CALEIDOSCÓPIO

Parte 27 – O que tiver de ser... será


Hermione ajoelhou-se ao chão, seus joelhos amparados no felpudo tapete branco. Embora sua voz saísse forte e objetiva na sua resposta, sabia que seu corpo fraquejava por conta da ansiedade e, principalmente, por estar subjugando seu orgulho. Algo diferente se desenvolvia dentro de seu peito, e não conseguia precisar com exatidão o que fosse... talvez fosse medo de descobrir o que sentia era felicidade.

—Eu precisava... preciso muito... preciso saber dos pormenores do que.. você sabe...

Aquilo estava mesmo acontecendo? Por que é tão difícil de crer na realidade quando ela se mostra tão maravilhosamente promissora? Por que é tão difícil crer que os sonhos se concretizam, às vezes?

Snape respondeu, usando sua voz mecanicamente controlada:

—Quando quer isso? É só marcar o dia e...

(—Agora! Q-quer dizer... se possível, daqui há uma hora, em.. qualquer lugar!)

—Está certo... onde?


Hermione recolocou o fone no gancho, não muito convencida de ter agido certo. Será que estava sendo impulsiva? O que será que Snape iria pensar dela? Era como se ela estivesse se jogando para ele...

Não. Meneou com raiva a cabeça. Snape não era nenhum idiota e ele sabia qual era a sua moral. Ela, simplesmente, não conseguiria ficar em paz até acertar todas essas pendências de uma vez. Não conseguiria dormir depois disso. Não conseguirá ir ao trabalho amanhã, depois disso. O trabalho. O amanhã. Sua vida e sua realidade. Deus, como era tão inverossímil agora visto deste novo ângulo! Agora era isso que não parecia pertencer a ela! Isso que era o mundo estranho!

Será que isso tudo também significava que... ela havia feito as pazes com a Magia?!

Foi até seu quarto e pegou sua bolsa, tirando dali a sua varinha, que jamais abandonou como fez com o mundo a que ela pertencia. Segurou como fosse a coisa mais delicada do mundo e levantou-a a altura de seus olhos, que agora continham um brilho vivo.

Nunca teve coragem de se desfazer ou mesmo de afastar a varinha de seu convívio. A manteve sempre consigo nos últimos oito anos. Estava sempre em sua bolsa, como estava no dia que sofreu o ataque da Crucius Kedrava. Não saberia dizer o que a fez levar a mão à bolsa e tirar sua varinha de lá, quando viu o desespero que tomava conta da rua naquele momento. Também não saberia dizer o que a fez proferir dois feitiços contra os bruxos que atacavam as pessoas. Instinto de sobrevivência, talvez? Naquele momento, não era ela quem usava a varinha, mas a própria varinha que a impulsionou a isso... afinal, a Magia ainda não fora revelada em sua total plenitude e havia muito, mas muito ainda do que eles não sabiam.

Sorriu para o débil pedaço de graveto e, com um floreio, borboletas de luz saíram da varinha e circularam pelo quarto semi-escuro, iluminando por onde passavam.

Sim... ela havia feito as pazes com a Magia.


Há lugares no mundo que jamais param ou dormem. Brighton é um deles. Situado na costa sul da Inglaterra, no condado de East Sussex. Brighton é um dos maiores e mais famosos resorts litorâneos do Reino Unido. E numa noite de tempo bom, com direito a lua em seu quarto-crescente, estrelas e temperatura fresca, o Píer de Brighton é um dos lugares preferidos para se passar noites insones.

Mas ela ter escolhido aquele lugar tão longe de Londres soava como uma extravagância. E para chegar à hora em que ela marcou, somente por aparatação. E ele havia se fiado na palavra dela, aceito incondicionalmente e agora estava ali, sobre o mar naquele píer, com pessoas caminhando de um lado para o outro, tranqüilamente; alguns sentados em mesas redondas, comendo e bebendo; outros em bancos de madeira, conversando. O fluxo de pessoas fazia parecer que não passavam das 24 horas... imaginava como seria aquilo durante um dia ensolarado de Verão.

Ele não estava se queixando, sequer tinha direito a queixas e sequer sonharia ousar em fazê-lo. Apenas achava estranho que Hermione tivesse marcado um lugar tão em voga, que não parecia combinar com ela... com ele menos ainda.

O mar estava um pouco agitado aquela noite e as marolas batiam com estrépito nas colunas de sustentação do píer. O som cadente e ritmado era como um mantra, se você fosse capaz de se concentrar apenas nele. Snape parou de andar de um lado para outro, se incomodando com as muitas pessoas (ele achava que eram muitas) e as muitas luzes (ele achava ali iluminado demais, também), e apoiou-se na mureta de proteção e deixou se perder pela imensidão negra do mar noturno, salpicado pelas luzes artificiais do balneário e com um belo colar de perolas luzentes que parecia ser a orla ao longe, oposta de onde ele estava.

E ficou surpreso consigo mesmo de ver o quanto aquele simples gesto, o de apenas parar e divagar, o acalmava, e ele não mais percebia o excesso de luzes artificiais ofuscando sua vista; o excesso de pessoas e barulhos que elas faziam. E o que antes era incomodo, tornou-se prazeroso: o vento insistente que bagunçava seus cabelos, fazendo-lhe cócegas no rosto e pescoço, no cheiro enjoativo de maresia e no som ritmado das ondas.

—Me desculpe tê-lo feito vir tão longe, Sr. Snape...

A voz soava distante, mas era inconfundível, mesmo que parecesse vacilante. Snape virou-se com lentidão, como se pensasse que estava imaginando vozes e nada veria ali. Mas pensou errado. Hermione estava mesmo ali, hesitante, insegura, mas estava. Uma das mãos se apoiava na mureta enquanto a outra mantinha os cabelos afastados de seu rosto, que estavam revoltosos pela ação do vento.

—Não foi difícil... o trafego para as aparatações não estava complicado... – Falou num tom leve de piada. —Só não entendo o porque de ser aqui. Quero dizer, poderia ser um lugar mais próximo, que não a obrigasse...

—... a usar magia? Eu só poderia chegar aqui no prazo que estipulei através de magia. E como eu tenho uma enorme pendência com o senhor que preciso resolver... – Hermione se virou para o mar, apoiando-se na mureta. —Sim, fiz de propósito, para obrigar a mim mesma a enfrentar meus bloqueios.. e para estar próxima ao mar, há muitos anos que não me aproximo da costa...

Snape apenas sorriu. Para ele aquilo era novo, completamente novo.

—Jamais estive próximo ao mar por simples lazer ou passatempo. Já o vi, já o senti, já até tive de acampar numa praia, mas jamais por lazer, jamais por... prazer ou vontade. Foi uma boa escolha, Srta Granger, para nós dois...

Hermione sorriu em cumplicidade.

—A última vez que estive próxima ao mar foi no último verão que passei com meus pais, há quase dez anos... lembro que eles estavam muito felizes; estávamos todos muito bem uns com os outros, como se soubéssemos que a vida deles estava no fim...

—Então resolveu romper com vários bloqueios de uma só vez? Veja que apenas romper com o bloqueio que impôs contra sua própria magia já algo grandioso, Srta Granger. Essa sua decisão não lhe permitirá voltar atrás...

—Não voltarei... e essa própria decisão é um retorno... Retornei, não foi? E você que fez isso, Snape... justamente quem eu menos esperava que fizesse algo assim... que me desse uma razão forte o suficiente para esse retorno... eu lhe devo muito por isso...

Hermione não conseguia encarar a Snape, e manteve seus olhos baixos, ocupados observando as luzes que boiavam no mar agitado.

Snape tornou-se compassivo ante as palavras de Hermione. Ele, realmente, não mantinha a mínima esperança de ter qualquer aproximação da moça. Não fez o que fez por ela esperando isso. Fez porque queria que ela vivesse, que ela experimentasse uma segunda chance ainda nessa vida. Isso ele conseguiu. E agora via que conseguia além, conseguia uma segunda chance para si mesmo.

—Você não me deve nada, Hermione... como poderia?

—Você me fez retornar a este mundo, Snape. Esta vida, agora, eu devo a você...

—Eu apenas a ajudei a fazer uma escolha... se você tivesse seguido em frente, então me deveria a sua morte? Eu prefiro não ter este tipo de crédito...

Hermione se aproximou, ficando cara a cara com Snape. Já havia passado o tempo de fugir e de voltar a trás. Agora só lhe restava o prosseguir.

—Se eu tivesse prosseguido, Snape, eu não lhe deveria minha morte, mas lhe deveria a oportunidade de rever meus pais e talvez até voltar a conviver com eles... mas você influenciou em minha escolha de retornar a este mundo. Sabendo que o 'adiante' sempre estará lá, você me fez arriscar uma nova tentativa de acertar ainda nesta mesma existência. Eu lhe devo esta vida, sim, Snape! Ela é sua! Em troca, quero o amor incondicional que tem por mim...

Snape fechou os olhos, para quando os abrisse tivesse a certeza de que aquilo era real. Ele realmente não esperava por aquilo, jamais alimentou a mínima esperança de que, algum dia, poderia ter uma vida em comum com Hermione. Obviamente que ele desejava isso, desejou por longos anos, mas entre utopia e realidade vai um abismo de distância.

Reabriu os olhos. E tudo ainda era como quando ele os fechou. Tudo era real, verdadeiro, palpável. Hermione o encarava com expectativa e ansiedade, demonstrando receio. Ela estava apenas alguns passos dele de distância. Venceu calmamente esta distância, envolvendo o rosto dela com ambas as mãos, e este gesto tão simples foi o suficiente para aliviar-lhe a tensão... aliviar a tensão deles dois.

Até ensaiou dizer algo, mas não encontrou palavras expressivas o suficiente para exprimir o que ele sentia naquele momento. Era quase igual ao que foi na viagem astral à plataforma, quase. A diferença era que lá era tudo mais intenso e mais fluídico. Ainda assim, o momento era sublime, embora as emoções e as palavras não fluíssem com a mesma liberdade.

Desistiu de tentar dizer algo. Nada parecia digno o suficiente para ser dito. Mas um único gesto valeria mais do que todas as palavras do dicionário.

Snape retribuiu as palavras de Hermione com beijos suaves e calmos, como se isso fosse comum entre eles ou como se não tivesse desejado isso por tantos anos. Beijou-lhe a fronte, descendo pela face até encontrar-lhe os lábios. O mundo parou aquele momento. Já não havia burburinho de pessoas e movimento; já não havia o vento que teimava em bagunçar roupas e cabelos; já não havia o cheiro enjoado de maresia nem as luzes artificiais que ofuscavam os olhos.

Hermione enlaçou os braços em torno do pescoço de Snape, que retribuiu abraçando-a pela cintura, aproximando-a de seu corpo, e o beijo antes singelo, tornou-se mais apaixonado.

Não apenas o mundo parou para eles, mas também o tempo. E como havia acontecido no Limbo, ambos vivenciaram uma fagulha do amor em sua essência, e naquele momento tiveram a certeza de que haviam de ficar juntos para sempre, que era algo tão certo e tão concreto.

Snape envolveu Hermione ainda mais forte em seus braços, descansando sua cabeça no ombro dela. Manteve seus olhos fechados, apenas sentindo e sorvendo o perfume que vinha dela, o rosto afundado nos cabelos encacheados.

—Eu ansiei por esse momento por muitos anos, mas jamais ousei esperar que isso fosse possível... e sinto que esse foi meu erro... erro de crer que eu não deveria sequer tentar...

Hermione, com a cabeça deitada ao peito de Snape, inspirou profundamente, demonstrando pesar. Realmente, se há dez anos isso que acontecia agora tivesse acontecido àquela época, tudo teria sido diferente, mas... o que tem que ser, será, de uma forma ou de outra, e quando as coisas decisivas de nossas vidas têm que acontecer, geralmente acontecem no momento mais propício a elas... será que ela teria reagido bem a uma investida de Snape? E por acaso havia tempo ou oportunidade para se pensar nisso?

Não.

—As coisas tendem a acontecer no momento e hora certos, é como se o destino conspirasse para isso... àquela época eu estava tão centrada no meu ego que não teria recebido bem nenhuma proposta que não fosse a de Harry. Meu egocentrismo me deixou burra e cega...

Ela se afastou um pouco de Snape, para poder olhá-lo diretamente. O semblante de ambos estava suave. Hermione sorriu com leveza:

—Eu quero deixar o passado para trás... quero que meus erros e meu egocentrismo permaneçam juntos com esse passado. Você não investiu em mim porque jamais dei qualquer abertura para sequer cogitar a possibilidade... a sua poção foi maravilhosa, Severus, me fez ver além das lembranças que deveria ver... foi como se num momento eu tivesse ficado cara-a-cara com o espelho de minhas ações e decisões. Me afastei e me tranquei, preocupada demais com minhas dores e perdas. Quantos não magoei com isso? Até mesmo meus melhores amigos eu repudiei! E se eu não estivesse tão desesperada de carência maternal, certamente que nem Minerva teria continuado na minha vida...

Snape a olhou em silêncio, avaliando o que via e ouvia. O passado não era recuperável, mas podia se aprender com ele. E o futuro era eterno e sempre em construção.

—Então, se me permite fazer o pedido com dez anos de atraso, Srta Granger...

Hermione sorriu um sorriso radiante. Snape segurou-lhe as mãos e levou-as até seus lábios, beijando-as; os olhos fechados apenas para permitir que os outros sentidos se tornassem mais intensos. Aninhou as pequenas mãos da moça entre as suas, descansando-as sobre o peito, sobre seu coração. Seus olhos se encontraram, e sorriu:

—Eu a amo, Hermione.. profundamente... e eu quero estar ao seu lado, quero que faça parte de minha vida... me permite isso, Srta Granger?

Hermione riu, não conseguindo conter algumas lágrimas de alegria. Com seu sorriso e aura radiantes, jogou-se aos braços de Snape, apertando-o num abraço de alegria e concessão.


Fim do capítulo 27 – continua.

Snake Eye's – Setembro de 2008.


N/A: Outro capítulo super curto. Não quero estragar o clima, então outras situações se desenrolarão nos próximos.

Às minhas queridas leitoras: o que tanto queriam! Cansei de faze-las sofrerem! E um pouco de amor no coração não faz mal a ninguém, não é?

Bjus com carinho, pra vcs tb ;)

Obrigado pela leitura!

Obrigado pelos reviews: Ju, Dinharj, Letih, Maristela, Bella Black Snape, Nini Snape, Fla Apocalipse, Evelinne, Heloisa, Naj. (To devendo resposta no orkut :)