Capítulo 3: Uma Nova e Inesperada Amizade:
Uma coisa estranha aconteceu hoje. Estive dando uma olhada na comunidade cristã, esperando que alguém procurasse Raio de Luz, mas não há muita procura.
Muita atividade em algumas igrejas, extrema estagnação em outras, mas não muita preocupação pelos que não conhecem o Príncipe. O Amigo da Terra, porém, trabalha com aquilo que dispõe.
Raio de Luz estava subindo no elevador com uma jovem senhora e boa aparência que eu tinha visto no edifício antes.
A Jovem: Você não é a minha vizinha do 721?
Raio de Luz: Bem, sim, acho que sou, embora deva admitir que não conheço ninguém no edifício. Quando a gente trabalha, você sabe... Meu nome é Kagome, Kagome Higurashi. Prazer em conhecê-la.
A Jovem: Sou Tsubaki Mitsuki, Kagome, eu também tenho uma confissão a fazer. Tenho procurado observar alguém no edifício que seja sozinha. Ás vezes fico tão entediada e cheia de tudo que anseio alguém para um bate-papo. É terrível levantar da cama pela manhã e não ter nada para esperar ansiosamente.
Raio de Luz: Seu marido morreu?
Tsubaki: Não, ele está bem vivo. Vivo, próspero e ocupado demais amontoando dinheiro para sequer se preocupar com o que faço comigo mesma o dia todo. A maior parte do tempo ele está viajando e pensa que ao manter em dia minha conta bancária já cumpriu sua obrigação. Então eu me assento imaginando novas maneiras de gastar dinheiro.
(O elevador chega ao andar delas, e elas seguem juntas pelo corredor.)
Raio de Luz: Bem, também sou bastante sozinha, mas creio que nossos problemas mútuos só chegam até aí. Passo grande parte do meu tempo livre imaginando como fazer para que as despesas caibam dentro do orçamento.
Tsubaki: Pelo menos isso seria um desafio, embora sem dúvida enervante às vezes.
(Chegam a porta de Raio de Luz.)
Raio de Luz (casualmente, não querendo realmente dizer isto): Gostei muito de conhecê-la. Talvez possamos nos encontrar para um lanche qualquer dia destes.
Tsubaki: Gostaria imensamente. Em realidade, por que você não dá uma chegada até a minha ponta do corredor esta noite após mandar as crianças para cama? Moro na suíte ali no fim.
Raio de Luz: Sempre quis saber quem era a mulher de sorte que morava lá. Mas não gosto de deixar as crianças sozinhas, nem mesmo para ir do outro lado do corredor; então por que você não vem a minha casa? Certamente não é nenhuma suíte luxuosa, mas eu faço um bom chá.
Tsubaki: Ei, já estou esperando ansiosa. A que horas?
Raio de Luz: As crianças já devem estar na cama lá pelas 21:00. Até lá.
Eu sabia, pela forma como Raio de Luz começou a recolher as coisas fora do lugar no apartamento, que ela estava um pouco impaciente com a situação em que tinha se metido, mas de certa forma tenho um bom pressentimento sobre esta nova amizade. Tsubaki tem uma sinceridade e honestidade que eu gosto.
( Keiko e Satiko estão deitadas no tapete da sala assistindo às reprises de uns desenhos.)
Raio de Luz: Temos de arrumar um jantar rápido e colocar este lugar em ordem. Alguém vem aqui hoje depois que vocês forem para a cama.
Satiko: É o Houjo? Nós também queremos vê-lo.
Raio de Luz: Não, não é o Houjo. É só a senhora que mora naquele apartamento grande no fim do corredor. Eu a encontrei no elevador. Vocês podem dizer alô para ela se forem para a cama logo em seguida. Keiko, ajude-me com o jantar, e Satiko, recolha todos os trastes que estão por aí, no chão.
Keiko(timidamente): Não estou indo muito bem na escola, mamãe.
Raio de Luz: O que você quer dizer com não estar indo bem na escola? Você sempre foi ótima aluna.
Keiko: Parece que eu não consigo mais me concentrar. Minha mente simplesmente se desvia. A Sra. Ayame ralhou comigo hoje. Ela disse que era pura displicência minha tirar 6,5 numa prova de matemática.
Raio de Luz: Keiko, o aconteceu? Você está ficando displicente?
Keiko: Não sei, mamãe. Olho para a prova e simplesmente não sou capaz de responder como fazia antes. Às vezes, quando a Sra.Ayame está falando, percebo de repente que há cinco minutos não estou ouvindo uma palavra do que ela disse.
Raio de Luz: Bem é melhor começar a ouvir, senhorita. Talvez eu tenha que falar com a Sra. Ayame. Agora, vamos comer.
Satiko (um hashi de arroz parado no ar): Estou contente que Keiko não esteja mais tirando A. Agora meus boletins não vão parecer tão feios perto dos dela.
Raio de Luz: Limite-se a comer, está bem? Seu pai espera que vocês duas tirem notas altas. Acho que vocês estão assistindo televisão demais. Todos aqueles velhos filmes depois do horário da escola não são para crianças.
(Quando Tsubaki chega, as meninas, de camisola e ainda úmidas do banho, avaliam-na silenciosamente. Satiko é miúda e morena como seus pais, mas Keiko deve se assemelhar a algum ancestral mais distante, pois é alta para sua idade e tem o cabelo prateado. A resposta de Tsubaki a elas é calorosa, mas modesta. Após Satiko dar um beijo de boa noite na mãe, vai até Tsubaki com seu rostinho de anjo voltado para cima e pergunta: "Você quer um também?"
Ela é sempre a mais saída das duas, com seu tipo adorável de anjinho. Keiko está taciturna e não está reagindo bem à separação de seus pais. Ela diz boa noite cortesmente e se retira para o quarto sem qualquer demonstração de afeição. Tsubaki e Raio de Luz conversam sobre coisas superficiais, e então Raio de Luz fala sobre seu casamento.)
Raio de Luz: Inuyasha e eu nos casamos jovens. Jovens demais, suponho. Na primavera em que eu me formei na escola secundária. Ele estava dois anos na minha frente e já na Faculdade. Havíamos sido namorados na escola secundária, e de alguma forma nosso romance sobreviveu à separação. Havia ocasiões em que eu era tentada a namorar quando ele estava longe, e estou certa que aquelas garotas rebolantes da Faculdade devem ter sido uma tentação para ele, também, mas estávamos realmente apaixonados e os fins-de-semana em que ele vinha para casa fazia com a espera valesse a pena.
Os primeiros anos de nosso casamento foram perfeitos. Eu trabalhava para que ele pudesse terminar a Faculdade. Uma vez que não havia dinheiro, vivíamos de maneira simples. Quando Inuyasha se formou e Keiko nasceu, pensamos que a luta já ficara para trás e somente alegrias nos aguardavam. Inuyasha foi contratado como contabilista de mercado na mesma empresa em que havia estagiado onde ele trabalha agora. Finalmente compramos uma casa, e Satiko nasceu. Tudo era rotineiro, mas maravilhoso. Pensei que seria sempre assim. Trabalharíamos para manter as meninas até terminarem a Faculdade, tornar-nos-íamos úteis na comunidade, e envelheceríamos juntos. E assim foi por oito anos.
Então, uma noite, após as meninas terem ido se deitar e Inuyasha estava enxugando a louça para mim, ele disse: "Kagome, apaixonei-me por outra pessoa." Desse jeito. Foi aí que minha vida acabou. Até hoje posso sentir o cálido aconchego da cozinha, vê-lo lá de pé com o pano em uma das mãos e um prato de jantar na outra. Tentei encaixar dentro do ambiente o que ele estava dizendo, e pensei que eu estava perdendo o juízo. Paralizada, esperei que ele risse e me dissesse que era uma piada, mas vi pena em seus olhos – pena de mim – e reconheci que ele não estava brincando.
A garota que ele havia encontrado, era contabilista como ele.. Eles haviam estado juntos muitas vezes em vários projetos, e ele insinuou que o mundo dela era um pouco maior do que o meu... seus interesses mais amplos. Exatamente a velha novela da namorada da escola secundária, que sustenta o marido na Faculdade e depois o perde porque está mais interessada em colocar papel de parede na sala do que em discutir a economia da nação. Assim, as meninas e eu já estamos sem ele por quase dois anos, e eu devia estar acostumada a isso, mas acho que nunca vou conseguir me acostumar.
Tsubaki: Então você perdeu seu marido para outra mulher, e eu perdi o meu marido para o trabalho, o que nos deixa as duas sozinhas. Mesmo quando Bankotsu está em casa, ele está tão enterrado no boletim do mercado financeiro americano que tanto faz ele estar em casa ou não. A única ocasião em que ele fica entusiasmado ou feliz é quando o preço do ouro sobe.
Raio de Luz: Pelo menos tenho duas meninas. Isso ajuda bastante, embora eu esteja tão cansada e irritada o tempo todo, que me transformei numa mãe horrível. As notas de Keiko estão abaixando assustadoramente, e eu temo que ela esteja toda embaralhada por dentro. Provavelmente ela precise de aconselhamento, mas psiquiatras definitivamente não cabem no meu orçamento.
Tsubaki: Falando de estar embaralhada por dentro, algumas semanas atrás me senti tão solitária que fui a uma reunião noturna naquela pequena igreja, descendo a rua. Uma ou duas vezes no fim do verão a porta estava aberta quando passei, e seus cânticos pareciam aconchegantes e convidativos, então pensei que poderia ser melhor que ficar olhando pela janela do meu apartamento outra longa noite. Eles me receberam como a um amigo há muito perdido e apreciei realmente os cânticos, mas para ser perfeitamente honesta o resto foi um pouco barulhento e informal demais para mim.
Houve muitos "améns" e "louvado seja o Senhor" durante o sermão, e depois eles partiram para aquele negócio de falar em línguas. Senti-me deslocada. De alguma forma não fazia o meu gênero, embora eles fossem pessoas verdadeiramente amáveis e carinhosas. Mas o ponto principal de minha história é que quando eu estava saindo, notei na mesa de trás uma pilha de Bíblias. Um cartaz dizia: "AMIGO, SE VOCÊ NÃO POSSUI BÍBLIA, PEGUE UMA." Uma vez que eu não possuía uma Bíblia, me servi e coloquei uma nota de dez dólares sobre a mesa. Levei-a para casa e comecei a lê-la. Nunca havia aberto uma Bíblia na vida antes disso. Parte do tempo eu quase não sei do que ela está falando, mas o Antigo Testamento parece estar cheio de histórias grosseiras e de arrepiar os cabelos, e o Novo Testamento parece uma infindável canção de amor a este homem, Cristo. A princípio isto me desanimou – Suas intermináveis jornadas, Seu modo de atrair ativos coletores de impostos e pescadores para Sua causa utópica. Mas à medida que eu lia, algumas coisas que Ele disse começaram a me atingir. Descobri, durante o tempo que estive lendo, que alguns dos nós de meu estômago começaram a se desfazer e experimentei uma estranha paz.
(Tsubaki inclina-se para frente com ardor.) Você acha que tudo isso é produto da minha imaginação, Kagome?
Raio de Luz: Tenho certeza de que não sei. Ia à escola dominical quando era criança. Meu pai costumava me levar e deixar lá. Minha mãe não veio de família religiosa, mas papai havia sido criado com cuidado, e embora tivesse deixado tudo aquilo para trás, fazia questão que eu fosse à igreja. Eu até que gostava daquilo, mas quando entrei na adolescência havia muitas outras coisas competindo por minha atenção, e por isso parei de ir. Lembro-me muito bem daquelas histórias do Antigo Testamento, e embora fossem muito bem preparadas para publicação, devo admitir que certamente possuíam algo especial. Fico pensando que relação elas têm com nossa época, se é que têm alguma, ou mesmo se Deus existe. Você acha que Deus existe?
Tsubaki: Sim, acho que sim, embora não saiba por que acredito. Às vezes, quando sento à noite em minha sala olhando para as estrelas, tenho a impressão de que Ele sabe tudo a meu respeito, e tudo a respeito das pessoas que passam de carro na rua, lá embaixo. Isso é só um pressentimento, veja bem. Bankotsu me diz que as pessoas civilizadas acreditam na evolução, e que eu estou vivendo na Idade Média. Mas todos aqueles planetas e sóis lá em cima... Não posso crer que tudo funcione sem qualquer surpevisão. Mesmo o nosso pequeno planeta é tão ativo e cheio de vida; como tudo pode acontecer por acaso?
Mas Kagome, eu divaguei, divaguei, e você tem de trabalhar amanhã, de manhã. Desculpe ter falado tanto. É melhor eu ir agora. Da próxima vez vou mandar a jovem que faz a limpeza para mim para ficar com as meninas, e você poderá vir a minha casa.
Raio de Luz: Não há nada que desculpar. Nunca falei com ninguém sobre meu divórcio, exceto com meu amigo Houjo, e me fez muito bem falar sobre isso. Vamos nos encontrar uma vez por semana só para bater-papo. Talvez faça bem para nós duas.
Tsubaki: Você tem uma Bíblia?
Raio de Luz: Meu pai mandou uma de presente para Keiko num aniversário ou no Natal, alguns anos atrás. Deve estar guardada em algum canto.
Tsubaki: Por que você não a traz? Parece que religião é a coisa do momento. Talvez possamos decifrá-la juntas – isto é, se você estiver interessada.
Raio de Luz: Para ser sincera, acho que não estou muito. Mas estou disposta a fazer isto em algumas sessões por experiência. Às vezes me sinto culpada por não levar as meninas à igreja, mas domingo é o dia que eu tenho para dormir. Tomamos o desjejum tarde e simplesmente ficamos matando o tempo.
Tsubaki: Se você pode crer neste Livro, não estaremos sozinhas em nosso estudo. O Nazareno disse que onde estivessem dois ou três reunidos em Seu nome, Ele estaria com eles São Mateus 18:20.
Raio de Luz: Então você acha que Ele vai Se unir a nós quando tentarmos decifrar a Bíblia? (ela ri cinicamente).
Tsubaki: Não literalmente no corpo. Mas acho que eu gostaria de crer que Sua presença invisível estaria conosco e que Ele Se importa se tentamos ou não compreender o produto que Ele estava tentando vender aqui na Terra.
Raio de Luz (zombando):É melhor ter cuidado, Tsubaki, ou você vai ser tão fisgada quanto os pescadores. Vamos marcar para daqui uma semana? Terça-feira é um bom dia porque não há nada especial que eu goste na TV e o Houjo atira arco e flexa, ele nunca aparece nesse dia.
Tsubaki: Quem é esse Houjo?
Raio de Luz: Só alguém que eu conheço há muito tempo. Vivemos na mesma rua quando crianças, freqüentamos as mesmas escolas e sempre fomos amigos. E isso é tudo o que somos agora. Ele acha que o mundo é corrupto demais para o casamento e filhos, então fica sozinho. Ele é uma pessoa totalmente "pra frente", mas no fundo eu suspeito que ele tenha princípios bem antiquados e esteja procurando uma terra pura para praticá-los. Minha vida seria vazia sem ele, e suponho que fico egoisticamente contente por nenhuma jovem adorável haver domado as convicções dele e o atraído-o para longe.
Tsubaki: Esperarei você na próxima terça, então. Enquanto isso, por que você não corre o olho pelo livro de São Mateus, e discutiremos o que tivermos lido.
Raio de Luz: Se algum dos meus amigos aparecer e me encontrar lendo a Bíblia, vão me levar para o hospício. Mas desde o divórcio, não estou exatamente com a casa atolada de visitantes. Uma mulher sozinha não tem muito lugar na sociedade de hoje. Até terça.
(Tsubaki, murmurando, desce o corredor acarpetado, e Raio de Luz dá uma olhada nas crianças antes de ir para o quarto. Ela revira a cômoda de Keiko, até encontrar uma pequena Bíblia branca. Após seus preparativos para se recolher ela se ajeita na cama e abre no livro de São Mateus.)
Estou felicíssimo esta noite. Não encontrando nenhum cristão na cidade disposto a procurar Raio de Luz, o Amigo da Terra usou alguém fora da igreja. Como respeito Sua paciência e Sua compaixão. E Sua perspicácia! Com que amorável determinação Ele busca conquistar o coração dos homens! Encerro minhas reflexões neste dia com grande alegria. E com expectativa. Como será que Raio de Luz vai responder aos ensinos do Príncipe?
Está aí gente o capítulo 3 pronto!
E não se esqueçam de me mandar revews!
Beijos a todos!
