sim — disse ela, erguendo os olhos. Mas o homem que se aproximara não era um funcionário do aeroporto.

— Meu nome é Bankotsu Tyroupolos. Sesshomaru mandou-me encontrá-las. Infelizmente houve um pequeno acidente no trajeto, por isso me atrasei Peço desculpas. Sei que não é agradável chegar numa cidade estranha, e não encontrar ninguém para dar as boas-vindas. A senhorita está desapontada, posso ver no seu rosto. Por favor, aceite minhas desculpas.

— Sim. . . Claro — disse Rin, meio confusa pois, além dele ter segurado as suas mãos, falando muito depressa e com ênfase dramático, Bankotsu Tyroupolos era o jovem mais simpático que ela já tinha visto. Ainda segurando-lhe as mãos ele se sentou à mesa e sorriu.

— Quer dizer que a senhorita é a encantadora Kagome. Mas onde está sua irmã. . . Rin, não é?

— Eu sou a Rin, Kagome estará aqui agora mesmo.

— A senhorita é a Rin? — disse ele admirado. — Mas o Sesshomaru disse que Kagome era a irmã encantadora e Rin a inteligente.

— Na verdade, ele disse a feia? Pensou ela com desgosto.

— É isso mesmo — disse em voz alta. — Kagome é lindíssima.

— Ele ainda parecia espantado.

— Como pode ser? A senhorita é encantadora. — Ele pressionava seus dedos e dirigia-lhe olhares tão enamorados que, por um instante, ela quase chegou a acreditar que ele falava a verdade. — Se a sua irmã for mais linda do que a senhorita, só pode ser uma deusa.

— Bem, veja com seus próprios olhos — disse Rin, mostrando Kagome que se aproximava. Bankotsu voltou-se para ver e ela rapidamente afastou as mãos, encolhendo-as sobre o seu colo.

Bankotsu levantou-se. Mas com a cabeça agora afastada dela, Rin não conseguia notar se havia uma expressão mais ardente nos seus olhos escuros, de longas pestanas.

— Este é o sr. Tyroupolos, Kagome. Sesshomaru mandou-o encontrarnos, mas ele se atrasou.

— Muito prazer — disse Kagome. Foi a primeira vez que Rin a viu cumprimentar um homem com expressão desconcertada. Realmente, por um ou dois segundos, ela o encarou quase acanhada.

Bankotsu estendeu-lhe a mão:

— Bem vinda à Grécia, senhorita Kagome. Lamento que sua chegada no país tenha sido estragada pela estupidez do chofer que bateu no meu táxi.

— Tudo bem! — disse Kagome, sentando-se. — Por que Sesshomaru não veio ao nosso encontro?

Bankotsu também se sentou. Agora Rin via-lhe os olhos de novo. surpresa, notou que em vez de olhar para a irmã com enlevada admiração, ele tinha apenas uma expressão de cavalheirismo.

Infelizmente houve um outro acidente em Marina esta tarde. Isto é, ontem à tarde — corrigiu ele. — Como ele teve de ficar para colocar ataduras em Keira, mandou-me em seu lugar.

— Quem é Keira? — perguntou Kagome.

— É a filhinha mais jovem da minha prima Abbe. Tem apenas seis anos de idade. Por isso, naturalmente deve ter-se assustado bastante quando a tesoura penetrou-lhe no braço, e sangrou bastante.

Rin lembrou que Sesshomaru havia dito que o nome do seu avô era Tyroupolos.

— Sesshomaru também é seu primo? — perguntou.

Ele voltou-se para ela tão ansiosamente que, uma vez mais, ela foi surpreendida.

— Sim, é — confirmou ele sorrindo. — Meu pai e a mãe de Sesshomaru eram irmãos. Bem, agora vocês devem estar cansadas e precisam descansar antes do cruzamento para Marina. Vou levá-las para Atenas.

O trajeto do aeroporto ao centro da cidade era de vinte minutos. Bankotsu sentou-se na frente com o motorista e falou em grego, muito rápido. As irmãs se sentaram atrás, em silêncio, ambas mais ou menos admiradas pela inesperada presença daquele autêntico Adónis em suas vidas. Quando o táxi parou, Rin notou aterrada que estavam diante de um hotel de luxo.

— Em dez minutos as senhoritas estarão numa confortável cama, dormindo — disse Bankotsu, ajudando Rin descer.

— Mas isso é necessário? Refiro-me a ir para a cama. A que horas parte o navio para Marina? Não podemos descansar na sala de estar? — sugeriu Rin, ansiosa.

Por imprudência, talvez, sem considerar a hora da chegada, ela não havia planejado o gasto para o que restava da noite, num hotel.

— O navio parte de Piraeus ao meio dia — disse ele. — Por isso há tempo para as senhoritas descansarem. Não se preocupe. Tudo está arranjado. Serão chamadas às nove horas, tomaremos café juntos e talvez possamos dar um pequeno passeio pela cidade.

Rin estava muito cansada para argumentar. O problema de pagar o hotel tinha que ser adiado para amanhã. Sem outra objeção, concordou que ele as conduzisse para dentro.

Assim que assinou o registro no balcão, foram conduzidas a um quarto duplo bem mobiliado, com vestíbulo e banheiro reservado.

Bankotsu fez sinal ao carregador para subir as malas e despediu-se delas. Olhando para Rin, ele sorriu suavemente.

— Até amanhã. Durma bem, linda Rin.

Quando Rin acordou, résteas de luz entravam através das cortinas. Consultando o relógio, verificou que eram sete horas. Embora tivesse dormido pouco mais de duas horas, estava sem sono, ansiosa para começar seu primeiro dia na Grécia.

Rapidamente, tomando cuidado para não acordar Kagome, levantou-se e foi olhar pela janela, a cidade ensolarada.

Percebendo que não conseguiria ficar na cama até às nove hora tomou um banho quente, fez sua maquilagem, vestiu-se, e deixou um recado escrito a Kagome, que dormia profundamente.

— Kaliméra Kyrie — disse, experimentando, ao ascensorista, quando o elevador chegou.

Um largo sorriso iluminou-lhe o rosto.

— Kaliméra, Thespointa. Ti kánete? — Mas ela não entendeu esta última palavra.

Desde que decidiu fazer a viagem de férias, Rin travou verda deira luta para estudar o grego sozinha.

— Kalá-ke aia? — perguntou ela, esperando que sua pronúncia estivesse correta. Evidentemente não estava tão má. Ele riu e abanou a cabeça aprovativamente:

— Muito boa. . . muito boa. . .

Ele ainda sorria quando pararam num outro andar. Quando a porta se abriu, Rin ficou surpresa ao ver Bankotsu esperando do lado de fora.

— Rin, que está fazendo fora da cama tão cedo? — exclamou ele, igualmente surpreso.

— Bom dia! Eu estava muito excitada para dormir, E resolvi dar um passeio por perto, sozinha.

Ele entrou no elevador.

— E a sua irmã? Está dormindo ainda?

— Sim, e não acho que vá acordar agora.

O elevador chegou ao térreo e o ascensorista, voltando-se para Bankotsu disse alguma coisa que Rin não conseguiu entender.

— O que ele disse?

Bankotsu sorriu e passou a mão sob o cotovelo dela.

— Ele disse que não é comum um visitante inglês falar o nosso idioma, especialmente uma moça jovem e bela como você.

— Acho que a última frase é por sua conta.

— Não, não inventei. A senhorita precisa compreender que os homens gregos não são como os ingleses. Não somos empertigados, medrosos de mostrar o que sentimos. Enquanto estiver aqui, muitos homens vão demonstrar, com o olhar, que gostariam de fazer amor com a senhorita. Não se aborreça com isso.

No fundo, não há má intenção. É a nossa maneira de ser.

Chegaram ao restaurante do hotel. Um garçom conduziu-os a uma mesa e Bankotsu pediu a primeira refeição.

— Como é que o senhor fala um excelente inglês, senhor Taisho? — perguntou Rin.

Senhor Taisho, não. . . Bankotsu, por favor.

— Está bem, Bankotsu, então.

— Aprendi com Sesshomaru — explicou ele. — E trabalhei durante um ano na Inglaterra. Foi uma experiência vital, mas não gosto do seu clima inglês. Para mim só existe um lugar Dom para se viver: Marina. Graças a Sesshomaru tornou-se possível para mim permanecer lá agora.

— Por que graças a Sesshomaru?

— O povo da minha ilha sempre foi muito pobre. O mesmo acontece com a maioria das outras ilhas. Hydra e Mykonos recebem muitos visitantes no verão, mas mesmo assim existe uma grande pobreza. Para que um homem consiga se realizar na vida é obrigado a deixar sua terra e trabalhar em outros países. Talvez a Inglaterra, ou países longínquos, como os Estados Unidos. Primeiro Sesshomaru pagou para que eu tivesse uma boa educação. Agora ele me emprestou dinheiro para comprar um pequeno hotel em Marina. Isso não só é uma chance para que eu prospere, como abre oportunidades de trabalho para outras pessoas.

— Compreendo — disse Rin pensativamente. Ela deveria ter sentido prazer ao saber que Sesshomaru tinha um lado filantrópico mas, no fundo, a descoberta preocupou-a.

O garçom trouxe a refeição. Rosquinhas francesas, mel do Monte Hymettos e café com leite. Bankotsu explicou que aqujio em grego era ghalikb kafé, servido apenas a pedido. Mas ele imaginou que talvez ela não gostasse de café grego, semelhante ao turco, de manhã tão cedo.

Para Rin, aquelas primeiras duas horas de sol matinal na Grécia eram um intervalo inesquecível em sua vida preocupada e cheia de incertezas. Assim que terminaram o desjejum, Bankotsu levou-a para dar uma volta pela cidade. Não teve necessidade de buscar o seu casaco porque, mesmo àquela hora da manhã, o dia estava bastante quente.

Pelas oito horas todas as lojas estavam abertas e as ruas fervilhando de tráfego. Para um viajante experimentado, o centro de Atenas poderia parecer igual ao de qualquer capital. Mas para os olhos de Rin era completamente diferente, principalmente o céu, de um azul brilhante.

— Será que há tempo para uma visita ao Parthenon, antes da nossa partida? — disse ela, caminhando de mãos dadas com Bankotsu.

— Não, mas acho que Sesshomaru tem um plano de trazê-las para conhecer as antiguidades.

Rin parou, deslumbrada.

— Olhe que coisa maravilhosa para se ver! — Marchando na direção deles, um homem de bigode grisalho puxava um burro carregado de cestas de flores.

Bankotsu largou-lhe a mãa e antes que ela pudesse adivinhar a sua intenção, ele estava abordando o vendedor de flores para comprar algumas. Instantes depois ela sobraçava um punhado de flores coloridas.

— Oh! Bankotsu, como são lindas! Mas que extravagância! — protestou, desarmada de prazer.

— Ena penindári, uns poucos pences — respondeu ele, erguendo os ombros. — Vale muito mais vê-la sorrindo, linda Rin.

Ela riu, enrubesceu e mergulhou o nariz nas flores. Sabia muito bem que ele estava apenas flertando. Ele mesmo já a havia prevenido que seus compatriotas eram desinibidamente amorosos. Contudo, não podia deixar de se sentir eufórica ao ser trata com galanteios por aquele jovem grego tão simpático.

Passava um pouco das nove quando voltaram ao hotel. Mal haviam entrado no saguão, Kagome veio correndo na direção deles, mostrando que estava chateada.

— Onde você esteve? — perguntou, olhando para o ramalhete de flores de Rin.

— Dando um passeio. Acordei cedo, desci e encontrei Bankotsu. Você acordou há tempo?

— Às oito horas — disse Kagome acremente.

— Bom dia, senhorita Kagome. Dormiu bem? — perguntou Bankotsu, polidamente.

Pela segunda vez Rin notou que não havia admiração nas maneiras dele. Sua atitude era a de um cavalheiro, gentil mas indiferente.

— Sim, obrigada — disse Kagome quase encolerizada. Ela ainda não havia tomado o café da manhã e o restaurante estava lotado. Bankotsu sugeriu que talvez fosse melhor toma-lo no quarto.

— Ver-nos-emos mais tarde, na hora da partida, disse ele a Rin.

— Com licença agora. — E afastou-se para tratar de um negócio.

Kagome não disse nada enquanto subiam, mas Rin sentiu que haveria uma explosão assim que estivessem a sós.

E houve. Mal Rin fechou a porta, Kagome virou-se furiosa.

— Muito obrigada. Não há nada que eu deteste mais do que ficar andando feito trouxa num hotel estranho, sendo aborrecida por homenzinhos ensebados.

— Não vi ninguém ensebado lá em baixo — disse Rin calmamente. — Pelo que pude notar, a maioria é de homens de negócios mais ou menos idosos, e turistas americanos.

Desculpe-me, Kagome apressou Rin a dizer, para evitar nova explosão. — Não pensei que você fosse acordar antes de ser chamada e deixei um bilhete.

— Você não disse que ia sair com Bankotsu.

— Eu não sabia. Encontrei-o no elevador, quando descia.

— Por que ele lhe deu todas essas flores? Você não pode levá-las ao navio.

— Não, acho que não. Vou dá-las à camareira. Deixarei apenas uma para colocar no meu casaco. Não são lindas? Você quer uma?

— Não, obrigada.

— Não seja rabujenta, Kagome. Você não tem razão para isso. Não vamos estragar nosso primeiro dia aqui, com discussões.

— Oh! Então você mudou de ideia? Está contente por ter vindo, agora que o encontrou?

Rin ignorou a observação.

— Você não acha melhor telefonar pedindo o seu café da manhã?

— Nunca pensei que você pudesse ser tão tola — disse Kagome, cheia de rancor. — Você está caidinha por ele, não está? Chegou toda rubra, com os olhos brilhantes.

Bem.. . bem. .. quem haveria de pensar? Depois de todos os discursos que me fez dizendo que a aparência não era importante, entrega o coração ao primeiro homem de boa aparência que já a notou.

Se Kagome desejava enfurecer a irmã, não o conseguiu. Rin considerou aquela explosão apenas como o acesso caprichoso de uma garota de mau humor, deixada de lado numa circunstância.

— Bem, e se eu estiver? Você não vai esperar que eu esteja o tempo todo acompanhando você e o Sesshomaru, vai?

Kagome se surpreendeu. Era verdade que Rin voltara para o hotel com um sorriso nos lábios, mas ela não acreditava realmente na acusação que acabava de fazer.

— Você não está realmente caída por ele, está? — perguntou, alarmada. Rin reprimiu um sorriso.

— O que é isso? Eu o encontrei há algumas horas apenas. Mas ele é verdadeiramente fabuloso, você não acha? E parece que gostou de mim. — Fez uma pausa e começou a colocar as flores num vaso que estava sobre a escrivaninha. — É possível que eu me apaixone por ele. Sim, acho isso bem provável.