ALEIDOSCÓPIO

Parte 22 – Terry Boot.


Snape estava sentado em frente a Dumbledore, na pequena mesa de reuniões que ficava no gabinete diretor. Sorvia pensativo o chá, segurando a xícara de porcelana branca com ambas as mãos, os cotovelos como que fincados no tampo de madeira da mesa.

Ele havia chegado à Hogwarts há umas duas horas, através da Rede de Floo que interligava a sua casa em West End ao gabinete particular de Dumbledore. A constatação a que chegou e ao incidente que assistiu - da briga entre trouxas manipulada por bruxos – fez com que Snape colocasse tudo e qualquer coisa em segundo plano. Todo o resto poderia esperar, mas isso, talvez, estivesse chegando até mesmo tarde demais ao conhecimento da Ordem.

Se aquilo foi apenas um fato isolado do qual ele teve muita sorte de presenciar ou se aquilo é uma prática comum e difundida, caberia aos integrantes da Ordem da Fênix averiguar. O Ministério da Magia continuava a ser uma instituição inconfiável, pois havia ali bruxos de todas as formas, de todos os credos, de todas as cores, isto é, não era porque os bruxos dentro do Ministério fossem funcionários do Governo que garantia bom caráter e boa moral a nenhum deles, e em diversas épocas da Historia Bruxa, o Ministério da Magia se provou muito vulnerável em vários sentidos.

Dumbledore olhava tristemente sua xícara intocada sobre a mesa. A luz bruxuleante das velas o deixava com a aparência ainda mais decrépita, embora 126 anos não fossem poucos anos nem para um bruxo.

Snape saiu de seus próprios pensamentos para observar Dumbledore. Vendo-o daquela forma tão envelhecida, cansada e desamparada, teve pena e se arrependeu de ter vindo com uma má notícia de madrugada, tirando o pobre homem de um sono merecido às 2 da manhã. Dumbledore, certamente, levaria tudo isso até o último dia de sua vida, mas já era mais que hora de ele, Snape, e os outros membros da Ordem também, de tomarem atitudes mais maduras, tirando um pouco o peso dos ombros do velho mago.

Baixou sua xícara para a mesa, e falou numa voz rouca e baixa: —Peço desculpas, Alvo, por tê-lo acordado a esta hora, eu poderia muito bem ter esperado pela manhã...

—O que é isso, Severus? Não há nada de errado em me acordar a qualquer hora que for... ademais, é um assunto sério, que não poderia esperar pela manhã. Precisamos pensar... pensar em novas estratégias e abordagens.

—Não tão sério que não pudesse esperar mais algumas horas... – Snape respondeu com amargura. —Já é mais que hora de aliviarmos um pouco seu fardo, Alvo.

Dumbledore ensaiou um sorriso para Snape, na certa preparando alguma tirada engraçadinha a respeito de sua velhice, mas o sorriso morreu antes de se tornar completo, e resolveu falar seriamente com o Mestre de Poções.

—Eu confesso, Severus... confesso que não sei o que fazer mais com esses casos... me sinto cada vez mais fraco e impotente... sinto que todos esses anos que viemos trabalhando para mudar as mentalidades de várias gerações foram apenas trabalho em vão...

—Isso não é verdade, Alvo! Graças ao senhor vivemos uma sociedade muito melhor do que já foi algum dia! Está certo que há um número desagradável de jovens perdidos em meio a tanto poder e ignorância, mas é mais verdadeiro ainda o número de outros jovens que levam uma vida saudável e equilibrada, de mente aberta e dispostos a assimilarem aquilo que houver no mundo todo, inclusive no Mundo Muggle! Terry Boot é um ótimo exemplo disso: puro-sangue, família tradicional e perfeitamente capaz de viver como um muggle. Já não há mais a mesma cegueira de décadas passadas!

—Dizer que sou o grande arauto de várias gerações é um pouco de exagero, meu filho... Mas veja que o próprio mundo já impele a isso. É uma Lei Natural: evoluir para não desaparecer. Acredito que, no futuro, Bruxos e Trouxas voltarão a viver em harmonia, como foi algum dia, mas, até lá... é preocupante o quadro atual.


O tempo amanheceu nublado, com nuvens fofas e cinzentas a cobrir boa parte de Londres. O sol brigava por brechas que permaneciam abertas por pouco tempo.

Terry Boot preparava seu próprio desjejum, jogando uma mistura bombástica na frigideira aquecida por magia. Com um aceno distraído da varinha, enquanto o rapaz preparava o café e leite instantâneos, dois ovos se partiam e deixavam cair o conteúdo dentro da frigideira e por cima duas fatias de bacon, que encheram a minúscula cozinha de chiados e aromas. Enquanto uma colherinha girava freneticamente dentro da xícara para dissolver e misturar o leite e o café, Terry se preocupava em folhear o Profeta Diário, sendo apenas um hábito matutino que fazia mecanicamente sem, de fato, se interessar pelo que havia ali publicado.

Quando os bacons e ovos ficaram prontos, o rapaz despejava a mistura num prato de cerâmica, quando foi interrompido pelo chamado irritante da campainha. Deixou de lado o que estava fazendo e foi atender a porta, decerto fosse o zelador do prédio querendo lhe dar algum recado, visto que não poderia ser uma visita às 7:30 da manhã.

Incauto, abriu a porta num rompante, sem ao menos se certificar de quem poderia ser. Um rapaz imberbe, de cabelos muito loiros cortados muito curtos, quase raspados, se apoiava no batente da porta com uma das mãos enquanto a outra se segurava no quadril. Um sorriso sádico se desenhava em seu rosto pontudo, os olhos cinzentos brilhando em malícia.

Esperando que fosse o zelador, Terry se assustou com o rapaz de aparência largada a sua porta, dando um salto para trás. O visitante riu com sarcasmo.

—Minha aparência está tão ruim assim para você se assustar, Terry?

Boot olhou impaciente para o rapaz que, realmente, não tinha uma aparência decente. Usava roupas e sapatos surrados: um coturno de couro muito gasto, calça que parecia ser três números maior, e um suéter cinzento com a gola e punhos da manga mastigados.

—Achei que fosse o zelador... – Disse, calmamente. —Não se espera receber visitas sem avisar às sete da manhã, sabe?

O rapaz riu com gosto. Boot só ficou olhando impaciente, esperando para que ele dissesse a que veio.

—Poxa, me desculpe, doutor Boot! Acho que esqueci os bons modos...

Terry avaliou mais um pouco seu visitante, até que se decidiu, brandamente: —Está tudo bem, Draco! Entre, tome café comigo... você parece faminto.

O rapaz deu um sorriso aberto, parecendo que ficara mesmo feliz com o convite. Entrou sem cerimônia, atravessou a sala e foi já sentando-se à mesa de dois lugares que ficava na cozinha. Terry apenas bateu a porta contrariado e foi para a cozinha, preparar um segundo desjejum.

Com um aceno de varinha, novos ovos e fatias de bacon caíram novamente na frigideira sobre o fogão, em que o fogo foi aceso novamente, por magia. Terry pegou uma nova xícara num pequeno armário preso à parede sobre a pia e preparava novo café instantâneo com leite em pó. Observou de relance a Draco, que comia com vontade e sem nenhum bom modo, devorando os pãezinhos sem se importar em recheá-los com os ovos e bacons, que devorava à parte. O rapaz estava mesmo faminto.

Somente depois de tudo pronto que Terry se sentou de frente a Draco, mas sem nenhum apetite e cogitando a possibilidade de deixar tudo para o rapaz, novamente. Apenas se serviu do café com leite, ainda avaliando seu visitante inesperado, que estava muito ocupado devorando o que podia.

—Por onde você andou, Draco?

O rapaz olhou assustado para Terry, como se de repente ele tivesse surgido a sua frente sem avisar. Se abrandou e sorriu como um garoto, passando um pedaço de pão no prato, aproveitando até a última migalha que sobrou dos seus ovos. Terry empurrou o seu prato para Draco, que aceitou muito agradecido.

—Eu.. tenho.. estado.. por aí... não sei.. bem.. onde... – Draco respondeu, com a boca cheia.

—Eu deveria pegá-lo e levá-lo à força para St Mungus. Você não está nada bem, Draco!

Draco riu enquanto mastigava mais um pãozinho.

—Eu estou perfeitamente bem, Doutor! Só preciso de comida e banho.. umas roupas decentes completariam o visual, me fazendo parecer uma pessoa de bem HAHAHAHAHAH

—Posso lhe arranjar tudo isso, mas você vai para St Mungus comigo. Você precisa de tratamento e medicação, não pode se largar dessa forma! Você estava indo muito bem! Por que largou tudo, afinal?

Draco terminou de engolir todo o conteúdo da sua xícara e atacou a xícara de Terry, tirando-a da mão dele. O medibruxo não fez nada para impedir, apenas meneou a cabeça, soltando um muxoxo de impaciência.

—Aqueles medicamentos têm gosto de mijo! Não preciso mais daquilo, estou perfeitamente bem, nem sinto mais dores ou vertigens... só estou passando fome e fedendo, falou?!

Terry estava muito sério e encarou Draco nos olhos. O rapaz retribuiu com um olhar de desdenho.

—Por onde você andou?

—Como você foi pra Corvinal com uma memória dessa, Terry? Eu já respondi isso!

—Não, você não respondeu. Se me disser novamente que esteve por aí sem saber onde, o levarei a força para o hospital, agora mesmo!

Draco torceu o rosto numa careta, como fosse uma criança. Deu um grande gole no café com leite de Terry, e então respondeu, de má vontade:

—Estive com uns amigos... algumas vezes em porões, outras em becos imundos... mas é verdade quanto a não saber ONDE... não me importava muito com isso desde que estivesse bem longe do Ministério ou de Saint Mungus.

Terry Boot levantou-se bruscamente e agarrou com força o braço esquerdo do rapaz, levantando a manga do suéter surrado. Terry reprimiu uma exclamação.

No auge da guerra contra Voldemort, naquele mesmo braço havia a horrenda tatuagem de uma cabeça cadavérica de onde saia uma serpente que dava um nó em si mesma. Com a morte de Voldemort, todos os Comensais da Morte se tornaram livres daquela marca, pois a mesma desapareceu sem deixar sombras. Havia rumores que alguns dos Novos Comensais tinham uma marca idêntica no corpo, mas como não eram um grupo organizado, isso não era generalizado. Não havia mais a Marca Negra no braço de Draco, mas havia outras marcas igualmente horríveis.

A pele do braço de Draco, que normalmente deveria ser branca como alabastro, estava completamente roxa, cheia de veias estourada e furos de agulhas que desciam até o pulso.

—Draco.. por que você está fazendo isso consigo mesmo?! – Terry perguntou, em fúria, largando com raiva o braço do rapaz, que o olhava como uma criança indignada.

—Porque eu gosto! Porque isso me deixa feliz! Me faz sentir livre! Me faz esquecer!

Terry se afastou de Draco, parando à porta da cozinha. Tinha uma das mãos à testa e estava perturbado. A vontade que sentia era de socar Draco até deixá-lo desacordado, e jogá-lo numa solitária em St Mungus até ele recuperar definitivamente a sanidade.

—Você estava indo bem, Draco.. estava respondendo bem ao tratamento, estava cheio de planos... por que você desistiu de tudo, deu pra trás? – A voz de Terry era lamuriosa.

Draco, enfurecido, levanta-se da mesa, mostrando-se para Terry. Puxa a barra da suéter com as mãos, como se fosse rasgá-la.

—ISSO! É por isso! De que adiantaria todos os meus planos se eu estou na merda?!

Terry não acreditou no que ouvia, e olhou abobado para o visitante: —Como assim? Você largou seu tratamento, se jogou no lixo, por causa de...

—DINHEIRO! É ISSO MESMO! DINHEIRO! De que valeria tudo aquilo se eu fiquei na merda?! Meus pais sumiram no mundo depois que o Ministério confiscou todos nossos bens! Nos deixaram totalmente na miséria! Eles me deixaram sozinho na miséria!

—Não, eu não estou ouvindo isso! – Terry estava chocado e incrédulo. —Você é um cara inteligente, é um bruxo de muitos talentos, é jovem e saudável! Poderia lutar para fazer sua própria fortuna! Aliás, ninguém sequer precisa de fortuna para viver!

—Éeee? Diga isso por si mesmo, Terry Boot! Veja o moquiço em que mora! Nem dá para abrir os braços sem derrubar alguma coisa! Veja ao que você se reduziu! Sei que trabalha num hospital de trouxas, CUIDANDO DE TROUXAS! Você é outro TRAIDOR DO SANGUE!

Terry ficou vermelho de raiva, mas se controlou bravamente, tentando se acalmar e acalmar a Draco, que se mostrava muito perturbado.

—Não vou discutir com você, Draco, se é isso que quer. Vá tomar o banho que disse precisar, vou te arranjar roupas limpas e então podemos conversar. Não há porque ter alterações.

Draco amarrou a cara como fosse uma criança que acabou de ser reprimida. Saiu de trás da mesa e passou por Terry, parando à entrada da sala. Terry, aparentemente calmo, mas com os punhos fechados com força, o olhava com resignação. Ele foi um dos medibruxos (e o último) que tratou de Draco Malfoy após o fim da guerra contra Voldemort. O rapaz, com então vinte anos, sofreu uma seqüência de feitiços de aurores, que acabaram por afetar órgãos internos e o cérebro. Passou, então, os últimos seis anos em tratamento no Hospital St Mungus, tendo uma recuperação lenta, mas progressiva. Estava em alta há dois anos, indo apenas para revisão e prosseguir com o tratamento à distância, quando se descobriu na miséria há poucos meses, abandonando tudo e sumindo do mapa.

Draco sorriu com sadismo. Na verdade, ele não estava ali para fazer visitinhas e tomar café.

—Soube que uma infeliz sobreviveu à nova maldição e que foi tratada em St Mungus...

Mesmo estranhando a mudança de assunto e o tom de voz macio do rapaz, Terry confirmou: —Bom, ao menos você se mantém informado dos acontecimentos...

Draco se virou de frente para Terry, deixando as mãos às costas da cintura: —Ah, sim, claro que sim! Entre um pico e outro, dou uma olhada no jornal... e também tenho outras fontes de informação...

—Afinal, isso é um bom sinal... me alegra saber que não está se alienando do mundo. Por isso eu digo que você deve voltar ao hospital para...

Draco não permitiu que Terry completasse a frase, sacando sua varinha (que estava no bolso traseiro da calça) e atacando: —EXPELLIARMOS!

Terry recebeu o impacto a queima roupa no peito e foi jogado com violência contra a mesa da cozinha, caindo com estardalhaço, quebrando o que estava sobre, e caindo em seguida sobre a cadeira, sentindo algumas costelas se partirem com o impacto. A varinha que estava em sua mão voou até a mão de Draco, que o olhava com um sorriso sádico e triunfante no rosto.

Mesmo sentindo muitas dores, Terry tentou se apoiar no braço para se levantar, mas Draco o virou com um pontapé, pisando sobre seu peito em seguida. O medibruxo soltou um grito rouco de dor.

Draco, com o pé sobre Terry, se abaixou até ficar muito próximo do rosto do rapaz, que não encontrava forças para reagir devido a dor dos ossos partidos (e que Draco se ocupava de potencializar).

—Eu sei quem sobreviveu à Crucius Kedrava, Dr Boot... sei também quem atacou aquela maldita sangue-ruim... e sei ainda mais: sei quem foi o gênio que desenvolveu essa maldição maravilhosa! Até o Lord das Trevas o invejaria!

Tarry, mesmo morrendo de dor, tenta argumentar com Draco: —P-por f-favor, D-draco... v-volte a si! Nós não estamos bem! Precisamos ir para o hospital!

—NÃO! – Com raiva, Draco se levanta com brutalidade, pisando mais forte sobre as costelas partidas de Terry, que urra de dor. Ensandecido, Draco se põe de pé, mas continua a apontar a varinha para Boot, que leva a mão boa ao lado das costelas quebradas, fazendo careta de dor e tentando inutilmente se levantar.

Como se de repente tivesse recobrado o juízo, Draco se abaixa, agarrando Terry pelo ombro e braço bons e suspendendo o rapaz do chão, usando uma força que não parecia lhe pertencer, e leva o medibruxo até o sofá de dois lugares da saleta, largando-o de qualquer jeito ali, fazendo-o estremecer e gemer com mais dor que o impacto causara.

Terry pensou que Draco havia recuperado a razão, mas estava muito enganado. Draco falava a ele num tom imperativo e acusatório: —Por que salvou a Granger?! Era pra ela ter morrido torrada como todos os outros! Você é um traidor, Boot! Um traidor covarde como todos os outros! Gosta dela, não é? Me informaram que vocês andaram juntos, se encontrando por aí!

O medibruxo ergueu o rosto, em meio às caretas de dor, tentando entender do por que de Draco estar agindo dessa forma. Sem sua varinha e com ossos quebrados, correndo o risco de ter um dos pulmões perfurados por uma das costelas, ele era uma vítima completamente indefesa e tudo que lhe restava era a argumentação.

—Eu sou um medibruxo, Draco.. é minha função, é meu dever, salvar vidas! Não importa de onde venham, eu trato de pessoas! Meus pacientes são muito importantes para mim, todos são! VOCÊ É! Acha que não me preocupei com seu sumiço, que não tentei localizá-lo?

Draco interrompeu Boot mais uma vez, não ligando a mínima para o que o medibruxo lhe falava, era como se não tivesse ouvido uma só palavra dele.

Falou, calmamente: —Dois amigos meus foram capturados por Aurores por causa daquela maldita sangue-ruim! Estão em Azkaban por culpa dela! E aquela maldita é tão diabólica que nem morreu com a Crucius Kedrava! A MINHA Crucius Kedrava! Passei anos planejando sobre essa maldição, até que consegui desenvolver há alguns meses! Ninguém deveria sobreviver a ela! Mas.. mas aquela maldita sobreviveu! E você, VOCÊ!, curou ela! Porco traidor!

Terry estava estupefato demais para falar qualquer coisa. Não acreditava no que ouvia e nem no que via, pois Draco estava quase irreconhecível. Seus olhos cinzentos gritavam a sua insanidade e por um momento Terry teve a certeza de que Draco estava ali para matá-lo e que iria atrás de Hermione para terminar o serviço que não conseguiram completar. Ele não poderia permitir que isso acontecesse e precisava arranjar algum jeito de se salvar e salvar Hermione.

—Por favor.. Draco... me deixe chamar a ambulância do hospital! Estou com os ossos da costela quebrados e vai acabar perfurando meu pulmão! E você precisa de seus medicamentos, é por isso que está nervoso e SEI que está se sentindo mal com isso! Vamos ajudar um ao outro, Draco! Há muito pela frente, ainda, temos tempo de sobra pra consertar tudo...

Terry falou fracamente, mas havia firmeza em sua voz. Draco pareceu oscilar em sua decisão, mas o telefone da casa de Boot tocou, quebrando a atenção de ambos.

—É o telefone... me deixe atendê-lo, pode ser algo importante... – Terry pediu, fazendo força para se levantar do sofá. Draco, que mantinha a varinha apontada para o peito do medibruxo, parecia não saber o que fazer.

—Você vive como um trouxa e tem um aparelho trouxa? – Perguntou num tom que mais parecia de curiosidade que de acusação. Terry apenas confirmou com um aceno, já se erguendo do sofá.

O telefone tocou algumas vezes sem que Terry tivesse a chance de atender. Draco olhava curioso para o aparelho, ainda apontando a varinha para o medibruxo, quando a secretária eletrônica atendeu. Draco reparou que no visor do aparelho aparecia o número de chamada. A voz falou:

Dr Boot, é o Dr Richard do Hospital Geral de Londres, se estiver em casa, atenda o telefone! Precisamos urgente de seus serviços, recebemos pacientes em estado grave, vítimas de um acidente, e estamos sem pessoal suficiente! Por favor, atenda! ... Ligarei para o seu celul...

Tanto os olhos de Draco quanto de Terry se arregalaram, um de triunfo e maldade, o outro de pavor. Terry tentou avançar para o aparelho, para falar com o colega que ligara, mas Draco o impediu com um empurrão, passando a mão rapidamente no fone e atendendo. Usou sua voz mais suave e esnobe que tinha: —O Dr Boot está muito ocupado no momento, está com uma visita muito importante.. e não tem tempo pra desperdiçar em salvar a vida de trouxas imundos, Dr Richard!

Terry, caindo no chão aos pés de Draco, ainda conseguiu ouvir a voz do outro lado da linha, perguntando em monossílabos, visivelmente perturbado. Draco, tranqüilamente, recolocou o fone no gancho, arrebentando o fio de conexão, olhando e sorrindo de maldade para Terry.

—Esqueci de comentar que antes de chegar aqui eu explodi os pneus de um ônibus de um motorista trouxa e cretino que não quis me dar carona, sabe? Eu não tenho nenhum dinheiro... acho que ele perdeu o controle e capotou... tava cheio, sabe? Foi até bom, ficar espremido entre trouxas é asqueroso! Bem, graças a mim e a você, que não poderá atender ao chamado, o mundo ficará livre de mais alguns trouxas inúteis...

O medibruxo estava horrorizado. Jamais imaginou que Draco fosse chegar a um nível tão baixo assim e duvidava muito que essa sua sandice cruel fosse pela ausência dos medicamentos. Agora Terry via que Draco jamais teve a intenção de se tornar uma pessoa de bem, apenas prolongou o máximo possível seu tratamento para ser absolvido pelo Ministério, mostrando que era inofensivo e não precisava ser enviado à Azkaban.

—Você... você nunca teve a intenção de deixar o passado para trás e recomeçar sua vida... – Terry falou fracamente. —Você vai jogar sua vida fora por causa de um preconceito idiota?!

—Preconceito idiota?! – Rugiu Draco, abaixando-se ao lado de Boot. —Idiota?! Idiotice é permitir que o mundo seja poluído por escórias, por seres humanos que não servem pra nada! Existe gente demais neste mundo e a maioria é de gente merda que não vale o ar que respira! O mundo deve pertencer aos bruxos! E AOS BRUXOS DE SANGUE-PURO! SEM A ESCÓRIA TROUXA, SEM MALDITOS MESTIÇOS E SANGUES-RUINS! APENAS BRU-XOS!

Draco acertou um soco entre os olhos de Boot, fazendo a cabeça dele quicar no chão e escorrer sangue do nariz. O rapaz se reergueu, olhando com ar furioso e superior para o medibruxo, que apertava as mãos contra o nariz ensangüentado.

—Toda a escória deve ser eliminada! Todos miseráveis e inúteis devem morrer! E aqueles que sujam a honra dos Bruxos, os malditos amantes de trouxas e sangues-ruins, devem morrer também!

Draco apontou a varinha para o peito de Terry Boot, que se esforçava para enxergar com os olhos embaçados pelo sangue. Draco tinha a expressão gelada e parecia muito consciente do que estava fazendo. Era frio e completamente lúcido, o que tornou tudo muito pior.

—AVADA KEDAVRA!


Hermione desperta com uma enxaqueca enjoada, uma dorzinha incômoda no fundo dos olhos, pois mais uma vez usou calmantes para dormir, já que sua cabeça estava a mil na noite anterior. Jogava água com abundância no rosto, na pia do banheiro. Quando terminou, olhou para a lixeira e viu o frasquinho reluzindo à luz fraca da lâmpada fosforescente.

Relutante, pegou o frasco de dentro da lixeira, que permanecia intacto sobre os pergaminhos amassados. Olhou com desdenho para o frasco, mas, ao invés de devolvê-lo ao cesto de lixo, abriu o armário embutido sobre a pia e colocou-o ali, entre seus comprimidos de analgésicos, tranqüilizantes e anti-depressivos.

Foi para sua cozinha alva e reluzente, repleta de aparelhos de última geração. Começou a abrir armários e pegar prato, xícara, jarra; da geladeira retirou potes fechados de acrílico colorido e ligou o fogão elétrico, levando um bule de metal com água, para ferver. Ao passar para outro extremo da cozinha, para ligar a tv, olhou para o calendário fixado com imã ao armário embutido de alumínio, constatando, feliz, que sua licença médica estava expirando e, já na próxima segunda-feira, voltaria ao trabalho, no grande escritório contábil que ficava no maior arranha-céu comercial do centro financeiro de Londres. Lá nas alturas, estava longe de todos os mundos possíveis, só em meio a números e contas e falcatruas de clientes a serem consertadas.

E ligou a tv, pois ela teimava em deixar o controle remoto próximo ao aparelho e não próximo à mesa ou bancada principal, onde seria necessário.

Como sempre, estava ligado no canal da BBC Londres e a primeira cena que apareceu foi a de um ônibus vermelho de dois andares, um big bus, tombado de lado, saindo chamas pelas janelas e muitos policiais e bombeiros tentavam controlar a situação. Hermione estremeceu. O locutor informava que o acidente havia acontecido àquela manhã, no horário de maior movimento de passageiros, e o big bus estava lotado. O número de mortos e feridos era assustador!

Com violência, Hermione desliga a tv na mesma hora, tendo náuseas por nervosismo. Voltou para o fogão, para se distrair, desligando o fogo e jogando a água fervente dentro de uma caneca de cerâmica, que despejou em seguida chá preto granulado e leite de caixa. Enquanto esperava para o chá de dissolver, foi preparar um sanduíche de queijo e tomate seco na sanduicheira elétrica. O trabalho sempre a fazia esquecer o mundo a sua volta, e, a essa altura, já havia esquecido a notícia horrorosa da tv. Enquanto esperava a sanduicheira fazer o serviço, Hermione se lembrou que, talvez, pudesse ter recebido ligações à noite, e foi até seu telefone, verificar na secretária eletrônica se havia algum recado.

Estava sentindo falta de McGonagall, e queria muito conversar com ela sobre o encontro que teve com Snape... não propriamente conversar, mas sondar a professora, saber se ela sabia de algo a mais. Apertou o botãozinho do aparelho e ficou decepcionada em constatar que não havia nenhuma mensagem.

Lembrou-se das últimas mensagens que havia recebido: de Minerva, avisando que precisava resolver algo urgente em Hogwarts; de Terry Boot, após o encontro; e de Snape, inacreditavelmente.

Sentiu um frio no estômago ao se lembrar de Snape, mas não queria pensar nele naquele instante, precisava digerir o que havia acontecido e analisar a forma como ele a tratara em King Cross. Mas sentiu um aperto forte no peito, ao se lembrar do encontro que teve com Terry um dia antes, o que foi, de fato, um encontro muito agradável, e pensou que a repentina angústia em lembrar dele fosse pelo remorso por ainda não ter retornado a ligação do rapaz. Voltou para a cozinha ao sentir o cheio apetitoso do sanduíche que ficava pronto, se decidindo, por mais tarde, a ligar para o medibruxo, para agradecer-lhe pelo encontro e se desculpar pela demora em retornar sua ligação.

Mas, estranhamente, esse pensamento não a deixou mais aliviada quanto à divida de consideração que tinha com Boot.


Fim do capítulo 22 – continua.

Snake Eye's – Julho de 2008.


N/A: Chegou a hora de juntar as pontas soltas da fic. Acho que agora as coisas começam a se arrumar para ir embora.

Não esperava isso, de novo, nem sequer lembrava que existia Draco Malfoy em HP :P Mas ele apareceu.. do nada!

Snake só me põe em furada. Vocês xingam ele, mas sou eu que sou atingido TT,TT

Bem, vamos ver por uma lado bom: Terry Boot (Terêncio Boot na versão brasileira de HP) não será mais um adversário para Snape...

Obrigado pelos maravilhosos reviews! Que Deus lhe pague!!

Bjus!