CALEIDOSCÓPIO

Parte 24 – Unindo Imagens.


Harry Potter estava sentado diante de sua escrivaninha na sala da chefia do Departamento de Aurores do Ministério da Magia. Estava absorto sobre pergaminhos que lia e assinava quase mecanicamente, quando um rapaz mais jovem entra sorridente na sala, empunhando vários pergaminhos abertos, que deposita à mesa, em frente a Harry.

—O que é isso? – pergunta.

—A lista de pacientes tratados pelo Dr Terry Boot nos dois últimos anos, desde que ele se tornou medibruxo efetivo de St Mungus... – Havia um sorriso iluminado no rosto do rapaz que aparentava ter saído há poucos anos de Hogwarts.

Harry nada respondeu, deixou de lado sua pena vermelha e dourada, pegando os pergaminhos que o jovem Auror acabava de lhe entregar. Viu as listas de nomes em ordem alfabética: pacientes-bruxos de Terry Boot e funcionários de St Mungus. A primeira era uma lista de tamanho considerável de pacientes com graves seqüelas permanentes, que eram a especialidade de Boot. Harry, ao avistar um nome, levantou sobressaltado de sua cadeira, balançando perigosamente os objetos que estavam sobre a escrivaninha em que esbarrou. O jovem Auror se afastou da mesa com o susto, como se Harry tivesse se transformado em algo perigoso. Sua voz saiu baixa e quase asmática...

—Draco Malfoy...?


O retorno ao trabalho não trouxe a quietação que Hermione esperava. Havia uma pilha de processos contábeis a serem analisados e que não foram feitos, pois seus chefes acreditavam piamente de que ela retornaria. Ganhou festinha de boas vindas, ganhou presentinhos e flores, mas, ao entrar em sua sala, após a rápida comemoração, e ao fechar a porta às suas costas, alienando-a do resto do escritório e do mundo, ela percebeu o quanto tudo aquilo lhe era estranho e nada peculiar. A sala totalmente simétrica, monotonamente arrumada e limpa, a iluminação fria e exagerada, o ar fresco e artificial que emanava um aroma igualmente artificial era enfadonho e irreal e, apesar da leveza da decoração geométrica e de cores neutras, o ambiente parecia pesado. A única coisa que dava algum aspecto de vida era o buquê de rosas vermelhas que foi deixado sobre sua mesa, dentro de um insípido vaso de cristal, mas mesmos as flores, com sua cor vermelha perfeita e suas hastes (sem espinhos!) e folhas verdes perfeitas, soavam artificiais e irreais.

A pilha de pastas estava na mesinha ao lado, perfeitamente organizados por ordem de importância e perfeitamente empilhados. Seu computador estava perfeitamente reluzente, como se tivesse acabado de chegar da loja, e em seu monitor LCD via uma patética mensagem de boas vindas rodopiando pela tela. Hermione soltou um suspiro de desagrado e jogou-se em sua cadeira de rodízios em forma de poltrona.

Mas, assim que começasse seu trabalho e entrasse no ritmo novamente, essa sensação maçante passaria, tinha certeza... ou quase certeza.

Pegou as primeiras pastas da pilha ao canto do seu lado esquerdo e foi analisando seus papeis. De repente, tudo parecia escrito em outra língua e Hermione fez um grande esforço para prestar devida atenção ao papel ao menos para identificar o que havia escrito nele. Tentou com perseverança os primeiros dez minutos, mas nada simplesmente parecia fazer sentido, pois sua mente estava em outro tempo e espaço. Largou com estrépito a pasta sobre a mesa e escondeu o rosto em ambas as mãos, tentando relaxar para pôr sua cabeça naquele lugar naquele momento... mas não conseguiu.

Sua mente estava num cemitério que lembrava um bosque verdejante. A estradinha de pedras regulares era ladeada por árvores de copas frondosas. No que se entenderia por uma praça havia dezenas de jazigos; uns ornamentados ricamente com belíssimas estátuas de anjos e santos e cristos cruxificados; alguns exibiam a pedra fria dos mármores com seus vários vasinhos com flores frescas-murchas-artificiais; a maioria exibia apenas a simplicidade do concreto acinzentado e encardido pelo tempo.

Não teve coragem de se aproximar daquele séqüito que cortejava o caixão negro e lustroso, assistindo a tudo o mais afastada possível. Percebeu, com grande surpresa ainda maior do que aquele sepultamento estar sendo num cemitério muggle, que a multidão de pessoas pesarosas era composta tanto por bruxos quanto por trouxas que, aparentemente, não davam muito pela presença do outro.

Havia muitas pessoas, muitas mesmo, provavelmente quase cem. E aquilo era apenas uma ínfima mostra do quanto Terry Boot fora querido em vida. Colegas dos hospitais onde trabalhava, pacientes, amigos, família. Hermione engoliu um soluço mais forte, mas ainda assim lágrimas teimosas rolaram por sua face.

Como poderia alguém tão querido e tão especial morrer? E, ainda pior, morrer assassinado cruelmente?

Não, definitivamente, não era um mundo bom este em que viviam.

Sentindo suas pernas fraquejarem, Hermione ajoelhou-se no gramado, oculta pela árvore frondosa que lançava pesada sombra em detrimento ao sol forte do meio dia. Ninguém poderia percebê-la ali, a forte claridade do dia e os altos jazigos deixariam as pessoas cegas a ela e, mesmo talvez isso não fosse necessário, pois ali os mortos eram mais importantes.

E ela não estava morta.

Não prendeu mais o choro, no entanto cuidou para que seu pranto se derramasse dignamente. Apenas a grama que recebia suas lágrimas e o vento que constantemente passava por ali perceberiam que ela ali estava e chorava por mais uma morte que não deveria ser...

Não precisou quanto tempo ficou ali e menos ainda quanto tempo ficou ali sozinha, mas quando percebeu que havia alguém com ela, como a lhe fazer companhia silenciosa a sua dor, certamente havia se passado alguns minutos. Abriu os olhos e, mesmo marejados, viu um par de sapatos lustroso e calças pretas a sua frente, rígidas como se estivessem em continência. E mansamente, como se a temer quem ali estava, elevou seus olhos até encontrar um semblante terno e condencedente, estranho e inédito para ela.

Ele apenas ofereceu-lhe a mão. Não havia nenhum sinal de sarcasmo em sua voz ou gestos.

—Precisa de ajuda, Srta Granger?

Olhou sem realmente saber o que fazer para aquela mão branca e descarnada, os dedos mais finos e longos que o normal, quase delicados. Seu olhar correu da mão que se oferecia ao rosto do homem, ainda com o mesmo aspecto sereno, sem sombras de qualquer cinismo.

Não se preocupou com conveniências, nem com o racional (que estava posto de lado naquele momento). Viu-o como um lugar seguro onde poderia retornar para sua tão almejada tranqüilidade interior.

Ignorou completamente a mão estendida a sua frente, levantando-se num rompante e se atirando aos braços do homem que, habitualmente, estava todo de negro, sendo a única coisa clara em si o seu rosto, agora mais lívido do que de costume. Hermione enterrou seu rosto no peito do homem e não quis mais se importar com nada, apenas queria acabar com aquela angústia. Snape, momentaneamente sem reação por ter sido pego de surpresa, ainda relutou em retribuir o abraço, mas o fez e fez como se a protegesse.

Hermione baixou as mãos do rosto lentamente, como se a visão do seu escritório fosse fazer desaparecer as lembranças. Ela, até então, ainda não havia digerido o que ela mesma fez, daquela reação tão espontânea de se abraçar a Snape, buscando consolo e alívio... o pior é que ele retribuiu a expectativa dela... ele realmente a consolou! Ao menos se manteve em silêncio enquanto ela molhava suas vestes com lágrimas.

E pensar que até poucas semanas atrás acreditava ter secado toda a sua fonte de lágrimas, estava se tornando agora uma chorona compulsiva.

No fim foi uma cena cômica, agora vista de fora. Após alguns minutos se acabando em prantos ao peito de Snape, apenas se afastou dele, desculpando-se mil vezes e desaparatando sem ao menos se certificar de que não havia nenhum trouxa por perto. A cara que Snape indicava de que ela era uma insana digna de pena.

Como havia largado sua bolsa de qualquer jeito sobre a escrivaninha enquanto era arrastada pelos colegas até a sala de laser dos funcionários, foi colocá-la no lugar adequado, mas antes abriu o fecho e de dentro retirou o pequeno vidro delgado e arrolhado dado por Snape; a poção cristalina ainda estava lá. Hermione olhou atentamente para a poção, mas vendo aquilo que ia a sua mente, uma mistura dos sonhos do período do coma, as mortes de Ron e Terry e agora o episódio com Snape, onde ela, deliberadamente, se jogou aos braços do Mestre de Poções, quando ele apenas lhe havia oferecido ajuda para se levantar.

E ela ainda tinha sido tão infantilmente mal-educada, desaparatando daquela forma depois de uma ceninha piegas...

Corando, Hermione devolveu o frasco à bolsa. Se iria fazer uso daquilo, certamente que não seria ali e naquele momento. Apenas jogara o vidro dentro da bolsa para que McGonagall não o encontrasse novamente no armário do espelho do banheiro.


Harry andava sem parar de um lado para o outro de sua sala, a mão ao queixo enquanto a outra segurava firmemente o pergaminho já amarrotado a essa altura. O jovem Auror apenas o olhava sem saber o que fazer ou perguntar (e não se atrevendo a nenhum dos dois). Não era a primeira vez que via seu chefe nessas condições, mas ele estava particularmente eletrificado desta vez. Até se assustou quando Harry finalmente parou sua caminhada a lugar algum, e voltou com olhos fuzilantes para o rapaz. Havia um brilho genial e insano neles.

—Você fez um bom trabalho nesse levantamento, garoto! Agora eu quero que faça mais! Quero que você e os outros Aurores encarregados de investigações que estiverem disponíveis, façam levantamentos acerca de Draco Malfoy... – Harry parou por um instante, como se verificando se sua ordem estava correta. —Não, não, não estou sendo justo... Você fará o que eu mandei, mas investigue todas essas pessoas destas listas, mas dê ênfase a Draco Malfoy!

Harry aproximou-se do rapaz que parecia petrificado diante dele, não se permitindo sequer piscar, e pousou uma mão pesadamente em seu ombro enquanto a outra lhe entregava o pergaminho completamente amarrotado. Harry olhou fundo nos olhos do jovem Auror, como se tentasse usar Legilimância nele.

—Draco Malfoy... – Harry falou o mais nítido e pausado que conseguiu. —Eu quero saber tudo sobre ele nos últimos dois anos, tudo! E não se esqueça de verificar se ele ainda permanece internado em St Mungus, nos poupará tempo e trabalho.

O rapaz apenas concordou com a ordem, girou sobre seus calcanhares e saiu da sala deixando um Harry ainda mais absorto em seus pensamentos do que antes.

Draco Malfoy... há anos não tinha notícia do infeliz e de qualquer outro membro de sua decadente família. Harry podia estar sendo injusto, julgando sem nenhum conhecimento de causa, mas algo lhe dizia que seu ex-inimigo de Hogwarts estava por trás do assassinato de Boot... e ia além disso. Decerto fosse um sentimento de vingança por trás dessa sua quase certeza temperada com muito ódio ainda guardado por ele, mas que agora ele reuniria toda a força e influencia que dispunha para ir a caça de Malfoy, isso ele faria! Há muito assunto inacabado para ser desenterrado...


O moroso dia passou, e a noite se adensava com o fim dos últimos raios de sol. Snape fazia anotações em sua pequena biblioteca de sua casa na Londres Muggle, que era o segundo quarto da casa, no andar superior. No dia anterior esteve presente ao sepultamento de Terry Boot e depois disso não encontrou nenhuma disposição para retornar de imediato a Hogwarts. Primeiro fora àquela reunião extraordinária e extrapreocupante da Ordem da Fênix; depois o sepultamento e, por último, o quase inverossímil episódio com Hermione no cemitério. Não sabia bem o que o motivara a ir até ela e menos ainda sabia o que havia motivado a moça a reagir como reagiu, embora ele não se negasse que havia adorado aquilo, mesmo que fosse muito estranho. Deixou a caneta com que rabiscava anotações cair de sua mão, e esfregou seu rosto para espantar o cansaço dos olhos e massagear suas têmporas.

Pela reação de Hermione, ele teve quase certeza de que ela havia feito uso de sua poção, por outro lado, a reação seguinte dela de fugir daquela forma, colocava essa certeza em dúvida. Sentia-se muito esgotado como há muito tempo não se sentia e tinha certa pena de Hermione, uma mente tão perspicaz e brilhante agora totalmente conturbada, beirando a esquizofrenia. Ela precisa de ajuda, senão se perderá para sempre, e, talvez não fosse pelos cuidados de McGonagall, ela já tivesse se perdido há muito tempo.

Foi tirado de seus devaneios pelo blém arrastado de sua campainha. Praguejou alguns impropérios e, mesmo aborrecido, foi atender a porta. Já metia a mão na maçaneta e começava a destrancar a porta quando lhe veio à mente os comentários da última reunião. Empunhou sua varinha que estava ao cós da calça e deixou-a à mão de forma a não ser facilmente percebida, e só então abriu a porta.

Tantas pessoas no mundo e a última que imaginava encontrar ali era esse garoto! Por acaso o endereço dele foi publicado no Profeta Diário em letras garrafais para que agora todos o encontrasse ali na sua casa do bairro trouxa?!

—Potter? O que você faz aqui?! – A pergunta saiu hostil, mas foi difícil evitar.

—Eeh.. boa noite, Snape! Me disseram que o encontraria aqui, espero não estar atrapalhando em nada. – Harry pareceu ainda mais incomodado com a situação, embora ele mesmo a tivesse causado.

—Atrapalhando você está, não tenha dúvidas... mas, entre!

A contra-gosto um deu passagem enquanto a contra-gosto o outro entrou. Não fosse algo que Harry julgasse extremamente importante, jamais iria querer ter o desprazer de conhecer a casa trouxa de Snape, embora ele tenha inutilmente tentado suprimir um riso quando Dumbledore, por meio de comunicação por Pó de Floo, tivesse lhe dito isso.

Snape indicou o sofá, mas Harry estava surpreso e com pressa demais para se sentar. Ele foi cara-de-pau o suficiente para perscrutar cada canto da sala bem arrumada e decorada.

—Veio aqui apenas para admirar minha casa, Potter? Suponho que tenha sido Dumbledore que tenha lhe contado a grande tirada hilária, não é?

Harry voltou a sua atenção a Snape, mas parecia vir de outro planeta, ao menos sua expressão era de quem acabava de avistar um disco-voador. Levou alguns segundos ainda para processar a pergunta e dar sua resposta.

—Foi Dumbledore quem me deu seu endereço, sim. Precisava falar com você e entrei em contato com o Diretor. Ele não fez isso para se divertir, tenha certeza, Snape.

—Eu tenho minhas dúvidas... mas, ao que veio, afinal? Vai ficar parado aí de pé ou vai se sentar para que possamos começar nosso bate-papo? – Não fosse pelo excesso de azedume no tom cínico de Snape, Harry até acharia que o professor estava, insanamente, de bom humor.

—Não tenho tempo e paciência para isso, Snape. Apenas quero saber de uma pessoa...

—Ah, sim, Srta Granger, suponho... – Snape havia dado as costas a Harry, em direção a sua poltrona preferida, estava muito cansado para ficar de pé e ouvir o que Potter tinha a lhe dizer, mas estacou no ato como se houvesse recebido um choque elétrico.

—Não... Draco Malfoy.

Snape virou-se lentamente para Harry, com uma expressão estranhamente de quem pensava não haver entendido direito o absurdo que acabava de ouvir.

—Draco?

Harry não demonstrava muita paciência. Estava na presença de Snape, na casa de Snape, e falando daquele ser infeliz que até então ainda não havia lhe descido pela garganta. Ainda se lembrava dolorosamente o quanto de trabalho o ex-sonserino deu aos Aurores e à Ordem da Fênix há oito anos atrás, até ser pego numa emboscada e mandado quase morto a St Mungus. Além de ter sobrevivido, o infeliz Malfoy conseguiu escapar ao apodrecimento em Azkaban por ser considerado inofensivo depois de todos os ataques mágicos simultâneos que sofreu em sua captura, e seu advogado conseguiu com que todos cressem que ele já havia sido punido o suficiente com a forma brutal que fora tratado pelo Ministério, e não havia provas cabais de que ele tivesse cometido outros crimes além de ter se juntado ao Círculo das Trevas. Por Draco Malfoy ter se safado tão bem como sempre fora em sua época de Hogwarts, isso o tornou ainda mais indigesto para Harry, que teria matado-o pessoalmente se não tivesse estado muito ocupado com Voldemort.

—Entendeu direitinho, Snape... vim saber de Draco Malfoy... tem o visto ultimamente?

O tom de cinismo de Harry irritou Snape, que o encarou perigosamente.

—O que o faz pensar que mantenho contato com o filho de Lucio Malfoy ou com qualquer outro ex-membro do Círculo das Trevas? Essas insinuações são muito cansativas, Harry, e desterrar assuntos mortos é muito desagradável. Seja prático e diga o que quer, afinal!

—Está certo, Snape... Draco Malfoy esteve internado todos esses anos em St Mungus...

—Palmas para o senhor, Chefe dos Aurores! – O sarcasmos de Snape foi completamente ignorado por Harry, que prosseguiu como se não tivesse havido nenhum comentário desnecessário da parte do seu ouvinte.

—...exceto nos últimos dois anos, quando teve alta e passou a ser tratado a distância, e quem assistiu a essa parte foi Terry Boot.

Snape descruzou os braços e sua mente começou a entrar num processo de informações em velocidade frenética. A informação poderia levar a milhares de coisas, mas não deixava de ser instigante.

—Você está criando um suspeito com base em quê, Harry Potter?

—Com a simples base do meu profundo desafeto por Draco Malfoy, Snape, o que mais poderia ser? Por favor, me poupe! A primeira e mais simples investigação que peço para meus Aurores fazerem e já me trazem o nome de Malfoy! Chame a isso de coincidência e da minha suspeita de birra infantil, intuição ou palpite – como prefiro! – mas que agora eu irei à caça de Malfoy, eu irei!

—OK Potter! Faça o que acha que deve ser feito, você não é Chefe dos Aurores a toa, não é mesmo? Mas por que diabos você veio até a minha casa me dizer isso? O que espera que eu faça?

—Simples, Snape: você sempre foi muito próximo da família Malfoy e Draco sempre foi o seu queridinho protegido..

—Tudo fazia parte do show, Potter. O que você quer é um culpado pela morte de Terry Boot e fará de tudo para arranjar um, mesmo que não o seja. Pretende me acusar indiretamente, por ter alguma remota associação com o possível assassino?

—Os anos o estão deixando tolo, Severus Snape, esperava mais inteligência de sua parte... – O cenho de Snape se fechou em tempestade e ele instintivamente apertou sua varinha com mais força, pronto a usá-la, mas a seriedade com que Harry lhe dirigia o mantinha de impulsos controlados. —Estou apenas lhe comunicando um fato que pode ter muita ligação com aquilo que tratamos na última reunião da Ordem. Draco Malfoy está foragido ao mesmo par de tempos em que começaram os estranhos ataques de Novos Comensais.

Harry pausou, estava muito sério e demonstrava que realmente não era à toa que chefiava um departamento tão importante do Ministério da Magia.

—Eu próprio farei tais investigações e farei as ligações com todos os casos de que temos registro. Como Auror eu sei que essas coisas não são coincidências e como ex-agente duplo você também deveria saber que não. Precisamos ter notícias de Draco Malfoy, Snape, e você é o único que poderia se aproximar dele...

—Acredita mesmo nisso? Eu sequer sabia que ele saiu de alta do hospital há dois anos! Provavelmente você não percebeu, mas quando o Lorde das Trevas foi morto, ganhei minha carta de alforria, Potter; não devo mais nada a nenhum dos lados e me desliguei de tudo aquilo que não tinha mais nenhuma utilidade para mim. Não andei trocando corujas com antigos colegas comensais, como deve achar.

—Bem, de qualquer forma você agora sabe que mantenho uma birra antiga contra seu protegido que quero culpar pela morte de Boot e com alguma sorte o culparei de todos os atentados de Novos Comensais... – Harry levava a mão à maçaneta da porta, abrindo-a para ir embora. —Eu tenho um sexto sentido muito apurado, sabia? Herança do tio Volddie, suponho... e essa intuição me diz que cedo ou tarde Malfoy irá procurá-lo, afinal você foi um pai substituto para ele por todo o tempo em que ele esteve em Hogwarts... e se ele fizer isso...

—... O convidarei para tomar chá conosco, Potter! Passar bem!

Um Snape aborrecido bateu a porta no mesmo instante que Harry desaparatou, deixando de lembrança um sorriso sarcástico.


Hermione saia do banho enrolada no seu branquíssimo roupão felpudo, esfregando uma toalha nos cabelos para retirar o excesso de água. O seu quarto era espaçoso, impecavelmente limpo e organizado, e a cor branca também predominava naquela ambiente. Sobre sua cama king size havia apenas uma evidência de desleixo (?): sua bolsa estava jogada aberta ao meio da cama, deixando parte do seu conteúdo para fora. Hermione sentou-se na beirada da cama enquanto ainda acariciava os cachos lanosos e por um instante sua atenção se deteve sobre a bolsa... mais precisamente sobre o frasquinho delgado que rolou de dentro dela, parando um pouco afastado das outras coisas, como se quisesse ficar bem perceptível.

Cautelosa, Hermione buscou o frasco como se temesse queimar seus dedos e, vacilante, levou-o à altura de seus olhos. O líquido cristalino mal era perceptível e ela girou o frasquinho entre os dedos, com a mente se distanciando daquele tempo e lugar.

Simplesmente deixou a toalha que tinha em mãos de lado, subiu suas pernas para a cama e deitou-se quase em forma fetal. E por algum tempo ainda ficou admirando o frasquinho em sua mão.

O que teria a perder se fizesse uso da poção? Provavelmente uma coisa: a ilusão de crer que os sonhos são meros sonhos. Instintivamente sabia que o que se passara em seu campo espiritual durante o coma fora algo verdadeiro e não apenas projeções inconscientes. Talvez viesse a se lembrar de tudo, mas da mesma forma poderia tudo isso cair em esquecimento.

Sabia que havia uma escolha, e o fato de ela estar ali, agora, era o resultado de uma das escolhas que tivera. E para quê, exatamente, escolheu retornar a essa vida que tanto a cansava? Sentia-se num mundo estéril e sem sentido, pois sua vida externa era o espelho de seu íntimo. O mundo era o que ela projetava de dentro de si mesma. Ela podia mudar isso e queria mudar, mas a única mudança possível que enxergava era o fim daquela existência. Não conseguia enxergar uma alternativa para aquilo. Se afundou tanto em mágoas e ressentimentos que não acreditava que fosse capaz de buscar novamente o céu aberto e respirar ar fresco.

Quem te daria a mão e traria a tona para respirar? Como conseguiria novamente fixar sua visão em objetivos concretos, dando nitidez às formas embaralhadas e repletas de falsos brilhos que era o Caleidoscópio de sua vida?

A resposta talvez estivesse mesmo ali, naquele pequeno frasco.

Hermione senta e, sem mais pestanejar, retira a rolha do frasco, fazendo um flop e um cheiro acre e entorpecente como álcool invadiu seus sentidos, fazendo-a vacilar por alguns instantes. Mas algo dentro dela inflamava por conhecimento, pela verdade que a levou estar ali-agora e não do outro lado com seus pais. E antes que fraquejasse, virou o conteúdo em sua boca e o líquido alcoólico de gosto adstringente encheu sua boca de saliva que a obrigou a engolir de vez. Mesma que a quantidade fosse tão pouca, menos que um gole razoável, a sensação que tinha era que aquilo inundava em seu peito, descendo para o restante do corpo. Hermione sentiu uma desagradável sensação provocada pela abrupta queda de pressão e tossiu como se tivesse se sufocando. Em poucos instantes seus membros pesaram e suas extremidades começaram a formigar e logo sentia-se tonta como se estivesse embriagada. O mal estar a obrigou a desabar sobre a cama e o corpo se tornou tão pesado que sua vontade era de abandoná-lo. Depois do repentino mal estar e do enjôo, seu corpo começou a se acalmar, sua respiração ficou mais fácil e seu coração retornava aos batimentos normais. E com isso, foi sentindo-se cada vez mais leve, como se boiasse num mar de águas mornas. Em sua mente as imagens desaceleravam, paravam de girar, e começavam a se focar como se folheasse um álbum de fotos. Sua vista se cegou para o ambiente de seu quarto e se viu na escuridão de um túnel onde se avistava ao longe apenas um pequeno ponto de luz, e conforme sua visão se organizava e se tornava mais nítida, o ponto de luz aumentava gradativamente conforme ela se aproximava.

O silvo tomou conta de sua audição e a luz transbordou, inundando tudo, absorvendo tudo.


Fim do capítulo 24 – continua.

Snake Eye's – Julho de 2008.


N/A: Nessa correria de querer compensar atrasos, acabo me esquecendo de assuntos vitais. Gostaria de informar, convidar e agradecer sobre a criação de uma comunidade do Orkut que presta homenagem à Caleidoscópio, trata-se da "Crucius Kedavra", criação de Couveeee яσ¢к уσυяѕєℓƒ, uma amiga e leitora :)

Mto obrigado à Couvee pela bela homenagem :) E convido a vcs que tanto gostam da fic, à participar tb :)

Mtos agradecimentos a todos que lêem e acompanham Caleidoscópio. Posso dar um refrigério em dizer que estamos na reta final, após 4 anos de incursões!

E mais agradecimentos vão às leitoras que se manisfestam em seus reviews (então posso dar os nomes e saber quem são): Dinharj, Renata Gomes, J.D.Leal, Selen Veane e Marina Angela (que me fez postar o cap 24 XD). Mto obrigado por participarem :)

Mto obrigado à Pat/Lollypop pelas lindas montagens que fez para Caleidoscópio, Duas Realidades e Animago Mortis (já estão lá no meu album do Orkut:);

Mto obrigado à Ju pela fanart (ainda não tive o prazer de ver, mas toda a boa intensão vem do coração e é isso que conta :) Breve vai constar lá no meu álbum tb :)

Mto obrigado à Profª Daniela Borali, dona da comunidade "The Door of Perception", nossa nova amiga e leitora, e foi mto gentil em divulgar em sua comunidade a nossa Caleid :)

Desculpe pelos possíveis esquecimentos.

E quem tiver Orkut, me adicione ou me diga quem é por lá, agora responderei review por review em seu scrapbook.

Abraçus!