CALEIDOSCÓPIO
Parte 23 – Uma Chance Como Alternativa.
—Por favor Sr. Boot, abra a porta!
O zelador do prédio onde Terry Boot morava, estava parado a sua porta, segurando um molho de chaves em uma mão enquanto a outra batia, já nervosa, na porta do apartamento do rapaz. Em seu encalço, dois policiais com armas na mão, mantinham-se postados cada um ao lado da porta, de forma a não serem visto através do olho-mágico. O zelador tentou novamente e, novamente, ninguém respondia ao seu chamado.
Enquanto isso, vindo das escadas, um homem de meia idade, vestido de branco e com um jaleco comprido que ia até seus joelhos, corria na direção do zelador e policiais, que voltaram suas atenção ao homem, pelos baques secos que ecoavam no corredor estreito e vazio do andar. Um deles se dirigiu ao homem, que parou perto deles e com uma expressão de pavor no rosto.
—O senhor é Richard Fish, que fez uma denúncia de que o morador desse prédio de nome Terry Boot poderia estar correndo grave perigo?
Espavorido, o médico respondeu enquanto lutava para ganhar fôlego: —Sim.. sim, sou eu! Eu liguei para o Dr Boot mais cedo, por causa de uma emergência no Hospital Geral... demorou a atender e quem atendeu foi um sujeito de voz calma demais para o que ele dizia... dizia que o Dr Boot estava com uma visita muito importante.. e nisso, eu percebi um gemido rouco vindo de longe. Entenda: foi muito estranho e senti que algo muito errado poderia estar acontecendo.
Os dois policiais trocaram olhares significativos e voltaram ao zelador e, como se adivinhasse a pergunta, foi respondendo: —Eu.. eu realmente não vi o Dr Boot hoje, ele não saiu de casa, senão eu o teria visto passar pela portaria, mas... tampouco vi alguém suspeito subir no prédio e não apareceu ninguém hoje ou mesmo ontem perguntando por ele...
—Abra a porta. – O policial deu a ordem com firmeza.
Um pouco trêmulo, o zelador, um homem já idoso, correu as chaves do molho que segurava pela argola de arame que as prendiam todas juntas, encontrando a chave que indicava ser do apartamento de Terry Boot. O homem enfiou a chave na fechadura e rodou apenas uma vez, ouvindo o clique, indicando que estava destrancada. Os policiais afastaram o zelador e o médico, e tomaram posição de assalto, enquanto um girava a maçaneta e abria a porta, o outro cobria a retaguarda com a pistola acima da cabeça e o dedo no gatilho. A porta foi aberta com estrondo e os dois policiais entraram num rompante, varrendo a pequena sala com as armas apontadas e prontas a disparar, se fosse preciso.
Da porta era possível ver a pequena cozinha e repararam que a mesa estava destrambelhada e o que estava sobre ela estava em uma desordem pouco típica. Com as pistolas ainda em riste, um dos policiais se dirigiu à cozinha enquanto o outro contornava o sofá de dois lugares, deixando escapar uma exclamação rápida. O colega o olhou rapidamente, mas ele indicou para que ele continuasse e fosse verificar o resto do apartamento. Vendo que o zelador e o médico começavam a entrar no apartamento, apontou o dedo indicador para ambos, dando-lhes uma ordem energética; os dois homens ficaram parados apreensivos do lado de fora. O policial deixou de lado o que havia encontrado, contornando e indo para o outro lado da sala, que levaria ao quarto e banheiro. Passados alguns minutos, depois de averiguarem cada cômodo da casa e cada possível esconderijo, os dois policiais retornaram para a sala e ficaram parados próximos ao corpo; um deles pegou um rádio e chamou a central, enquanto o outro dava ordens para o zelador se retirar e aguardar na portaria.
—O senhor, Dr Richard... o senhor poderia entrar e reconhecer se o corpo é mesmo de Terry Boot?
O rosto do médico empalideceu de certa forma como se todo o seu sangue tivesse escorrido para os pés e, trêmulo, entrou cautelosamente no apartamento, parando ao ver um emaranhado de cabelos louros espalhados pelo tapete. Mesmo com medo, subiu a vista para ver o restante do corpo e levou a mão à boca, reprimindo uma exclamação.
O rosto estava quase todo coberto de sangue seco e havia muito sangue sobre o tapete e respingado em volta. Uma faca suja com sangue estava largada ao lado do corpo e sobre o peito do rapaz havia muito sangue, indicando que ele havia sido esfaqueado. Os olhos azuis de Terry permaneciam estatelados, mirando o teto... ou ainda mirando aquele que foi o seu assassino.
Duas horas antes.
Draco apreciava o que acabara de fazer: a seus pés estava o corpo já sem vida daquele que lhe foi um amigo durante os dois últimos anos de sua estada em St Mungus. Terry Boot tinha se formado em medibruxo curandeiro recentemente e havia sido admitido na residência do hospital. O rapaz não apenas fez seu trabalho, ajudando a recuperar a saúde de Draco, mas acabou se mostrando um bom amigo, pronto a dar apoio e conselhos.
Lamentavelmente, o medibruxo tinha interesses demais por trouxas e logo se mostrou ser um traidor do sangue como os Weasleys e diversas outras famílias tradicionais que começavam a se sujar com essa estupidez de igualdade e tolerância.
Mas, enfim, isso não o havia incomodado até agora. Ou até ver que o medibruxo começava a se meter em assuntos seus, de Draco Malfoy.
Já que Terry Boot era um amante de trouxas, deveria morrer como um. No momento ele estava apenas com costelas partidas e o nariz quebrado, e isso não era o suficiente nem pra matar um filhote de trouxa.
Com certeza haveria autoridades bruxas investigando a morte de Boot. Certamente que o medibruxo não tinha inimigos declarados, duvidava até mesmo que o bom moço tivesse um desafeto qualquer, então, através de investigações, poderiam acabar indo até ele, Draco, afinal ele era o cara mais mau que esteve próximo de Boot e que agora estava desaparecido. Afinal, quem mataria o bom e gentil curandeiro Terry Boot com uma maldição imperdoável? Um bruxo mau, claro, e, logo, chegariam a conclusão de fora ele, Draco Malfoy.
Paranóico, Draco correu até a cozinha, abrindo com estrépito as gavetas do pequeno armário que ficava embaixo da pia, encontrando algo que lhe serviria muito bem ao propósito: uma faca grande de cortar carne.
Sem nenhum pudor, remorso ou vacilo, Draco ajoelhou-se ao lado do corpo de Terry e, com golpes precisos, perfurou o peito do rapaz com várias estocadas, o sangue ainda fresco espirrando para todos os lados, inclusive para o rosto e colo de Draco, e se derramando, ainda quente, pelo tapete rústico de bambu, deixando o sangue ainda mais visível sobre o bege pálido.
A coisa precisava parecer um assassinato comum que um trouxa faria. Poderiam fazer necropsias à vontade que jamais saberiam o que matou Boot. Se legistas bruxos o examinassem, encontrariam as evidências da Avada Kedavra, mas tinha certeza que as facadas diriam por si mesmas, ocultando a verdadeira causa mortis e desencorajando outras investigações.
Satisfeito com seu trabalho, exibindo até mesmo um sorriso alegre, Draco largou a faca ao lado do corpo, pouco se importando se havia digitais. A polícia trouxa jamais encontraria o dono daquelas digitais, pois não há registros dele no mundo muggle e, entre os bruxos, eles não tinham esse tipo de identificação, mesmo porque não valeria nada para eles, dado a facilidade de se forjar novas marcas através de magias simples.
Draco apreciou do alto o seu serviço macabro e afastou-se de ré do corpo, apontando a varinha para o próprio corpo e limpando de si todo o sangue respingado. Notou que deixou pegadas de sangue, que havia pisado e escorrido para debaixo de seus sapatos, então limpou as solas de seus coturnos e as pegadas, afastando-se mais um passo e verificando que não tinha deixado mais nenhuma marca. Ele iria sair dali por desaparatação e não ia deixar esse furo de pegadas que sumiam do nada. Satisfeito consigo mesmo, Draco desaparatou.
Sem que qualquer um do Mundo Bruxo soubesse o que havia ocorrido a Terry Boot, o medribruxo foi enviado ao necrotério da cidade, tratado como um simples muggle – e com essa mania "pró-trouxa", Boot tinha registros trouxas.
Dr Richard, médico que acompanhou Terry Boot desde que ele era apenas um estagiário no Hospital Geral, largou todo o serviço na mão de terceiros e foi buscar saber o que havia acontecido com o colega. Depois do choque, acompanhou o trabalho de legistas da polícia londrina e a remoção do corpo para o necrotério municipal. Era engraçado como ele tinha séculos de experiência em atender casos até mais horríveis do que de Boot, mas, em se tratando de um conhecido e um conhecido querido, a coisa se tornava impraticável.
Esperaria ali até receber o laudo do exame cadavérico, imaginando como daria a notícia aos seus conhecidos do Hospital Geral, já que Terry Boot era muito querido por muitos ali. E à família do rapaz, quem avisaria? Terry sempre foi muito evasivo ao falar da família, levando todos a supor que ele não era, absurdamente, muito bem quisto entre eles, então descartou a possibilidade de procurar por nomes e telefones e comunicar o ocorrido; a polícia londrina que se encarregasse desse trabalho.
Dentro do necrotério, o corpo de Terry estava nu sobre uma bancada de aço inox e os dois médicos legistas se encarregavam de limpar todo o sangue do corpo com um líquido anti-séptico que ardia os olhos, mas que eles não podiam sentir por causa da proteção dos óculos de acrílico que usavam.
Sem o sangue seco para atrapalhar a visualização dos ferimentos, as marcas das facadas ficaram bem visíveis, como também a forma estranha sobre as costelas esquerdas e os enormes hematomas na região, notando também hematomas no ombro e braço esquerdos e entre o nariz e a testa, o nariz um pouco torto. Não se preocuparam no momento que os olhos do cadáver estivessem muito arregalados, mas esse era um indício que não passaria despercebido posteriormente.
Uma terceira pessoa entra na saleta de necropsias, carregando uma prancheta e pronto a fazer anotações. Era um homem cuja aparência lembrava alguém que dormia a cada três ou quatro dias: orelhas profundas, olhos injetados, cabelos desgrenhados. Aproximou-se calmamente dos legistas que trabalhavam em suas anotações das partes externas do cadáver, fazendo as perguntas de praxe.
—O amigo aí é Terry Boot, 28 anos, médico do Hospital Geral de Londres?
—Isso mesmo. – Um dos legistas respondeu igualmente sem nenhuma emoção, como era praxe.
O assistente rabiscou qualquer coisa nos papéis em sua prancheta e só então lançou um olhar perscrutador sobre o cadáver, buscando outras evidências que não eram buscadas pelos legistas, evidências que eles sequer imaginavam existir. O homem soturno não precisou procurar muito, pois bastou que visse os olhos vitrificados e arregalados de Terry Boot. Seu semblante pareceu se iluminar com alguma compreensão e se retirou do local, depois de fazer mais algumas poucas perguntas de serviço.
Algumas dezenas de minutos depois chegou ao Departamento de Registros de Pessoas Físicas do Ministério da Magia uma folha dobrada de papel contendo algumas linhas de informações. O bruxo responsável por esse serviço no setor pegou o papel, leu as informações e foi cruzá-las com os arquivos que dispunha. Havia encostado ao canto algo que poderia ser passado despercebido como fosse uma simples mesa de metal, mas quando o funcionário se aproximou e parou em frente, diante dele se materializou algo que lembrava o fantasma de um teclado de computador; o rapaz digitou o nome que estava no documento que havia chegado há poucos instantes e aguardou apenas um segundo quando começou a se materializar, como se houvesse uma tela invisível ali, o nome de Terry Boot e as informações sobre ele, todas as informações, inclusive sua árvore genealógica, que veio pro final.
Devidamente informados que aquele que se passava por um muggle era, na verdade, um bruxo, novos documentos foram expedidos para órgãos competentes. E Terry Boot não seria enterrado como um simples trouxa, nem sua morte passaria despercebida no Mundo Bruxo.
Foi convocada uma reunião extraordinária da Ordem da Fênix, no intuito de estudar novas formas de combate aos Novos Comensais, considerando aquilo que Snape teve a oportuna sorte de presenciar: uma rinha entre Trouxas manipulada por Bruxos. Cruzariam todas as demais informações que tinha a respeito de ataques de Bruxos com casos aparentemente comuns de Trouxas.
Mas não foi fácil para todos estar nessa reunião. Era a primeira reunião em dez anos sem a presença de Ronald Weasley. Por ser ainda muito recente a sua morte e por demais pesaroso para a família, o único "membro" da família Weasley que compareceu foi mesmo Harry, porque ele era imprescindível à reunião, sendo o Responsável Chefe do Departamento de Segurança do Ministério, além de ser, no momento, o portador de mais uma má notícia que havia chegado até ao Ministério, duas horas antes do fim do turno. Harry estava sombrio e amargava as mesmas sensações da época de Voldemort... parecia, até, que tudo recomeçava.
A reunião na Mansão Black contava com a maioria de mesmos participantes, retirando em peso os membros Wesleys, e tendo por principal Harry, como já mencionado, McGonagall, Snape e Dumbledore. Lupin estava incapacitado de estar presente naquela noite. Dino Thomas e Simas Finnighan, também Aurores, chegaram junto com Harry e os três mantinham um acordo mudo, os dois rapazes tão sombrios quanto Harry. Primeiro era necessário saber o objetivo principal da reunião, os obituários deveriam ficar para depois.
Snape narrou o ocorrido de forma condensada e prática, para que todos entendessem de primeira. Debateram tanto os prós quanto os contras de possível teoria, um dos outros bruxos presente na reunião, cruzava informações com os dados que dispunha num aparelho parecido com um laptop, ao lado de Harry, que participava muito pouco da discussão. Uma crescente compreensão parecia assomar dos olhos esmeraldinos do rapaz, enquanto ele observava com muita atenção ao que o bruxo ao se lado vazia. Casos suspeitos de acidentes com Trouxas iam sendo listados no "laptop", casos que deveriam ser revistos e que deveriam ser buscados suas verdadeiras causas. Mais uma vez a arrogância dos Bruxos os cegava sobre fatos que envolviam o Mundo Muggle, fatos que eles, os bruxos, tinham muito mais influência do que se supunha... o próprio caso de Terry Boot dizia por si mesmo.
Harry se levantou, fazendo um ruído com a cadeira mais alto que o necessário, propositalmente. Os outros membros olharam apreensivos para ele; os que discutiam foram baixando a voz até se calarem. O Auror esperou alguns minutos com muita paciência, até que todos estivessem dispostos a lhe dar atenção sem que ele a pedisse.
—Estou sendo mais uma vez o portador de más notícias e, ao que seria apenas uma notícia ruim a ser dada, acabo de perceber que ela tem muita ligação com o que Snape está nos apresentando... falo de Terry Boot, medibruxo de St Mungus, Corvinal que estudou na mesma época que nós em Hogwarts, e ele estava presente ao funeral de Ron há uma semana atrás...
Harry deu uma pausa proposital para que todos digerissem o que ele acabava de falar e, achava, ser uma forma de amenizar o impacto da má notícia.
Minerva lembrou-se da atenção e interesse que Boot demonstrou por Hermione enquanto ela ficou internada no hospital. Snape fechou seu semblante, mas evitou especular qualquer coisa. Apenas esperou.
—O que aconteceu com ele, Potter? – Perguntou Minerva, com ligeiro tremor nos lábios.
Harry respirou fundo, realmente pesaroso. Os outros dois Aurores apenas baixaram a vista, já sabendo do que se tratava.
—Terry Boot foi encontrado morto esta manhã, em seu apartamento... os Trouxas o encontraram... ele estava com marcas de agressão e diversas facadas no peito, ao que os legistas trouxas apontaram como a causa mortis... mas, temos um Bruxo legista infiltrado no necrotério municipal, e ele encontrou indícios de que Boot havia sido morto pela Avada Kadavra...
Harry relatou o acontecido calma e pausadamente, dando tempo a todos de digerirem as informações. E, agora que havia concluído, um silêncio sepulcral caiu como o peso de uma rocha sobre todos os presentes naquele antigo salão de festas da Mansão Black.
Mais um jovem bruxo morto. Mais uma perda irreparável.
Mas, ironicamente, esse fato trevoso levava luz à questão.
—Terry Boot foi assassinado por um Bruxo e esse Bruxo teve o trabalho de fazer a coisa parecer que havia sido feita por um Trouxa, embora ele tenha esquecido alguns detalhes importantes que apenas intrigariam as Autoridades Muggle, como o fato da porta do apartamento de Terry estar trancada e sem sinais de arrombamento. Certamente, esse Bruxo pensou que simulando um assassinato típico de um Trouxa, não despertaria sequer a curiosidade no Mundo Bruxo, talvez até mesmo crendo que ninguém aqui acabaria sabendo da morte de Terry Boot, ou se viesse saber, já seria tarde demais para se buscar evidências e a polícia Muggle teria encerrado o caso.
Harry aguardou comentários, mas todos pareciam chocados demais para dizer algo, então ele resolveu concluir seu raciocínio:
—A primeira vista parece que foi um assassinato gratuito, mas isso terá de ser investigado. Quem o matou quis esconder suas evidências forjando outras, mas, com certeza o assassino não sabe o quanto nós Bruxos estamos infiltrados no Mundo Muggle. Não fosse por isso, somente muito mais tarde saberíamos sobre o desaparecimento de Terry Boot e, ainda mais tarde, de sua morte.
—Isso então confirma o que havia suspeitado... – Snape falou mansamente. —E que não foi um mero acaso que eu tenha presenciado o que presenciei... todos esses incidentes no Mundo Muggle, que aumentaram muito em proporção nos últimos meses, tem a ponta de uma varinha metida no meio... alguém está fazendo parecer que tudo é mero acidente de trouxas para não atrair a atenção do Ministério, que ainda não dá a devida assistência e importância em relação ao outro mundo...
—E, fazendo isso – Harry concluiu os pensamentos de Snape. —... os Novos Comensais começam a agir de forma mais livre que jamais agiram, aterrorizando por onde passam sem darem importância à fama... e, no momento em que eles se organizarem...
—...No momento em que eles se organizarem, quando eles tiverem um líder que enxergue longe, eles poderão pôr tanto o Mundo Bruxo quanto o Mundo Muggle reféns do medo e, principalmente, medo do desconhecido, e estarão finalmente livres para agirem como quiserem e implementar o próprio governo deles... – Dumbledore completou, até o momento muito pensativo, apenas analisando o que os outros falavam.
—E... podemos até achar que falta muito pra isso, mas... tudo que falta a eles é a devida organização, porque o poder e a astúcia eles já provaram que têm... – Harry encerrou.
Hermione recolocou no gancho o fone do seu aparelho, parecendo triste. Estava na escuridão de sua sala e a única fonte de luz vinha de um abajur aceso a um canto. Foi para sua poltrona preferida e deixou-se escorregar até afundar no acento, sentindo-se extremamente entediada. Era a segunda vez que tentava falar com Terry Boot e não conseguia, o sentimento de culpa por ter ignorado a ligação do rapaz há dois dias oprimindo o peito, embora achasse que era um pouco demais para isso, mas também achava que estava muito sentimental nos últimos tempos.
Mas via uma pequena luz no fim do túnel escuro: segunda-feira retornaria ao trabalho e todas essas coisas voltariam a fazer parte do passado e estariam novamente distantes do seu mundo. Voltaria para expedientes que muitas vezes chegavam à doze horas diárias, sempre ocupada o tempo todo, muitas vezes até incapacitada de sair para o almoço por conta de excesso de trabalho a ser feito. Vidinha miserável! Mas que mantinha sua mente ocupada e suas lembranças esquecidas.
Não era tarde, devia ser por volta da nove da noite, mas estando ela naquele apartamento quentinho, silencioso e escuro, começou a ter sonolência e foi se perdendo em seus pensamentos até cair em vigília.
Novamente a estação de metrô: monótona, geométrica, neutra. Novamente o banco de madeira de dois lados, cada lado voltado para uma linha de trem: a que subia e a que descia. E o vulto de um homem que se aproximava dela, a tirando de seu torpor, falando com ela de forma mansa e sem emoção. Um calor, um aconchego, e ela sentia algo a mais, algo que jamais havia sentido, como fosse envolvida em energia morna que a livrava de todas as preocupações e todo o peso. E então estava envolvida nos braços do homem e um beijo suave que poderia durar uma eternidade, não fosse novamente pelo trem do metrô que se aproximava, com seu farol alto e cegante e seu silvo desesperado, porém, desta vez, vacilante.
Hermione acorda com um sobressalto, com o silvo irritante a encher seus ouvidos até penetrar no seu cérebro. Ainda tonta percebe que não se tratava de nenhum apito de trem, mas da irritante campainha melodiosa do seu próprio apartamento. Atordoada, se levanta num salto da poltrona e vai até a porta para atender, arrumando os cabelos e o vestido amarrotados, passando as mãos no rosto para tentar se livrar de qualquer indício de sono. Olhou através do olho-mágico da porta e, vendo de quem se tratava, abriu a porta, temendo ter demorado demais para atender.
—Minerva! Você está muito tempo aí?
—Digamos que o tempo suficiente para quase aparatar dentro da sua casa... estava dormindo? Está tudo escuro e quieto aí dentro...
—Ah, sim, é que acabei cochilando na poltrona... que bom que está aqui, Minerva! Quer comer algo? Preparo agora mesmo pra senhora e...
—Não, Hermione, eu.. já jantei. Estou aqui para resolver algo com você e partirei para Hogwarts logo que isso estiver acertado...
Hermione, que acendia a luz da sala, olhou decepcionada para McGonagall. Esperava que ela fosse ficar, pelo menos, todo o fim de semana com ela.
Para tentar disfarçar seu desapontamento, ela oferece chá à professora, que aceita, e vai para a cozinha esquentar a água e preparar a bandeja e os acompanhamentos. McGonagall estava apreensiva, acabava de sair da reunião da Ordem, e sentava-se ríspida no sofá de três lugares, olhando para todos os lados da sala, agora iluminada, como se temesse encontrar algum bruxo qualquer escondido nas sombras. Ela precisava tomar uma atitude com Hermione e, se não conseguisse por bem, teria de fazer por mal.
Após uns quinze minutos, Hermione reapareceu na sala carregando a bandeja com o bule de chá, as xícaras e um prato com biscoitos secos. McGonagall a encarou com certa apreensão, que não passou despercebida por Hermione. Depositou tudo na mesa de centro e sentou-se ao outro canto do sofá onde Minerva estava, servindo a ela a xícara de chá. Só depois que Hermione pegou sua própria xícara e se ajeitou no sofá, que ela partiu para as indagações.
—Você está estranha, Minerva... é apenas cansaço da viagem ou aconteceu algo?
McGonagall não iria ficar de rodeios, não havia tempo para isso.
—Aconteceu algo, sim, Hermione. Estou vindo de uma reunião extra da Ordem da Fênix.
A xícara de Hermione tremeu levemente sobre o pires que ela segurava. Desde que ela deixou a Ordem da Fênix, há oito anos, Minerva jamais a mencionou. Algo realmente grave havia acontecido e Hermione olhou assustada para a professora que mantinha-se altiva.
—O q-quê...
—Não sei se é seguro você permanecer no Mundo Trouxa, Hermione, não agora depois de tudo que aconteceu...
—Minerva, por favor, não faça isso, a senhora sabe muito bem..
—Sei muito bem quanto ao seu medo do Mundo Bruxo e sua decisão irracional de manter-se afastada de tudo que diz respeito a ele, negando-se que também faz parte disso. Você jamais deixará de ser uma bruxa, Hermione, por mais que se negue a isso!
A moça não podia mais segurar sua xícara sem correr o risco de derramar todo o chá em seu vestido e baixo-a para a mesinha, sobre a bandeja que trouxera. Fez tudo lentamente para dar-lhe tempo de digerir o que acabava de ouvir de McGonagall.
McGonagall também achou melhor abandonar sua xícara de chá sobre a mesa de centro, para tornar a coisa mais grave. Não podia dar uma notícia-bomba tomando chazinho, afinal! Ainda sentada no sofá, a mulher vira-se para o lado de Hermione, para encará-la.
—Não vou lhe contar os detalhes da reunião, Hermione, mas você precisa saber que não é mais tão seguro estar aqui como já foi algum dia. Ouvi coisas nessa reunião que me despertaram um mau pressentimento... não posso passar um ano inteiro em Hogwarts sabendo que está aqui sozinha e desprotegida. Você precisa estar lá comigo! Precisa voltar ao Mundo Bruxo. Se não quiser se servir de magia, tudo bem, faça como quiser, mas você precisa estar lá para sua proteção e para a nossa despreocupação.
Hermione balançava lentamente a cabeça para os lados, parecendo não acreditar nas palavras de Minerva. Ela não poderia fazer o que ela falava, é impossível! E voltaria ao trabalho na segunda-feira, tudo ficaria bem, não iria acontecer mais nada de errado!
McGonagall arrastou-se no sofá para ficar bem próxima de Hermione, pegando em suas mãos.
—Os membros da Ordem e os Aurores chegaram a uma conclusão assustadora, Hermione... de que muitos acontecimentos estranhos no Mundo Muggle tem a interferência direta de Bruxos, certamente os Novos Comensais. Houve... mais um assassinato, querida...
A moça não sabia o que dizer, apenas ficou muda olhando angustiada para sua ex-professora.
—O medibruxo que a tratou em St Mungus... Terry Boot... ele.. foi assassinado… com a Avada Kedavra…
Hermione teve um soluço agudo e instantaneamente seu olhos se marejaram. Não suportando mais nem um segundo ficar onde estava, levanta-se num rompante e anda desnorteada por sua sala, esfregando as mãos no peito, balbuciando coisas que McGonagall não conseguia entender. A mulher se levantou e foi até Hermione, abraçando-a pelas costas, preocupada com a reação dela.
—O bruxo que fez isso... fez parecer que Boot tinha sido morto por um trouxa... e isso acabou sendo decisivo para se especular que todos esses acidentes e ataques troux...
Minerva não pode concluir sua frase, pois Hermione mergulhou o rosto em suas mãos e começou a chorar convulsivamente.
Levou alguns minutos para que Hermione se acalmasse e parasse de chorar forte. Apenas algumas lágrimas teimavam em escapar, descendo pelo rosto lívido da moça silenciosamente. Minerva a tentava fazer tomar um pouco do chá, para ajudá-la a se tranqüilizar. Ambas já estavam sentadas novamente no sofá branco de três lugares.
—Eu não esperava que fosse ter uma reação tão forte, Hermione... se eu soubesse, eu não lhe teria contado isso...
A resposta foi um silencioso gesto de cabeça de Hermione, que deixava o olhar perdido em algum ponto qualquer a sua frente. Mais alguém ligado a ela havia sido morto de forma horrível. Mais uma vida preciosa completamente perdida, sem haver segundas chances. E se ela tivesse alongado aquele encontro? E se tivesse respondido imediatamente ao telefonema? E se ela tivesse agido como, por exemplo, suas colegas do escritório costumam agir, em se entregar logo no primeiro encontro inconseqüentemente?
Raivosamente, Hermione chacoalha sua cabeça para fazer desaparecer tais pensamentos idiotas. É claro que nada disso teria mudado algo! Uma estupidez imaginar tantas tolices e um tremendo desperdício de energia mental! Como Hermione não falava absolutamente nada do que estava sentido, McGonagall a olhava cada vez mais com apreensão.
—Por que você nunca fala o que sente, Hermione?! Você não está bem e guarda isso para você mesma! Diga-me por que você...
—Por favor, Minerva... – Hermione ia repetir a mesma resposta-ladainha às mesmas perguntas-ladainhas de sempre, mas achou que seria melhor simplesmente pedir um analgésico. —..será que poderia pegar um comprimido para dor de cabeça? Está no armário do banheiro...
McGonagall olhou atravessado para Hermione, pois percebeu que não era isso que ela iria falar. Mas preferiu fazer o que ela pedia afinal, não era hora para dar-lhe sermões, e por mais que detestasse a mania de Hermione de ficar se medicando com drogas feitas por Trouxas, foi até o banheiro, abriu o armário embutido no espelho e encontrou três frascos com etiquetas que indicavam o que eram cada um deles; sabia que aspirina era a droga que os trouxas usavam para camuflar uma dor física e, assim que esticou a mão para pegar o frasco, notou que ao seu lado havia um frasquinho delgado fechado com rolha. O que havia dentro era tão cristalino que a princípio pensou que estivesse vazio. Ficou intrigada pelo fato do frasquinho não apresentar nenhum rótulo e por um momento teve o delírio de achar que se tratava de uma poção... obviamente que, em se tratando de Hermione, isso era impossível, mas mesmo assim quis tirar a prova e levou o frasco juntamente com a aspirina.
Entregou o frasco de vidro da aspirina para Hermione, que destampou e jogou na palma da outra mão dois comprimidos, quando Minerva mostrou-lhe o frasco delgado de vidro, com a poção de Snape. No primeiro instante, Hermione não se lembrou do que tratava e só depois sua mente se clareou, e olhou em expectativa para Minerva.
—O que é isso?
O cérebro de Hermione começou a trabalhar freneticamente, analisando se devia responder com a verdade ou contar uma mentira. Então lembrou que queria tanto falar com Minerva a respeito desse mesmo assunto que o frasco de poção remetia e ficou sem saber o que fazer exatamente. Mas, afinal, para que mentiria?
—É.. é uma poção... – Respondeu vacilante.
McGonagall ficou realmente surpresa. —Poção? Que poção? Como conseguiu?
A moça ficou um tempo sem ter coragem de responder, mas, acabou por fazê-lo. Afinal, no fundo não havia nada de mais nisso.
— Memore Veritate, uma variação da poção Veritasserun... – Falou, ainda mais vacilante que antes; McGonagall apenas arqueou uma das sobrancelhas. —F-foi Snape que.. me deu...
Hermione corou violentamente, desviando a vista de McGonagall para o seu colo. Se não tivesse feito isso, teria visto um sorriso se esboçar no rosto da professora.
—E ele deu isso para que você se lembrasse do quê, exatamente?
Abriu e fechou a boca sem muita certeza de que queria mesmo responder isso, os comprimidos de aspirina começando a derreter em sua mão que suava com o calor da xícara de chá que ainda segurava. Como fosse ainda uma adolescente sem muita certeza de seus sentimentos, gaguejou em resposta:
—O-os s-sonhos que t-tive... durante o ... c-coma.
A mulher deu um sorriso fechado de triunfo, mas Hermione não viu porque estava muito atenta aos seus próprios joelhos.
—Então, se pretende fazer uso disso eu aconselho a jogar fora essas aspirinas... não sabemos que reação podem ter... – A professora falou suavemente.
Hermione a olhou exasperada, como se tivesse acabado de ouvir uma aberração. Ela não iria fazer uso da poção, só havia guardado por ora e depois jogaria fora, sem usar! Retirou do lixo só por conta da consciência pesada, não queria usar aquilo, não mesmo!
—M-mas.. não vou usar isso! E-eu...
—Hermione... – McGonagall fez a voz mais maternal que conseguiu. —..não compreende o que isso significa? – E mostrou novamente o frasquinho, levando-o à altura dos olhos de ambas. —Isso é uma chance, Hermione... uma escolha... uma oportunidade de se ter uma alternativa... por que continuar a viver como se já tivesse morrido?
As palavras foram ditas suavemente, mas caíram sobre Hermione como um pedregulho. Então Minerva sabia muito mais do que ela supunha que soubesse? E continuar vivendo como se tivesse já morrido.. era isso realmente que ela fazia, não?
Só não entendia o que a poção de Snape poderia fazer para mudar seu mundo...
—Terry Boot lhe ofereceu o carinho do qual tanto precisa, mas, sabe-se Merlim, uma tragédia o tirou do seu caminho... mas, ainda há mais uma chance, Hermione... Enquanto houver vida, haverá chance...
Fim do capítulo 23 – continua.
Snake Eye's – Julho de 2008.
N/A: Ao pessoal que deixa review, avise se tem perfil no orkut, pois penso em passar a responder os reviews através de scraps, pois uma das normas do FFnet não permite mais que façamos a lista de agradecimentos aos que comentam. Como não sei como usar o email do próprio FFnet, prefiro então usar o orkut. Se quiser me add por lá, fique a vontade, me procure pelas comunidades "Sou + SSHG", "Ficwrtiters Masters", "OC – Original Characters", "Sou um alien disfarçado", etc. Vc encontrará o meu nome logo de início, pois sou o moderador dessas comunidades :)
AGRADECIMENTOS À:
Sheyla Snape, marina angela, Fla Apocalipse, Sophi, Selen Veane, Cassandra Wisney, Dinharj, Aninha, Bia Taisho Snape pelos últimos reviews (caps 21 e 22).
DICA DE FF:
Leia tb a fic INVERSÃO, da amiga Aline Martis. Fic potteriana só com personagens originais, em outras palavras, eu sou o antagonista XD um presente precioso da minha amiga da net :) Vc encontra o link pra fic na minha página do FFnet, em "Favorite Stories". E deixa reviews pra ela tb, pra ela continuar a escrever pra mim XDD
Td de bom!
