Caleidoscópio
Parte 5 – Conversa Informal
Eram 4:36h da tarde quando Severus Snape desperta com o som melodioso e enjoado da campanhia de sua casa trouxa. Olhou para o rádio-relógio sobre o criado mudo ao lado de sua cama, assustando-se ao ver a hora. Estava assim tão exausto a ponto de dormir tanto em pleno dia? Não teve muito mais tempo para divagações a respeito, pois a campanhia voltava a chamar-lhe a atenção. Levantou-se e vestiu um robe negro de seda por cima da calça bege e camiseta de malha branca que usava para dormir. A campanhia era tocada novamente e Snape descia os degraus da escada num trote e maldizendo de quem estaria, a esta hora da tarde, o importunando desta forma! Provavelmente um dos vizinhos chatos, como pareciam ser todos os trouxas. Não estava com seu melhor humor para receber qualquer pessoa que fosse. Antes de abrir a porta, cogitava a possibilidade de enfeitiçar a área de sua casa para manter os trouxas distantes, coisa que deveria já ter feito há séculos!
Ao abrir a porta, surpreende-se com a figura magra e alta a sua frente. Era Minerva McGonagall, que trajava um bem cortado tailleur marrom escuro, sapato de salto grosso e ponta quadrada e uma bolsa em couro combinando. Seus cabelos estavam presos no habitual coque, mas sem o seu costumeiro chapéu de ponta. Estava vestida como uma perfeita trouxa, mas bem vestida até demais.
—Não me convida para entrar, Severus?
—Oh, me desculpe, Minerva. Por favor, entre...
Minerva parou no centro da sala, dirigindo seu olhar altivo para Snape, que a observava intrigado, tanto pela aparência da velha bruxa quanto a saber o por quê dela estar ali, em sua casa, num bairro residencial da Londres trouxa.
—Peço desculpas pela inconveniência, Severus. Não é de meu costume fazer visitas surpresas, mas precisava vir falar com você.
—Tudo bem, Minerva, isso não tem importância. Por favor, sente-se, fique a
vontade, enquanto me troco... pelo que pode ver acabei de acordar.
Minerva acomodava-se no centro de um confortável sofá de três lugares, de tecido
bronze escuro sintético, de textura sedosa. Enquanto Snape se trocava em seu
quarto no segundo andar, a Professora observava com certa admiração o ambiente
que compunha a casa trouxa de Severus. A vida é realmente cheia de surpresas e o
destino é mesmo irônico. Há cinco anos atrás, havia se surpreendido com a
notícia de que Snape comprara uma casa na Londres trouxa, para onde ele se
retirava todos os fins de semana. Severus Snape, bruxo puro-sangue de família
tradicional, cujo único contato com trouxas que tinha até então era entre os
alunos mestiços de Hogwarts, o que já era quase nada, se metendo a besta de
viver entre os trouxas?! Lembrava-se de seu espanto e do acesso de risos de Alvo
Dumbledore e das inúmeras vezes que ele perguntou ao mestre de poções se este
sabia exatamente o que estava fazendo, deixando Snape carrancudo por uma semana,
isso quando não se encontrava com Alvo pelos corredores, que não se continha e
soltava umas risadinhas. "—É, ele ficou muito irritado mesmo, mas..." –
Continuava a observar o ambiente. De frente para o sofá, havia duas poltronas de
mesmo padrão, entre elas e o sofá, uma mesa de centro em madeira negra e pés em
cubos, com livros de arte e um recipiente de cobre de corte irregular com ervas
secas aromatizantes, sobre o tampo. Correndo os olhos para o resto da sala, via
dois quadros sobrepostos assimetricamente com pinturas abstratas em cores
neutras, entre a porta de entrada e uma pequena janela coberta por uma cortina
fina de mesma tonalidade do tecido do sofá. Abaixo dos quadros, uma cômoda
comprida, também de madeira negra como a mesa de centro, com um outro recipiente
vazio, em vidro tingido, e duas estatuetas em prata, com formas humanas, objetos
meramente decorativos. As paredes eram texturizadas e em cores terrais, algo
como um mostarda, e o chão em mármore negro... para os padrões bruxo, eram uma
decoração muito simples, mas para uma casa trouxa, a decoração era harmoniosa e
muito elegante, porém modernista. A essa altura, Minerva achava que nada mais
poderia surpreendê-la, mas agora tinha certeza de que não viu tudo ainda nesta
vida! Com certeza, Snape estava se saindo muitíssimo bem como um simples
trouxa... talvez só um pouco sofisticado demais, mas certamente, havia aprendido
bem como viver como um trouxa.
Snape descia rápida e ruidosamente as escadas, trazendo Minerva de volta a realidade. Embora já estivesse farta de vê-lo, jamais havia visto o "Severus trouxa", e, de fato, era uma outra pessoa. Snape trajava um social-esporte de calças cáqui e camisa de manga curta branca com listras finas em tons de marrom, de corte muito elegante. Nos pés, sapatos em couro escuro. Realmente, um trouxa acima de qualquer suspeita. Snape percebeu o olhar de Minerva, que o analisava de cima a baixo. Em retribuição, dirigiu-lhe um de seus sorrisinhos sarcásticos:
—Bom, se encontrarmos algum conhecido por aí, poderemos dizer que estamos indo a um baile à fantasia... a senhora também está muito estranha a meus olhos dentro dessas vestes trouxas. E pelo que vejo por aí dos trouxas, a senhora está mais para uma socialite ou uma alta executiva.
—Ah... o tailleur... isso é coisa de Hermione, Severus. Ela disse que estas vestes trouxas eram as únicas que estariam a minha altura, que combinariam comigo. Confesso que nunca entendi o que ela queria dizer com isso, mas...
—A senhora já sabe o que aconteceu na noite passada, não é? – Snape tomava seu lugar em uma das poltronas, em frente à Minerva.
—Sim... e acabo de vir de St Mungus... passei praticamente toda a manhã lá. Falaram-me que você esteve lá toda a noite, trabalhando na poção... por isso vim aqui, gostaria de conversar sobre Hermione. Mais uma vez peço desculpas por vi...
Snape a interrompe com um aceno, balançando a cabeça negativamente.
—Não precisa, já lhe disse que isso não importa. O relevante agora é a Srta
Granger, sei que é por ela que está aqui.
Antes que Minerva começasse a falar novamente, Snape levanta e ruma para a cozinha, oferecendo um chá à professora. Em poucos minutos, retorna com uma bandeja de prata com o chá e duas xícaras, postando a bandeja sobre a mesinha de centro e servido uma xícara a sua visita.
McGonagall bebeu uns golinhos de seu chá, continuando a observar o mestre de poções, que também bebericava do seu próprio chá.
—Você mudou muito, Severus... e vendo-o num lugar tão diferente de Hogwarts ou da Mansão Black, essa constatação toma dimensões ainda maiores...
Sem desviar seu olhar da xícara que cuidadosamente colocava de volta à bandeja, Snape respirava fundo, lembrando-se de todos os fatos de culminaram nessa sua mudança... e ali, naquele estranho mundo trouxa, ele era mesmo uma outra pessoa.
—...Creio que ganhei de volta a minha vida com a morte de Voldemort, há oito anos. Não sou mais escravo das trevas... e nem da luz. Agora sou livre para me dedicar a mim mesmo. Tenho plena consciência de que tive minha segunda chance, embora eu acredite não merecê-la, mas... quero aproveitar o máximo possível desta nova vida que ganhei, quero fazer por merecê-la.
—Mas ainda continua fazendo jogo duplo... creio que quase ninguém conheça a existência desse "novo Severus Snape"...
—Oh, sim, claro... me deu muito trabalho cultivar por anos a minha fama de tirano sádico e injusto, não vamos arruinar tudo agora, não é mesmo? Certamente que me permiti uma mudança, mas sei que o mundo permanece o mesmo e certas atitudes e mudanças podem ser muito mal interpretadas e, ademais, poucos são os merecedores de tal compartilhamento.
—Fico aliviada em ver que o velho Severus ainda está aí, o que prova ser mesmo uma pequena mudança e não uma insanidade... a velha soberba ainda está presente de forma muito ativa, não é mesmo?
—Por favor, McGonagall, a senhora não veio até aqui para me elogiar... – Snape enchia novamente a sua xícara com o chá do bule de cerâmica e mexia o conteúdo com uma colherinha, para dissolver o açúcar. —O que quer falar sobre a Srta Granger?
—Nada de mais, digo, não quero especular a respeito do estado clínico dela, mas gostaria de conversar com alguém que fosse tão próximo a ela quanto eu, que tem o mesmo apresso por ela...
—...'Tão próximo a ela'... somente a senhora, Minerva, tem esse privilégio. Somente a senhora teve a permissão de Hermione para continuar participando de sua vida. Estou tão distante dela que tudo que sei sobre si é o mesmo pouco que todos sabem...
—Você entendeu o que eu quis dizer, Severus... eu sei o que se passa em seu coração... acho que nos faria muito bem agora trocarmos algumas idéias esperançosas sobre a menina, uma forma de nos aproximarmos ainda mais dela...
—O que se passa em meu coração...? Quantas vezes já me puni por isso, quantas vezes já tentei apagar esse sentimento... ter a petulância de amar uma moça que é vinte anos mais jovem do que eu, uma moça que foi minha aluna, que conheci e me apaixonei quando ainda era muito menina...
—Que absurdo está dizendo, meu jovem! Reduzir o amor a condições meramente carnais, limitando-o em idades proporcionais, etnias, condição social e todas essas outras regras estúpidas criadas pelo homem é um desatino terrível. O único sentimento que permanece na alma e transcende o tempo, não pode nunca ficar subjugado à tolices como essas...
—Hunf! Belas palavras, McGonagall... mas sabe que aqui no mundo real não é bem assim que funciona. Mesmo em nosso mundo, há preconceitos e cobranças sobre isso. Embora as diferenças causadas pela idade desapareçam à medida que o tempo passa, mas, é o padrão, não é mesmo?
—Conheces alguém que viva bem apenas por estar dentro dos padrões? E pelo que sei, as pessoas que mais têm dificuldade de compreender são as mais infelizes... estás ainda preocupado com a opinião alheia? Com o preconceito dos outros?
—Não, Minerva, não... estou apenas jogando conversa fora, enquanto ainda estou sonolento.
Snape levanta-se da poltrona e leva a bandeja de volta para a cozinha,
estranhando seu comportamento com a velha bruxa. Sim, ele havia mudado, mas ter
uma conversa fiada sobre amor e outras baboseiras com McGonagall, era o fim.
Talvez estivesse muito abalado com o que aconteceu a Hermione, mais do que
supunha. Era uma situação que o estava incomodando, então é hora de parar por aí
mesmo, antes que descesse ainda mais o nível! Caso contrário, daqui a pouco
estará indo a festinhas com amigos ou participando de partidas de quadribol num
domingo à tarde! Com este último pensamento, Snape sentiu um arrepio medonho por
todo o corpo "—Prefiro a morte por crucios kedrava!"
Minerva o acompanhou logo em seguida, entrando na cozinha sem que Snape
percebesse de imediato, enquanto postava as louças do chá dentro da pia. A
cozinha era ampla, clara e arejada. Um balcão de aço escovado onde estava
embutido o fogão, servia para dividir o ambiente entre a cozinha e a copa. Uma
longa janela de vidro coberta por persianas translúcidas ia de um canto a outro
da parede onde ficava o balcão da pia. Os armários embutidos brancos estavam
impecáveis e ainda havia outros equipamentos trouxas para facilitar a vida sem
mágica, como freezer e geladeira, microondas, lava-louça... "Como Severus
conseguiu montar tudo isso sozinho?"
—Você teve ajuda de Hermione para montar essa casa, Severus? – Minerva lhe dirigia a pergunta com um sorriso divertido nos lábios. Toda essa decoração trouxa sofisticada era bem o feitio da menina.
—Isso foi um elogio, Minerva? – Snape desviava sua atenção das louças que estava lavando, com um sorrisinho irônico para ela. —Infelizmente, não. Eu não via a Srta Granger desde que ela abandonou os trabalhos na Ordem, até ontem...
—Você está lavando louça, Severus?! – Minerva desperta da sua observação pela cozinha do mestre de poções e o olha como se o rapaz estivesse fazendo a coisa mais absurda do mundo! —Você não usa magia para nada nesta casa?!
Snape dá uma risadinha quase inaudível, achando divertido a cara de espanto de
McGonagall; arqueando uma das sobrancelhas e seu típico sorrisinho sarcástico,
desvia sua atenção das louças para ela:
—Em Roma faça como os romanos. Enquanto eu permaneço no mundo trouxa, limito-me
o máximo possível de fazer uso da magia...
—Mas... por que isso?
—A senhora já percebeu o quanto nós perdemos para os trouxas, mesmo sendo superiores a eles? – Snape enxuga suas mãos num pano de prato, enquanto recosta-se ao balcão da pia. —Nós somos mimados pela magia e sem ela somos completamente inúteis!
...
—Bem, Minerva, o bate-papo está muito bom, mas preciso ir para St Mungus. Preciso saber o que mais posso fazer para auxiliar no tratamento da Srta Granger e também quero acompanhar esse caso de perto. A senhora me acompanharia?
—Não estou aqui para atrazá-lo, Severus. Eu já passei toda a manhã com Hermione... ela e aquele sono do qual nunca desperta... bem, quero dar alguma notícia sobre ela ao Alvo ainda hoje. Por favor, Severus, traga-a de volta para nós! Dê um forte motivo para que ela retorne para nós...
Minerva desaparata, deixando o mestre de poções atônito com sua súplica. Como ela esperava que ele trouxesse Hermione de volta?! Tudo que acreditava ser capaz de fazer por ela, já estava fazendo, que eram suas poções, mas...
Snape fechou seus olhos por instantes, como se quisesse olhar para dentro de si mesmo, para perguntar ao seu Eu Interior sobre o que mais deveria fazer. Levou sua mão ao peito, na altura do coração, respirando profunda e lentamente.
—Há algo a mais a ser feito sim... Minerva McGonagall, usarei o meio que me mostrou para trazer nossa Hermione de volta...
Fim do 5º capítulo - continua
By Snake Eye's - 2004
