Caleidoscópio
Parte 8 – A Primeira Viagem
—Estive em St Mungus ontem, visitando Hermione. Falaram-me que Severus saiu de lá muito abalado, estava irreconhecível. Até passei na casa onde ele costuma ficar na Londres trouxa, mas não o encontrei. Ou ele não estava ou não quis me receber. Sabe se ele veio para cá, Alvo? – Perguntava Minerva McGonagall, com ar triste e preocupado. É muito engraçado o que o tempo pode fazer com as pessoas. Por muitos e longos anos Severus Snape fora um desafeto para si, agora, preocupava-se com ele, com seu estado de espírito, quase como uma mãe faz por um filho. Tragédias realmente mudam as vidas e lastimavelmente é isso que aproxima as pessoas, quando o bem estar é que deveria fazer. O ser humano é mesmo muito estranho.
—Severus está aqui sim, Minerva. Provavelmente deve estar adormecido em seus aposentos. Pelo visto, nem compareceu ao café da manhã, não é mesmo? É melhor irmos acordá-lo para o almoço, não é bom ficar muito tempo sem se alimentar e é quase certo de que ele passou a noite toda em claro.
Snape despertava com alguém cutucando em seu ombro. Estava tão exausto que continuava ainda na mesma posição que dormira. Virou sua cabeça para ver quem era, embora já o soubesse, e encontra um Alvo Dumbledore arqueado com um leve sorriso nos lábios e olhos de otimismo.
—Boa tarde, meu caro. Como passou a noite?
—Tarde?!
Levantando-se e pondo-se sentado na cama, Snape leva a mão na nuca ao sentir uma pontada no pescoço, um indicio de torcicolo por ter dormido o tempo inteiro numa mesma posição nada confortável para sua coluna.
—Droga! Acho que estou mesmo virando um morcego! Isso já tá virando um hábito!
—Coisas das férias, garoto! Logo as aulas retornaram e a nossa rotina também. Escravos do tempo e afins.
—Isso agora é incerto para mim... quero falar com o Senhor, Alvo, sobre algo que pretend...
—...pretende fazer pela Srta Granger. Eu sei, Severus. Mas agora vamos almoçar. Você precisa de força e energia sobrando se quiser ajudá-la em algo.
Snape apenas o olhava atônito. Mesmo com todas essas décadas de convívio com Alvo Dumbledore, ainda se surpreendia com o velho mago. Era como se tudo que estivesse a sua volta fosse de uma simplicidade e transparência impares, pois ele sempre sabia de tudo e entendia a todos. Mesmo que não fosse isso tudo e ele apenas tivesse o dom de usar as palavras certas para dar ânimo aos próximos, ainda assim já era muito. Acreditava veemente que se houvessem mais seis como ele espalhados pelo mundo, certamente tudo seria muito melhor.
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Duas horas após, Snape estava de volta a sua sala particular nas masmorras, acompanhado por Alvo Dumbledore. Diante de si estava um caldeirão pequeno de barro, onde havia a poção que havia preparado durante a noite.
—...e você sabe exatamente os riscos que poderá correr, Severus?
—...não, isso não é explicitado no livro, mas certamente os danos serão físicos. Realmente não sei o que poderá acontecer com minha consciência estando num lugar onde não deveria. No livro, apenas são descritas as advertências, sendo uma delas de não fazer este experimento por vezes seguidas e poderá ser letal após a quinta tentativa.
—Severus, você tem plena consciência de que isso não é apenas arriscados porque isso é dito nos escritos, mas também porque isso pode não funcionar como você espera? Eu mesmo nunca ouvi falar de alguém que tenha feito algo parecido. Você confia plenamente neste livro? – O Diretor olhava inquisitivamente para Snape, enquanto segurava o tal livro, aberto na página onde estava descrita a poção.
—Bom, muitos dos elementos empregados têm propriedades alucinógenas, por assim dizer. Eles realmente remetem a uma alteração de consciência, como a casca de Santo Daime, que é até usado em rituais religiosos por alguns trouxas adeptos de tal seita no Peru, se não me engano. E duas das ervas aí presentes também são usadas na pela magia negra chinesa, para retirar a alma do corpo de uma pessoa e transferi-la para uma forma humana feita de barro e ossos. Sem duvidas, todos são elementos muito poderosos. Apenas espero que meu corpo e minha mente não sucumbam antes de completar minha missão.
—Não acha que está se precipitando? Não que esperar mais algum tempo? Confie na palavra dos medibruxos. A Srta Granger poderá acordar a qualquer momento sem que você precise arriscar sua vida por isso.
—Mas é essa a questão, Alvo. Talvez Hermione não queira voltar...
Minerva adentrava a sala particular de Snape, pegando parte da conversa. Os dois bruxos estavam tão envoltos de suas preleções que não perceberam que ela estava já algum tempo parada na porta. Madame Pomfrey também a acompanhava.
—Temos uma chance mínima de trazer Hermione de volta e a usaremos. Mas, Severus, não quero que você entregue sua vida a isso... não faça alem de sua capacidade. Estaremos aqui para dar toda a assistência necessária. – Minerva dirigia um olhar confiante à Snape, que apenas a olhava surpreso.
Enquanto isso, Madame Pomfrey alcançava das mãos do Diretor o livro da poção, examinando a receita.
—Bem, vejo aqui que algumas ervas na proporção em que são pedidas, poderão lhe causar taquicardia e queda de temperatura. Então fique sabendo, Sr Snape, caso esses efeitos passem do nível aceitável, eu o trarei de volta imediatamente. Está entendido?
—Sim, Madame Pomfrey, embora eu não concorde.
—Só mais uma coisa, Severus... – Alvo dirigia-se novamente ao seu Mestre de Poções. —... qual a duração do efeito? É necessário que saibamos com exatidão para termos a exata noção do nível tolerável por seu corpo.
—Um cálice de 100ml dará em torno de 30 minutos. É a quantidade máxima aceitável, como é explicitada no livro. Mais que isso não ganharia mais tempo, seria suicídio.
—Entao... boa sorte, meu filho! – Alvo dava dois tapinhas no ombro do rapaz, enquanto as duas bruxas lhe diriam olhares que eram um misto de apreensão e otimismo. Sentiu-se com ainda mais força para ir e fazer logo isso de vez!
—Dê um recado por mim, Severus.. – Minerva lhe sorria com sinceridade. —..diga à
Hermione que seus colegas da empresa onde trabalha estão angustiados com sua
ausência e que uma tal de Margareth só está esperando a volta dela pra se casar,
pois ela quer a menina como madrinha.
—Darei o recado de todos, Minerva. Farei com que ela entenda o quanto é querida
por todos aqui.
Snape encheu o cálice com a poção, acrescentando em seguida um fio de cabelo de Hermione e com uma pequena adaga afiada, fez um corte mínimo no dedo mindinho, deixando cair uma gota de seu sangue. Com o acréscimo dos dois últimos ingredientes, a poção dentro do cálice começou a fermentar, fumegando levemente, dando uma nova coloração a poção, algo como um tom amadeirado e um odor que lembrava seiva... ali estavam a essência de ambos, misturadas.
Atravessando sua sala particular, adentrou seu quarto, sentando-se em sua cama. Num só fôlego, bebe todo o conteúdo do cálice, deixando-o de lado e acomodando-se em seus travesseiros, deitando-se confortavelmente. Era necessário o corpo estar livre de todo e qualquer incomodo e, com certeza, ali estava.
Começou a sentir um formigamento nas suas extremidade, como mãos e pés. Ao mesmo tempo em que sentia sua pele gelar, sentia um calor se alastrando a partir de suas entranhas. Sentiu um rebuliço em seu estomago e por instante temeu que iria devolver o que bebera, mas logo em seguida foi surpreendido pela sensação de estar perdendo rápida e gradativamente seus sentidos. Já não sentia mais qualquer cheiro, a vista estava escurecendo e seus ouvidos estava ficando abafados, como se uma forte corrente de vento estivesse entrando em sua cabeça através deles. Não sentia mais as mãos e os pés. Logo, não sentia mais suas roupas tocando em sua pele e o colchão sob si. Um redemoinho enjoado se formava em sua testa e começou a sentir como se uma força invisível puxasse com força um emaranhado de fios de sua cabeça. Sentiu como se o ar tivesse cessado de seus pulmões e que seu coração tivesse parado. Por breves estantes, um temor passou por si, ao se ver mergulhado numa imensidão de trevas, como se tivesse submersos no mar a quilômetros e quilômetros de distancia da superfície. Embora nada fosse visto alem de um completo breu, havia uma pressão e um calor confortável que o envolvia por inteiro. E sentiu-se muito bem, como, talvez, jamais tenha se sentido na vida. Sentia-se liberto de tudo, sem qualquer dor, por mais que mínima, sem qualquer sensação, sem qualquer peso, sem nada para incomodá-lo, tudo havia se tornado inodoro, insípido, inaudível...
Repentinamente a breve onda de conforto surreal, sentiu um baque sob seus pés, como se tivesse acabado de aterrissar de um salto e uma onda de choque se espalhou por seu corpo de baixo pra cima. Havia uma pressão estranha em seus ouvidos e começou a tomar novamente consciência de seu corpo. Sentiu o ambiente bem mais frio, como se um vento de inverno o envolvesse. Sua visão começou a clarear e o escuro que enxergava começava a ganhar cor e forma.
Respirou fundo, embora não tivesse sentido a mínima falta de ar. Com a vista mais firme, começou a olhar a sua volta. Estava num lugar tediosamente geométrico e de cores claras e neutras, como branco e bege. Percebeu como se estivesse numa multidão alvoroçada, porém silenciosa, em pleno centro de alguma grande cidade, embora apenas conseguisse ver breves vultos que se movimentavam rapidamente, desaparecendo no ar.
Com mais atenção pode perceber que estava dentro de uma construção e estava no alto, como se fosse um prédio e olhou para baixo, apoiando-se numa mureta. Viu uma única plataforma que ficava entre dois trilhos. Foi então que percebeu que estava dentro de uma estação de metrô. Olhando mais atentamente, observou os breves vultos esbranquiçados como fantasma movimentando-se na plataforma e viu algo que se destoava completamente: um banco com uma pessoa sentada nele, mas não era um vulto, parecia tão sólida e palpável quanto ele. Então, se deu conta de que era Hermione Granger que ali estava.
Fim do 8º capítulo - continua
By Snake Eye's - 2004
