(Duo POV)

Humilhado, fraco e dolorido, é assim que me sinto, mas eu já deveria saber, desde o começo que meus pais me venderam eu já deveria saber que seria assim, "É o melhor para você meu filho", eles disseram antes de ser vendido, melhor?Como isso pode ser melhor?Eu sinceramente preferia ter morrido de fome!
Virei-me na cama, tentando virar de costas, mas senti uma fisgada em meu corpo quando me mexi, acho melhor eu ficar parado, agora que notei que estou desamarrado, uma coisa boa pelo menos, aquelas cordas estavam muito apertadas e me machucavam.
Olhei para a parede, perdido em pensamentos, me lembrando como eu havia parado num lugar como esse.

FLASBACK

Minha família eram, Roberto, meu pai, um homem nos seus 43 anos, musculoso, alto, cabelos castanhos curtos e olhos verdes, Glória, minha mãe, com seus 36 anos, loira, magra, baixinha, pele branca e olhos azuis, Jacó, meu irmão caçula, ele tinha 4 aninhos da ultima vez que o vi, ele parecia uma miniatura de papai, olhos verdes, cabelos castanhos curtos, e ele era meio tímido também e finalmente meu irmão Nick, ele é meu irmão caçula também, eu tenho 17 e ele 16, ele puxou mais a mamãe, loiro, olhos azuis, pele clarinha, e mesmo ele sendo um ano mais novo, ele era muito mais forte que eu, e em vez dele levar uma surra de mim, eu é que levava, nunca me dei bem com meu irmão,até hoje não sei por que,ele nunca gostou de mim, acho que é ciúmes, pois papai e mamãe, dentre nós três gostam mais de mim, então ele sentia muita raiva, todo dia me batia,me xingava,e fazia de tudo para que eu me desse mal.
Morávamos num dos bairros mais pobre da cidade, em uma casa feita de madeira, com dois quartos, um banheiro e uma cozinha, nossa casa era minúscula, mamãe, papai e Jacó dormiam em um quarto, enquanto que eu tinha que dividir o outro com Nick, papai acabara de ser demitido, ele era assistente do dono de uma fabrica de computadores, ele não ganhava muito dinheiro, por isso ele às vezes roubava pesas de computadores para vender, até que um dia o chefe descobriu e o demitiu, nós ficamos desesperados, nenhum de nós havia feito escola, nem a primeira série fizemos!!Ele procurou emprego durante dias, mas ninguém o aceitava, até que um dia ficamos sem comida e sem água. Agora sim, não havia mais jeito. Estava caminhando, indo a cozinha, quando ouvi alguém chorando, fui de fininho e pude ver papai e mamãe sentados na mesa da cozinha, papai chorava muito, juntamente com mamãe:
-Roberto!Como pôde?-perguntou mamãe em tom de desespero.
-Sinto muito Glória, mas não vi outra opção.
Ela abraçou Roberto e escondeu o rosto em seu peito enquanto dizia soluçando muito:
-Naaãoooo, meu bebê não, por favor, Roberto, ele não!!
-Eu, sinto muito, mas foi o único jeito!
-Mas, Roberto, por apenas três sacos de arroz! Meu Deus, não vale a pena!Ele vale muito mais que isso!
-Glória!No momento temos que ser fortes!Pense em Jacó!Apenas hoje, ele já desmaiou três vezes de fome!!Se não tomarmos uma providencia, ele pode acabar morrendo!
-Não fale isso!-ela disse em tom de suplica.
-Mas é a verdade!-ele disse alterado dando um soco na mesa, assustando mamãe.
Ela tremendo e soluçando muito perguntou com dificuldade:
-Qua....Quando ele vai vir busca-lo?
-Amanhã.
-O que?Mas já!Eu ainda preciso preparar a mala dele e você por acaso já falou com ele?Ele concordou com essa barbaridade?!!
Ele suspirou:
-Não, ainda não falei com ele.
-Mas, e se ele não quiser ir e....
-Ele não tem querer Glória!Ele vai e pronto!Por favor!Não dificulte as coisas!
-Mas, o Duo.....
-O Duo vai entender, não se preocupe.
Quando ouvi meu nome, me aproximei mais da porta, mas quando eles se levantaram, vi que a conversava havia acabado, antes que eles me vissem, sai correndo para meu quarto, entrei e fechei a porta atrás de mim.
Fui até o beliche e me deitei na cama de baixo, ficando a pensar no que ouvi na cozinha, então ouvi passos e pensei ser papai, que vinha me contar o que estava havendo, mas soltei um gemido de desgosto quando vi que era Nick.
Ele me olhou com um olhar de superioridade e disse franzindo as sobrancelhas:
-O que é que um rato como você faz em minha cama?
Suspirei exasperado:
-Agora não Nick.
Ele se aproximou de mim e me segurou pela gola da camisa que usava, levantando-me da cama e me jogou no chão, revoltado me levantei e me preparei para socá-lo, mas não fui rápido suficiente e ele segurando meu punho, me deu um soco no queixo, bati na parede e senti meu queixo estralar, por um minuto achei que o havia quebrado, mas não tive tempo de verificar, pois Nick se aproximou de mim e agarrou meu pescoço, apertando-o, foi nesse momento que papai, entrou no quarto correndo e perguntou em um tom de repreensão:
-Mas, o que é que vocês estão fazendo?
No mesmo instante Nick me soltou e olhando para papai disse:
-Só estávamos......brincando.
-Hum sei, brincando, Nick saia preciso falar com Duo. E me espere na cozinha preciso conversar seriamente com você depois.
Nick saiu, mas não sem antes me lançar um olhar de pura raiva, papai fechou a porta e se aproximou de mim, segurou em minha mão e me conduziu a cama, nos sentamos um do lado do outro e ele abriu a boca para falar algo,mas a fechou, acho que não sabendo como começar a conversa.
-Você.... Quer me falar algo papai?
Ele abaixou a cabeça triste, parecia envergonhado:
-Duo, meu filho, por favor, eu.... Espero que compreenda, pois essa foi à única solução que achei e.....
-Papai, por favor, seja direto, esta me deixando nervoso.
Ele suspirou e tomando coragem disse:
-Eu o vendi por três sacos de arroz. -ele disse de uma vez.
Larguei sua mão rápido, como se tivesse levado um choque,me levantei da cama e gritei:
-O que!?!
-Sim, eu o vendi para um mercado de escravos e.....
-Mercado de escravos!O que... Mas papai..... O que foi que eu fiz, não fiz nada a você....e....-fiquei sem palavras, e comecei a chorar e soluçar, entrei em pânico,como meu próprio pai pôde me vender?Um escravo? Não!Prefiro a morte!
-Filho escute-ele se levantou e me abraçou, tentando me acalmar-É para o seu próprio bem,e alem disso pense no seu irmão Jacó, ele não vai agüentar ficar sem comida!Pode acabar morrendo!
Num acesso de fúria o empurrei bruscamente e disse sem pensar:
-NÓS ESTAMOS FALANDO DE MIM!NÃO DO JACÓ!ELE QUE SE DANE!QUE MORRA!
Um barulho alto soou no quarto e fui ao chão, em estado de choque, pus a mão em minha bochecha agora avermelhada com a marca da mão de meu pai, olhei para ele, ele me olhava com um olhar de decepção.
-Nunca.... Nunca mais diga uma barbaridade dessas!Seu egoísta!Só pensa em si mesmo Duo!Achei que fosse diferente, mas estou vendo que me enganei, arrume suas malas, você parte amanha pela tarde, e você não tem querer, vai e ponto final. -ele disse saindo do quarto.
Fiquei ainda caído no meio do quarto, pensando.
Meu Deus!Como isso pode estar acontecendo comigo?Há um tempo atrás eu estava de bem, com minha família, meus amigos, nós nunca fomos ricos, mas também nunca fomos tão pobres, o que mudou?Por que isso esta acontecendo conosco?Por que agora não temos nem dinheiro pra comida?Por que eu desejei que Jacó morresse!?Eu não acredito que disse isso, meu irmãozinho, mas é que eu fiquei tão desesperado que....
-Eu sou um burro mesmo - disse em voz alta para mim mesmo.
Levantei-me e fui até a janela, a abri e pulei por ela, saindo no quintal, e corri, corri sem rumo, e agora?O que será da minha vida?Longe da minha família, tendo que obedecer a ordens de um completo estranho.
Passei um tempo correndo, até que cansei e fui até um banco, eu havia parado em uma praça, que ficava um pouco longe de casa, já era noite, deveria ser umas 23h00min, eu sei que essa praça é perigosa de noite, mas não me importo com mais nada mesmo, me sentei e fiquei a olhar para as arvores, o farfalhar das folhas, o som dos morcegos voando de um lado para o outro, levantei a cabeça e fiquei a admirar a Lua cheia, até que senti algo pesar em meu pescoço, olhei para baixo e vi que era meu colar de cruz, minha mãe me deu quando eu nasci, eu nunca o tiro, nem mesmo para dormir.
Peguei a cruz em minha mão e pensei, sempre acreditei em Deus, sempre orei, sempre tentei praticar o bem, e como esse "Deus" me retribui? Deixando meu pai desempregado, meu irmão doente e eu, um escravo....
Arranquei o colar de meu pescoço e o joguei na grama com raiva, que se dane!Que se dane tudo e todos!
Voltei a chorar, ouvi passos atrás de mim, mas não me virei, já sabia quem era, ele parou a minha frente e pegou a cruz do chão, a limpou, pois estava um pouco suja de terra, pegou minhas mãos e a depositou cuidadosamente nelas.
-Sabia que é perigoso andar por aqui sozinho a essa hora da noite Duo?
-Papai o mandou é?
Nick me olhou contrariado, ele se sentou no banco soltando um suspiro de cansaço:
-Não, ele não sabe que você fugiu, eu estava no telhado olhando as estrelas, quando ouvi você começar a gritar que nem um lunático,depois o silencio, e depois vi você saindo correndo e aqui estou eu!
Então ele....
-Você já sabia?
Ele olhou para a Lua e respondeu:
-Sim....Papai me contou antes de ir falar com você.
Dei um sorrido sarcástico e disse:
-Deve estar muito feliz não é?O quarto agora vai ser só seu e quem sabe com sorte eu acabe morrendo?
Ele me olhou incrédulo:
-Duo!Como pode falar uma coisa dessas?!-ele me olhou com ternura – Olha, eu sei que nosso relacionamento não é muito bom, nós sempre brigamos, mas, qualé ,você é meu irmão e bem lá no fundo do meu coração eu te amo,e me preocupo com você.
Fiquei a encará-lo incrédulo, nunca, nunca achei que fosse ouvir algo assim de Nick, meus olhos se encheram de lagrimas e me atirei nos braços dele:
-Nick!Não quero ir!Por favor, convença o papai a não me vender!Eu arrumo emprego!Eu juro!
-Duo. Duo. -ele me chamou, pegou meu rosto entre suas mãos e me olhou com carinho-Duo, se nem papai conseguiu emprego, como é que você vai conseguir?Por favor, Duo!Pense em Jacó. E alem disso, e se você pegar um dono que seja carinhoso com você?Já pensou nisso?Talvez papai tenha razão, talvez seja melhor para você.
Ele estava terrivelmente certo, talvez esteja na hora de pensar mais nos outros, em vez de em mim mesmo.
Balancei a cabeça concordando, sorri para ele e fui retribuído.
Chegamos em casa abraçados,quando abri a porta mamãe veio correndo até nós e nos abraçou quase nos sufocando:
-Fiquei tão preocupada!Meus bebês, achei que tivessem fugido, que nunca mais voltariam!Meu Deus, eu nunca me perdoaria.
-Onde estavam?-perguntou papai preocupado.
-Saímos um pouco para conversar-disse Nick.
-Ótimo-papai se virou para mim e continuou-Duo, sobre essa historia de escravo, estive pensando, e acho melhor, você não ir, eu acho que.....
-Não papai - olhei para Nick, que me sorriu-Acho melhor eu ir, pode ser melhor para mim e tenho que pensar no Jacó, ele esta muito fraco, faz dois dias que não come, acho que esta na hora de pensar mais nos outros do que no meu próprio umbigo.
Papai e mamãe me olharam surpresos, se olharam e sorriram para logo depois me abraçarem, passamos a noite juntos, todos nós, eu, mamãe, papai, Nick e Jacó, choramos, rimos e choramos novamente.
Quando amanheceu, acordei e fui até a cozinha, quando entrei minha mala já estava na mesa e papai e mamãe choravam novamente, ficamos algum tempo juntos até ouvir barulhos de rodas e o relinchar de um cavalo, fui até a janela e pude ver uma carruagem, um homem barbudo e gordo desceu dela e bateu na porta, mamãe abriu e o cumprimentou, ele entrou e me olhou, se aproximou de mim e disse:
-É esse?
-Sim - respondeu papai nervoso.
Ele me encarou, abriu minha boca e olhou meus dentes, como se fosse um cavalo,pegou meus braços e os apertou, tocou em minha cintura e em minhas nádegas, senti nojo daquele velho tocando em meu corpo, olhei por cima do ombro do velho e vi que papai estava se controlando para não pular em cima dele.
Quando terminou, apertou minhas nádegas tão forte que soltei um gemido de dor, ele me olhou com um olhar malicioso e disse:
-Ele serve.
Olhou para meus pais e continuou:
-Venham sigam-me, os sacos estão na carruagem.
Saímos da casa, ele abriu a porta da carruagem e de lá tirou três sacos enormes e os depositou no chão:
-Como o prometido.
Papai examinou os sacos e disse com um olhar contente:
-Certo.
O homem olhou para mim, tirou duas algemas de dentro do casaco e algemou meus pés e minhas mãos, vi que mamãe ia protestar, mas olhei para ela e disse:
-Esta tudo bem mamãe.
Ela se encolheu nos braços de papai e afundou o rosto no peito dele, o homem impaciente me agarrou pela trança e me jogou na carruagem, fechou a porta e começou a conduzir os cavalos, olhei pela janela de trás da carruagem e pude ver meus pais abanando para mim e vi Nick com Jacó no colo sair correndo de casa, olhando para a carruagem triste, acho que ficou triste, pois não consegui chegar a tempo para se despedir, vi Jacó pular do colo dele e começar a correr atrás da carruagem e o ouvi gritar por meu nome:
-Duo!!Duo!!!Volta!!!-até que ele tropeçou e acabou caindo.
Ele se levantou e vi que não desistiria, mas Nick correu até ele e o pegou no colo, enquanto gritava meu nome e esperneava:
-Duo!Duo!Duo!

FIM DO FLASBACK

-Duo!
Acordei de meus pensamentos por uma voz irritada me chamando, olhei para trás e vi que era Heero, ele me olhava..... Preocupado?
-O que foi que houve?Achei que estivesse morto!
Fiquei a encará-lo, ainda meio perdido, mas depois disse:
-Estava pensando.
Ele me encarou por alguns minutos depois disse:
-Mandei as criadas cuidarem de você, elas lhe darão banho e cuidarão dos machucados, se não ficar quieto, eu o amarrarei,entendeu?-disse num tom ameaçador.
-Sim.
Ele saiu do quarto e logo três mulheres entraram, com roupas e um kit de primeiros socorros.
Elas passaram a me despir, tomei banho com a ajuda delas e logo depois elas começaram a limpar e enfaixar meus ferimentos, deixei sem reclamar, estava sem forças mesmo e me lembrar de minha família, me deixou mais triste ainda, parece que afinal papai e Nick não tinham razão, parece que eu viveria um inferno, eu que tinha razão desde o começo, Deus me abandonou certamente.

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E continua....... ^_^