CALEIDOSCÓPIO

Parte 19 – Déjà Vu


Snape estava parado no corredor externo que ligava uma ala à outra do castelo de Hogwarts. Apoiava suas mãos na murada encardida pelo tempo e olhava ao longe, mais que seus olhos podiam alcançar ali. O vento contínuo jogava seus cabelos longos para frente e para trás. Era fim de tarde e o Outono já se pronunciava, e logo as aulas daquele ano começariam.

Dumbledore, mansamente, aproximou-se de Snape, vindo da ala leste da escola. Parou ao lado de Snape, para – pelo menos no seu caso – apreciar as últimas claridades do dia e o finzinho de sol que descia além do escarpado de montanhas azuladas.

—Dia longo, não é meu caro Severus...?

Snape ainda levou alguns instantes para responder. Dumbledore estava parado ao seu lado, mãos juntas e jogadas para trás do corpo e, parecia, que estava apenas apreciando a visão bucólica das terras de Hogwarts no fim de tarde.

—Sim... – Snape respondeu por fim. —Sempre muito longo... é como se o dia de um funeral não quisesse mais passar... e quantas vezes passamos por isso, Alvo? E... principalmente, quantas vezes mais passaremos por isso...?

Dumbledore respirou profundamente e apoiou suas mãos, uma sobre a outra, na murada, aproximando-se um pouco mais. O vento, igualmente, balançava seus longos cabelos e a claridade dava um tom metálico em seus fios brancos.

—Às vezes, Severus, penso que isso jamais terminará... esses ataques, essas mortes prematuras, toda essa insanidade... Precisamos muito reunir o Mundo Mágico, aliás, precisamos UNIR o Mundo Mágico, pra cortar esse mal pela raiz! Mas, você sabe tão bem quanto eu que existem muitas famílias ainda presas a conceitos primitivos e separatistas... e é exatamente nessa mentalidade de pureza e distinção, nesse preconceito cego, que está o grande mal...

—...que leva tantos bruxos ainda jovens a um caminho sem volta! Sim, eu sei, Alvo, sei muito bem como é isso... e sabe?

Snape virou-se para Dumbledore.

—Nunca tive qualquer simpatia pela família Weasley e ainda menos por Ronald, mas... o ataque que ele sofreu, a aparência que ficou e sua conseqüente morte me deixou perturbado...

E voltou para sua posição original de antes, com o olhar perdido no horizonte crepuscular.

—... presenciei muitas coisas horrendas nesta vida... cometi outras... no entanto, o rosto desfigurado por queimaduras de Ronald Weasley me perturbou... e ainda estou perturbado... a imagem dele dentro daquele caixão ainda está em minha mente...

Dumbledore avaliou Snape por alguns instantes, em silêncio. Após encontrar uma resposta, voltou-se para a mesma direção em que Snape olhava.

—Certamente, Severus... você conhece o rapaz desde criança e ele foi seu aluno por sete anos... você não é um desprovido de sentimentos como quer parecer que é...

—Já vi outros ex-alunos em condições ainda piores.. principalmente os que seguiram as Trevas...

—Sim... mas nenhum deles tiveram uma ligação com a Senhorita Granger... na verdade, você está perturbado com Hermione, poderia ter sido ela naquele caixão... e Ronald Weasley fez parte da vida dela por muitos anos... e o Trio de Ouro que você sempre detestou está, agora, definitivamente e para sempre, dizimado.

Snape apertou com forma a murada até que os nós de seus dedos ficassem esbranquiçados. Perturbado, afastou-se da murada, indo para o meio do corredor. O sol já havia se posto totalmente e a escuridão tomava conta do lugar com rapidez. O telhado, chão e parede encardidos pelo tempo deixavam o corredor ainda mais escuro e, aos poucos, os archotes espalhados ao longo começavam a se flamejar e acender.

—Hermione devia ter ocultado que também foi uma vítima da maldição, a única vítima que sobreviveu à Crucius Kedavra! Foi nojento perceber a intenção deles de que preferiam que ela que estivesse no lugar do Weasley e que ele é quem merecia ainda estar vivo!

—Não diga isso, Severus! Você é um homem racional demais para pensar dessa forma. Não julgue aquelas pessoas que estavam vivendo um momento muito difícil. É natural que tenham pensado em tal coisa, mas tenha certeza que se tal sentimento passou por eles, não foi mais que por alguns segundos...

Dumbledore aproximou-se de Snape e levou sua mão ao ombro do homem, apertando-o e dando alguns tapinhas em seguida.

—Você está mais ligado à Hermione do que sabe, Severus... essa impressão somente Hermione teve e mais ninguém...

Dumbledore tomou o caminho para entrar pro castelo, deixando um Snape perturbado na penumbra.

—O que o senhor quis dizer com isso, Alvo?!

Com uma expressão jovial, Dumbledore olhou por sobre o ombro, quase rindo maliciosamente para Snape.

—Que você criou um vínculo muito forte com a Senhorita Granger durante o período que foi resgata-la no Limbo... e esse vínculo nunca mais será quebrado, filho...

Dumbledore voltou ao seu caminho, desaparecendo na semi-escuridão do corredor. Snape permaneceu parado no mesmo lugar, ruminando as palavras do Mestre e um pouco ainda mais perturbado, mas, no fundo, um pouco mais feliz também.


Na manhã seguinte, após o sol já estar alto no céu, Minerva McGonagall chega à Hogwarts através da Rede de Flú, pela lareira da sala do Diretor, a única que estava liberada para tal meio de transporte.

Dumbledore, que já sabia de sua vinda, a espera cordialmente em frente à lareira, com seu sorriso simples no rosto. Mcgonagall surge por entre labaredas esverdeadas, saindo da lareira e espanando o pó de sua roupa e só então cumprimenta o Diretor, que a aguardava pacientemente.

—Bom dia, Alvo. Espero não estar atrapalhando algum trabalho seu...

—De jeito ou forma alguma, minha amiga! Seja bem vinda de volta à Hogwarts! Logo as aulas começarão e sequer teremos tempo para uma conversa mais longa.

—De fato, Alvo! Mas não vim ainda para me preparar para o inicio das aulas... preciso deixar as coisas acertadas com Hermione, não posso deixa-la sozinha de uma hora pra outra, agora, depois de tudo isso...

—Ah sim, eu entendo! Mas seria muito agradável termos Hermione por aqui! E para mim e Hogwarts seria uma grande honra tê-la em nosso quadro de docentes! Convença-a de vir para cá, Minerva! Seria algo realmente maravilhoso!

—Uma coisa de cada vez, Alvo! Assim você me parece muito ansioso e me deixa surpresa com isso. Sabe que temos que trabalhar Hermione aos poucos... ela não tem mais condições de permanecer sozinha e isolada do Mundo Mágico, mas também não podemos obriga-la a voltar pra cá, assim sem nenhum preparo.

—Eu sei disso, Minerva, e sei também que conseguirá fazer isso... e tenho a esperança de que Severus também consiga...

—Pois sim, falando nesse sujeito... é com ele mesmo que preciso tratar algo e preciso que seja breve, pois pretendo estar na Londres muggle ainda esta tarde. Fui até a casa dele no bairro trouxa onde ele mora, mas não estava por lá então supus que ele estaria aqui...

—Supôs certo, Minerva. Pedirei que algum elfo traga uma bandeja com chá e comíveis e chamarei Severus até aqui, poderão conversar a vontade, embora esta época do ano todos os cantos do castelo sejam o verdadeiro Éden!

—Não é necessário tanto, Alvo, não precisa pedir o chá.

—Oras, já passa muito do café da manhã e ainda falta algum pro almoço... mesmo na nossa idade, que já passou muito da época de crescimento, precisamos estar bem alimentados.


Dentro de casa, Hermione tentava fugir ao tédio lendo um romance que comprou dias antes de sofrer o atentado. Não via a hora de ficar liberada pelo médico para voltar ao trabalho, um lugar e uma atividade que, ao menos, a ajudava esquecer o mundo e a sua própria vida por algumas horas.

Graças a um dos "bruxos infiltrados" no Mundo Muggle, Hermione recebeu licença médica do trabalho, tendo como alegação crise emocional ocasionada pelo estresse que a levou a uma síncope, por causa do esgotamento nervoso. A desculpa foi ótima, pois também evitou que colegas do trabalho fossem tentar visitá-la, pois foi dito que ela estava internada numa clínica de Repouso e não poderia passar por nenhuma emoção, e rever os colegas poderia deixá-la "muito emocionada".

De qualquer forma, a sua licença já estava se esgotando e não fosse pelo maternalismo exagerado de McGonagall, ela já teria voltado para seu maravilhoso escritório contábil, e estaria com sua mente longe de qualquer outro mundo que não fosse o de finanças e contas e cálculos e consultorias e auditorias e qualquer outra coisa que soe surreal fora dali.

Estava na vigésima página de mil e duzentas que pretendia ler nos próximos dois ou três dias quando seu celular tocou, assustando-a. Era tão raro receber ligações que às vezes até mesmo se esquecia de que possuía esse aparelhinho irritante e que era considerado o mal necessário do século vinte e um.

O celular estava sobre a mesa de centro. Hermione o pegou e, mesmo não reconhecendo o número que aparecia no identificador de chamada, atendeu.

—Alô?

(—Hermione Granger?)

—Sim, é ela. Quem fala?

(—Ah, que ótimo! Como vai, senhorita? É Terry Boot!)

Hermione emudeceu de surpresa, e murmurou por instantes antes de falar com clareza.

—Dr. Boot.. eu... não esperava que me ligasse...

(—Não esperava? Por não me interessar de fato em entrar em contato contigo ou por achar que eu não seria capaz de usar um aparelho muggle?) – O tom descontraído de Boot deixava claro que ele estava apenas brincando e não aborrecido.

Hermione riu por um instante e trocou o aparelho de ouvido, ajeitando-se na poltrona. Por mais que não quisesse admitir, tinha gostado de receber a ligação de alguém que lhe foi tão atencioso.

—Na verdade... eu achava as duas coisas... principalmente que você não saberia como lidar com um aparelho dos trouxas. Pelo que sei, você vem de uma família tradicional, não é mesmo? – No tom de Hermione não havia tanto assim de descontração.

No outro lado da linha, onde Terry Boot falava com Hermione de seu próprio celular – e, aparentemente, um dos mais modernos do mercado – sentiu o tom amargo nas últimas palavras da moça. Não poderia culpá-la por isso, o que parecia um preconceito da parte dela, pois sabia tudo o que ela havia sofrido por causa dessa segregação entre os bruxos, tanto em sua época de Hogwarts quanto após, quando, três anos depois, seus pais foram mortos por exatamente esse motivo: o preconceito.

Terry Boot era muito espirituoso e sabia como contornar situações que pareciam tender pro lado do constrangimento – coisa que aprendeu em sua profissão – e não deixou seu otimismo esmorecer com isso. Voltou sua atenção para a vidraça do café onde estava na Londres muggle, prestando uma distraída atenção aos passantes, todos trouxas, provavelmente.

—Foi o que achei... mas, deve se lembrar do que lhe disse quando teve alta em St Mungus... "de que o mundo mudou, Hermione".. Mesmo nós bruxos de famílias tradicionais temos nos adaptado – e muito bem – ao mundo não-mágico.

Hermione simplesmente não respondeu, preferindo manter o silêncio. Foi Boot que prosseguiu a conversa.

—Bem.. eu apenas liguei para saber como está... ontem a professora McGonagall estava tão preocupada com você que sumiu de nossas vistas antes que pudéssemos nos aproximar... aliás, eu pudesse...

(—Ah! Eu estou bem, estou sim... não sinto dores, nem enjôos nem nada disso... acho que não terei seqüelas do coma...)

—Não, não terá, isso posso lhe garantir.. mas não falo de você fisicamente... gostaria de saber como você está.. emocionalmente...?

Hermione afundou na poltrona onde estava, permanecendo calada por alguns instantes... a conversa começava a tomar um rumo que ela não queria.

—Estou... triste, evidentemente... mesmo que eu não tivesse mais contato com ninguém e... bem, não gostaria - nunca! - de que algum conhecido meu sofresse... ainda menos alguém que foi tão amigo.. um dia... fora isso, estou entediada e... cansada de descansar!

Obviamente que Hermione não podia ver, mas sentiu que Terry Boot sorria do outro lado da linha.

(—Já que está bem fisicamente, mas emocionalmente entediada e triste... não gostaria de fazer algo pra mudar um pouco esse quadro? Gostaria de um chá da tarde, às quatro, numa delicatessen de sua escolha, perto de onde você mora, preferencialmente?)

Hermione ponderou por instantes. Olhou para fora da janela. Ainda era manhã, já perto do meio dia, e o dia estava claro e fresco e parecia que permaneceria desta forma até a noite. E era uma ótima época para saídas ao ar livre... final de Verão, quase Outono. Ela estava mesmo entediada de ficar em casa e daqui a pouco o grosso romance de Tolkien não a ajudaria mais a esquecer de certos assuntos que a estavam incomodando, como Severus Snape, por exemplo... sair no final da tarde seria algo realmente agradável...

—Dr. Boot... aceitarei seu convite... que tal o Motion Bar, ele fica às margens do Tamisa na Hungerford House e ouvi dizer que tem um maravilhoso chá da tarde... você conhece? Sabe como chegar?

(—Hahah, ainda duvidando do meu conhecimento sobre o Mundo Muggle? Esse bar fica próximo à estação de metrô da Victoria Embankment, e tem sensacionais cocktails e é também um ótimo pub à noite, com ótimos DJs! E depois do chá, se ainda estiver disposta, podemos ir ao Royal Festival Hall ou Galeria Hayward. Uma ótima pedida, realmente, Senhorita Granger!)

O bom-humor de Boot acabou por cativar Hermione, que ainda não havia perdido o hábito de testar o conhecimento Muggle do bruxo puro sangue. Ela riu levemente e aceitou, por fim, o convite.

—Está bem, Dr Boot... desde que deixe de me chamar de 'senhorita Granger'... isso me faz sentir importante demais.

(—Combinado! Mas com uma condição, claro: de que deixe de me chamar por Dr. Boot, por favor! Não sou uma profissão!)

—Certo... Terry... então, até às quatro, no Motion...

Boot desligou o celular e estava com uma expressão que era algo como uma alegria insatisfeita.

—E você é importante demais, sim, Hermione...


Snape estava em seu gabinete nas Masmorras, debruçado sobre vários pergaminhos e fazendo anotações com entusiasmo que o lugar silencioso era todo preenchido pelo chiar do bico de pena sobre os papéis. Estava tão concentrado que não notou, sequer, que Dumbledore entrou em sua sala, ou não se preocupou de imediato, sabendo quem era, afinal.

Dumbledore esperou com paciência Snape terminar a linha de anotações para lhe dispensar atenção, que fez apenas erguendo os olhos... mesmo que fosse Dumbledore que ali estivesse, Snape, decididamente, não gostava de ser interrompido em suas atividades, principalmente o tipo que estava fazendo e requeria toda a sua atenção, devido aos cálculos.

—Sim, Alvo?

—Você tem visita, Severus... e ela está com pressa, se você não se incomodar em atendê-la imediatamente...

Snape parou em definitivo o que estava fazendo e ergueu o corpo, endireitando-se em sua cadeira. Lançou um sorriso de sarcasmo pra Dumbledore, que continuava em sua forma passiva.

—Eu tenho uma visita que veio sem avisar, que ainda por cima está com pressa e o senhor quer que eu largue meu trabalho para atendê-la imediatamente?

Dumbledore sorriu de volta, mas sem afetação.

—Vejo que compreendeu tudo. Então, meu filho, se não for muito incomodo, por favor, se apresse!

Dumbledore, imediatamente, girou em seus calcanhares e alcançou a porta de entrada, deixando Snape um pouco atordoado.

—Alvo! De quem se trata, afinal? – Snape se levantava da cadeira, apoiando as mãos sobre sua escrivaninha.

O Diretor apenas o olhou por sobre o ombro, e saiu em seguida.

—É Minerva, Severus. E sabe que ela não perde tempo com nada que não seja importante. E está com pressa. Ela está em meu gabinete.


Snape entrou no gabinete de Dumbledore num rompante, encontrando McGonagall de costas, observando a paisagem pela janela em forma de ogiva. Ela virou-se assim que ouviu a presença tempestiva de Snape.

—O que aconteceu, Minerva? O que há de tão grave para vir pessoalmente?

—Não seja tolo, Severus. Se houvesse algo grave eu trataria isso com Alvo e não com você.

Snape sorriu de cinismo, levando as mãos à cintura e desviando o rosto de McGonagall. Agora ele havia ficado impaciente com a colega.

—Suponho que não foi para me dar foras que veio até aqui, então me diga logo o que há, Minerva! Saiba que me interrompeu em meio a uma fórmula que estou desenvolvendo!

—Oh, peço desculpas por isso. Mas o que tenho a lhe dizer é algo importante, porém não grave, e não gostaria de ter feito isso via coruja.

—Está bem... e?

—Hermione quer falar com você.

Snape se desconcertou e todo o sarcasmo que representava havia sumido. Vincou as sobrancelhas, crendo que não havia escutado direito.

—Isso mesmo que você ouviu, Severus... Hermione quer falar com você. E eu a conheço muito bem para saber que há milhares de coisas naquela cabecinha dela que ela quer pôr em ordem. Ela não me falou o assunto, mas suponho que ela, finalmente, queira saber exatamente o que aconteceu enquanto esteve em coma.

—Ela poderia fazer isso mesmo com a senhora... ou ela conseguiu lembrar de algo...

Não foi uma pergunta para McGonagall, mas uma interpelação a si mesmo. Snape falou a última frase num sussurro, levando a mão direita à boca enquanto a outra se apoiava novamente na cintura.

—Eu contei à Hermione o que você fez durante o coma dela... quero dizer, não contei tudo e nem metade disso! Apenas falei que você fez muito por ela e... há outras coisas que ela não me conta mas que sei que anda ruminando mentalmente. Certamente ela tem uma vaga lembrança ou impressão de algo a mais que aconteceu e quer entender isso com você.

—Sim, tudo bem! E ela marcou algum lugar pra isso? E quando?

—Não, ela não marcou nada, apenas me pediu para eu conseguir arranjar esse encontro com você... mas eu tenho uma sugestão, se lhe interessar.

—Diga, então.

—Receba-a em sua casa de West End.

—Quer que ela saiba que mantenho uma residência na Londres muggle?

—É exatamente essa a idéia...


Quando McGonagall chegou à casa de Hermione já era início de tarde. A professora tinha permissão para aparatar dentro do apartamento e também possuía a chave da porta de entrada, mas sempre preferia chamar antes de entrar e ser recebida como uma visita. Para se identificar de imediato, ela sempre tocava a campanhia na mesma seqüência ritmada.

—Olá, Minerva! Já almoçou? Se quiser eu esquento a lasanha no microondas pra você.

—Não querida, já almocei em Hogsmeade com minha velha amiga Rosmerta, obrigada.

McGonagall entrou e depôs sua bolsa na poltrona próxima, sentando-se em seguida. Hermione foi até a cozinha e logo voltou, trazendo uma bandeja com uma jarra de chá gelado e dois copos longos. Depositou a bandeja na mesa de centro e serviu o chá nos copos, passando um para sua mãe-postiça e pegando o outro, sentando em seguida na poltrona de frente para a da professora.

—Então foi até Hogwarts também, ou apenas ficou no vilarejo?

—Fui primeiro na escola, precisava acertar umas coisas e repassar outras... o novo ano letivo já está quase começando.

—Sim... – Hermione respondeu de forma triste. —...e isso quer dizer que ficarei sem a senhora por perto por muito tempo...

—Você não ficará desamparada, se é o que teme. E poderia muito bem ficar comigo, em Hogwarts. Você sabe muito bem que Alvo lhe daria em bandeja de ouro um cargo docente, é só você querer.

Hermione riu com sarcasmo e, pareceu à McGonagall, que esse era um típico risinho de Severus. A moça encostou-se na poltrona e bebeu um pouco do chá. Pra ela, essa conversa já era velha e sabia que Minerva nunca iria se cansar de falar isso.

—E o que eu ensinaria em Hogwarts? Economia? Finanças? Contabilidade? Como burlar impostos trouxas?

—Já falamos isso e não acho que o assunto seja para fazer graça. Você poderia tomar a cátedra de Estudos dos Trouxas e fazer algo realmente grandioso, a começar em acabar com essa taxação ridícula de chamar os não-bruxos de trouxas...

Hermione ficou séria e pra disfarçar voltou a beber do chá.

—E, como me pediu, falei com Snape e arranjei algo entre vocês.

A moça se engasgou com a bebida e começou a tossir. Levou alguns minutos ainda para ela recuperar o fôlego. McGonagall esperava pacientemente, só apreciando o segundo copo de chá.

—E o que... cof cof! E o que ele... vocês arranjaram? – Hermione estava toda vermelha e com olhos lacrimejantes.

—Basta que você marque o dia e hora, e aviso que se quiser mesmo conversar com Snape, marque isso o mais rápido possível, lembre-se que as aulas estão para começar e ele é um homem ocupado até nas férias.


Minerva McGonagall não ficou por muito tempo na casa de Hermione, apenas o suficiente para informar o que tinha de informar e descansar um pouco. Com a iminência do início do ano letivo, ela precisava ainda resolver muitas pendências e logo estaria partindo em definitivo para Hogwarts, pois precisaria despachar para os alunos as listas de materiais e fazer os preparativos para as boas-vindas e a abertura do ano letivo.

Hermione não quis comentar sobre o encontro que teria com Terry Boot. Não estava sequer animada para tal evento e pensou até em ligar para o rapaz e desmarcar, mas achou que seria de extrema grosseria e o medibruxo sempre fora muito gentil com ela, não merecia tal desfeita.

Olhava o céu pela janela do quarto, enquanto pensava em como se vestiria pra ocasião. O céu já não estava mais tão bonito quanto pela manhã, e estava ficando encoberto por nuvens acinzentadas. Seria ótimo que desabasse uma forte chuva, seria um bom pretexto pra ser usado em desmarcar o encontro, mas a época das chuvas torrenciais havia passado e, provavelmente, o tempo apenas ficaria encoberto.

Voltou sua atenção para o seu guarda-roupa e procurou algo desanimadamente. Não era um grande encontro e sequer tinha algum interesse no rapaz, então uma super produção estava descartada. Pra sua sorte, talvez, não havia muito com que quebrar a cabeça, pois quase todas suas roupas eram trajes sociais para serem usadas a trabalho, o que facilitava ainda mais sua escolha. Por fim optou por uma blusa simples de algodão lisa e de cor neutra e uma saia godê estampada e em cores também neutras. Pôs o mínimo de maquiagem, apenas para não parecer apática demais. Uma sapatilha baixa, uma pequena bolsa de ombro e um coque apressado completaram o visual mais que despojado. Para ela estava muito bom, como fosse ir a passeio pela City, o centro comercial londrino, e era dessa forma que encarava seu "encontro".

—Que Boot me perdoe por isso... não devia ter aceito convite nenhum, isso é o mesmo que acender uma chama de esperança... e isso não me interessa...

Faltavam quarenta minutos pras quatro da tarde, tempo suficiente de pegar um big bus, caminhar distraidamente e chegar uns cinco minutos mais cedo, apenas por boa educação.


Saltou uns bons pontos antes, pra ir caminhando tranqüilamente, aproveitando o tempo extra que ainda tinha antes das quatro. Queria ver movimento, ver gente, e ali conseguia muito isso, até demais.

Parecia fazer séculos que não andava pelas ruas de Londres e sequer fazia tanto tempo assim que passou por ali pela última vez, mas era como se isso pertencesse a uma vida passada... será que sua vida agora, pós-quase-morte, seria virada de cabeça pra baixo, como foi d'outras vezes?

Preferiu não deixar o pensamento sobre o assunto se aflorar, não ao menos agora. Queria chegar bem disposta ao encontro, já era ruim o suficiente estar fazendo isso sem vontade e chegar até Terry Boot com cara de enterro seria o fim.

Hermione entrou pontualmente no Motion Bar às quatro horas. Andou ainda um bom pedaço até encontrar Terry Boot numa mesa de dois lugares ao lado da grande vidraça que dava uma bela vista para o Rio Tamisa.

Ele a avistou primeiro, então acenou para ela, não disfarçando o sorriso de satisfação e alívio, também – teve quase certeza de que Hermione não viria.

—Temos realmente que ter orgulho de nossa pontualidade! São exatamente quatro horas! – Cumprimentou Terry.

Os bancos e mesas daquela área do bar eram fixos, então Boot não precisou ter o trabalho de puxar a cadeira para Hermione, que se sentou já admirando o visual do Tamisa no fim de tarde – e também para não ter que encarar o medibruxo tão de imediato... temia encontrar nele um olhar apaixonado ou algo do tipo, e ela estava dando corda, por menos que quisesse fazer isso! Se ela não quer ter nada com nenhum bruxo, por que diabos havia aceitado o convite?!

Algo desse pensamento transpareceu ao rosto de Hermione e Boot percebeu isso.

—Algum problema, Hermione? – Perguntou inocentemente. —Está se sentindo mal ou algo.. pior?

Hermione ficou muito sem-graça e, gaguejando, tentou contornar a situação – e encerrar o assunto.

—N-não, nada de mais! Apenas... uma leve pontada no... ventre, sabe? Coisas de mulher...

Boot concordou em silêncio, embora não parecesse.

Mas, antes que pudesse puxar a conversa para esse lado, como que enviado por anjos, apareceu um garçom e Boot ficou muito feliz em poder fazer seu pedido.

—Chá completo para dois, por favor.

—Limão ou leite, senhor?

Hermione se prontificou logo a dar seu parecer, embora Boot a tenha olhado para lhe fazer exatamente a pergunta: —Eu prefiro puro.

—Então, os dois são puros, por favor... – Terry completou.

Hermione parecia constrangida enquanto Terry Boot estava muito à vontade e deixava transparecer, claramente, sua satisfação em tê-la ali. Ele era um homem de tato e a primeira providência que tomaria era fazer com que a moça relaxasse e... não pensasse "mal" dele.

—Foi tudo bem no caminho até aqui? Algum receio ou algo do tipo?

—Não, não.. foi tudo bem... acho que.. não fiquei com trauma do que aconteceu... pra falar a verdade, me lembro muito pouco do momento que aconteceu...

Não demorou muito e o garçom trouxe uma enorme bandeja com o chá duplo e os complementos, como torradas, pastas e muffins de frutas. Enquanto o garçom colocava a mesa, a conversa foi interrompida, o que deu à Hermione a vantagem de elaborar algo a dizer que não fosse a quase inevitável direção para sua vida pessoal e sua saúde. Não queria comentar sua vida com ninguém, ainda mais com um quase desconhecido como Terry Boot.

O chá quente e delicioso melhorou bastante o ânimo do casal e acabaram falando em trivialidades leves e outras coisas mais alegres, o que fez uma hora passar rápido.


Hermione estava se sentindo bem, e estava surpresa de não ter se aborrecido por estar conversando com um bruxo. Para isso, Terry ajudava bastante, sempre com tato suficiente para não tocar no assunto "Mundo Mágico" que sabia desagradar à moça, e ele conhecia muito do Mundo Trouxa para desviar o assunto para esse lado. E rapidamente percebeu que Hermione não estava disposta a falar de si mesma.

Mas isso não deixava de ser muito cansativo para o medibruxo.

Após pagarem a conta – e para mais uma surpresa de Hermione, Terry Boot usou um cartão de debito automático! – saíram sem um rumo muito bem definido. Os limites que Hermione se impôs como condição para se permitir vir a esse chá, a dizia que era hora de se despedir e voltar para a segurança de seu grande apartamento, principalmente, porque, estava começando a despertar a curiosidade e esta comichava a sua mente para falar dos tempos de Hogwarts, e isso ela não se permitiria.

E, no caso de Terry Boot, ele estava disposto em virar a noite com ela, se ela lhe permitisse. Arrumou de não ter nenhum compromisso para esse dia, a não ser, claro, que aparecesse alguma emergência.

Terry quebrou o silêncio entre eles que já estava ficando constrangedor: —E então? Vamos ao Royal Festival Hall ou Galeria Hayward, como combinamos no telefone?

—Desculpe, Terry, mas você apenas SUPÔS que poderíamos ir até lá... não combinamos isso...

—Certo... mas podemos ir assim mesmo? – O rapaz sorriu esperançoso, contornando a situação delicada em que Hermione o colocou.

Ela parou, suspirou fundo e então encarou o medibruxo. À claridade do fim de tarde, do sol que esmaecia, até que Terry Boot era um cara bonito, de cabelos castanhos e olhos claros, uns três palmos mais alto que ela e tinha um belo sorriso no rosto. Ele cuidou dela enquanto esteve em coma. Foi sempre muito gentil. Definitivamente, não queria magoá-lo... mas também não queria ir contra suas próprias normas de conduta.

—Eu... eu prefiro que fique para uma outra vez. Espero que você compreenda, mas já foi muito para mim, por hoje...

—Não nego que eu tinha esperanças... de ter sua companhia por muito mais tempo...

—E-eu sinto muito...

—Não precisa se desculpar... eu havia previsto tudo isso, não sou um tolo, Hermione, não se esqueça que eu sou um Corvinal. – Terry terminou com um sorriso que deixou a moça um pouco sem jeito. Ele, propositalmente, mencionou a Casa de Hogwarts, querendo ver qual seria a reação dela.

—Bem, já que parece compreender a minha situação, eu vou pra casa, aproveitando que estamos próximos da estação de Embankment.

—E será que eu posso acompanhá-la até a estação, ao menos? Ou o limite máximo de tolerância à presença de um Bruxo já estourou?

Hermione não queria ser grosseira, mas os seus limites a gritavam dentro de sua cabeça.

—Você realmente compreendeu minha situação, Terry. Vamos nos despedir daqui mesmo.

Terry deu um sorriso triste, e pareceu muito cansado. Hermione ficou com pena de fazer isso ao rapaz, mas não demonstrou sua compaixão (que poderia ofendê-lo) e apenas sorriu em retribuição.

—Foi uma tarde maravilhosa, acredite!

—Foi uma hora maravilhosa, Hermione! E acredito, sim! E acredito também em algo: de que já foi muito o que consegui, essa uma hora que você me concedeu... tenho esperanças que seja um.. início...

Hermione sorriu sem graça e apenas se despediu com um gesto, dando as costas a Boot, indo em direção à estação de metrô. O rapaz, parecendo cansado, mas ainda assim feliz, fez o caminho oposto, num ponto onde não houvesse pessoas para vê-lo desaparatar.

Em torno de dez minutos, Hermione alcançou a estação Victoria Embankment. Entrou, comprou uma passagem na bilheteria e passou pela roleta pra estação de embarque. Ao descer as escadarias, ao pisar no último degrau, teve uma súbita tonteira e se agarrou ao corrimão da escada, sendo imediatamente amparada por uma senhora que vinha logo atrás. Por frações de segundos, sua vista escureceu e os sons desapareceram. Foi tudo muito rápido. Como se estivesse num sonho, vendo tudo embaçado, viu a estação tomar uma outra forma, ficando menor e mais estreita, e as pessoas que ali estavam – que eram muitas àquela hora – se tornaram apenas vultos quase imperceptíveis. O som foi retornando, a imagem novamente se modificando, e voltou a ouvir e enxergar normalmente quando foi surpreendida pelo farol alto e o apito estridente do trem que dava entrada, naquele momento, na plataforma; e só então percebeu que a sua volta formou um pequeno amontoado de curiosos, e entendeu o que a senhora lhe dizia.

—Você deve ter tido uma queda brusca de pressão, querida! Você já se alimentou hoje? Pela sua aparência, você deve ser uma dessas meninas doidas que se matam de fome pra manter a forma, não é?

Hermione piscou em profusão, e então se virou para a mulher, se aprumando e se desvencilhando das mãos dela que apertavam com força os seus braços.

—Eu estou bem, obrigada!

As pessoas se dispersaram e a mulher ainda relutou em deixar Hermione sozinha, mas ela conseguiu se livrar da dona, que embarcou no trem que havia chegado. Confusa, Hermione se dirigiu ao banco mais próximo da plataforma, agora um pouco mais vazia, mas que não demoraria muito para estar novamente lotada.

Sentada, deixou sua mente vagar para a rápida visão que teve. E tudo parecia tão familiar. Decerto que ela, vez ou outra, se utilizava do metrô para ir e voltar do trabalho, mas não era essa familiaridade que sentia ter... era outra coisa, como um déjà vu.

E então se lembrou que havia ficado por muito tempo sentada num banco como aquele; e se lembrou de uma estação relativamente pequena, onde não havia ninguém além dela; e se lembrou de alguém, que apareceu um tempo depois, chamando por seu nome e levando até ela um calor que desconhecia, até então.

Seu devaneio foi interrompido por um novo silvo agudo que vinha de um novo trem que iria para a direção oposta ao anterior. Hermione piscou forte por conta do farol alto que recebeu no rosto, e acabou esquecendo do que estava lembrando, mais preocupada agora em disputar um pequeno espaço dentro do metrô apinhado de pessoas que retornavam as suas casas.


Fim do capítulo 19 – continua.

Snake Eye's – Junho de 2008.


N/A: Obrigado pelos reviews! A todos que estão sempre por aqui e em especial à:

Selen Veane

Dinharj

Rossonera

marina angela

Naj

molambo

Fla Apocalipse

Elendir

Aninha

Regina

Que deixaram mensagens nos últimos dois meses.

E valew também pros que deixaram mensagens no orkut!

Só vale a pena escrever porque sei que vocês estão lendo :)

Abraços e tudo de bom!