Caleidoscópio
Parte 7 – Honrando Promessas


—Os damos foram sanados... não há mais qualquer resquício da maldição... seu corpo está completamente saudável...

—... e no entanto ela não saiu do coma! Como podem afirmar que ela está completamente curada?!

—Acalme-se, Sr Snape! Ainda temos todas as chances do mundo! Ela está viva! Está curada! Despertar do coma é só uma questão de tempo, agora!

—Quanto tempo, Boot?! Dias, meses, anos?! Não havíamos chegado ao consenso de que com os danos sanados ela recuperaria a consciência?!

—É, eu sei disso, professor... mas o senhor sabe tão bem quanto nós que tudo isso é muito novo e que tudo era apenas teoria. Testamos na prática e em parte deu certo, não deu? Entenda, Snape, a Srta Granger está curada. Quando ela despertar não sofrerá qualquer seqüela da maldição!

—Isso tudo é muito pouco! Ela já deveria estar acordada, consciente, amaldiçoando a todos por tê-la trazido de volta ao mundo bruxo... isso não está certo, é inaceitável, nós falhamos... EU falhei!

Snape estava visivelmente exausto. Uma semana havia se passado. Hermione Granger estava curada. Não era mais necessário administrar-lhe a poção. Todos os danos causados pela maldição crucius kedrava estavam sanados. Seu sistema nervoso estava completamente recuperado. Os danos causados a alguns órgãos por causa da elevada temperatura de seu corpo foram curados. A poção que Severus Snape havia desenvolvido funcionou. Mas, no entanto, Hermione permanecia em seu sono profundo. Apenas seu coração e pulmões ainda estavam vivos. Seu cérebro ainda mantinha as funções mais básicas, dando a certeza de que ela ainda estava viva, mesmo que em estado vegetativo. Sua mente não estava ali. Ela jamais saberia o quão tão bem foi tratada por aqueles que ela desconsiderou por tantos anos. Ela jamais saberia o quanto ainda era querida pelos bruxos de um mundo que ela abdicou há oito anos. Ela jamais saberia o quanto de amor e carinho lhe fora passado nestes últimos sete dias... a menos que voltasse, que resolvesse voltar a viver e estendesse suas mãos para a segunda chance que o destino estava lhe ofertando.

O mestre de poções deixou-se cair numa poltrona, na sala de estar dos medibruxos de St Mungus. Estava muito cansado. Suas forças e esperanças se exaurindo rapidamente. Apoiou a cabeça sobre as mãos. Seus cabelos caiam sobre o rosto, escondendo-o quase completamente. Sentia-se arrasado, destruído, vencido. Agora, pouco importava manter sua aparência, manter sua arrogante compostura. O mundo inteiro que fosse para o inferno! Hermione poderia jamais voltar novamente! Talvez fosse até necessário cessar sua vida de vez. Como os trouxas faziam nessa situação: desligavam os aparelhos quando a esperança de vida do paciente era extremamente inferior a sua probabilidade de morte ou de uma injusta subvida por tempo indeterminado, algo deveras muito pior que a morte, algo que só trazia ainda mais sofrimento...

Mas... Hermione Granger ainda tinha chances de uma vida... seu corpo estava saudável, então não havia agentes que pudessem aniquilá-la por isso... será que sua fuga há oito anos fora suficiente? Será que ela não queria escapar de outras coisas a mais? McGonagall havia deixado escapar algumas vezes quando falava de Hermione, que a menina parecia amargurada e insatisfeita com a própria vida a maior parte do tempo, que até temia que ela cometesse uma insanidade. Será que isso seria possível? Que, talvez, Hermione não quisesse voltar?

Snape levantou a cabeça, olhando fixamente o nada a sua frente. Ele havia procurado por tais literaturas que falavam sobre estar entre a vida e a morte. Encontrou muitas parábolas, histórias, mas havia encontrado algo muito importante, porém muito arriscado. Havia encontrado um livro antigo, sobre magia negra, no depósito de Hogwarts, onde estavam guardados os artefatos perigosos demais para ficarem à mercê de alunos. No livro, escrito em latim arcaico, havia muitas descrições sobre vida e morte e a passagem para esta. Falava sobre projeção astral, como experimentar a passagem antes da hora... havia descrições de poções para serem usadas para tais fins, havia uma muito específica para esse caso, mas muito arriscada para aquele que a usasse, poderia ser letal...

A decisão estava tomada. E era uma questão de honra! Honrar a promessa que fez à Hermione. Snape levanta-se decidido a ir até onde a menina estava. Retirou-se para a CTI, onde Hermione jazia em um leito branco.

Sob as cortinas alvas, o leito ocupado mostrava a mesma figura inerte de Hermione, agora com as covas do rosto mais pronunciadas, embora sua tez não estivesse mais tão pálida e apenas uma leve sombra escurecia sob os olhos. A respiração lenta e prolongada indicava que seu corpo ainda vivia. Seus cachos castanhos emolduravam seu rosto sereno e espalhavam-se pelo travesseiro.

—É hora de cumprir minha promessa, Srta Granger. – Snape acariciava seus cabelos. Seus olhos traziam um brilho diferente, havia algo de esperança neles. Um sorriso tão leve quanto sincero dava-lhe um semblante jovial.

Snape retirou do bolso um pequeno canivete retrátil e, cuidadosamente, separava uma mecha de cabelos da moça. Num movimento rápido e preciso, cortava a mecha e a guardava no bolso da camisa de linho que vestia. Voltou seus olhos para Hermione... precisava despedir-se dela.

—Eu a trarei de volta, Hermione... mas talvez não possamos mais nos encontrar nesta vida... – ainda acariciava o rosto da moça, enquanto sussurrava suas palavras de despedida.

—Viva sua segunda chance, minha querida... não desperdice isso... – abaixou-se para, pela primeira vez, depositar um beijo leve e terno nos lábios inertes de Hermione. Sentiu lágrimas brotarem, mas engoliu o soluço. Não havia mais porque chorar. Havia tomado sua decisão e a coisa mais importante para si era a vida e a felicidade daquela moça, nem sua própria vida valia tanto.

::::

Sexta-feira, dia de reunião da Ordem da Fênix na Mansão Black. Há dois dias atrás, aurores e membros da Ordem haviam travado uma batalha com Novos Comensais, em Portsmouth. Houve algumas baixas de ambos os lados. Felizmente os comensais que sobreviveram, foram capturados. Estava sendo cada vez mais trabalhoso manter as ações desapercebidas pelos trouxas. Desta vez, um auror ficou gravemente ferido após ser alvejado por um trouxa ensandecido que disparava sua arma de fogo pra todos os lados. Embora o tal trouxa tenha também matado um dos comensais, ainda estava longe o dia que os bruxos cogitariam a possibilidade de envolver os trouxas nessa guerrilha.

Na reunião de hoje, havia mais membros do que nas últimas. A batalha de dois dias e as especulações a respeito do sobrevivente da crucius kedrava, eram os maiores motivos para os membros estarem ali. Ninguém ali sabia precisar sobre a tal vítima. Os únicos que sabiam, Dumbledore, McGonagall e Snape, nada haviam falado além do necessário. No jornal O Profeta Diário, praticamente nada era dito. Desde que foi baixado um decreto pelo Ministério da Magia proibindo o uso indiscriminado da informação pelos meios de comunicação bruxo, o jornal pouco tinha a informar sem a devida autorização prévia dos envolvidos. St Mungus não tinha poderes de autorizar informações sobre seus pacientes, deixando isto a cargo dos mesmos ou de seus responsáveis. No caso de Hermione, a vítima sobrevivente da crucius kedrava, Severus Snape tornou-se seu responsável e, obviamente, ele não permitiu uma linha sequer sobre o caso, nem mesmo a menção da poção que havia desenvolvido. Em outros tempos, o Profeta Diário ousaria até mesmo a inventar tramas e dados, mas devido a proibição sob pena severamente grave, ele mantinha-se quieto em seu canto, esperando que as noticias o procurasse. Por um lado, muitos bruxos aprovaram tal atitude do Ministério, principalmente aqueles que, alguma vez em suas vidas, foram lesados pelo jornal, como Harry Potter e a própria Hermione. Por outro, a maioria composta de bruxas ociosas de meia idade, amaldiçoava tal lei!

—Nada! Ninguém fala sobre a bruxa que foi vítima da crucius kedrava! Parece que apenas nós mesmos sabemos sobre o que realmente aconteceu, ou quase isso... – Dino Thomas baixava o jornal sobre a mesa, num suspiro de descontentamento. Ele não sabia explicar o porque, mas sentia que a tal bruxa tratava-se de Hermione Granger.

—Esquece isso, cara! Ninguém toca mais nesse assunto. Na verdade, uma vítima sobreviver depois que milhares de outras foram mortas, não é vantagem alguma. Creio que Lupin e Tonks, na semana passada, estavam sentimentalistas demais para fazerem disso uma grande notícia. – Rony dava de ombros desdenhosamente, enquanto bebericava um chá gelado.

Gina, sorrateiramente, dá um tapa na nuca do irmão, fazendo-o se engasgar e derramar o chá pela mesa.

—Desde quando você se tornou assim tão insensível, Rony! Aquela pobre mulher sobreviveu a uma coisa terrível e está lutando pela vida e você fica com esse ar de deboche?! Mamãe não te ensinou a ser solidário com as pessoas?!

—Porra, Gina! Olha o que você fez! – Rony arrumava a bagunça com um simples aceno de sua varinha. —Mamãe ensinou muita coisa e aprendi, valeu?! Mas não posso ficar perdendo meu tempo com melodramas quando já vi milhares de pessoas mortas desde o inicio da guerra! E reitero o que disse: pouco me importa se um sobrevive ou morre, desde que não seja nenhum de nós. Não posso ficar me abalando por causa de um desconhecido que 'sobreviveu' a uma maldição... grandes coisas!

—A questão é essa, Rony: e se não for um desconhecido? E se essa bruxa for a Hermione? – Dino falava bravamente, enxugando o jornal molhado pelo chá de Rony.

—Você ainda pensa que possa ser Hermione? – Harry se pronunciava pela primeira vez, depois de ter saído de seus pensamentos. Ele próprio pensava muito nisso, desde o ocorrido, mas jamais deixou que notassem. Por duas vezes, chegou a ir até St Mungus, mas não lhe permitiram a visita à paciente e nem sequer informaram-lhe o nome. A precaução a esse respeito estava mesmo muito acirrada.

—Olha, Dino... se tivesse sido a Hermione, certamente Dumbledore teria nos dito. Com certeza a família dessa bruxa não permitiu que qualquer coisa fosse dito sobre ela. E convenhamos, eles estão certos. A mulher atacou dois comensais e sobreviveu a uma maldição que eles criaram há pouco tempo acreditando que ela fosse ainda mais letal que a avada kedavra... se eles descobrirem de quem se trata...

—Você tem razão, Harry... e nem sequer visita eles permitem, mesmo sabendo que somos aurores. Depois de tudo que passamos, parece que os bruxos resolveram adotar o provérbio trouxa: prevenir para não remediar...

—Então esteve em St Mungus, Dino? – Troçava Rony, com olhar malicioso. —Vai me dizer que ainda sofre de paixonite pela Granger?

—Não diga besteira, Rony! Jamais sofri de paixonite pela Mione. Apenas a admirava. Mesmo sendo trouxa como eu, ela era a melhor aluna de Hogwarts. Definitivamente, ela não merecia o que sofreu!

—É realmente, não merecia... – Harry dizia quase num murmúrio, retirando-se dali.

::::

—Severus! Há dias que não o vejo! Como está?

—Bem, Alvo, bem... na medida do possível...

—Esteve na batalha de Portsmouth, há dois dias, não foi?

—Sim, estive, e não foi nada agradável... acabei matando um dos alunos mais bem aplicados da Sonserina, Kurt... era um dos Comensais.

Dumbledore dá um longo suspiro de descontentamento e exaustão. Isso estava sendo ainda mais comum que poderia ser suportado. O que havia com esses jovens afinal?

—Isso é lamentável, meu caro Severus, é uma lastima... há tanto para ser vivido e tantas coisas boas para se fazer e esses jovens... mesmo com toda a minha vivência não consigo compreender tal coisa!

—Eu também, Alvo... fazemos o nosso melhor, mas não podemos fazer milagres, infelizmente...

—É, lastimavelmente não... estou indo para a Mansão Black, Severus. Você me acompanha?

—Não, Alvo, hoje não. Não há nada para fazer por lá. O senhor estará aqui em Hogwarts amanhã?

—Creio que sim, filho. Há algo que queira me dizer?

—Sim. Tomei uma decisão sobre a Srta Granger, e preciso muito expor isso ao senhor. Aguardarei sua volta, Professor.

::::

Snape rumou para seu laboratório nas masmorras, onde passou praticamente toda a noite no preparo da tal poção. Acompanhava todas as indicações do livro, que manuseava com magia, pois o livro era muito antigo, datava de 542 a.C., numa época em que não havia essa distinção de magia das trevas. Não havia o nome do autor, mesmo porque, nesta época, os livros eram edições originais, sem cópias, para uso do próprio. Os manuscritos eram feitos em fíbula de ouro, o que supõe-se que o bruxo autor do livro pertenceu à cidade de Preneste, em Lácio, povo que antecedeu os romanos.

Não fora difícil conseguir os ingredientes, embora houvesse o emprego de plantas raríssimas, possivelmente já extintas, mas graças aos esforços da Profª Sprout, em resgatar antigas ervas, que fazia há anos, conseguiu a maioria dos ingredientes ali mesmo em Hogwarts. Os últimos ingredientes deveriam ser adicionados apenas no momento em que fosse bebê-la, que seria um fio de cabelo da pessoa a quem se pretendia visitar no além-mundo e uma gota do sangue do visitante. A poção seria uma espécie de narcótico que faria a pessoa que a bebesse, tivesse uma forte alteração de consciência e remetesse seu espírito para onde estava o alvo. Havia dissertações no livro, em que dizia que tal poção era usada para aqueles que sofriam com a saudade dos mortos, para aqueles que buscavam a verdade que morrera junto com a pessoa, e, ainda, para aqueles que queriam auxiliar os mortos em sua passagem, pessoas que morriam, mas não se conformavam e sofriam como alma penada.

Mas nem tudo era assim tão simples... havia um risco imenso para aquele que se administrasse a poção. Era uma atitude drástica, para ser usada como último recurso, mas não era nisso que Snape queria pensar no momento. Tudo que tinha em mente era encontrar onde Hermione estava presa, talvez confusa, e convencê-la a voltar.

Já era por volta das quatro e meia da manhã quando a poção ficou pronta. Apesar dos ingredientes incomuns, de ervas antigas, exalava um perfume confortante, o que lhe instigou ainda mais o sono. A poção era tão poderosa que apenas seu vapor já era suficiente para dar leves alterações de consciência. Temendo uma reação inesperada de si mesmo, Snape tampava o caldeirão de barro onde cozinhara a poção, assim como pedira a receita, pois o metal poderia alterar alguns elementos. Snape estaria mais ansioso, se não estivesse tão cansado. Queria comunicar ao Alvo sobre o que iria fazer, afinal, gostaria de minimizar o máximo possível os riscos que iria correr com esse experimento.

Jogou-se pesadamente de bruços sobre a sua cama de dossel. Os pensamentos passavam como um turbilhão em sua mente, confusas, embaralhadas. Sua consciência durou apenas mais alguns segundos, até adormecer. Só faltava deixar Alvo Dumbledore a par de tudo, para iniciar a sua primeira viagem em busca de Hermione, num lugar que não imaginava como poderia ser, mas que deveria ser o delimitador entre este mundo físico e palpável e o mundo etéreo e liberto.


Fim do 7º capítulo - continua
By Snake Eye's - 2004