CALEIDOSCÓPIO
Parte 15 – Pressão.
Era madrugada quando Harry despertou do tranqüilizante que haviam administrado nele, devido ao seu descontrole emocional. Parecia haver um balão de ar dentro da cabeça, mesmo assim o rapaz raciocinou rápido. Olhou por todo o quarto onde estava, tudo estava calmo e mergulhado na penumbra. Ao seu lado estava um enfermeiro que dormia profundamente sentado na cadeira.
Lembrou-se de Rony. Precisava ver como ele estava. Sabia que estava vivo ainda, sentia isso, mas também sentia que ele não estava em boa condição. Certamente não deixariam ir vê-lo tão logo, então levantou-se da cama o mais cautelosamente possível, não fazendo um ruído sequer. Apalpou sobre o criado-mudo e encontrou seus óculos redondos.
Pisou no chão frio e achou melhor ir sem sapatos mesmo, faria bem menos barulho. Abriu devagar a porta do quarto, olhando de esguelha para o enfermeiro que apenas inspirou mais forte e ajeitou-se na cadeira, sem acordar. Fechou a porta suavemente e saiu pé-ante-pé pelo corredor, buscando o centro de tratamento intensivo, que, certamente, era pra lá que Rony fora levado.
Guiou-se por magnetismo pelos corredores, não se importando com as poucas pessoas que encontrava, a maioria enfermeiros preocupados demais com outros serviços para darem atenção a ele. Encontrou o CTI e ao entrar acabou por ser barrado por um medibruxo que o olhou da cabeça aos pés.
—Sr Potter? O que quer aqui?
—Ver Ronald Weasley! Me deixe entrar!
—Aqui é um centro de tratamento intensivo, lugar para estados graves.. não pode entrar!
—Dane-se! Eu quero ver Rony e ninguém vai me impedir! – Harry se mostrou muito decidido.
Mas o medibruxo apenas o olhou com desdenho, mostrando que não havia se intimidado com a imposição de Harry. —O senhor vai voltar para o seu quarto e voltar a dormir por todo o resto da noite, sr Potter. Pela manhã poder...
Harry agarrou o medibruxo pelo colarinho, prensando-o contra a parede. Outros enfermeiros que estavam circulando pelo local correram em auxílio ao colega, o que não impediu Harry de fazer o que estava determinado a fazer.
—Não me dê ordens! – E com a mão ágil e leve, puxou do bolso do jaleco do homem sua varinha, roubando-a e jogando o medibruxo ao chão.
Harry apontou a varinha para os dois enfermeiros que vinham em socorro do colega e estancaram no ato.
—É certo que magias não funcionam bem com varinha alheia, mas qualquer Imperdoável faz estragos suficientes para se ganhar tempo! Poupem-se!
Harry entrou no CTI, trancando a porta em seguida com magia. Correu pelos vários quartos, chamando a atenção de outros medibruxos e enfermeiros que lá estavam trabalhando, mas o rapaz era rápido e ágil o suficiente para continuar sua busca antes de ser impedido por mais alguém.
Parou a uma porta onde um relatório exposto dentro de um vidro indicava se tratar do quarto de Rony. Sua respiração falhou. Levou a mão à maçaneta e permaneceu assim por segundos, fechando os olhos e inspirando profundamente, buscando dentro de si toda a coragem para presenciar aquilo que, sem otimismo barato, sabia ser muito grave.
Abriu gentilmente a porta encontrando o quarto à meia luz, iluminado apenas pela luz de um abajur sobre uma cômoda em frente à cama. E olhou fixamente para a silhueta que se desenhava sob um lençol leve. Reuniu toda a sua coragem e apontou a varinha do medibruxo para o teto, conjurando luz: —Lumus!
As lâmpadas de luz fria e leitosa se acenderam de imediato, quebrando as sombras do quarto e deixando bastante visível Rony, que jazia em estado grave sobre a cama.
Harry ficou petrificado, a boca semi-aberta. Sentiu seus pulmões e coração pararem e deixou a varinha cair ao chão. Trêmulo, aproximou-se da cama, deixando-se arquear e apoiando todo o peso de seu corpo sobre as mãos. Seus olhos muito abertos e anuviados não se desviavam do rosto deformado por queimaduras de Rony.
—Deus... Rony... não...
Não foi possível conter suas lágrimas. Harry sentiu-se tão exausto, tão fraco, que deixou-se cair sentado no chão, ao lado da cama de Rony. O seu melhor amigo estava irreconhecível. Harry pedia a Merlim que ele estivesse enganado quanto à maldição que haviam proferido contra Rony, mas seu temor, vendo ali, se concretizava: Ronald Weasley foi mesmo atacado pela Imperdoável Crucius Kedrava. Talvez houvesse uma esperança por ele não ter morrido, já que essa maldição é letal, mas vendo o estado em que ele se encontrava... será mesmo que a morte não teria sido mais benevolente?
A Crucius Kedrava era uma maldição imperdoável das Trevas que fora desenvolvida recentemente pelos chamados Novos Comensais da Morte, jovens tolos que ainda clamavam os ideais insanos de Voldemort, morto há muitos anos por Harry Potter. Mas a semente do mal já havia sido plantada e cultivada e, anos depois, ainda se via os frutos malevolentes daquele monstro que fora Tom Riddle. A Crucius Kedrava era a junção do que tinha de pior das mais temíveis imperdoáveis, a Cruciatus e Avada Kedrava. A primeira impingia à vítima dores atrozes, era uma maldição de tortura; a segunda, uma morte instantânea. Com o desenvolvimento da nova maldição, passou-se a ter tortura seguida de morte através de uma única maldição, que elevava tanto a temperatura interna da vítima a ponto de causar-lhe combustão espontânea! A vítima se queimava de dentro para fora e só morria minutos depois que seu corpo estivesse quase inteiramente cremado.
E por isso, talvez, o melhor fosse que Rony estivesse morto... as queimaduras horríveis que se apresentavam em sua pele eram o resultado de queimaduras ainda piores dentro de seu corpo, em seus órgãos internos. Como se curaria isso? Como se devolveria a sanidade à órgãos que foram praticamente cozidos!
Harry chorava copiosamente, sentado ao chão, as pernas semi-cruzadas e suas mãos nervosas apoiadas sobre os tornozelos. Se Rony se encontrava nesse estado horrendo, era sua culpa, mais uma vez! Se ao menos ele tivesse deixado de lado a tolice de bondade em dar uma segunda chance a um Comensal, Rony estaria bem e muito vivo! Mas ele, Harry, preferia seguir as normas do Ministério e capturar os Comensais vivos. Se ele tivesse, ao invés de apenas estuporado, lançado a Avada contra o Novo Comensal, como teve vontade de fazer, nada disso seria realidade agora...
A porta do CTI foi aberta e logo encontraram Harry sentado no chão em frente à cama de Rony. Os enfermeiros fizeram menção de agarrar o rapaz à força, mas foram impedidos pelo diretor do hospital Behrens Krokowski, que gentilmente se aproximou de Harry, pousando-lhe a mão no ombro e só então o rapaz percebeu que já não estava mais a só naquele quarto.
—Sr Potter, o senhor precisa descansar, está ferido e esgotado.
—O que importa? – Falou em voz embargada pelas lágrimas. —O meu estado não é absolutamente nada se comparado com o de Rony... (...) —Eu quero ficar aqui!
—Isso não fará bem nem a você e nem ao sr Weasley... vamos até o meu escritório tomar um chá e conversar sobre a saúde de seu amigo.
Harry pensou em protestar, mas estava fraco demais para lutar por qualquer coisa. Estava prostrado. Dr Behrens Krokowski, gentilmente, ajudou o rapaz a se levantar, segurando-o pelo braço direito. Cabisbaixo e de ombros caídos, Harry acompanhou o diretor, quase mecanicamente.
Assim como o hospital, o escritório do diretor tinha a aparência e a atmosfera assépticas, tudo era branco e estéril. Harry ficou sentado, jogado, numa grande poltrona de couro branco, cuja almofada fofa afundou sob o peso do rapaz. Seus braços estavam largados sobre os braços da poltrona e Harry olhava cegamente para o chão, perdido em divagações.
Harry só voltou a si quando percebeu uma xícara com chá preto lhe sendo oferecido, mas ele não pegou a xícara e ficou encarando o Dr Behrens, que lhe oferecia, como se não entendesse o que acontecia.
—Vamos filho, beba o chá, se sentirá melhor com isso...
—Eu duvido muito... – Falou em voz melancólica e cansada, pegando a xícara pelo pires.
O Dr Behrens encostou-se a sua escrivaninha e fitou Harry por um longo tempo, até que o rapaz, depois de ter bebericado de seu chá, volta seu olhar vazio para o velho medibruxo.
—Houve aquele sobrevivente da Crucius Kedrava e soubemos que ele se recuperou perfeitamente... mesmo eu pertencendo ao Ministério da Magia, não sei de mais detalhes do que o Profeta Diário e apenas Snape poderia dizer o que realmente aconteceu.. se ao menos eu o encontrasse...
—Sim, houve o sobrevivente... melhor dizendo, A sobrevivente.
—Nem sequer sabia que se tratava de uma mulher... – Harry respondeu sarcasticamente, rindo-se por sua ignorância a respeito do caso. —O que aconteceu, afinal? Como foi que ela conseguiu se recuperar? Vendo o estado de Rony... – Harry não conseguiu completar sua frase, pois um nó em sua garganta lhe travou a fala.
—O caso dela foi diferente do sr Weasley... ela não sofreu metade dos danos que seu amigo Ronald sofreu...
—Além de não saber, também não entendo... como assim sofreu menos danos?
—A conclusão a que chegamos foi que ela entrou em estado de Coma no mesmo instante que recebeu a maldição... no caso de Ronald Weasley, ele mergulhou no coma somente minutos depois de sofrer os efeitos da Crucius Kedrava, o que garantiu sua sobrevivência ao quebrar o elo entre o corpo e a mente. Sabe-se que a magia apenas tem efeito nas pessoas porque elas têm o conhecimento de sua ação, se a pessoa estiver inconsciente, maldição alguma fará efeito.
—Achei que... Snape tivesse algo a ver com a recuperação dessa vítima...
Dr Behrens ficou mudo, ponderando algo enquanto observava a Harry que terminava de beber de seu chá. Esperou que o rapaz voltasse a ficar interessado novamente na conversa, para prosseguir. Harry pôs sua xícara vazia sobre a mesa lateral à poltrona e, ainda jogado no sofá, voltou a encarar com olhos míopes o diretor.
O velho diretor pensou muito a respeito; conhecia um pouco da história particular de Harry Potter. Achou que seria importante que o rapaz soubesse dos detalhes sobre a primeira vítima sobrevivente da nova maldição.
—Há coisas que o senhor deveria saber, sr Potter, pois creio ter certa importância para o senhor...
—O que devo saber, dr Behrens?
—Sobre a vítima sobrevivente... a moça... o senhor a conhece...
Harry olhou desconfiado, incrédulo, e inclinou-se para frente na poltrona. —O que o senhor quer dizer com isso? Se fosse uma conhecida minha, eu teria sabido de imediato!
—Sim, talvez... mas o caso dela é diferente, pelo que me contaram... trata-se da srta Hermione Granger.
Harry sentiu como se o chão tivesse aberto e ele tivesse sido tragado para as profundezas da Terra! Hermione, a vítima sobrevivente da Crucius Kedrava! Como era possível? E como ninguém falou nada! Snape, Dumbledore e até mesmo McGonaggal sabiam disso, certamente!
Dr Behrens ficou preocupado com o estado de torpor que tomou conta do rapaz, e foi até ele, levando suas mãos aos ombros de Harry, tirando-o do seu semi-transe.
—Sr Potter! O senhor está bem?
Harry, como que entorpecido, gagueja ao falar;
—S-sim.. es-estou... eu não ouvi direito, não é possível! Hermione? Hermione que foi quase morta!
—Sim, isso mesmo...
Harry se levantou da poltrona e pôs-se a andar desnorteado pelo escritório do diretor, pensando em voz alta.
—Hermione... Hermione... não é possível! Isso.. isso é uma ironia cruel do destino! Ela que abandonou o mundo bruxo, que abdicou de toda a magia... ser.. atacada por magia negra...
—Eu lhe dei esta informação, sr Potter... —Harry saiu de seus devaneios e encarou o velho medibruxo. —... porque creio que seja possível reverter o caso de Ronald Weasley...
—Como? Se houver um meio, qualquer meio, é necessário que seja feito! – Harry respondeu em tom decidido e autoritário.
—A srta Granger foi tratada com medicamentos comuns para o estado em que se encontrava, mas...
—Mas? Mas o que, dr Behrens? Por favor, não faça rodeios!
—Não é minha intenção... Mas há algo a mais, maior por trás da recuperação dessa moça...
—O quê? Vai me dizer que foi algum milagre? – Harry perguntou em tom de sarcasmos e incredulidade.
—Realmente, se não fosse magia, teria sido milagre... mas trata-se de magia negra...
—O quê! – Harry parecia não crer no que ouvia.
—Eu não deveria lhe dizer isso, tenho certeza de que ele não gostará nem um pouco, mas... Severus Snape tem a resposta, fale com ele.
Harry permaneceu por algum tempo fitando o diretor com olhar inquisidor de indagação e incredulidade. Mas como havia dito, seja qual for a fórmula usada para trazer Rony de volta à vida, ele usaria tal fórmula, nem que tivesse que descer ao inferno para isso!
Na mesma tarde deste dia, Snape foi até St Mungus, a fim de acompanhar de perto o tratamento de Rony. Harry apresentou melhoras e mostrou-se mais calmo, pois sabia que somente assim conseguiria ficar lúcido, sem ser dopado com tranqüilizantes, e nem ficar sendo vigiado o tempo inteiro. Dr Behrens havia dito que Snape iria ao hospital ainda neste dia e disse que mandaria avisá-lo quando o Mestre de Poções chegasse.
Um enfermeiro apareceu no quarto de Harry, avisando da chegada de Snape. Harry aprontou-se e saiu decidido a tirar de Snape o que ele havia feito para trazer Hermione de volta à vida. Seja lá o que ele tenha feito por ela, poderia fazer por Rony, nem que houvesse de usar força para tal.
Dirigiu-se para o CTI e lá encontrou Snape acompanhado do medibruxo de plantão do dia e enfermeiros, que administravam intra-venalmente uma poção leitosa a Rony, enquanto outro cuidava das chagas de queimaduras.
—Boa tarde, Snape. Soube que também cuidaria pessoalmente do caso de Rony... – Harry falou, chegando às costas dos presentes no quarto, num tom afiado.
Snape não se deu ao trabalho de virar-se para recepcionar Harry, apenas o olhou por sobre o ombro, franzindo as sobrancelhas em desaprovação.
—Não cuido pessoalmente de nenhum caso, Potter. Não sou medibruxo, apenas auxilio no desenvolvimento de poções medicinais. Acho que não precisaria lhe lembrar disso... – Falou em seu tom seco costumeiro, já finalizando a conversa.
—Não mesmo, Snape? E quanto à Hermione?
O Mestre de Poções girou em seus calcanhares, encarando morbidamente Harry, que sustentou o mesmo olhar rancoroso com que o outro lhe dirigia. Snape aproximou-se de Harry em dois passos, o encarando de queixo erguido.
—O que quer dizer com isso, Potter?
—Não precisa se fazer de logrado comigo, Snape! Soube que usou métodos muito pouco tradicionais, por assim dizer, para curar Hermione. Quero que use novamente tais métodos para curar Rony...
—Você deve ter levado uma pancada e tanto nessa sua cabeça oca, Potter! Não me venha exigir absolutamente nada! E, principalmente, não venha falando de coisas que não sabe!
—Ah, sei sim, professor... – Harry falou demoradamente, como se saboreando seu próprio cinismo. —E quero saber ainda mais! Não pense em me negar isso, pois senão tirarei isso de você nem que seja à força!
Os olhos de Snape quase se fecharam em fenda pelo seu semblante carregado, olhando furiosamente para Harry, que continuava a sustentar seu olhar desafiador para o Mestre de Poções. Até gostaria de ver Potter tentando lhe tirar a força qualquer lembrança e conhecimento, mas um turbilhão de lembranças lhe invadiu a mente neste momento, remetendo-o a sua experiência entre os dois mundos, quando esteve na Plataforma em que Hermione esperava calmamente sua própria decisão. Lembrou-se de todas as sensações e de tudo que aprendeu naqueles poucos minutos que vivenciou tal experiência extracorporal, abrandando-lhe tanto seu rancor quanto seu semblante. Tornou-se calmo e complacente ao longo de vários instantes, fazendo até mesmo com que Harry baixasse sua guarda, surpreso pelo que acabava de ver no rosto de Snape, mas não ousou fazer qualquer comentário a respeito; seja lá o que tenha feito o homem ficar tão calmo de um minuto para outro, certamente não fora pela sua "ameaça"...
—É uma história um pouco complicada, Potter... – Falou suavemente. —Acha que está em condição para ouvi-la, agora?
Harry titubeou por instantes, antes de responder, agora também muito menos tenso. —S-sim... creio que sim...
Fim do 15º capítulo - continua
By Snake Eye's - 2004
