CALEIDOSCÓPIO
Parte 20 – Ponto de Partida.
Havia apenas escuridão e, ao longe, um pequeno ponto de luz que vinha crescendo até se tornar imenso e não ser mais capaz de ver nada além do clarão ofuscante. O silvo desesperado e longo do trem fazia com que a coisa tomasse proporção aterrorizante, de que o trem vinha em sua direção e passaria por cima!
Foi com um baque que Hermione acordou, o apito do trem ainda ecoando em sua cabeça e o clarão do farol lhe cegando. Assim que saiu do estado de torpor pelo sono, percebeu que o silvo desesperado vinha de seu despertador eletrônico e a claridade ofuscante vinha da janela que recebia o sol de frente naquela época do ano.
Meio tonta ainda pelo sono e pelo efeito de calmantes que costumava usar para dormir, Hermione tateou sobre o criado-mudo, até encontrar o despertador e, com um tapa, desligar o alarme. Com alguma dificuldade, sentou-se na cama, esfregando vigorosamente o rosto com as mãos, sentindo uma pequena pontada de enxaqueca, logo acima dos olhos.
Como quem tenta reter a água com as mãos, a moça tentava reter a lembrança do sonho que tivera, mas, assim como acontecia com a água que escoava por entre os dedos, a lembrança se desvanecia como fosse neblina. Os detalhes se perderam, mas conseguiu, com grande esforço, manter o foco básico daquele sonho: uma estação subterrânea; um trem de metrô com apenas um carro; um homem que lhe envolvia com o calor.
Jogou o lençol que se cobria de lado, calçando os pantufos e indo para o banheiro, saindo quase meia hora depois enrolada num roupão felpudo e muito branco, com os cabelos molhados, pingando as suas costas.
Na cozinha, prepara seu parco desjejum, com uma xícara de café bem forte feito na cafeteira italiana e duas fatias magras de pão-de-forma torradas rapidamente na torradeira elétrica. Para tentar se distrair da impressão do sonho que ficou impregnada em sua mente, Hermione liga a televisão da copa, enquanto arruma a mesa com um jogo americano, dispondo sobre ele sua xícara fumegante de café extra-forte, o prato com sua duas torradas deprimentes e um vidro de geléia que retirou da geladeira.
A TV ligada era apenas para fazer som ambiente, porque, de fato, Hermione sequer olhava para a tela. Estava ligada no canal da BBC Londres – aliás, a TV da copa jamais tinha o canal mudado – e naquela hora manhã se passava as noticias do país e mundo afora, falava de política, economia, cotações, tudo tão repetitivo que Hermione não estranharia se, algum dia, os apresentadores revelassem que escrevem uma matéria de cada assunto para ser usada durante toda a semana.
Com uma torrada cheia de geléia na boca, lembrou-se do quanto cedo foi dormir ontem. Não queria sentir contentamento algum, empolgação alguma que fosse, por ter saído com Terry Boot, então tomou duas de suas bolinhas salvadoras – calmantes para dormir – e deitou-se por volta das oito horas, com o dia ainda claro. Ainda com a torrada na boca, foi até sua secretaria eletrônica e clicou, para ouvir alguma possível mensagem (quando tomava seus calmantes, nem seu escandaloso despertador conseguia fazê-la acordar antes de passar o efeito dos medicamentos, quanto mais ouvir o telefone tocando, que já ficava num tom baixo da campanhia.), afinal McGonagall não apareceu ontem à noite e nem ainda pela manhã, e talvez tenha lhe ligado para deixar algum recado.
Não deu outra.
((—Hermione! É Minerva! Não acredito que já esteja dormindo a essa hora! Ouça: surgiu um imprevisto e precisarei rever a lista de livros para os alunos do terceiro ano, e precisarei ir pra Hogwarts para resolver isso o quanto antes. Então não poderei estar contigo pelos próximos dois dias. Qualquer outro imprevisto, entrarei com contato VIA-CORUJA! Se precisar de algo, não hesite em fazer o mesmo!))
E o tradicional sinalzinho indicando o fim da mensagem, mas no mostrador digital indicava que haviam mais duas mensagens a serem ouvidas. Hermione estranhou. Só porque ela estava indisponível ontem à noite, resolveram ligar pra ela? Com uma ruga entre os olhos, a moça clicou novamente o botãozinho.
((—Olá, Hermione. Desculpe por parecer que estou sendo insistente e... sei que estou sendo um pouco inconveniente, mas... eu me preocupo com você... apenas gostaria de saber se chegou bem em casa... se você está bem, de fato. Entendo como está se sentindo, mas... se quiser algum apoio.. me ligue...boa noite..))
Hermione não sabia se ficava contente ou aborrecida com o telefonema de Terry Boot. Estava escancarado que ele estava a fim dela, mas ela não queria, continuava não querendo, ter envolvimentos com outras pessoas do Mundo Mágico além de Minerva. E com Terry, como ele fazia questão de demonstrar, esse envolvimento não seria apenas mera amizade... ele, com certeza, queria ir além disso, e "além disso" era uma passo muito maior do que ela poderia dar, agora que ela permitiu, no máximo, um chá da tarde com um bruxo que não fosse Minerva McGonagall.
Ela não podia se negar em afirmar que o rapaz tinha muitas coisas a seu favor: bonito, gentil e inteligente... aparentemente, tudo era a favor dele, não fosse o fato de ele ser... bruxo.
Deu de ombros. Deixaria pra pensar nisso em outra ocasião. E também, pretendia, ser mal-educada e não agradecer o telefonema tão cedo. Um pouco irritada, clica de qualquer jeito o botãozinho, dando seqüência a terceira e última mensagem da secretaria eletrônica. Hermione está com a torrada presa na boca, que ainda não conseguiu terminar de comer toda, e a voz macia e baixa faz seu estômago gelar.
((—Senhorita Granger: recebi o recado de Minerva e se quiser mesmo ouvir algum relatório a respeito de sua estada em St Mungus, me encontre amanhã, às 6 da tarde, na estação de King Cross, plataforma 9 ½. Esteja lá pontualmente.))
A torrada caiu da boca de Hermione, caindo virada com a geléia para baixo e sujando o tapete felpudo de lã branquinha. De repente, a moça sentiu suas pernas fracas demais e deixou-se cair de joelhos diante da mesa do telefone. A pessoa da mensagem não se identificou, e sequer era preciso; a mesma voz fria e anímica de sempre! Severus Snape! Por um instante pensou até que poderia ser um trote, uma brincadeira... Snape, usando um telefone?! Ligando para ela?! Incrivelmente, a idéia de um trote era ainda mais inverossímil e nunca, ninguém, conseguiria imitar aquele tom de voz, uma voz tão mansa que chegava a ser perigosa.
—Ele falou... King Cross, plataforma 9 ½... amanhã, às 18 horas... NÃO, NÃO, Hermione! Ainda está sob o efeito de calmantes?!
Alarmada consigo mesma, Hermione se levantou e mexeu no controle da secretária eletrônica, identificando o dia e horário da mensagem, constatando que havia sido ontem mesmo, por volta das 10 horas da noite.
—Ah, Deus! Ele vai me fazer ir até King Cross! Será que não poderia marcar qualquer outro lugar de Londres!? Tão típico dele, querer brincar com o medo dos outros, debochar dos sentimentos alheios!
Hermione ajoelhou-se novamente, apoiando os cotovelos sobre o banco anexo à mesa do telefone, levando as duas mãos à cabeça, sentindo-se entre a cruz e a espada.
Queria saber o que aconteceu, de fato, durante seu coma. Queria saber qual a participação de Snape em sua recuperação. E queria saber, principalmente, o que significava aquelas impressões sobre uma estação de trem, uma espera repleta de dúvidas e... sobre quem a fez retornar a esse mundo, que queria sair pra nunca mais voltar!
E seu maior medo... descobrir que fora mesmo Severus Snape que lhe deu conforto e asilo, e lhe deu, o mais incrível de tudo, a esperança para continuar ainda nesta vida!
Hermione não se deu conta, mas estava tremendo. E sua cabeça era um verdadeiro caldeirão fervilhante de idéias, pensamentos, especulações e... impressões reais, quase palpáveis.
Minerva McGonagall estava absorta e debruçada sobre listas de materiais, na sala de reuniões dos professores. Havia pilhas de livros de ambos os lados e, vez ou outra, ela abria a cada de um deles para verificar informações. Estava tão centrada no seu trabalho que não percebeu quando o professor Dumbledore entrou na sala com alguns pergaminhos esticados em suas mãos.
—Bom dia, Minerva! Começou cedo esse trabalho. Poderia ter deixado isso para tarde, após o almoço.
McGonagall se sobressaltou, borrando o pergaminho que escrevia com a tinta que saiu demais da pena. Ela deu um muxoxo contrariado e, simplesmente, apontou sua varinha pro papel e murmurou qualquer coisa que fez o borrão desaparecer. Só então ela deu a devida atenção a Dumbledore.
—Bim dia, Alvo! Quero acabar logo esse trabalho porque quero voltar logo pra Londres. Me incomoda deixar Hermione muito tempo sozinha, depois de tudo que aconteceu.
Dumbledore sorriu, mas nada respondeu de imediado. Puxou uma cadeira e sentou-se à mesa, de frente à McGonagall. Espalhou seus próprios pergaminhos sobre a mesa, de forma ser possível visualizar um pouco de cada um, e só então voltou-se para a professora.
—Você está saindo uma mãe e tanto, Minerva! É uma pena que não quisera ter filhos...
Mcgonagall sorriu, ajeitando-se em sua cadeira. —Filhos próprios, você que dizer? Pois me considero a mãe mais qualificada de todas neste mundo, após todas essas décadas cuidado de milhares de crianças... – Disse, com orgulho.
—E certamente você se superou nos cuidados de Hermione... a mais brilhante e complicada criança que passou por suas mãos.
—Ora, Alvo, chamá-la de 'complicada' é injusto. Ela foi apenas incompreendida, e não conseguiu superar a perda dos pais... precisou descontar a dor e a frustração em algo, e descontou no Mundo Mágico. Na mente dela, se ela fosse uma muggle comum, os pais estariam vivos e bem.
—Não estou a criticando, Minerva.. sei bem o que ela sentiu... tanto poder disponível, tanta mágica, e não foi capaz de impedir a morte dos pais. Até mesmo entre nós, bruxos de sangue-puro, há os que acreditam que mágica é milagre, é capaz até de trazer a vida eterna.
Minerva não respondeu, apenas assentiu com a cabeça e retornou a sua lista. Sabia que Dumbledore falava de si mesmo, pois ele próprio nunca aceitou o fim que sua irmã tivera. Ele também debruçou-se sobre seus pergaminhos e começou a escrever, e sem erguer os olhos do seu trabalho, voltou a falar:
—Severus marcou o encontro...
—Não sei, Hermione nada me disse ainda... suponho que não.
—Não, Minerva, não foi uma pergunta... Severus marcou o encontro.
A professora abandonou definitivamente o que estava fazendo, dando total atenção a Dumbledore, que também parou seu serviço, a encarando com otimismo.
—Eu não sei disso! E Hermione não me contou nada!
—Calma, Mãe... Ela contou porque nada havia sido feito ainda, até a hora que você ainda estava com ela.
—E...?
—Severus foi para sua casa em Londres, na noite de ontem. Disse que daria apenas uma chance à garota, que não tinha mais tempo para ficar fazendo os caprichos dos outros, agora que as aulas estão quase começando...
—Mas.. que.. petulante! O que ele...?
—Calma, Minerva! Até parece que não conhece nosso Mestre de Poções. Orgulhoso, não dá o braço a torcer nem quando se trata de seus próprios sentimentos...
—Está bem, está bem! Mas como sabe que eles marcaram algo?
—Na verdade, eu não sei... foi apenas o que Severus disse que iria fazer.. então suponho que ele tenha feito e Hermione tenha aceitado, curiosa e obstinada como ela é...
McGonagall lançou um olhar estranho para Dumbledore, mas manteve-se quieta e voltou para sua papelada e rabiscos. O velho mago também retornou aos seus afazeres, e a sala, onde só estavam eles dois, ficou num total silêncio, onde apenas era possível ouvir as penas arranhando os pergaminhos.
Para se acalmar, Hermione foi para a cozinha, preparar tudo que encontrou na geladeira e dispensa, o que, afinal, não era muito, mas o suficiente para deixa-la ocupada por umas duas horas, e evitar que se preocupasse com o que estava por vir. Ficou entre selecionar, lavar, descascar, cortar, temperar, cozinhar e mais o que fosse. Tinha ingredientes até para fazer uma torta de creme e frutas, e até isso se dava o trabalho de fazer.
Ao menos, quando McGonagall chegasse, haveria muitas coisas variadas para servi-la, ao invés de apenas um ou outro prato de massa congelada para microondas.
Mas, por que o nervosismo?
Desde que terminou os estudos em Hogwarts, Hermione não mais voltou à King Cross. A principio por falta de tempo e oportunidade, já que estavam em plena guerra contra Voldemort. Depois, ao cair em desgraça, se recusou vigorosamente a não mais voltar àquele lugar, como em todos os outros do Mundo Mágico. Alias, evitou, até mesmo, ter que ir à "parte trouxa" da estação.
E King Cross tinha um significado muito forte: era o ingresso para o Mundo Mágico, onde tudo começava, onde havia a divisa entre os dois universos: Muggle e Bruxo.
Ao pensar nisso, deixou que pingos de água fervente caíssem sua mão, ao destapar uma panela para ver como ia o cozimento. Largou a tampa sobre a panela com estrépito, levando a parte queimada à boca. Afastou-se da cozinha, se refugiando na pequena área anexa, que dava para fora do apartamento e onde era usado como lavanderia.
Encostou-se na parede e ficou observando o lugar onde morava... apenas um complexo de prédios que não davam vista para nada além disso, monótono e sem graça alguma, mas era uma das áreas urbanas de maior poder aquisitivo.
Não só o fato de ter que pôr novamente seus pés em King Cross, na plataforma 9 ½... só de imaginar que estaria cara-a-cara com Snape lhe dava arrepios, não por medo, mas por algum rancor que ficou guardado dentro de si. De todos os ativistas da Ordem da Fênix, ele foi o único que demonstrou total desdenho pelo o que aconteceu aos seus pais. Obviamente que não esperava qualquer pesar da parte dele, mas ter visto ele tratar aquilo como uma coisa banal e corriqueira, foi demais da conta!
"—Não se ache especial por isso, Senhorita Granger! Pensa que seus pais valiam mais que qualquer uma das outras vítimas que já sofreram nas mãos dos Comensais? Não lembro da senhorita ter chorado e estado prostrada por dias por causa de nenhuma delas."
—Mas que maldito-miserável-filhodamãe!
Hermione chegou a arrancar um bife da unha que roia sem perceber. Voltou com raiva para a cozinha, pois, prestando atenção no que estava fazendo, não corria o risco de ter esses pensamentos e lembranças infelizes.
Snape aparatou por volta das cinco da tarde, na deserta plataforma 9 ½ da Estação de King Cross. Não havia ninguém ali àquela hora, nem seguranças. O último trem para Hogsmeade havia partido havia uma hora, às quatro. Andou até a grossa pilastra que dava acesso à plataforma e verificou que a passagem estava selada. Esperou que Hermione lembrasse de aparatar, a não ser que ela não se permita nem isso, ao menos.
—Bem, ela usou sua varinha e sua magia por instinto, quando foi atacada pelos novos comensais... —Snape sussurrou, baixando a mão que tocava a sólida pilastra, rindo de Hermione, que fez de tudo para abandonar a magia, mas não percebia o quanto isso fazia parte dela própria.
Virou, voltando-se para a plataforma. Ele próprio já não pisava ali há anos, décadas, até! E vendo-o dessa forma, sem ninguém, sem nenhum trem, tinha o aspecto triste e parecia parado no tempo. A estação já existia há quase duzentos anos e parecia que jamais fora modernizada. Andou até um banco de madeira e se sentou, para esperar pela hora, e apreciar a melancolia daquele lugar.
Hermione já estava arrumada, pronta pra sair, mas não pronta espiritualmente. Estava recostada ao batente da janela, olhando o espaço e sentindo o vendo da tarde que entrava. Estava com um vestido longo e abundante em tecido de algodão, que ia até seus tornozelos, o colo à mostra por causa do corte em top de alças largas. Ainda decidia se realmente queria ouvir o que Snape tinha pra lhe dizer, pesando se isso valeria o sacrifício de retornar à Plataforma 9 ½.
Mas, sempre que pensava nisso, e ao fechar seus olhos, ela via aquele trem fantasmagórico vindo em sua direção, o farol alto a cegando e o silvo longo a ensurdecendo. Então, do nada, lembrou-se de Rony, daquele garoto estúpido e grosso, mas, com certeza, não merecedor da morte que teve. Sofreu a mesma maldição que ela, recebeu o mesmo tratamento e atenção que ela – senão mais, por ser um Auror, um funcionário do Ministério, entre outras credenciais a favor dele.
Nesse momento, sua mente foi invadida por aquela voz macia e calma, como se o próprio dono da voz estivesse ali naquele momento, repetindo a mesma frase:
"—A Senhorita Granger (...) criou uma proteção mental (...) antes de receber toda a carga da maldição. Ao contrário, Weasley apenas alcançou esse recurso quando era tarde demais para seu corpo, que recebeu quase que completamente a carga da maldição..."
Hermione se forçou a voltar de seu devaneio, sacudindo freneticamente a cabeça para espantar os pensamentos e lembranças.
—Como eu poderia ter feito algo assim e Rony não, muito mais acostumado a lidar com situações de risco em magia?! Sem contar que eu estou completamente desabilitada com a magia! Algo a mais houve...
"—Severus não apenas preparou as poções, mas fez muito mais, Hermione..." – A voz de McGonagall ecoou em sua cabeça, o que a fez, decididamente, tomar uma atitude.
—Seja o que for, com certeza enfrentar meus fantasmas não será pior que enfrentar uma maldição letal! Só tem um jeito de acabar com esses ecos em minha cabeça...
Decidida, Hermione passou a mão sobre a bolsa que estava jogada na cama, levando-a ao ombro, e saindo para o tal encontro com Snape. Ao menos, alguma resposta teria, mesmo que nunca chegasse a saber porque ela sobreviveu e Rony não.
Eram quase seis da tarde. As ruas começavam a ficar ainda mais movimentadas de pessoas que saiam do trabalho e da escola. Hermione chegou à Estação King Cross faltando apenas cinco minutos e, como era de se esperar, a estação estava repleta de pessoas que chegavam e saiam dos trens estacionados nas diversas plataformas, paralelas umas às outras.
Por mais que tentava bloquear o saudosismo, foi inevitável. No memento em que entrou em King Cross, as lembranças a tomaram de assalto, pois ali foi o início e o fim de um período realmente feliz. E, inevitavelmente, as lembranças levavam até sua mãe e seu pai, quando eles a levavam e a buscavam na plataforma; a relutância mal disfarçada que eles faziam para deixá-la partir; as lágrimas que ela os via engolir; os arroubos de felicidade quando se encontravam depois de um ano letivo...
Não queria dar chances da melancolia a dominar, então, em passos apressados, seguiu firme até à plataforma 9, desviando-se das pessoas que iam e viam igualmente apressadas, como se todas elas fugissem ao seu passado.
Hermione parou ao final da plataforma, defronte à grossa pilastra que era usada de portal para a plataforma dos bruxos. Relutante, como se temesse se queimar, tocou de leve a pilastra, sentindo apenas o frio sólido da parede recoberta de ardósia. Olhou para os lados, certificando-se de que ninguém lhe dava a mínima atenção, então pressionou com mais forma os dedos contra a pilastra, sentindo apenas a solidez fria. Por um instante, sentiu-se aliviada, deixando até transparecer um leve sorriso, após suspirar. Deu dois passos para trás, e girou sobre os calcanhares, voltando sua mente e sua realidade para a plataforma lotada de pessoas inquietas e, como se fossem mesmo assombrações, suas lembranças novamente a assaltaram, voltando tudo com a forma de uma represa que teve suas comportas abertas.
Por que ela ainda estava nesse mundo que já não fazia nem oferecia sentido para sua vida?
Por que ela simplesmente não embarcou naquele trem, e seguiu rumo ao encontro de seus pais, que tanta falta lhe faziam?!
E que trem é esse de que tanto lembra? Que lembrança é essa de uma escolha que poderia ter sido feita, e que a fizeram escolher está de volta ali, novamente?
Antes que tudo se tornasse turvo e confuso, antes que sua mente entrasse em colapso por conta da torrente de pensamentos e dúvidas que a estavam dominando, Hermione tomou uma decisão que, para ela, nas circunstâncias em que estava vivia, era muito grave.
Desaparatou, sumindo feito fumaça e deixando apenas o eco do rasgo tempo/espaço para trás, um som que lembrava algo como um estalar de chicote de couro.
E, no mesmo instante, aparatou no lado oposto da pilastra-portal, entrando novamente num mundo em que não retornava há oito anos.
Em meio à pressão de ar que se formou em sua volta, sentiu-se mergulhada em águas profundas, e o tempo lhe pareceu letárgico. Recusou-se por esses instantes a abrir os olhos e encontrar mais do passado que abandonou, e esperou o tempo letárgico passar, até a pressão em volta desaparecer e seu próprio corpo se acalmar.
Lentamente, abriu os olhos e foi enxergando gradativamente conforme ia se acostumando à penumbra da plataforma, cuja única luz provinha de uma faixa na alta cobertura feita em telhas transparentes. E, conforme seus olhos se abriam e se acostumavam à luz suave do lugar, o próprio lugar tomava forma e conteúdo. Olhou para o lado da linha, onde jamais havia visto sem o vermelho Expresso Hogwarts. Havia apenas trilhos, dormentes e pedras, e sua visão subiu até à plataforma, encontrando, aos poucos, a pessoa que a fizera vir até ali, parada diante dela em alguns metros à frente, as mãos entrepostas à frente, olhando-a com uma fria curiosidade.
Severus Snape.
Fim do capítulo 20 – continua.
Snake Eye's – Julho de 2008.
N/A: Desculpe os possíveis erros! Tempo mto minguado pra poder fazer revisão.
OBRIGADO PELOS REVIEWS!! MANDE MAIS!!
E BEM-VINDA de volta SELEN VEANE! E mto obrigado por todos aqueles comentários!!
