CALEIDOSCÓPIO
Parte 17 – Inferno, Um Estado de Espírito.
Labaredas incandescentes brotavam do chão acidentado de rochas e terra seca. O vento era quente, forte e constante e Harry sentiu-se como que dentro de um redemoinho. Levou ainda alguns instantes para seus olhos se acostumarem com a coloração avermelhada daquele ambiente inóspito e, quando o conseguiu, pensou ter divisado um tumulto de pessoas que iam e vinham como fosse num grande centro urbano, mas ao tentar focar a vista naquelas formas vultuosas e turvas, tudo parecia sumir e apenas ficava sozinho com aquela paisagem quase apocalíptica.
—Maldição! Isso não é real, não pode ser real! – Harry praguejou e pôs-se a andar sem rumo definido, apenas o fez por não suportar mais ficar um segundo sequer ali; talvez uma outra localidade fosse menos tétrica.
—Snape! Maldito seja você, Snape! O que colocou naquele veneno, afinal?! É certo, isto não é real, embora as sensações sejam bem reais, esse calor sufocante! Isso é um pesadelo, isso sim! É um estado alterado da consciência sob manipulação! Quer me sacanear?! Brincar comigo?! Cretino miserável!
Harry caminhou por um bom pedaço, cambaleante devido ao terreno muito acidentado, o tempo todo ou tropeçava ou pisava de mau jeito. Apenas parou quando avistou uma fila de vultos que seguiam por uma estrada estreita no alto de um morro, que ele não havia notado até então. Todos pareciam clones uns dos outros, tinham a forma humana, mas não dava pra distinguir nada além da forma, pareciam todos serem corpos nus e escuros, sequer cabelos pareciam possuir. A garganta de Harry travou dolorosamente quando o coração se descompassou com tal visão.
—Deus meu! O que é isso afinal?! Onde É AQUI, afinal?! – Falou fracamente, o medo aparecendo em sua voz.
Seus olhos aterrorizados percorreram os vultos em fila lenta, quando avistou algo que chamou-lhe imediatamente a atenção. Não apenas visualmente, mas uma vibração de energia o ligou imediatamente ao vulto especifico que também se encontrava em fila.
—Meu Deus! É.. é Rony!
Hermione acordou assustada. Novamente aquele sonho com a estação de metrô, e sempre acordava quando recebia direto na cara aquele farol alto e o silvo agudo que as rodas de metal faziam em contato com os trilhos... e o som estridente e irritante parecia se propagar ainda quando ela despertava, até sumir completamente.
Mas não se tratava de um pesadelo; sequer poderia ser chamado de sonho ruim... mais parecia uma lembrança... uma lembrança que não deveria ser lembrada, pois sempre que uma parte boa do sonho ocorria, vinha o farol do trem para cegá-la e acordá-la.
Sentiu-se sufocada e jogou pra longe de si o edredom branco que a cobria. Por Merlin, era verão, por que Minerva a cobria com aquele cobertor quente?!
Levantou-se, enxugando o suor em seu rosto e nuca, a camisola de seda colando ao corpo. Não conseguiria dormir de novo daquele jeito e antes de ir para o chuveiro, foi até a cozinha, beber um bom copo de água gelada.
Mal sentiu a água gelada descer pela garganta, de tão suave lhe pareceu o líquido cristalino, mas sentiu um refresco gostoso quando ela atingiu seu estômago e o frio se espalhou pelo corpo.
O que aquele famigerado trem queria evitar que ela lembrasse? Ou imaginasse? Afinal, era sonho ou lembrança?
—Um abraço e um beijo que me faziam sentir viva... – sussurrou para si própria.
—Hermione? Você está bem, filha? Está corada e tão suada! Lembre-se que se sentir qualquer mal-estar é para irmos imediatamente para St Mungus! – McGonagall havia acordado com as luzes acessas que Hermione deixou pelo caminho do seu quarto até a cozinha e, como está maternalmente em estado de alerta, qualquer mínima coisa atípica vinda de Hermione lhe sobressaltava.
Hermione riu: —Ah, Minerva! A senhora me cobriu até o queixo com aquele edredom branco! Aquele é um cobertor para o inverno!
—Você teima em dormir com aquela janela aberta. Pode ser verão, mas sempre esfria na madrugada. Não quero que você pegue nem um resfriado, menina!
—Está certa, 'mãe'... – Hermione sorriu ante a expressão reprovadora da professora. —Mas ainda assim eu morro de calor! E preciso de um banho e... – quando Minerva fez menção em protestar algo, Hermione logo completou: —... um banho morno, pode deixar! Não vou me arriscar a pegar um resfriado com um banho frio.
Hermione lavou o copo e tornou a colocá-lo no suporte preso à parede de azulejo e, quando estava atravessando a porta da cozinha, voltou-se para Minerva que também servia-se de um copo d'água. A moça estava intrigada com o sonho repetido que teve.
—Novamente eu sonhei com uma estação de metrô, Minerva... e eu já estive nessa estação, eu sei disso, embora ela não se pareça com nenhum estação que temos aqui na cidade... e sempre há alguém comigo... – Nesse ponto Hermione corou e desviou seu rosto para um canto qualquer da sala, não iria dizer que a pessoa a abraçava e beijava, não é? —... É estranho, não? Vezes seguidas ter o mesmo sonho? – Completou, inocentemente.
McGonagall deu um leve sorriso, antes de responder: —Sonhos, às vezes, são mensagens de nosso subconsciente... e às vezes também são lembranças de algo vivido que a imaginação distorce um pouco. Tenho certeza que acabará descobrindo o significado disso.
—Pensei que a senhora tivesse aversão por coisas do tipo, como interpretação de sonhos, adivinhação, etc... – Hermione ria marotamente ao responder.
—Sou contra bobagens, é verdade. Mas interpretar o seu Eu Interior, o seu inconsciente, não é uma bobagem. Acho que você deve tentar descobrir o que é esse sonho tão insistente, sim...
Hermione não respondeu, apenas assentiu instantes depois de ponderar sobre o conselho de McGonagall, e então retirou-se para seu quarto.
Um tremor tentou tomar conta de Harry, naquele momento em que reconheceu Rony na fila de espectros. O rapaz ruivo estava taciturno, mas não aparentava as agressões sofridas pela Crucius Kedrava. Harry controlou seu tremor e num só fôlego correu morro acima, derrapando e escorregando em pedras soltas, mas desesperado por chegar até seu amigo, e acabou por alcança-lo em dois tempos.
Rony não esboçou qualquer reação, sequer percebeu que Harry ali estava. Desesperado, Harry agarra com firmeza Rony pelo pulso e somente assim que o rapaz lhe dera alguma atenção, embora não possa chamar o que fez de "atenção", pelo estabo sonambúlico em que parecia se encontrar.
—RON!! Por Merlin, Ron, acorde!! – Gritava Harry, agarrado ao pulso direito do outro.
Alguns segundos se passaram, o que para Harry parecia uma eternidade. Rony olhou sem nenhuma emoção para Harry, a pupilas de seus olhos castanhos muito dilatadas, e só então que percebeu quem ali estava, segurando-o pelo braço... as pupilas se contraíram e só então Rony acordou, saindo de seu estado letárgico.
—Harry? HARRY! Mas.. mas o que faz aqui??
—C-como, como assim, o que faço aqui?! Estou aqui por sua causa! Eu é que pergunto o que faz aqui?! E por Deus, que diabos de lugar horrível é este??
Harry, exasperado, desequilibrou-se sobre a terra seca e granulado, e escorregou um pouco, mas firmou-se muito antes de escorregar morro abaixo novamente. Rony o segurou pelo ombro da camisa e ambos encararam-se: um perplexo com o outro, sem saber o porque de um ou o outro de estar ali.
A impressão dos vultos passava por de trás de ambos como uma torrente de rio, sem se darem conta uns dos outros ou mesmo dos dois amigos, tão nítidos e tão diferentes de tudo que ali se encontrava, tudo tão em sépia escuro e disforme.
—Os comensais também o acertaram, Harry? – Rony falou num tom trivial, sem dar qualquer emoção ou importância ao fato.
Harry, de olhos arregalados e garganta muito seca, não conseguia crer no que sentidos captavam. Engoliu em saco e resolveu dar prosseguimento à conversa, tentando parecer o mais natural possível – se isso era possível.
—Er.. n-não, não! Eu... eu vim até aqui.. por sua causa! Vim busca-lo! Você.. você não pode ficar aqui! Tem que voltar!
—Voltar? – Rony tomou isso como fosse um grande absurdo, como se Harry tivesse lhe dado uma idéia estapafúrdia de quebrar uma Lei grave. —Eu não devo voltar, Harry! Se aqui estou, aqui devo permanecer! Se aqui estou, é porque para cá que me enviaram!
—NÃO! Claro que não! Você.. você não está em bom juízo! Isso aqui.. isso aqui... você já notou que lugar é esse?? Você não pode e NÃO vai ficar aqui, Ron! Você voltará comigo e agora!
Até então Rony ainda segurava, mesmo levemente, Harry pelo ombro. Ao ouvir o que o amigo dizia, deu um leve sorriso de resignada compreensão e baixou sua mão lentamente. Ainda sorrindo para Harry, meneou em negativa a cabeça, como se gesticulasse a uma criança ingênua.
—Não, Harry.. não voltarei.. não posso voltar... meu tempo lá chegou ao fim... devo agora passar um tempo aqui...
—NÃO DIGA ASNEIRAS! Você está bem e vivo, veja só! Voltará comigo, e voltará agora! Seja lá que maldito lugar seja este, com certeza não é lugar para você, Ron! Voltará, sim! Você ainda tem muito tempo pela frente!
—Harry, Harry... por que teima desse jeito? Isso é algo que nos acontece, acontece a todos que vivem... é só uma questão de tempo, mas cedo ou tarde esse tempo chega.. ou se finaliza... o meu chegou e agora sigo para uma outra fase...
—Não, Rony... não é, NÃO PODE SER! Q-que, então, pelo menos... não fosse um lugar como este, não fosse este lugar!
Rony olhou lentamente a sua volta enquanto Harry esperava em controlado desespero, até que se voltou para o amigo:
—Eu não tenho como lhe dar as respostas que quer Harry... mas, instintivamente sei que lugar é esse e porque estou aqui... é a Região Umbralina, o Inferno, como alguns dizem, e foi minha mente que me atraiu para isso aqui...
—Isso não pode ser! Por que está aqui? Por que no Inferno!?
—Já disse... não tenho como lhe dar todas as respostas, Harry... só as que penso saber...
O vento quente que soprava na região se intensificou a ponto de ser difícil se manter em equilíbrio no alto do morro árido. Harry teve que falar aos gritos, pois sua voz se perdia na ventania. Estranhamente, Rony não parecia se importar com a ventania e olhada fixamente a Harry como fosse a última vez... e talvez fosse mesmo a última vez...
—Venha, Ron! Isso tudo é só delírio, um pesadelo! Vamos voltar, isso aqui não é lugar para você, não é lugar para nós!
—Não, Harry... não deveria ser, mas isso é o que espera por aqueles que vivem de forma ímpia... eu errei muito, Harry...
Harry ia responder, mas como se o olho da ventania tivesse baixado sobre ele e envolvido como uma grande cauda de serpentes, sentiu-se sufocar e tudo, novamente, tornou-se escuro total, sem atmosfera, sem ar, e sentiu como se o seu corpo fosse ser esmagado pela força de uma pressão invisível. Antes de perder totalmente sua consciência, pensou ter ouvido a voz de Rony lhe dizendo adeus.
Quando pensou que sucumbiria ao peso invisível da causa serpentosa que o envolveu, acordou num baque violento no leito do hospital onde estava. Como se seu corpo tivesse sido arremessado de alturas astronômicas, sentiu um choque percorrer do peito para os pés e cabeça. Em golfadas pesadas e rápidas, engoliu o ar como se há muito não tivesse respirando, como se tivesse sido retirado depois de minutos do fundo do oceano.
O suor escorria de seu rosto e pescoço, encharcando o travesseiro em que apoiava a cabeça. Ainda assustado com todas essas sensações desagradáveis, olhou para os que ali estavam, até encontrar o conhecido rosto de Snape e estender-lhe a mão, como se sua vida dependesse disso.
—S..Snape! Ron.. Ron… ele não voltará!
Snape, num inimaginado ato de solidariedade, segura a mão de Harry com ambas as não, e apenas comprime os lábios finos num mudo assentimento com o que Harry afirmava. Dr Krokowski e Terry Boot apenas se entreolharam, também assentindo, apenas com os olhares, a afirmativa de Harry.
Rony não suportou os efeitos da maldição e havia desencarnado há poucos minutos atrás...
Fim do capítulo 17 – continua.
Snake Eye's – Abril de 2008.
N/ª: Eu sempre quis matar o Rony e manda-lo para o inferno XDDD ahauhauahau sou mto mau!!
Obrigado a todos que leram e comentaram e mil e uma desculpas pela demora Gostaria de dizer que isso não se repetirá, mas aí eu estaria mentindo...
E desulpe por possíveis erros, não tive tempo de corrigir :')
Estejam com Deus! E abraçuuus!!
