Caleidoscópio
Parte 9 – Entre Dois Mundos


Ao perceber que tratava-se de Hermione Granger sentada no banco da plataforma, Severus Snape desceu correndo a única escadaria que se interligava à plataforma. Ao pisar no último degrau, conteve seu ímpeto de se aproximar bruscamente da moça, que parecia muito distante em pensamentos, olhando fixamente o chão a sua frente.

Estranhou ao notar que a plataforma era ainda menor do que havia visto do alto da estação. Não deveria ter mais que dez metros e se encerrava numa grossa pilastra. Em ambos os lados, dois túneis completamente mergulhados na escuridão.

Calma e lentamente, aproximou-se do único banco da plataforma. Era um banco duplo de madeira, em que cada assento voltava-se para um trilho. Hermione estava sentada a esquerda e ainda demorou alguns instantes para ela dar-se conta de que alguém parava perto dela.

Seus olhos estavam obscurecidos, como se estivesse inconsciente. Estava totalmente concentrada num único pensamento: a de prosseguir adiante. Mas não estava certa de fazê-lo. Jamais esteve numa situação como essa, jamais esteve tão confusa, sem saber o que fazer. O pior é que a situação nem sequer era assim tão complicada. Para si, havia duas opções: seguir adiante ou retornar ao que era. Somente duas opções. Tinha o total livre arbítrio para escolher qualquer das duas e estava certa que o quê realmente queria era seguir em frente, mas algo parecia detê-la. Não sabia o quê, mas sentia que algo a instigava a retornar. Sentia isso o tempo inteiro. Como se um vento morno de verão a envolvesse e sussurrasse em seu ouvido, pedindo para ficar.

O ambiente da plataforma era fresco, cuja temperatura jamais oscilava. O vento morno que sentia a envolver vinha dentro de si, mas agora algo estranho acontecia. Algo quente parecia estar próximo de si. Desde que chegou ali, nunca havia experimentado essa mudança de temperatura. Ainda com o rosto inexpressivo e os olhos como um abismo escuro, levantou lentamente sua cabeça na direção daquele pequeno calor e viu algo também estranho: uma figura física, palpável e colorida como ela. Não era como os milhares de vultos que via por ali o tempo inteiro. Também não era o cobrador. Essa figura tinha calor e um rosto. Sua visão clareou, pois conseguira libertar-se totalmente dos pensamentos que a mantinha presa por todo o tempo. O rosto era de seu antigo professor.

—Professor Snape?

—Como vai Srta Granger? Quanto tempo, não é mesmo?

Snape estava com um semblante muito suave e sua voz era macia e calma. Por pouco não sorria, mas não queria assustar a menina com uma atitude que não era típica de si. Pôs-se a sentar ao lado de Hermione, mantendo seu olhar para os trilhos.

—Então finalmente chegou sua hora, Prof Snape? O que lhe aconteceu? – Hermione esboçava um leve sorriso. Seria menos tedioso ter alguém para conversar até tomar a devida decisão de entrar no trem que a levaria adiante, mesmo que esse alguém fosse Severus Snape. Embora tivesse consciência disso, era estranho o fato de ali não conseguir demonstrar qualquer emoção, mesmo estando muito surpresa em encontrar ali seu antigo professor.

—A mim nada, senhorita. Mas.. que lugar é esse? – Snape se virava para encarar a moça. Estava muito feliz por tê-la encontrado, por vê-la, por estar novamente conversando com ela, mas era estranho que suas emoções e atitudes estivessem como num estágio letárgico, desde o momento em que pisou na plataforma.

—O senhor não sabe por que está aqui? Não sabe mesmo que lugar é esse?

—Bem, foi o que perguntei... onde estamos, afinal?

—Aqui é o que chamam de Limbo. Estamos entre dois mundos. Mas só ficam nesta estação aqueles que podem decidir em qual trem irão embarcar ou aqueles que esperam por uma ordem de embarque seja para qual lado for. Mas é estranho.. por que será que vejo o senhor como vejo a mim ou ao cobrador?

—Cobrador?

—É... ainda não o viu? Que estranho.. O cobrador é um ente que vem pegar nosso ingresso para esta plataforma. Ele usa daqueles antigos uniformes de guarda ferroviário e não tem rosto. Temos a sensação de que ele tem uma face como nós, mas quando o encaramos não vemos nada, mas não é assustador.

—Interessante... e a senhorita, o que espera? Creio que já esteja aqui há muito tempo, não?

—Muito tempo? Aqui não há o tempo, Sr Snape. Também não deveria haver o espaço, mas acho que isso é o cenário de uma concepção que faço da dimensão entre a vida e morte. Há aqueles que crêem numa ponte, outros num barco que atravessará um rio...

—Então a senhorita tem plena noção do que lhe aconteceu?

—Sim, eu tenho. Fui atingida por uma maldição de um comensal, algo como a avada kedavra, mas não tenho certeza quanto a isso. Eu já teria embarcado no meu trem desde que cheguei aqui, mas parece que há alguma força que me mantém presa aqui neste banco. Já vi o trem passar inúmeras vezes, vi muitos embarcarem, mas não tenho energia para me levantar e me locomover até ele. E esse é um caso onde ninguém pode lhe ajudar, mesmo porque, creio, eu seja um vulto para eles também.

—Em que trem a senhorita pretende embarcar?

—Ora, o que me levará adiante. É o caminho certo a seguir, embora eu possa escolher em voltar, mas.. não há nada para mim lá, nada que justifique meu retorno. Minha vida naquele mundo tornou-se um transtorno, não há um motivo e nem ninguém que justifique continuar vivendo. Quero seguir. Quero experimentar uma nova existência.

—A morte pode ser muito convidativa e cômoda para aquele que a experimenta, mas é muito ruim para aqueles que ficam... e você está completamente enganada, minha cara, você é querida por muitas pessoas. Muitas pessoas querem que você volte. Há muitas pessoas que a amam, Hermione... você não pode abandoná-las outra vez.

Snape colocava sua mão sobre a de Hermione, embora não fosse possível senti-la. Era um engano achar que algo ali era palpável, pois não era. Tudo era etéreo com uma falsa imagem de real, talvez fosse a impressão que a pessoa trazia do mundo que acabara de deixar que dava essa falsa ilusão de algo real e concreto. Também não conseguia emboçar nenhuma emoção, embora se sentisse muito bem, com uma tranqüilidade que jamais experimentara, e via isso vindo também de Hermione, que não demonstrava nenhuma emoção.

Hermione sentiu um calor envolver sua mão e viu que era a mão do Prof Snape que estava sobre a sua. Achou isso muito estranho, aliás, ele inteiro estava estranho, jamais o vira tão terno e sereno. Mas acreditava que fosse aquele lugar que mantinha as pessoas dessa forma, pois ela própria não se alterara em nenhuma jeito desde que chegara ali.

—E quem iria me querer de volta, professor? Embora eu estivesse viva, eu me desliguei daquele mundo há muito tempo. Mesmo as poucas pessoas que mantinha contato não viam muita importância em mim. Talvez se lembrem com alguma tristeza a minha morte, mas breve esquecerão.

—Até mesmo McGonagall? Minerva a tem como filha, minha querida. Uma mulher como ela jamais se abalaria fácil com qualquer coisa que fosse e, no entanto, a vi chorar mais de uma vez por sua causa.

—Oh, a Prof Minerva... ela foi como uma mãe para mim neste últimos oito anos. Me apoiou sem me questionar. Não quero que ela sofra, muito menos por minha causa. Será que é ela que me mantém presa aqui, que não deixa que eu embarque?

—Não apenas ela, querida... mas Alvo, Pomfrey, Hagrid... e eu, inclusive. Somente nós sabemos o que lhe aconteceu e todos nós a queremos de volta, Hermione.

—O senhor? Mas por que?

Não ouve tempo para que Snape respondesse a moça, pois um apito e um silvo agudo vindo dos trilhos chamou-lhes a atenção. Um farol forte iluminou os trilhos e surgia como vindo do nada, um trem todo metálico e branco, que não havia quase nenhuma diferença com os trens do mundo real. Era apenas um vagão e parecia cheio, embora todos os passageiros fossem vultos. De relance, viu alguns vultos embarcarem e um homem robusto com um uniforme antigo em azul desbotado e quepe, aproximou-se de Snape.

Snape e Hermione o encararam. Hermione sabia de quem se tratava. Snape ao perceber que o homem não tinha fisionomia, lembrou-se que poderia ser tratar do tal cobrador que a menina lhe falara. Pensou em dar uma desculpa qualquer, mas sua voz não saia, assim como não tinha qualquer capacidade para qualquer tipo de reação. O cobrador esticou-lhe uma mão quase transparente, assim como seu rosto, pondo sua mão levemente sobre a cabeça de Snape e fazendo-o se levantar.

Era muito estranho. Tinha a devida consciência, mas não conseguia esboçar a surpresa e o choque que supunha sentir. Mas algo ele realmente sentia: que aquele ser lhe olhava profundamente nos olhos, embora ele não fosse capaz de enxergar os olhos do ente.

Mas a sensação que sentiu logo a seguir foi bastante real e muito desagradável. Sentiu como se tivesse sido arremessado com uma grande força dentro de um buraco. Sentiu um baque forte em todo o corpo, como se tivesse caído pesadamente de uma grande altura. Ao abrir os olhos com o choque, percebe que está de volta, deitado em sua cama. Sentiu tremor pelo corpo, com seu coração batendo descompassado e a respiração ofegante que lhe doía a garganta. Começou a suar muito e chegou a beira de uma epilepsia. Tudo que sentia neste momento era exatamente o oposto do que sentira naquela plataforma: temor, angustia, nervosismo.

Dumbledore o segurava pelos ombros, tentando fazê-lo se acalmar. Rapidamente ele voltou ao seu estado normal, pondo-se sentado na beirada da cama. Todos que ali estavam, Dumbledore, McGonagall e Pomfrey, estavam apreensivos.

—Eu estou bem... – falou numa voz rouca e falha.

Madame Pomfrey lhe alcançava uma caneca de louça, com chocolate liquido, para que recuperasse suas forças.

Certamente, de tudo que Severus Snape já viveu, está viagem foi, sem dúvidas, a mais excêntrica!

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—E então, filho? A poção realmente funcionou como previa? – Dumbledore encarava Snape muito confiante, embora portasse uma ruga de preocupação. Estava sentado ao lado de Snape, com uma mão em seu ombro.

Snape por sua vez estava um pouco ofegante e tonto.

—Sim, funcionou perfeitamente. Eu estive com ela, estive onde ela está, numa plataforma... mas, será que poderemos conversar mais tarde? Estou com muito sono agora.

Os três magos presentes com Snape se entreolharam. O mestre de poções parecia mesmo muito cansado e o melhor mesmo é deixá-lo dormir. Ele deitou-se novamente em sua cama, cobrindo-se com um grosso acolchoado, embora não fizesse tanto frio para isso.

—Irei preparar uma poção energética para você, Sr Snape, para que tome logo que acordar. – Falava Madame Pomfrey, em tom de despedida.

—Mas se você não tiver acordado para o jantar, eu virei aqui para acordá-lo, Severus. Nota-se que essa experiência o fatigou muito e você precisa estar bem alimentado.

Os três se retiraram sem esperar resposta. Snape adormeceu rapidamente, logo que se deitou. Dumbledore ia preocupado, pensando em quantas vezes mais Severus agüentaria isso. Temia acabar perdendo duas pessoas muito importantes de uma única vez: Severus e Hermione.

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Já era noite e após o jantar Snape saiu para os jardins do castelo, para aproveitar a brisa fresca que soprava naquele fim de verão, a fim de espairecer um pouco.

Tudo aquilo era como um sonho. Mas como um sonho muito real. Todas aquelas sensações diferentes que não conseguia traduzir, o que fazia crer que não havia sentido nenhuma emoção, o que talvez não fosse verdade. Vê-la novamente viva, se assim poderia dizer, ouvir sua voz e, pela primeira vez, conversar com ela fora extasiante, embora não tivesse conseguido viver esses sentimentos naquele momento. Um sorriso brotava em seus lábios, porém um sorriso triste. E se tudo fora apenas um efeito alucinógeno da poção? Se tudo apenas tivesse se passado em sua mente? Nada era totalmente concreto. Poderia ter sido um delírio muito bem formulado. Para ter um mínimo de certeza de que realmente esteve com Hermione Granger em sua plataforma de espera, precisava saber como o corpo físico dela estava aqui neste mundo. Aguardava com muita ansiedade a coruja que enviara à St Mungus perguntando sobre a moça, se havia tido alguma melhora a mais em seu estado clínico, embora tivesse quase certeza de que a breve conversa que teve com ela não seria suficiente para convencê-la a 'embarcar no trem de volta'.

Chegou próximo ao lago, que refletia o céu estrelado daquela noite, que parecia querer mostrar-se em todo o seu esplendor. A lua era apenas um fio curvado, mas a noite tão clara permitia ver todo o seu contorno mergulhado na sombra da Terra. A pouquíssima claridade que havia no terreno do castelo permitia ver nebulosas de estrelas, como um salpicado sobre o manto de azul tão negro.

Deixou-se deitar sobre a relva a fim de apreciar aquela imagem tão singular e tão eterna. Há bilhões e bilhões de anos ali e ele era apenas um mísero pó em frações de milésimos de segundos. Sorriu com desdenho ao se lembrar da tolice humana de achar que eles é que podem ser eternos. Da arrogância e estupidez pura de Voldemort que acreditava estar acima de tudo, crendo que alcançaria a imortalidade. Qual imortalidade? Se nem este planeta é imortal, se até mesmo as luzes que vê no céu podem já ter sido extintas... que imortalidade e poder que criaturas como Voldemort, espalhadas as dúzias por todo o mundo, querem encontrar, conquistar?

—Todos somos crianças tolas e ingênuas, até o mais perverso dos seres humanos.

Nesta viagem que fez entre os dois mundos, fez-lhe despertar ciências que não havia percebido até então, embora todas o remeta à certeza de qual insignificante é. E nem a mais poderosa magia transformaria o mais poderoso dos bruxos em algo muito maior do que eles o eram. Todos eles. Todos os seres vivos. Mesmo aquele ser vivo mais subjugado pelo ser humano, como os vermes, por exemplo. Todos são meros esboços de poeira a se perder em algo extremamente grandioso, tão grandioso que era incompreensível para a mais brilhante mente que por ventura vagasse neste exato momento aqui na Terra.

Vultos. Como aqueles tantos que vira naquela plataforma. Todos somos meros vultos, sopros de uma existência vulnerável e efêmera. Reles fuligem que vagueia sem rumo pelo ar, levado apenas por sua ínfima leveza e insignificância.

E por falar em vulto, um da cor da noite passara por sua cabeça, pousando ao seu lado. Uma bela coruja que trazia uma carta branca amarrada em sua perna. A mesma coruja que enviou à St Mungus.

Com cuidado, desamarrava a carta da perninha da coruja, com um dúbio sentimento. A ansiedade de ver ali escrito que Hermione despertara do coma e a aflição de constatar que nada se alterara nela. Respirou fundo ao abrir o envelope e com a varinha conjurou um pequeno feixe de luz.

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"Caro Sr Snape

Informamos que o estado clínico da paciente Hermione Granger apresenta uma leve melhora em seu quadro geral. Fora notado que parte de sua função cerebral periférica começa a dar sinais de reação à estímulos, como foi registrado em teste executado hoje, às 15:22. Estamos otimistas quanto a recuperação da paciente e acreditamos que a mesma sairá do estado de coma o mais breve possível.

Mais uma vez agradecemos todo o auxilio que tem prestado ao hospital e em particular neste caso.

Sem mais para o momento,

Atenciosamente

A Direção"

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Por pouco Snape não gritou com a alegria que sentiu invadir seu peito, mas não deteve uma calorosa urra com a maravilhosa notícia que acabava de receber. Não era, de longe, o que seu desejo queria, de que Hermione já estivesse desperta – e bravejando por estar num hospital bruxo – mas tampouco era o que mais temia, que a moça estivesse morrendo, definitivamente.

Levantou-se num salto e correu em direção ao castelo. Todos, assim como ele, estavam ansiosos por notícia daquela menina tão querida. E, de mais a mais, o que era ainda mais relevante: a poção realmente funcionara! Ele estivera com Hermione hoje sim, conversara com ela! Estivera com a sua essência, a parte mais importante de si! Às 15:22h esboçara sua reação, dentro da exata meia hora em que esteve com ela no Limbo. Se conseguira balançar a moça com uma breve conversa quase sem muita significação, ele certamente conseguiria convencê-la a retornar para esta vida. Não era hora mais para fraquejar por qualquer coisa que fosse. Não era hora de ter pudores. Deixaria muito claro o quanto as pessoas a amavam e a queriam de volta aqui. Se antes nenhum sacrifício que fizera fora o suficiente para pagar os amargos erros que cometera no passado, a fim de buscar sua redenção a esses crimes, eis que ali estava a sua chance de entregar sua vida, se necessário fosse, por alguém que realmente valia toda pena e qualquer sacrifício.

Mais duas ou três viagens era o seu limite. Isso significava que em mais dois ou três dias Hermione estaria de volta aos braços de todos que a amam neste mundo. E desta vez tinha certeza que ninguém mais a deixaria partir!


Fim do 9º capítulo - continua
By Snake Eye's - 2004


N/A: A idéia da plataforma de metrô entre os dois mundos foi retirada do filme Matrix Reload, quando Neo se vê preso numa plataforma que representava a dimensão neutra entre a Matrix e o mundo real.

Quanto ao "cobrador" – e não consegui pensar num nome melhor – eu retirei do longa animado A Viagem de Chihiro (Spirited Always, de Haiyao Miyazaki), quando Chihiro embarca no trem que leva para o 'Fundo do Pântano' para se encontrar com a bruxa Zeniba, irmã gêmea de Yubaba. Todos os passageiros e o cobrador do trem eram figuras etéreas como fantasmas, muito bacana. E o "meu" cobrador é exatamente aquele :)