CALEIDOSCÓPIO

Parte 29 – O Dragão-Serpente.


Draco se agarrava ao vaso sanitário, onde vomitava até as tripas. Estava ajoelhado ao chão, vivenciando aquilo que poderia ser considerado o último degrau da humilhação. O pior é que tais cenas se tornaram rotineiras e cada vez mais constantes... mas, era a primeira vez que ele vomitava sangue.

Quando seu corpo parou com os espasmos, soube que sua penitência havia terminado. Enfraquecido, agarra-se à pia encardida e com muito esforço consegue se erguer, parando vacilante, agarrando-se à borda como se sua vida dependesse disso. Abriu a torneira, encheu as mãos em concha de água e jogou em seu rosto e cabeça. A água refrescante e pura o fazia ter um sentimento dúbio: ao mesmo tempo em que se sentia limpo, sentia não merecer aquele pequeno alívio.

Há algum tempo já não havia um espelho sobre a pia, ficando apenas a marca escurecida que indicava que houve um ali por muito tempo. Ele não suportava ver aquela máscara de horror que havia se tornado seu rosto, não suportava mais enxergar a si mesmo. Não era ele. E para não ver aquilo que havia se tornado, arrancou a força o espelho do banheiro e o lançou pela janela, caindo e se espatifando no asfalto, numa queda de 18 andares. Fora sorte não haver absolutamente ninguém na calçada, ou mesmo passando próximo, senão ele não poderia mais estar nesse moquiço nojento que encontrou para morar.

A passos lentos, Draco foi até a sala, caindo pesado sobre uma cadeira quase tão debilitada quanto ele. A sua frente, também sentado à mesa redonda de madeira, estava o ex-lufano que assistira ao encontro de Snape e Hermione na noite anterior em Brighton. Benevolente, o rapaz despeja em uma caneca de cerâmica amarelada, café preto com muito açúcar e leite, empurrando-a para Draco.

Draco olhou com seu habitual desdém – aquilo que está enraizado não se arranca com facilidade.

— Onde conseguiu isso? – Perguntou, com a voz embargada, deixando transparecer seu pouco-caso.

— Onde mais? Numa loja de conveniência. Não está envenenado, beba sem receios. – O rapaz retirou um pacote de dentro de uma sacola de papel pardo, lançando sobre a mesa, em frente a Draco. — E coma isso também, tá carregado de glucose... você tá precisando.

Draco torceu a boca. O desdenho já lhe era um hábito condicionado. Simplesmente desembrulhou o pacotinho e arrancou um bom pedaço do pão doce, sem sequer um sinal de agradecimento. Já acostumado com os péssimos modos de Malfoy, o ex-lufano apenas acendeu um cigarro e começou a folhear o jornal, esperando que o 'amigo' estivesse bem recuperado para contar-lhe o que tinha a lhe contar.

O ex-lufano olhava furtivamente para Draco, vez ou outra. O ex-sonserino está cada vez mais apático. Ele sabia ser um porra-loca, mas sabia até onde seu corpo agüentava o tranco, mas, ao que via, Draco não estava dando muita importância a esse limite. Ele via o loiro fazer leves caretas ao engolir, principalmente o café. Não eram caretas de desdenho, mas de dor. Resolveu perguntar...

— Você ainda tem tomado seus medicamentos, Malfoy?

— Por que quer saber? Quem tem filho barbado é gato!

O rapaz riu. Tão típico de Malfoy se sentir ofendido com perguntas inocentes.

— Você parece sentir dor quando come...

Draco parou de mastigar, seus olhos cinzas vagaram pela mesa. Naquele momento ele parecia novamente o garotinho de seis anos desamparado que mostrou ser ao visitar o túmulo de Terry Boot.

— Meu estômago.. acho que ele não ta legal...

— Você precisa de remédios, Malfoy! Vá ao St Mungus. Garanto que ninguém irá reconhecê-lo.

— Não posso arriscar. Não vou passar mais anos de minha vida enclausurado num hospital! Você não tem idéia do tipo de coisas que se vê por lá... é assustador!

— Medo de fantasmas? Você ta brincando?!

Draco levantou-se da mesa, carregando consigo a caneca de café. Não deu importância à troça do colega.

— Isso mesmo, se quer saber! Eu via coisas que não conseguia entender, sentia coisas esquisitas, como se minhas energias fossem drenadas pelas entranhas! Não quero nem mais ver nem sentir isso num lugar onde eu não posso fugir! Nunca mais volto a um hospital!

— Ta certo... mas ainda assim você precisa de remédios. Por que não procura o Prof. Snape? Você sempre foi o queridinho dele! Duvido que ele lhe negaria ajuda...

Por uns instantes, Draco teve uma leve tremedeira e esforçou-se para não sucumbir a isso. Segurou a mão esquerda com força, onde estava a caneca. Sentiu como se nuvens negras se fechassem em torno dele.

— Aquele maldito... nunca foi nada além de um traidor falso e sujo! Um dissimulado! Ele não tinha afeição a ninguém! Era apenas um mentiroso!

— Iishi... – o Lufa-lufa soltou o ar entre os dentes, deitando o jornal sobre a mesa, cruzando as mãos em seguida e olhando matreiro para Draco — Creio ser a melhor definição que já ouvi de Snape! E vindo de você!? Você o venerava, Malfoy! Mudou de idéia tão fácil assim?!

Draco virou-se para o rapaz. Sua expressão era raivosa e havia um leve tremor em suas mãos, que ele mantinha fechadas em punho, com força.

— Ele é o principal culpado pela queda do Lorde! Ele sempre esteve do outro lado e usou a todos nós, a mim, aos meus pais! Se hoje estou nessa merda, é por culpa dele! Estive internado em St Mungus por seis anos e jamais – JAMAIS! – recebi uma visita sequer daquele maldito desgraçado! Ele, que tanto me protegia e tutelava em Hogwarts, jamais teve a mínima decência de saber como eu estava!

O rapaz se tornou muito sério. O que tinha para contar a Draco deixou de ter o cunho de diversão e novidade para tormar uma forma de açular uma vingança. No fim, ele não havia sido escolhido para a Lufa-lufa por engano, havia nele, ainda agora, um sentimento de piedade e companheirismo. No fundo, ele se compadecia de Draco Malfoy.

— Como falou, Malfoy, ele era um traidor... e continua ainda a ser. Como disse mesmo? Dissimulado, falso... eu o vi, há duas noites atrás.

Draco se virou curioso para o rapaz.

— Esteve com ele? Falou de mim pra ele?!

— Óbvio que não! Apenas o vi, por acaso. Estava no Píer de Brighton de bobeira, era de madrugada e, por incrível que pareça, ele estava lá... estava esperando alguém... um encontro romântico...

O loiro sorriu enviesado, só podia ser uma piada.

— Você está de troça comigo. Snape na praia? E num encontro romântico?! Você usou LSD dessa vez, foi?!

— Eu estava careta! Se eu estivesse legal, nem eu mesmo acreditaria nisso! Mas estava são, totalmente sóbrio! A não ser que a cerveja de Brighton tenha algum efeito alucinógeno!

— Devem ter colocado algo na sua bebida e você nem percebeu. Os trouxas são muito espertos pra isso!

O rapaz se levantou e mantinha sua expressão séria. Ficou cara a cara com Malfoy, que vacilou em seu desdenho ao ver que o colega não brincava.

— Eu sei o que vi! E também acho absurdo e não acreditaria se me contassem. Mas é verdadeiro. E muito mais absurdo ainda!

Vendo que Draco perdera totalmente o ar de sarcasmo e desdenho e o olhava confuso, o ex-lufano acrescentou:

— Snape tem um caso... com Hermione Granger, a namoradinha de Potter. Admito, Malfoy: parece conversa de 'cheirado'... mas-é-verdade!


Potter estava de pé ao centro de um círculo formado por uns vinte aurores, num pequeno auditório no Ministério da Magia. A sua volta, homens e mulheres de idades variadas, mas a maioria de jovens, alguns saídos há poucos anos de Hogwarts. Harry falava calmamente, porém com firmeza e autoridade, olhando lentamente para cada um de seus agentes.

— ...todos já têm o devido conhecimento da fisionomia de Draco Malfoy. Vocês se espalharão em grupos nos pontos onde provavelmente Malfoy estará essa noite, que, de acordo com as investigações, são três pontos que o suspeito costuma ir com freqüência. Está autorizado o uso de força e violência, se necessária, porém em último caso. Não temos acusações formalizadas contra Draco Malfoy, portanto capturem-no com vida. Se pressentirem dificuldades, peçam reforços, haverão agentes prontos e a disposição para esse evento... e, lembrem-se: Draco Malfoy é perigoso; ele está mentalmente desequilibrado e é dono de grande poder de magia! Não o subestimem! E todos aqueles que se oporem a vocês em defesa de Malfoy, deverão ser presos.

Harry andava vagarosamente pelo círculo, encarando cada um dos aurores enquanto dava as instruções.

— ...a tática de captura será a mesma que usamos: não é tolerável tentativas! A abordagem e captura deverá ser feita com plena certeza de que é o alvo certo e que ele está vulnerável a isso. Tentativas podem acabar em frustrações e erros, e perderemos nosso alvo e muito tempo para novas investigações. E vocês sabem: uma vez que o alvo tem a consciência de que é caçado, ele se torna uma presa muito mais difícil e arredia. Não podemos cometer erros! Não cometemos ainda hoje, não podemos deixar que isso aconteça justamente com Draco Malfoy!

O auror parou e olhou para seus subordinados, vendo que todos concordavam com suas instruções. — Dúvidas? Perguntas? – Viu que todos negavam, dando a entender que tinham plena consciência de seus deveres. Harry deu-se por satisfeito. Os outros aurores começaram a se dispersar e sair silenciosamente do auditório. Apenas o chefe das investigações, o mesmo rapaz que havia trazido o relatório para Harry anteriormente, ficou para trás.

— Senhor, devemos continuar a manter vigilância no Hospital Saint Mungus e na Mansão Malfoy?

— Evidentemente!

— E quanto às papeladas?

— Farei isso. Tratar da parte burocrática será quase tão difícil quanto à operação de captura. Não termos uma acusação formal contra Malfoy complica um pouco as coisas... e irei fazer uma breve visita a um velho amigo... tenho um pressentimento estranho quanto a ele...


Snape estava ativo em sua casa na Londres Muggle, juntando a papelada e alguns livros que levaria para Hogwarts, quando ouve um estardalhaço vindo do andar de baixo, como se uma ventania tivesse jogado coisas ao chão.

Imediatamente materializa a varinha em sua mão e, cauteloso, sai do escritório e vai até o hall da escada, ficando oculto pelas sombras do corredor. Da escada podia avistar parcialmente a sala e havia mesmo alguns objetos no chão, os que estavam sobre a mesa de centro. Snape aperta com mais força a varinha em sua mão e, pé-ante-pé, desce silenciosamente a escadaria, sempre atento e pronto para um ataque.

A medida em que desce, visualiza um clarão diferente em sua sala. Era um clarão prateado, como fosse a luz da lua, frio e denso. Quando chega ao último degrau, levanta sua varinha à altura dos olhos, pronto para lançar uma maldição.

Ouve uma respiração pesada e lenta e segue esse som e a claridade perolada, andando ainda muito devagar e cauteloso. Fica numa posição em que podia avistar toda a sua sala e poder se defender, se fosse preciso. Não havia ninguém em sua linha de visão, mas o rasto do clarão chamou sua atenção para o teto. Lentamente Snape subiu seu olhar e o que viu o deixou boquiaberto.

Um dragão-serpente de luz estava agarrado entre o teto e a parede. O belo animal parecia respirar e seus olhos eram vívidos, de um prateado luminoso. O patrono tomou impulso com as patas traseiras e, num rompante parte para cima de Snape, que não tem nenhuma reação além de dois passos para trás. O dragão-serpente voa entorno dele, formando uma espiral com seu corpo lânguido em volta do homem, até parar cara-a-cara com ele. O animal abre sua bocarra e uma voz que não tinha absolutamente nada a vez com o que o animal representava, falou-lhe, e Snape congelou ao reconhecer aquela voz:

Estou esperando o senhor onde jaz Terry Boot. Venha logo, porque meu tempo é curto!

Logo após transmitir a mensagem, o dragão-serpente se afasta bruscamente de Snape, evaporando no ar em milhares de fagulhas de poeira luminosa. Snape fica atônito, arfando nervoso, a varinha ainda riste e firme em sua mão.


Um tremor passa por ele ao tocarem a campainha de sua casa minutos depois. Sua mente estava embaralhada: não via Draco Malfoy há oito anos e jamais havia visto um patrono como aquele, que mais parecia um animal vivo. A campainha é acionada mais uma vez e só então Snape consegue pôr seu raciocínio em ordem. Aperta com força sua varinha e atende a porta com cautela. Era Potter.

— O que faz aqui? – Snape perguntou com rispidez.

Harry apenas ergueu as sobrancelhas, olhando enviesado para o homem. Seus olhos verdes perscrutavam a face de Snape. Harry havia adquirido muitas habilidades e mais poder em magia ao longo dos anos como auror, e a capacidade de esconder isso de outros.

— Vim apenas lhe informar que meus agentes encontraram Draco Malfoy e encontraram, também, evidências de que ele está por trás de ataques aos trouxas...

Por frações de segundos, Snape pareceu desconsertado diante da revelação de Harry. Sua mente ainda estava digerindo a visita do fabuloso patrono de Draco. Tentou disfarçar, mas Harry notou a hesitação do homem.

— Seus agentes e o senhor estão de parabéns, Potter! Suponho que vocês o prenderão e os ataques, finalmente, terminarão, estou certo?

Harry não iria passar recibo ao cinismo de Snape. Sentiu que ele fazia isso para proteger e esconder algo. Levou a mão ao ombro de Snape, dando-lhe três tapinhas como alguém que consola um amigo.

— Você entendeu o que eu quis dizer, Snape... apenas cuide-se...

O rapaz deu as costas a Snape, rumando para fora do jardim da casa. O Mestre de Poções ainda ficou observando Harry por alguns segundos, o cenho carregado de desconfiança e preocupação. Quando a porta de fechou com um baque, Harry parou e olhou por sobre o ombro, voltando-se em seguida para a mão que levou ao ombro de Snape; havia um pequeno ponto luminoso em sua palma. O rapaz sorriu em cumplicidade:

— Você esconde algo e eu descobrirei, Severus Snape...


O tempo havia se fechado, prenunciando uma tempestade. Nuvens escuras e densas se moviam com velocidade, estavam baixas, escurecendo o dia. Um vento frio soprava cada vez mais forte e ali, naquele cemitério que se localizava no alto de uma pequena colina, parecia que se preparava para arrancar as árvores e arbustos que amenizavam o espírito sombrio daquele lugar.

Draco estava sentado sobre o jazigo de mármore branco de Terry Boot. As pernas estavam penduradas, suas mãos cruzadas, e ele olhava distraidamente o horizonte fechado por nuvens pesadas. O vento forte sacudia seus andrajos e por pouco não sacudia o rapaz junto, tão magro e debilitado ele parecia estar.

Ouviu um leve estalo e só então despertou de sua distração. Com lentidão, Draco se virou para onde Snape aparatou. Não falou absolutamente nada; não piscou, não sorriu, não fez nenhum gesto... apenas o olhava.

Snape estava cauteloso. A varinha estava oculta sob a manga de seu sobretudo, pronta para ser usada. O vento se tornava cada vez mais forte. Deu dois passos adiantes e gritou para Draco, para que ele pudesse ouvi-lo através da ventania.

— Recebi o seu recado, Draco! O que você quer?

Draco sorriu: um sorriso franco, infantil, aberto, alegre. Voltou-se novamente para o horizonte e seu riso foi tomando força até virar gargalhada. Apoiou o corpo com as mãos espalmadas no mármore frio, ainda rindo para o céu e para o firmamento. Oito anos e era isso que ele ouvia?

Snape parecia furioso, sua varinha já estava firme em sua palma, mas ainda escondida sob a manga. Mas o homem não se atreveu a dizer outra coisa ou avançar até Draco. Esperou pacientemente que o rapaz recuperasse a sanidade.

Quando Draco cansou de rir, levou a mão ao rosto, enxugando algumas lágrimas que acabou vertendo pela risada calorosa. Saltou do jazigo, pondo as mãos na cadeira e despreguiçando-se para trás, fazendo alguns ossos se estalarem. O rapaz se afastou um pouco do túmulo e, meio sério, meio sorridente, voltou-se para Snape.

— Como você é sujo, Professor Snape! – Falou alto e estridente. — Traiçoeiro, dissimulado, egoísta... Você sempre esteve a par de tudo e deixou que nos afundássemos assim mesmo!

— Me chamou até aqui para me jogar algo na cara, Draco?! Acha que tem algum direito ou crédito para isso?

— E não tenho? – Draco, lentamente, andou na direção de Snape. Apesar de falar alto por causa do vento, sua voz era calma, jovial como a de um adolescente. — Você era como um pai para mim, em Hogwarts... alguém que me protegia e que deveria me orientar... mas, pelo visto, isso tudo fazia parte do esquema sórdido da traição planejada, não é mesmo?

Snape fechou ainda mais o cenho e sibilou em resposta: — Eu o protegi e o orientei, pois não queria que você fizesse parte das Trevas! Não o fiz porque isso era parte de nenhum plano! Fiz o que pude para impedir que você caísse nas garras do Círculo das Trevas! Mas, você, Draco, jamais teve força de caráter e mesmo apavorado com a idéia, seguiu tudo que seu pai lhe ordenou! Jamais se impôs a nada! Dumbledore podia protegê-lo e você desdenhou dessa proteção!

Draco se enfureceu. Baixou sua cabeça, trincando os dentes com força. E foi tudo muito rápido; Snape não era jovem e seus reflexos não eram equivalentes aos de Draco. O rapaz, em milésimos de segundos, sacou a varinha do cós das costas do jeans e disparou contra Snape.

— EXPELLIARMUS!

A varinha de Snape foi arrancada de sua mão enquanto ele era arremessado com força para trás, caindo sobre túmulos em covas, quebrando com o impacto de seu corpo um vaso de cerâmica e derrubando uma cruz tosca de cimento. Snape gemeu de dor quando um dos cacos perfurou suas costas na altura dos rins e o impacto com a cruz quase deslocou seu ombro. Com movimentos calmos, mas olhar ensandecido, Draco se aproximou do homem, com a varinha dele em uma mão e a sua própria apontada a ele.

— Você pode usar todos os argumentos que quiser, Snape! Pode falar e achar que tem toda a razão, mas somente eu sei o que passei naquela guerra e somente eu sei o que sofri durante estes últimos anos!

Snape tentou se levantar, apoiando-se no braço bom mas, sem varinha e machucado, ele era uma vítima fácil de dominar. Draco, com um floreio, fez Snape se erguer do chão, o transportando e jogando sobre o túmulo de Terry Boot. O impacto fez com que o caco de cerâmica se enterrasse mais um pouco em suas costas e o homem urrou de dor.

Com uma força que não condizia com seu corpo, Draco agarrou com uma mão o ombro machucado de Snape, pondo-o sentado no jazigo e encostando-o com violência contra a lápide, e o caco enterrado nas costas se quebrou, rasgando a carne de Snape.

Cordas surgiram da varinha de Draco e enrolaram entorno de Snape, prendendo-o à lápide. O ombro machucado latejou quando o braço foi pressionado pela corda e começava a se formar uma pocinha de sangue do lado esquerdo de Snape.

— Não vou me desgastar para dizer o que você é, Snape! Basta que você saiba que é um traiçoeiro e tudo que essa expressão representa! Você está sentado encima de Terry Boot, e ele foi muito menos traiçoeiro e muito mais bondoso que você, e mesmo assim está aí, enterrado! Mas eu não o matarei, professor... não rápido e sem sofrimento...

Snape tentou argumentar: — Draco, você está equivocado! Eu fiz tudo que pude por você! Mas voc...

Draco acertou um soco no queixo de Snape, fazendo-o calar de imediato. Um filete de sangue desceu de onde o rapaz havia acertado.

— NÃO OUSE ME CULPAR POR MINHA PRÓPRIA DESGRAÇA! EU SEMPRE FUI O QUE FUI E JAMAIS TRAÍ OU ENGANEI! SEMPRE FUI LEAL A MINHA CONSCIÊNCIA E A TODOS QUE ESTIVERAM AO MEU LADO!

O rapaz, enraivecido, afastou-se de Snape, apontando-lhe a varinha, com ódio nos olhos cinzentos.

— Você! Você sempre foi um canalha mentiroso! Sempre foi dissimulado! Você sempre esculachou a Granger nas suas aulas e agora transa com ela! Ela é uma sangue-ruim, uma cadela indigna! Mas, você é ainda pior que isso, MUITO PIOR!

Faíscas estouraram da varinha de Draco, acertando Snape em cheio e abrindo rasgos profundos onde havia acertado.


Harry se ocupava de enviar comunicados aos membros da Ordem da Fênix, marcando uma reunião extraordinária para aquela noite, quando sentiu uma comichão na palma de sua mão esquerda. Largou o que estava fazendo e espalmou sua mão para si mesmo e um minúsculo ponto de luz piscava freneticamente, mudando de branco para verde e então vermelho.

— Snape em perigo de morte? Isso eu não esperava!

O rapaz apontou a varinha para o ponto de luz em sua palma e o ponto inchou até atingir a forma de uma esfera de vidro do tamanho de uma bola de tênis. Ainda apontando a varinha para a esfera, a imagem de um cemitério se formou, um pouco embaçada – era a visão de Snape, do lugar onde estava. Harry sentiu o sangue gelar, pois a imagem se esmaecia e desfocalizava, indicando que o mesmo acontecia à mente de Snape. Desesperado, Harry força uma visão mais nítida, mas tudo que consegue é ver fleches de túmulos e um céu tempestuoso que se fundia ao firmamento.

Vasculhando em desespero sua própria mente e memória, Harry procurava se lembrar de onde devia ser aquele cemitério. Tornou a forçar a visão da esfera, vasculhando o pequeno raio de visualização que ela lhe proporcionava, fixando sua atenção aos túmulos; muito ao fundo, já desfocado, visualizou algo que lhe lembrava uma cruz; o céu e firmamento muito próximos sugeria ser ali uma elevação... e a lembrança se iluminou em sua mente.

Era um cemitério muggle; o mesmo cemitério onde Terry Boot havia sido sepultado.


Fim do capítulo 29 – continua.

Snake Eye's – Outubro de 2008.


N/A: Estamos, realmente, na etapa final desta fic que vem se arrastando desde 2004. Foi a primeira fic que comecei a escrever e quase que será a última a terminar. Snake tem sido mto generoso em estar por aqui para terminar essas coisas e ainda brincar com outras :)

De repente tive uma súbita simpatia pelo Draco desta fic. Acho que acabei de encará-lo como uma vítima das circuntâncias e vou permitir que ele se desabafe rss

Mto obrigado, de novo e sempre, pela leitura!

E obrigado pelos reviews:steh.-.Prince 8D - Maristela - Sophi s2 - Thayz Phoenix - Dinharj - Letih - Drika - Renata Gomes - Karen Drake - cidinha ;)

Estou devendo resposta a vcs lá no orkut, então podem (e devem!) fazer a cobrança - me mande um scrap de ameaça XD

Só esclarecendo uma coisinha básica à Thayz: Snape TB ESTÁ em Animago Mortis - e numa participação mto boa ;)