CALEIDOSCOPIO
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Parte 4 - A Mesma Atitude Pelo Mesmo Motivo
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Já era por volta da meia noite quando uma grande coruja branca entrou pela janela do escritório de Dumbledore, em Hogwarts. Em sua perninha, havia um envelope também branco que trazia um selo feito em cera com o símbolo do hospital St. Mungus. Alvo prontificou-se de imediato a pegar a carta e, sem esperar agradecimentos, a coruja sumiu pela noite na mesma velocidade em que apareceu. A professora Minerva McGonagall e a medibruxa da escola Madame Pomfrey, estavam também no escritório de Dumbledore, inteirando-se e comentando o ocorrido daquela fatídica sexta-feira; estavam todos um pouco apreensivos e ansiosos sobre a tal vítima sobrevivente da maldição crucius kedrava. Alvo olhou-as sobre os oclinhos de meia-lua, com um leve sorriso otimista no rosto.
—Finalmente chegou a notícia que tanto esperávamos.
As duas senhoras apenas se posicionaram na direção do diretor, dando-lhe toda a atenção. Alvo lia primeiramente para si próprio a carta, para passar melhor a idéia antes de que cada uma lesse por si mesma. Conforme ia lendo a breve carta, que foi escrita apressadamente, o rosto de Dumbledore tornou-se um pouco sombrio. Ao terminar, levantou seus olhos na direção de McGonagall e Madame Pomfrey, aguardou alguns instantes para dar a notícia.
—A carta é de Severus e ele nos avisa que a bruxa que enfrentou os comensais neste fim de tarde na Londres trouxa foi realmente acometida pela crucius kedrava, e está agora em tratamento intensivo no hospital. - Alvo faz uma pausa para ganhar forças para dar a pior parte da notícia - a moça está em coma profundo e não se sabe se ela irá se recuperar inteiramente...
Madame Pomfrey pôs a mão sobre o peito, como se quisesse acalmar o próprio coração que bateu descompassadamente naquele instante. Sendo uma medibruxa, ela sabia exatamente do que vinha a ser e o que poderia vir a acontecer a um paciente que entra em coma profundo, sabia que não havia muito o que poderia ser feito num caso desses, pois, por mais que se pesquisasse, até então, nenhum médico ou cientista, seja bruxo ou trouxa, ainda havia descoberto o que acontece de fato a uma pessoa em coma e que sua recuperação era algo totalmente individual, como que se dependesse da escolha do paciente se ele voltaria a despertar ou permanecer assim até o fim dos dias.
Após o breve intervalo para avaliar a reação das duas bruxas diante de si, Alvo inspirou profundamente, para terminar de comentar a carta:
—...Severus também diz que ficará no hospital por tempo indeterminado, estará terminando o desenvolvimento da poção que ele vinha pesquisando há meses com a ajuda de alguns medibruxos e acompanhar o caso de perto... - Alvo baixou seus olhos, quase fechando-os - ... mas lamento muito em dizer que nossos temores se concretizaram... de que a vítima trata-se de Hermione Granger...
Ao ouvir o nome de sua aluna favorita, Minerva levou rapidamente as mãos à boca, como se quisesse conter um grito. Abaixou sua cabeça e cambaleou em direção a uma poltrona; Madame Pomfrey se prontificou em ampará-la imediatamente, temendo que Minerva viesse a desfalecer. Sentada, ainda com as mãos no rosto e os cotovelos apoiados sobre as pernas, grossas lágrimas corriam de seus olhos. Mesmo já tendo idade avançada, mesmo já ter vivido diversas situações angustiantes, mesmo com toda a sua rigidez e segurança, Minerva sentia-se como se tivesse lhe arrancado o coração. Tinha imenso carinho por Hermione, como se a menina fosse parte sua, como se fosse sua própria filha, tanto que ela fora a única pessoa com quem Hermione ainda mantinha algum contato do mundo bruxo, desde que, é claro, o mesmo jamais fosse mencionado. Minerva estava suando frio e pelo seu corpo passava um leve tremor - medo? Dor, talvez?... - Alvo e Papoula ficaram muito apreensivos com o estado em que Minerva se encontrava e ambos a ampararam, levando-a para a enfermaria. Ah, esse foi mesmo um dia difícil...
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St. Mungus - 7:36h - Sábado
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Severus Snape encontrava-se sentado a uma pequena mesinha branca, numa sala simples, mas ornamentada como se fosse uma casa, com poltronas, cadeiras, uma cozinha embutida num canto separada por um balcão, com algumas plantas para dar cor à sala quase totalmente branca e algumas revistas e jornais dentro de um cesto. Acompanhando-o estava um medibruxo com quem havia trabalhado a noite toda no laboratório, preparando a poção para curar os danos da crucius kedrava em Hermione; ambos tomavam café silenciosamente, enquanto o medibruxo lia sobre o ataque dos novos comensais na Londres trouxa no Profeta Diário.
Entre um gole e outro de café, Snape estava perdido em seus pensamentos, agora em velocidade reduzida devido a noite em claro que passou, e também ao estresse devido a todos os fatos ruins que sempre teimam em vir a acontecer todos de uma vez só e em questão de instantes, mal dando tempo para respirar ou tomar ciência do ocorrido. Por um lado, sentia uma ponta de alegria por ter chegado a alguma conclusão com a poção, graças ao auxílio e grande competência dos medibruxos, que fizeram uma avaliação minuciosa do estado clínico de Hermione, que ajudaram e muito em chegar a um consenso sobre a elaboração do antídoto... sentiu orgulho de si mesmo de ver que realmente estava no caminho certo com suas pesquisas. Mas, por outro lado, e que terrivelmente falava mais alto, estavam a apreensão e angústia que lhe ardiam o peito, pois, por mais certo de que estivesse de que a poção faria efeito, pois até então ainda não havia errado em seus prognósticos, uma tenaz ponta de pessimismo fazia-o temer que talvez não desse certo, de que a poção não sanaria os danos causados pela maldição, e, mesmo que fizesse efeito, talvez Hermione não despertasse daquele sono mortal...
"Droga!" - Severus balançava a cabeça como se tentasse desmanchar aqueles pensamentos odiosos, enquanto baixava à mesa a sua xícara quase vazia. "Pensamentos pessimistas é tudo o que a Srta Granger não precisa neste momento! Todos nós chegamos ao consenso que o coma cessaria no momento que seu organismo estivesse livre dos males do feitiço! Ela acordará novamente! Ela voltará para a vida!"
Neste momento o medibruxo, Terry Boot, um rapaz entre seus 25 e 30 anos, baixava o jornal para encarar um cansado e mais pálido ainda Severus Snape.
—Cara... você tá pior do que costuma ser, sua aparecia está péssima, Snape! - o rapaz olhava Snape com um sorriso maroto no rosto enquanto este o jurava de morte com os olhos - de fato, estava esgotado demais para retrucar com palavras.
Em resposta ao olhar de Snape, o medibruxo deu uma leve risadinha e continuou: —Vá pra casa, Snape. Tome um banho, durma um pouco... mais tarde você volta pra nossa adorável companhia.
—Há! Como se eu fosse acatar a ordem de um moleque ex-aluno meu! - Snape esboçou um leve sorriso sarcástico, com os olhos ainda fuzilando o rapaz.
—Não é uma ordem, menos ainda de um moleque ex-aluno seu... - o rapaz levantava-se da mesa e, em pé ao lado de Severus, pôs a mão no ombro do mestre de poções, e terminou numa voz macia e encorajadora: —... é uma recomendação de um medibruxo! Vá descansar um pouco, relaxar. A Srta Granger ficará bem... mas temo que se ela acordar e vê-lo nesse estado ela possa encomar novamente, heheh...
Terry se postou ao lado da porta, aguardando Snape, enquanto este lhe dirigia um olhar mais tenro, como se tivesse se divertido com as palavras do medibruxo.
—É garoto, acho que tens razão... - Snape levantava-se e já estava vestindo o sobretudo negro - mas não vá espalhar isso por aí, senão é o doutor que terá que ser medicado com alguns antídotos anti-maldição... - Snape já estava diante da porta, e Terry apenas levantou os braços em sinal de "pare-eu-me-rendo" e deu um novo sorriso: —Jamais ousaria, senhor!
Terry Boot acompanhava Snape pelos corredores do hospital, talvez para ter certeza de que seu antigo professor iria mesmo embora ou se voltaria novamente para o centro de tratamento intensivo para velar o sono de Hermione, esperando que ela acordasse a qualquer momento. Pelo caminho, Terry ia num monólogo que não despertava qualquer atenção de Severus, que, neste momento, só pensava em chegar em casa e dormir um sono quase tão profundo quanto da Srta Granger. Há alguns anos, como uma forma mais cômoda, para estar mais perto do que acontecia no mundo trouxa, Severus Snape comprou uma casa num bairro residencial perto do centro de Londres. Não era nada parecida com sua imensa mansão, mas era bastante aconchegante e agradável. Nada parecida, também, com seus aposentos nas masmorras de Hogwarts. Para não despertar a curiosidade dos vizinhos, levava a vida o mais simples e básica possível, usando o mínimo de magia, quase como um típico trouxa. Embora ainda permanecesse a maior parte do tempo em Hogwarts - não mais tanto como anos atrás - sempre arranjava algum tempo para curtir a casa e a vida trouxa que aprendeu a apreciar... curtir, evidentemente não era o termo, mas, certamente, elegeu aquele lugarzinho modesto e acolhedor como seu refúgio, para onde ele ia para desligar um pouco a mente de todos os fatos que envolviam o mundo bruxo - embora, ainda, o mundo trouxa lhe parecesse estranho e, por vezes, assustador. Na verdade - o que ele não gostava de admitir, tentando sempre mascarar a verdadeira intenção com a desculpa de ficar mais próximo dos ataques dos novos comensais aos trouxas - era que essa foi a solução que encontrou de estar próximo, de alguma forma, do seu grande amor, platônico e proibido... "—quem te viu e que te vê, Severus..."
—Sabe... eu achava que Hermione tivesse se casado com o Potter... - Terry falou num tom meio triste.
Snape apenas olhou o rapaz com o canto do olho, como assimilando o que ele acabava de falar.
—Eu me lembro, lá na escola, o quanto eles sempre estavam juntos... e como Hermione se dedicava a ele... quem prestava atenção via o quanto ela era apaixonada por Potter.
—Potter casou-se com a irmã de seu fiel escudeiro - Snape falava num tom de escárnio, mas mantinha os olhos à frente, no caminho - Você deveria saber, afinal, Harry Potter é uma celebridade.
—Francamente, Snape... Harry Potter perdeu toda a importância quando Voldemort morreu. Sabe como é: sem o vilão, não há a necessidade do herói... - Terry completou com um sorriso mau no rosto.
Snape parou próximo a saída do hospital, encarando Terry, com um sorriso meio de lado e sobrancelhas erguidas, dando-lhe um ar cético e sacaz:
—Um corvinal que não gosta de Harry Potter?! Isso é nova para mim!
—De certa forma, eu odeio o Potter! Por culpa dele, não lutei por Hermione, pois achava que os dois estavam muito bem juntos e que se casariam logo que saíssem da escola! E no fim, esse idiota se casa com uma garotinha qualquer e põe Hermione Granger pra escanteio! Isso é absurdo!
Snape fechou a cara, como se fosse provocar uma tempestade, mas perguntou no seu típico tom denso e curto:
—Então você gosta dela?
—Er, bem... eu era muito afim dela na escola, mas por causa de Potter, procurei burramente tirá-la da mente... e, agora, a reencontrando... bem, ela não é casada e eu menos ainda...
Snape estava totalmente mau-humorado, seu olhar parecia querer lançar uma avada
kedavra sobre o medibruxo, serrou os dentes e tentou conter sua fúria que surgiu
instantaneamente:
—Então...
Terry, que estava admirando o piso do hospital, ergueu os olhos para o mestre de poções, dando-lhe uma atenção com certo interesse.
—... use isso para salvar a Srta Granger! Se seus sentimentos forem verdadeiros, use-os para trazer Hermione Granger de volta à vida!
Snape abriu a porta da entrada do hospital bruscamente e saiu; sua expressão era péssima, mas, mesmo com aquela raiva que cresceu de repente em seu peito, conteve-se e ainda pôde encorajar o sujeito que se tornou uma ameaça de hora pra outra. Mas ele realmente a amava e muito! Tudo o que queria era que Hermione Granger fosse feliz, que estivesse bem, com vida, com saúde, não importava onde e com quem! Isso era um amor profundo e verdadeiro, que ultrapassava qualquer conceito, que sempre estaria acima de qualquer sentimento mesquinho de posse e egoísmo.
Ele a amava e era esse amor que seria sua derradeira arma para trazê-la de volta à vida!
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Fim do 4º capítulo - continua
By Snake Eye's - 2004
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N/A: Para quem não se lembra, Terry Boot é um dos 3 alunos da Corvinal que
entraram para o ED, no 5º Livro. Em uma passagem, quando Hermione entrega aos
membros os galeões que ela enfeitiçou com o "Multiforme", Terry Boot ficou
impressionado com a inteligência da menina, então, eu, "muito oportunista",
resolvi aproveitar esse personagem, pois ele se encaixa perfeitamente na
Hermione que coloco nessa fic: a Hermione que desperta paixões por sua
inteligência, acima de tudo, pois é aí que está sua maior beleza :)
É esta passagem aqui:
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"- Bem... Eu achei que era uma boa idéia - ela disse vagamente. - Eu quero
dizer, mesmo se Umbridge pedisse para que nós esvaziássemos os nossos bolsos não
é nada suspeito em carregar um galeão, é? Mas... Bem, se vocês não querem
usá-los...
- Você pode fazer um feitiço multiforme? - disse Terry Boot.
- Sim.
- Mas isso é... isso é do nível NIEM, isso é - ele disse fracamente.
- Oh - disse Hermione, tentando parecer modesta. - Oh... Bem... Sim, eu acho que
é.
- Como você não está na Corvinal? - ele perguntou, fixo em Hermione com algo
próximo a admiração. - Com cérebro como o seu?"
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