Inveja

Eu só quero estar no teu pensamento

Dentro dos teus sonhos e no teu olhar

Botan ainda não podia acreditar que Hiei aparecera para salvá-la quando gritara. Era óbvio que sempre sonhara que o youkai a salvasse. Ele sempre estava em seus pensamentos. Até mesmo naquele, em que pensara ser seu último momento de vida. Mas de repente ele aparecera e a pegara em seus braços para evitar que o youkai a esmagasse com apenas um soco. Seu cavaleiro de armadura brilhante.

Ainda se lembrava de como se sentira protegida nos braços dele. Como tocara de leve seus cabelos quando o envolvera pela nuca com seus braços. Pudera sentir o cheiro dele quando escondera seu rosto em seu peito. Estava quase chorando de verdade, mas não porque quase morrera. Chorava de felicidade, pois o youkai que amava a salvara. Sentia-se um pouco idiota por estar tremendo daquele jeito, mas não conseguia evitar. Era como realizar um sonho estar tão perto dele.

Sem conseguir se conter, lhe dera um abraço quando ele a colocara no chão. Não importava se ele a odiasse. Queria lhe dar um abraço e o faria. Queria que ele soubesse que o amava. Mas Hiei a afastara de si rapidamente como se não pudesse suportar sua presença.

A atitude dele a magoara muito. Sentira-se incrivelmente triste durante alguns dias e, embora, já houvesse se passado muito tempo desde aquele dia, ainda se entristecia ao se lembrar daquela cena. Ao menos agora podia ficar feliz, pois seu relacionamento com Hiei melhorara bastante desde então.


Tenho que te amar só no meu silêncio

Num só pedacinho de mim

Na festa de natal tivera que ser muito paciente para conseguir se aproximar dele. Conversara bastante com todos para que ele não achasse seu comportamento estranho e se afastasse, como quase sempre fazia. Não que não gostasse ou não quisesse conversar com seus amigos, mas o único momento em que podia tentar se aproximar dele era nessas reuniões... Quando ele aparecia.

Sabia que devia se manter longe dele, afinal Hiei sempre a ameaçara e intimidara, mas não conseguia apagar o que sentia por ele. Queria, ao menos, trocar algumas palavras com ele. Aproveitara que ele não fugira dela e lhe perguntara tudo que queria saber. Se ele estava bem, o que andara fazendo, por que sumira; mas a pergunta mais importante não tivera coragem de proferir. Com quem ele passava seus dias? Será que havia algo entre ele e aquela youkai de quem ouvira falar? Acabara deixando escapar que todos sentiam sua falta, embora quisesse dizer que ela pensava nele todos os dias e sempre rezava para que estivesse em segurança.

Amava todos os seus amigos, mas a presença deles não poderia suprir a ausência que Hiei deixava. Mesmo que nunca sorrisse para ela, mesmo que não gostasse de sua presença, o fato de ele estar por perto a tranqüilizava. Quando o relógio bateu a meia noite, ela ainda estava conversando com ele. Estava insegura sobre o que queria fazer, mas, por fim, tomou coragem e o abraçou.

- Feliz natal, Hiei. – Ela o abraçara apertado. Não sabia quando teria outra oportunidade como essa e queria lhe passar todo o amor que sentia por ele naquele abraço.

- Hm. Feliz natal, onna. – O koorime respondeu envolvendo as costas dela com um de seus braços. Botan ficara surpresa, mas queria pular de alegria. Não esperava por uma resposta ou por um abraço da parte dele, ainda mais tendo em vista como ele reagira na última vez em que ela lhe abraçara.

Ficaram abraçados por poucos segundos, mas ela pudera sentir o rosto dele contra seu pescoço. Aquilo fora uma benção e um tormento. Botan sabia que Hiei era livre demais para pertencer a ela, mas não podia deixar de desejar que assim fosse.


Eu daria tudo pra tocar você

Tudo pra te amar uma vez

Mesmo todo o tempo que passavam afastados, não fazia com que seus sentimentos diminuíssem. Sentia a necessidade de vê-lo constantemente, mesmo que não pudesse ser possível. Gostaria de saber se estava tudo bem com ele, se estava se alimentando e se cuidando. Sabia que ele era um youkai durão e, por isso mesmo, imaginava que ele não se preocupasse muito com a própria saúde.

Muitas vezes achava que o via no Ningenkai, pelas ruas em que passava. Sabia que só podia ser uma alucinação, já que ele, com certeza, estava muito longe dela, mas desejava tanto vê-lo que sua mente lhe pregava truques. Era muito triste estar apaixonada por uma pessoa que nem sequer a notava ou se importava com sua existência.

Já me conformei, vivo de imaginação

Só não posso mais esconder

Era inevitável que Kurama percebesse tudo. Ele era o melhor amigo de Hiei. Era óbvio que notaria que ela estava olhando demais para ele nas reuniões e que sempre tentava se aproximar. Kurama tentara convencê-la a se abrir com Hiei, mas, só de pensar em como ele a empurrara na primeira vez em que o abraçara, a jovem sentia um calafrio percorrer seu corpo. Se aquilo acontecesse novamente e em um nível pior, Hiei quebraria seu coração e talvez não houvesse mais conserto. Não poderia suportar se ele a olhasse com desdém ou a desprezasse.


Que eu tenho inveja do sol que pode te aquecer

Eu tenho inveja do vento que te toca

Tenho ciúme de quem pode amar você

Quem pode ter você pra sempre

Botan se perguntava o que o levava a ficar olhando para ela o tempo todo nas últimas vezes em que se reuniram. Será que ele suspeitava de alguma coisa? Será que Kurama lhe dissera o que ela sentia por ele? Afinal eles eram amigos, deviam conversar sobre tudo.

Não que ela não gostasse daquela troca de olhares que existia entre eles. Era algo muito especial para ela e, aparentemente, era algo que só acontecia entre eles. Nunca o pegara olhando para outras pessoas além dela. Apesar disso, não nutria esperanças de que seu amor fosse correspondido. Sabia que, mesmo que trocassem olhares, isso, provavelmente, não significava nada demais para o koorime.

Queria tanto tocá-lo e sentir seu toque em seu corpo. Queria beijá-lo e falar sobre tudo o que não tinha coragem de expor a ele. Será que algum dia teria coragem para tanto?


Eu daria tudo pra tocar você

Tudo pra te amar uma vez

Já me conformei, vivo de imaginação

Só não posso mais esconder

Algo estava errado. Hiei estava partindo e não lhe lançara seu costumeiro olhar de despedida. O que isso significava? A jovem sentia um aperto em seu coração. Não poderia deixá-lo partir desse jeito. Tinham que se despedir de alguma maneira.

- Espere, Hiei. – Ela pediu indo atrás dele, após se despedir de seus amigos. Precisava descobrir o que estava acontecendo. Hiei parou de andar e esperou por ela. – Posso ir andando com você? – Ela perguntou sorridente quando parou ao lado dele. – Esperava que ele não se negasse. Não saberia como reagir a isso naquele momento.

- Hm. – O koorime respondeu com um dar de ombros e ela sentiu um alívio percorrer seu corpo. Ao menos teriam uma oportunidade de conversar e ela talvez descobrisse o que estava acontecendo.

- Obrigada. – Botan respondeu ainda sorrindo e os dois passaram a andar lado a lado. Kurama deu um pequeno sorriso ao ver o casal se afastar do grupo. Esperava que tudo se resolvesse entre eles. – Por que você estava saindo desse jeito? Nem sequer se despediu de mim. – O koorime olhou para ela pelo canto do olho, desconfiado. Botan sentia seu coração acelerado. Será que falara demais?

- Eu nunca me despeço de você, onna. – Respondeu emburrado.

- Claro que se despede. – Ela insistiu. – Você sempre olha para mim uma última vez antes de sair. Essa é a nossa despedida. – Hiei parou de andar e ela também parou logo a seguir. Voltou-se para ele com receio de sua reação ao que ela dissera.

- Você notou isso? – Ele perguntou. O rosto dele ficara vermelho. Ela podia notar que ele estava constrangido.

- Claro que notei, Hiei. É a nossa despedida. – A jovem respondeu tranquilamente. Ou pelo menos, esperava que ele pensasse assim. Por dentro, estava angustiada. – Achei que você não queria que eu tocasse no assunto. – Ela disse ficando um pouco envergonhada. – Achei que fosse uma coisa nossa, mas que não deveríamos comentar, assim como nas vezes em que nos olhamos. – Hiei se aproximou dela, encarando-a de perto.

- O quê? – Perguntou incerto. Essa não. Agora ela, definitivamente falara demais. Botan olhou para o chão, mais envergonhada.

- Os olhares que trocamos... – Ela explicou mexendo na terra com o pé. Não tinha coragem de encará-lo. – É uma coisa nossa. – Hiei segurou-a pelos ombros, com gentileza, e ela teve que encará-lo, corada. Seus rostos estavam a poucos centímetros de distância.

- Por que nunca falou nada?

- Eu pensei que você ia parar de fazer isso se eu dissesse alguma coisa. Achei que você ia se afastar de mim. – Ele parecia confuso. Será que ela se enganara sobre tudo? Talvez tudo não passasse de algo que criara em sua própria mente. Não, não podia ser verdade... Ela sabia que havia algo ali. Eles tinham uma conexão. Os olhos de Hiei não se desviavam dos dela nem por um minuto.

- Por que resolveu tocar nesse assuntou hoje? – O koorime perguntou parecendo tão angustiado quanto ela.

- Você não se despediu de mim. – Ela podia sentir algumas lágrimas se formando nos cantos de seus olhos. – Eu achei estranho. Tive um mau pressentimento. Por um momento, achei que nunca mais fosse ver você. – De repente, Hiei aproximou mais seu rosto do dela e a beijou. Botan, como se estivesse hipnotizada, apenas fechou os olhos e se entregou a ele. A jovem sentiu que suas pernas estavam trêmulas e por isso envolveu-o pelo pescoço. Hiei segurou-a pela cintura, sem quebrar o beijo e abraçou-a firmemente. Botan acariciava a nuca dele enquanto se beijavam. Sonhara com aquilo por muito tempo, mas a realidade era bem melhor que seus sonhos. A realidade era melhor que tudo.

Que eu tenho inveja do sol que pode te aquecer

Eu tenho inveja do vento que te toca

Por fim, Hiei se separou dela. Os dois estavam ofegantes. Botan ainda o abraçava e se apoiava contra o corpo dele. Sua cabeça estava encostada no ombro dele. Ela sorria envergonhada. Sentia-se como se estivesse flutuando. Hiei também tinha um pequeno sorriso de canto no rosto. Podia sentir o cheiro dele novamente.

- Hiei... – Ela chamou baixinho.

- Hm? – Jamais imaginara que poderia estar daquele jeito, se apoiando contra o corpo dele, despreocupada.

- Você não vai embora, vai? – A jovem perguntou receosa. Hiei fez com que ela virasse o rosto para ele.

- Não vou a lugar algum, onna. – Botan sorriu feliz e voltou a aproximar seus lábios dos dele. Haveria muitos beijos naquele dia e nos próximos. Se dependesse dela, nunca mais ficaria longe dele. Nunca mais precisaria imaginar como seria senti-lo tão perto de si. Naquele momento se permitia acreditar que o koorime, mesmo sendo livre, podia ser, em parte, seu. Talvez pudesse ser assim pra sempre.

Tenho ciúme de quem pode amar você

Quem pode ter você pra sempre

[Você Pra Sempre (Inveja) – Sandy E Junior]

Início e Término: 09/01/2017.