CALEIDOSCÓPIO

Parte 31 – Ventura


Harry aparatou num vão entre a parede de um prédio e uma cabine de telefone. Havia movimento e agitação demais àquela hora da tarde para que alguém pudesse perceber que um cara de cabelos espetados havia se materializado quase ao lado dele.

O rapaz saiu do canto, andando afobado pela calçada, olhando para o alto dos prédios a fim de descobrir quais daqueles eram o tal England Center que Hermione trabalhava. Conhecia o centro londrino muggle, mas o evitava sempre; não gostava desse tumulto frenético com pessoas agindo como se o mundo terminasse no dia seguinte.

Finalmente avistou o edifício de nome England Center: era um prédio de mais de vinte andares em arquitetura pós-moderna e o nome escrito em caracteres de alumínio sobre o portal de vidro. Harry se aproximou para entrar, mas a porta já estava trancada. Certamente, àquela hora, apenas se podia sair lá de dentro e ninguém mais entrava. Mas ele não tinha tempo para chamar o segurança e argumentar algo e simplesmente desaparatou, aparatando no hall do edifício, crendo que não havia mais ninguém por ali.

Ouviu o estrondo de algo que caía no chão e um grito estrangulado. Virou-se para onde vinha todo aquele barulho e viu dois homens de uniformes de segurança patrimonial: um estava completamente apavorado, tão prensado à parede que parecia querer entrar estrutura adentro; o outro, mesmo que trêmulo, se mostrava um pouco mais corajoso e saia detrás do balcão, indo em direção a Harry.

Harry deixou sua varinha a mão, prevendo que algo desagradável estava por acontecer. O segurança sacou a arma e apontou pra ele, gaguejando ordens e tremendo.

— N-não-o sei-ei o q-que é ee co-mo f-fez isso, m-mas quero q-que d-deite no chã-o e fiq-que qui-ieto!

Harry fingia suspender as mãos, para mostrar que estava desarmado, mas quando a sua mão da varinha chegou a altura dos dois seguranças, raios vermelhos foram disparados contra eles. Os seguranças foram instantaneamente nocauteados.

O rapaz correu até o gabinete dos seguranças, certificando-se de que não havia mais nenhum ali naquele momento. Ele precisava encontrar Hermione pra saber se ela estava mesmo bem, de que a vinda de Draco para ali era apenas um alarme falso. Mas como faria isso?! Talvez houvesse uma ficha de todos que trabalhavam naquele edifício. Correu as mãos por sobre a mesa do segurança, remexendo pastas e papeis; Sua segunda opção seria buscar no computador tal ficha. Quando ergueu a cabeça e olhou a parede recoberta de monitores de vigilância, uma movimentação diferente em um deles lhe chamou a atenção; como já era tarde e o edifício estava praticamente deserto, todas os monitores mostravam imagens virtualmente estáticas, apenas ocorria a constante mudança de câmera por monitor, mas em um deles ele teve a impressão de ter visto alguém correndo.

Harry se aproximou do monitor que indicava pertencer à câmera do nível G1... mas o que seria G1? Ficou esperando para ver se havia mais alguma movimentação, e a tela mudou de câmera, mostrando outros pontos desse tal G1 e viu um ou outro carro estacionado... obvio! G1 era a garagem 1 do edifício.

Enquanto a imagem do monitor era trocado a intervalos, Harry estudou os outros monitores subseqüentes: G2, G3, G4 e G5... o edifício possuía cinco níveis de garagens, provavelmente subterrâneas. Mas nessas outras não havia movimentação significativa; na G3 ele avistou um homem que andava tranqüilamente até um carro; na G2 um carro em movimento que subia a rampa de acesso. Aquilo não o levaria a lugar algum e só o fazia perder tempo. Iria, então, acordar um dos seguranças e perguntar diretamente por Hermione, talvez ele a conhecesse e lhe indicasse o andar em que trabalhava.

Quando ia dando às costas aos monitores, novamente uma movimentação rápida chamou sua atenção e era do monitor G1. Harry se voltou, em expectativa e viu: uma silhueta de mulher que corria de uma pilastra para outra, como se estivesse se escondendo.

A imagem mudou, mostrando o ângulo de outra câmera. Harry soltou um palavrão entredentes, procurando pela mesa de controle o botão que controlava as câmeras do G1. Não foi difícil encontrar, pois os botões seguiam a mesma ordem de seqüência dos monitores. E começou a gira-lo, mostrando imagens de cada uma das câmeras daquele nível. Finalmente encontrou a mulher que vira antes, e deixou escapar um sorriso involuntário. Ela corria da lateral de um carro para a uma pilastra, e ela estava mesmo se escondendo de algo ou alguém! A imagem mostrava em infravermelho devido à penumbra da garagem, mas o corpo lânguido e os cabelos lanosos de Hermione eram inconfundíveis! Harry puxou sua varinha e conjurou seu patrono. O onipotente cervo de luz surgiu diante dele, apenas esperando as ordens:

— Vá à Sede dos Aurores, no Ministério da Magia, e transmita minhas ordens...


— Granger, Granger... serei legal com você e te darei uma chance... pode correr, se esconder, e eu prometo não usar meu Patrono Maximu... e, aí, gostou dele? Eu aperfeiçoei o feitiço patrono! O meu animalzinho espiritual agora é muito mais interessante...!

Hermione, que havia se escondido na escuridão atrás de uma grossa pilastra, sentiu o sangue gelar, não apenas por saber que Draco já estava ali em seu encalço, mas por saber que a capacidade de magia dele havia aumentado a ponto de ele ser capaz de modificar um feitiço já existente.

Ela reparou perfeitamente bem no Dragão-serpente, o patrono de Draco. Em outras circunstâncias, teria achado aquilo fabuloso, mas nestas circunstâncias em que estava, era extremamente assustador! O patrono parecia um ser vivo e pensante! E tinha a capacidade de encontrar pessoas e voltar para comunicar isso ao seu amo! Ela não tinha a mais mínima, remota chance de sobreviver a Draco se ele usasse novamente seu patrono e, então, era apenas uma questão de humor ele decidir conjurá-lo novamente para encontrá-la para ele!

Censurou-se por sua fraqueza que começava a se mostrar. Sentiu um leve tremor pelo corpo, do qual fez o enorme esforço para suprimir. Ela estava desarmada e não tinha sequer como pedir ajudar. Sua única chance era tentar sair dali antes que Draco a encontrasse!

De onde estava, ainda podia ver algo do rapaz sem ser vista por ele. A claridade que vinha da rampa de acesso iluminada a auxiliava a enxergar Draco (que estava contra-luz) e saber para onde correr e se ocultar nas sombras densas. A única chance que tinha era ir em direção a Draco, mas teria que esperar ele sair dali. Se ela tivesse tido um pouco mais de tempo, teria alcançado a rampa, mas Draco aparatou bem no caminho. Recuar também era uma opção, voltar para a escadaria de emergência, mas ele poderia vê-la, não havia obstáculos no caminho e nem era tão escuro.

Apesar de ter-se machucado, fora uma sorte que tenha se livrado de seus sapatos. Com os pés protegidos apenas pela fina meia-calça, Hermione podia se locomover silenciosamente. Acalmou-se e analisou o que tinha a sua frente: antes de chegar até a escadaria, havia uns três ou quatro carros guardados ali, provavelmente de funcionários do mesmo escritório. Já eram quase sete da tarde e, talvez, a qualquer momento, esses funcionários descessem ali e a presença deles poderia espantar Draco... mas, confiar nessa hipótese era certo?

Espiou pelo canto da pilastra para ver se Draco ainda estava ali. De certo estava e fazendo algo estranho para alguém que quer capturar outro alguém: estava com a varinha apontada acima da cabeça, iluminando em seu entorno, olhando – parecendo admirado! – para os detalhes da garagem. Ele sabia mesmo o que estava fazendo?

Hermione viu que era um bom momento para tentar alcançar um dos carros e ver se algum deles estava destrancado. Era uma chance ainda melhor e mais rápida de sair dali. Se não desse certo, haveria ainda a escadaria.

Foi andando calmamente, temendo fazer algum barulho mínimo que denunciasse sua posição. Foi seguindo a escuridão, ocultando-se nela e, mesmo quando Draco tornou a falar, conteve seu impulso de correr e se desesperar.

— Devo confessar que os trouxas me impressionam às vezes, Granger... Vou ser sincero! Não entendo como conseguem fazer milhares de toneladas se sustentarem somente com algumas pilastras e sem nenhum uso de magia! Até eles têm seus méritos! Mas não pense você, Granger, que eu, com isso, posso me tornar um amante de trouxas... como seu amiguinho Terry Boot... lembra?

Hermione congelou, estancando no ato. O que Draco sabia de Terry Boot? Passado o instante da surpresa, a moça tornou a andar, alcançando o primeiro carro estacionado a sua frente, jogando-se ao lado dele, ficando completamente oculta.

Os passos de Draco eram mansos, sem pressa, quase não faziam barulho: — Ele era um bom sujeito.. o Dr Boot! Mas um traidor do sangue, uma desgraça! Sabia que foi ele quem me tirou daquele hospital nojento, Granger? Pois é! Ele, com seus tratamentos alternativos, me ajudou a sair de lá! Eu gostava dele, mesmo! Mas descobri que ele também tratava de trouxas no hospital de trouxas... e também descobri que ele puxava uma asa pro seu lado...

Draco parou, como que para saborear suas próprias palavras, imaginando a reação de Hermione. Havia um sorriso sarcástico em seu rosto e seus olhos estavam belos e frios como aço: — Eu não pude lhe perdoar essa falta absurda! Mas.. eu lhe confesso, Granger – não que você mereça saber, claro! – me arrependo de ter matado ele. Ele não merecia isso, não mesmo!

Hermione levou as mãos fortemente à boca, contendo um grito de dor e frustração. Mas não pode conter as lágrimas. Curvou-se sobre si mesma, e seus soluços silenciosos agitavam com força seu corpo. Draco havia matado Terry apenas porque ele se envolveu com trouxas e com ela! A que nível a mais Draco desceria em sua intolerância e crueldade?!

Controlando-se, a moça enxugou grosseiramente o rosto, e levou a mão à maçaneta da porta do carro, para tentar abri-la. Ela só poderia tentar na porta daquele lado do carro, pois do outro lado corria o risco de ser vista por Draco. A porta estava trancada. Tentou do carro ao lado, encontrando-a também trancada. Não se deixou abater. Engatinhando, deu a volta ao carro, ainda oculta pela densa sombra, e tentou a outra porta. Estancou no movimento quando o ambiente foi tomado por um estrondo de metal que reverberou medonhamente por toda a garagem.

Draco havia virado um latão de óleo vazio, que devia ser usado como lixeira pelos funcionários da limpeza. Virou-o de ponta cabeça e se empoleirou sentado no fundo. Sentia-se inspirado. Afinal, bem ou mal estava na presença de alguém que fez parte de seu passado, que o conheceu em sua época áurea.

— Já que vou te matar mesmo, Granger, vou te dar um presente de despedida... Você que sempre gostou de saber tudo, vai gostar de saber o quanto estive presente em sua vida sem que soubesse...

Hermione tentou de todas as formas ignorar o que Draco dizia, mas a sua curiosidade era maior que seu extinto de sobrevivência que a obrigava a tentar uma fuga. Parou tensa como um fio retesado e, imóvel e quase sem respirar, prestou toda sua atenção ao rapaz.

— Vou começar de um fato bem recente.. fresquinho mesmo! Snape! É! O Professor Snape! O tirano-sádico-seboso, o que lhe sempre foi um injusto e sacana! Ele mesmo, Granger! Sei que agora a coisa é diferente.. beeeem diferente! E sabendo disso... BANG! – Draco riu calorosamente, como uma criança. — Fui dar um jeito nele! A essa hora ele deve ta sequinho encima do túmulo do Dr Boot! Éee! Usei a Septumsempra contra ele! Fiz ele sangrar até morrer!

A moça desabou numa súbita fraqueza. Não podia acreditar no que Draco dizia, tinha que ser mentira aquilo! Ele não poderia ter matado Snape, não poderia! Mas, intimamente, sabia que ele era bem capaz disso. Recostou-se no carro ao lado, as lágrimas fluido abundantes e ela sem nenhum força para reagir. Draco dava chutes com o calcanhar no latão e o som reverberava terrivelmente. E ele continuou...

— Eu fiz sim, eu sei que não tá acreditando, mas fiz! Fiz muitas outras coisas! Coisas que nem você, com sua genialidade, conseguiria fazer! Sabe a Crucius Kedrava? Sabe, claro que sabe! Sabe até melhor que eu!

Hermione, mesmo trêmula e fraca, arrastou-se para o outro lado do carro, a fim de tentar abrir a porta. Não queria mais ter que ouvir nada de Draco, mas era impossível. O eco do local fazia a voz dele se potencializar.

— ... É incrível como tenha sobrevivido a ela, Granger! Será que eu vacilei um instante? Talvez, talvez.. Você me pegou de surpresa e eu quase não acreditei que era você, sabe? – Hermione parou novamente, surpresa e assustada demais com a revelação. — É isso aí que deve ta mesmo pensando, Granger! Fui eu! Fui eu que criei a Crucius Kedrava! E fui eu que a amaldiçoei aquele dia na City!

Hermione, com raiva de si mesma, chacoalhou sua cabeça, tentando fazer seu cérebro funcionar direito. Precisava sair dali e não ficar ouvindo as historias de Draco. Era um baque saber que fora ele que a atacara aquele dia, mas não era tão surpreendente assim. Engatinhou até a porta do terceiro carro e, frustrada, verifica que aquela também estava trancada. Restava apenas um e se esse também estivesse trancado, deveria se arriscar a correr até as escadarias, o que não poderia fazer é permanecer ali por mais tempo.

Draco continuou seu relato: — Agora, vamos voltar ao tempo... um.. que tal em 6 de fevereiro, há oito anos atrás? – Definitivamente, a coisa pegou Hermione de surpresa. Há oito anos atrás, em seis de fevereiro, seus pais tinham sido assassinados em casa por um Comensal, que jamais fora encontrado. — Haa-há-há! Sei que a data é importante pra você! Vou te falar, Grange! Nesse dia era pra você ter morrido, mas... só pude matar o papai e a mamãe Granger! Mas fiz eles sofrerem por você também, sangue-ruim! Torturei-os até a morte, por eles a terem posto no mundo!

Desta vez Hermione se desequilibrou por causa do impacto da revelação de Draco, e caiu de costa contra a lateral do carro, batendo com força. A pancada foi o suficiente para disparar o alarme de segurança do automóvel. Draco, assustando-se, pula do latão, fazendo-o cair e o som abafado e potencializado pelo eco se juntou ao barulho ensurdecedor do alarme. O rapaz caminhou apressado com a varinha em riste na mão, na direção do barulho, embora com o eco essa direção não estivesse clara.

Hermione levantou-se e correu e sua silhueta foi avistada pela claridade. Correu até a próxima pilastra, apenas alguns metros da escadaria. Jogou suas costas contra o concreto, respirando dolorosamente, sem saber o que conter em si e sem saber qual dor mais lhe doía.

Draco Malfoy era o responsável por todas as desgraças que lhe padeceram por oito anos. A morte dos pais. Seu rompimento com o Mundo Mágico. A perda de seus amigos. A subvida que levava. O ataque que quase a matou. A morte de Terry Boot. E a morte de Snape, que fora sua chance de reconciliação com a vida e o Mundo Mágico.

E era, agora, apenas uma questão de tempo para também morrer pelas mãos de Draco. De finalmente morrer por suas mãos! Se ele a tivesse matado desde o início, seus pais, Terry Boot e Severus Snape ainda estariam vivos!

Ela morreria ali, pelas mãos dele, com oito anos de atraso. Mas não se entregaria. Não iria para o matadouro como uma rês humilde. Ela tentaria, ao menos, fazer um estrago qualquer em Draco, o atacaria como fosse uma muggle... A muggle que era, desde o princípio.


Draco estava nervoso, estressado. O barulho ensurdecedor e irritante do alarme o estava deixando louco. Percebeu que o barulho vinha da direção dos automóveis, de certo fosse alguma tentativa desesperada e patética da sangue-ruim de assusta-lo. Apontou a varinha para a direção e gritou furioso um feitiço, que estourou toda a lateral do carro, que começou a incendiar, mas o barulho não sessou.

— Maldita sangue-ruim! Isso é o máximo que consegue fazer?! Eu explodirei todo esse lugar e farei o mesmo com você quando a encontrar!

O bruxo conjurou seu patrono e o Dragão-serpente surgiu em volta dele.

Hermione encontrou um pedaço de uma barra de ferro, recostada ao canto da parede logo a sua frente, junto a uma pilha de outros entulhos. Foi até ela e a segurou firme em sua mão. Não era muito grande e poderia ficar escondida por seu braço.

Quando pegou e escondeu a barra, o Dragão-serpente apareceu disparando contra ela como fosse uma flecha, e a envolveu. A situação era de extremo perigo, ela poderia vir a morrer em poucos minutos, o barulho do alarme não sessava e o cheiro, fumaça e calor pelo automóvel incendiado já se tornava insurpotavel, mas ainda assim sentiu-se facinada pelo animal espiritual de Draco: o Dragão a envolveu, parando frente a ela e lhe encarando com aqueles olhos vívidos e cinzentos, como os olhos de seu amo. Havia algo de paz e sossego vindo daquele patrono, e não teve medo algum... era como se houvesse compreendido que seu fim havia chegado e era inútil e desnecessário lutar contra isso.

E Draco apareceu, instantes depois, parando frente à Hermione. Lentamente, o Dragão-serpente começou a se esfumaçar numa neblina luminosa. Conforme o patrono ia se desvanecendo e a imagem de Draco ficava mais nítida, Hermione saia do torpor que mergulhou quando envolvida pelo Dragão. O bruxo não estava longe, em poucos passos largos, ela o alcançaria e poderia lhe cravar aquela barra de ferro e se preparou para isso ao mesmo instante em que Draco se preparou para matá-la, erguendo sua varinha e esta se iluminando.

Quanto tempo teria? Talvez um segundo. E a esse um segundo daria a sua resistência, mesmo que não conseguisse nada com isso, mesmo que desse em nada, apenas para que não levasse ao Limbo o remorso de ter morrido sem lutar por sua vida, vida esta que outros morreram para que ela vivesse!

1 segundo...

O tempo é relativo.


Branco, ofuscante, embaçado. Silêncio que permanecia, mas que dava passagem aos sons confusos e abafados que vinham de longe e chegavam gradativamente. Os sons confusos ao longe, mas, quando próximos, se tornavam distintos: vozes que falavam, passos, atritos em metal, em pedra, em madeira.

Um impulso instintivo e os dedos de suas mãos se contraem. Tão lento, quase irreal, como se não fizesse isso há anos. E teria se passado anos desde a última vez em que movimentou os próprios dedos? Pois que sentia-se como alguém que retornava a sua antiga morada, depois de tanto tempo longe: era-lhe familiar, fazia parte de sua vida, mas ainda se sentia um estranho em meio ao que lhe pertencia, lhe fazia parte.

Girou a cabeça lentamente e a vista, turva, ganhava nitidez. Havia um criado mudo branco e sobre ele um jarro de cristal com flores de multi formas e cores. E novamente o impulso instintivo, desta vez enviando a descarga elétrica para todas as células, movimentando todos os músculos.

Hermione levantou-se, apoiando-se nos cotovelos, e esse ato foi muito mais fácil que o primeiro, ao movimentar os dedos das mãos. Talvez agora ela soubesse, estive ciente, de que estava de volta à velha morada e que esta era sua, de fato!

— Uma enfermaria... Estou novamente no hospital?

Como quem já está mais que familiarizado com a situação, Hermione localizou o botão de chamada ao lado de seu leito e o apertou. Não se sentia mal ou sentia dores, mas algo grave lhe aconteceu para ela estar deitada numa cama de hospital.

Em instantes, uma jovem em roupas de cor verde-água entra no pequeno quarto, sorrindo-lhe: — Bom dia, Hermone Grange! Como se sente?

Hermione estranhou a felicidade da enfermeira, que mais parecia uma colegial de tão jovem, mas respondeu com a voz embargada e vacilante: — Eu.. eu não sei, ao certo... não me sinto mal, não sinto dores... e não entendo o porque de estar aqui, o que é pior.

A enfermeira riu: — Não foi nada grave, você apenas sofreu um feitiço que foi rebatido... um feitiço atordoante de alto impacto, claro, mas nada que a tenha causado qualquer dano além de tê-la feito dormir por longas doze horas. Você está bem, de fato!

— Um feitiço? Rebatido? Então... – Hermione fechou-se em conjeturas, buscando em sua memória os acontecimentos de doze horas atrás... tinha em mente a imagem de 1 segundo, mas que esse 1 segundo, agora, tornou-se 12 horas... o tempo é mesmo relativo.


Hermione jogou a mão com a barra de ferro para trás de suas costas a fim de buscar força de impacto no impulso, e correu em direção a Draco que lhe apontava a varinha com feixes de luz verde brotando de sua ponta. Foi como se o tempo e o espaço houvessem congelado: tudo se tornou lento, denso, nítido, definido. A sua frente apenas via Draco Malfoy em todos seus detalhes: suas roupas andrajosas; seus olhos cinzentos e insanos; a forma peculiar como empunhava a varinha; as faíscas verdes e belas que se formavam e giravam.

Mas, aquela calma, aquela tranqüilidade, aquela certeza sofreu um baque violento de uma força que pressionava a ponto de sugar todo o oxigênio do lugar, como se sugasse as formas, as sombras, e a matéria se tornasse energia, e as sombras fossem arrebatadas pela luz, o negro engolido por um vácuo de luz.

No instante em que Draco e Hermione quase se chocavam (ela a tentar cravar-lhe no peito uma barra de ferro; ele a matá-la com a maldição extrema), um enorme escudo baço surgiu entre eles, repelindo-os. Hermione se chocou e foi empurrada pela força contrária; o feitiço de Draco de iluminou e colidiu com o escudo, que resistiu por um tempo, mas foi subjugado pela Kedavra que o rompeu e se perdeu ao fundo escuro da garagem.

Harry estava ali. Ele havia chegado, sabe-se Deus como e por que, mas estava ali, com a varinha em riste, conjurando feitiços de proteção, acompanhado por um círculo compondo outros seis ou mais aurores.

E novamente a luz cegante, estampidos, ecos, e a surdez, e a cegueira, e a inconsciência.


E novamente ali, à claridade e brancura asséptica, de volta ao hospital.

Hermione ergeu o rosto, olhando cegamente para a enfermeira que mantinha um semblante risonho. Não a via, de fato. Apenas digeria a sua realidade. Ela está viva. Sobreviveu a Draco. Não o feriu, mas ele tampouco o fez a ela. Mais uma vez ela sobreviveu. Mais uma vez subjugou a morte, embora jamais tivesse a arrogância e pretensão de fazê-lo. Estava ali e isso era indiscutível.

Deprimiu-se. Ela estava viva, mas outros não. Draco os matara, a todos eles. Matou-os com suas mãos. Outros tantos devem ter padecido indiretamente, isso não sabia, porém podia supor. E como ela iria recomeçar agora, sem Snape?!

— Avisarei que está acordada, Hermione. Há pessoas ansiosas por vê-la. – A enfermeira sorridente girou em seus calcanhares e saiu do quarto, ignorando uma Hermione depressiva e perdida em si mesma.

Sozinha novamente no quarto hospitalar, Hermione sentiu um peso terrível se abater sobre si. A pressão no peito de algo que se avolumava e se represava, a mesma sensação que costumava sentir até alguns meses atrás: angústia não externada. A situação, a realidade se repetia: era tão imensamente dolorosa que não havia como externar aquilo; lágrimas era algo demasiado pequeno para a grandiosidade de sua dor, de sua perda.. Nova perda... Não havia lágrimas para lavar sua dor.

Hermione escondeu o rosto nas palmas das mãos. Não queria ver mais nada, nem pensar mais nada. Tinha medo de deixar nítido o desejo que se ardia dentro dela, o desejo de que ela não mais vivesse. Mas outros morreram por ela e desejar que ela lhes seguisse o mesmo destino era algo asqueroso por ser mesquinho, covarde, egoísta... Então não queria mais pensar, raciocinar, ver, ouvir, para não se deparar com sua mesquinhez, com o egoísmo de querer que sua vida também se extinga, vida esta que outros lutaram para mantê-la.

Ignorou solenemente os passos que ouvia entrar em seu quarto. Não importa quem era e o que queria ali. Naquele momento ela queria ficar recolhida em suas trevas, escondida num lugar que pudesse hibernar seus sentidos e seus pensamentos.

Mãos afetuosas lhe seguraram os braços, forçando-a levantar a cabeça, mas ela não queria nem ver nem ouvir nem pensar e, como fosse uma criancinha pirracenta, pôs toda a sua força para impedir que suas mãos lhe fossem afastadas e sua cabeça erguida. Mas uma voz igualmente afetuosa, grave e baixa lhe pediu que cedesse...

— Hermione... Acabou... Está tudo bem agora...

Não acreditou de imadiato... como poderia acreditar? Talvez estivesse confusa e ouvindo errado, por isso não queria mais ouvir, nem raciocinar. Mas foram apenas alguns segundos de hesitação. Constatar a realidade, ver que ela não era terrível como pensava, era muito mais importante. Hermione abriu os olhos e se deparou com um par de mãos e braços alvos e marcados com cicatrizes de cortes, mãos que ainda seguranvam seus próprios braços com carinho. A constatação era de vital importância e subiu o rosto até encontrar aquele mesmo rosto que pensava nunca mais encontrar. A sua dor era menor, agora, porque havia uma perda a menos.

Snape tinha a fisionomia triste, preocupado com a pessoa a sua frente. Os cabelos longos caiam sobre os ombros e ocultavam parte dos cortes no pescoço e no rosto. — Está tudo bem agora, Hermione... – repetiu, talvez mais para si mesmo do que para ela.

Subiu suas mãos e envolveu-as no rosto de Hermione. Vê-la novamente com vida e bem era uma dádiva. Não suportaria essa perda porque não suportaria sua impotência de tê-la evitado... Mas estava tudo bem agora. Ambos estavam bem: vivos e juntos.

Beijou-a na testa, com ternura. Ela apenas retribuiu num abraço apertado, forte, firme, de quem recupera aquilo que pensava ter perdido. Tudo estava bem. Ela agora estava ali viva, segura em seus braços e ambos estavam, definitivamente, juntos.


Fim do capítulo 31 – continua.

Snake Eye's – Outubro de 2008.


N/A: PENÚLTIMO capítulo de Caleidoscópio. Tripliquem os reviews, senão nada de último capítulo tão cedo!

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Fui persuasivo? Espero que sim.

Obrigado pelos reviews pelo último cap: Thayz Phoenix - Marina Angela - Renata Gomes (sempre por aqui :) - Dinha (iden :) - Alininha (minha filhota) - Maristela - Juliana - Nicolle Evans (bem vinda!).

Obrigado atrasado à Selen Veane e Cidinha Potzik.